segunda-feira, 9 de julho de 2012

"Il n'a pas à se plaindre celui qui attend un sentiment plus ardent et plus généreux.
Il n'a pas à se plaindre celui qui attend le désir d'un peu plus de bonheur, d'un peu plus de beauté, d'un peu plus de justice."

Maurice Maeterlinck, La sagesse et la destinée.

domingo, 8 de julho de 2012

o vento de passagem nos cabelos




o vento invade os cabelos longos das mulheres
e coloca riscos finos na frente dos olhos
levanta as mãos e faz descer as pálpebras
para que subam de novo na maior abertura do rosto;
o oval luminoso e não a silhueta incompleta.
todas as sombras  se desiludem
iluminas-te –

fico por um minuto com a alma presa
na imagem precisa, na clarividência, na lisura
do teu movimento –

o vento é passageiro de um vento nómada
de um vento imenso que nos leva sempre
ao lugar do intangível nas noites viajantes
junto das areias
junto das luas, junto das águas mais profundas
até ao sonho emaranhado de um caminho
o interior da concha, o lugar lúcido –

josé ferreira 8 julho 2012

sábado, 7 de julho de 2012

nirvana




abro-me  como as corolas
com o perfume imediato das manhãs
sempre na direcção da luz.
surge primeiro o sol com um pensamento nas mãos
nas palmas abertas, nos dedos despertos
nos olhos lampião na cor do ébano.
as estrelas cintilantes dão lugar ao esquecimento da noite
recuperam a memória do sonho, a sua lucidez
e anoto a existência de cristais transparentes em julho
orvalhos decrescentes até à absorção das gotas
até á limpidez das folhas, até ao imenso poder do silêncio
que se instala  neste acordar na natureza, no profundo campo
e separa o espaço,  desde a superfície da terra, pelos troncos enrugados
até ao  verde das árvores –

essa é também  a condição humana
nascer, crescer, permanecer, e mudar de roupa conforme as rotações
as estações, escutar a voz dos pássaros e a paz sem som
renascer, traçar linhas e rumos em direcção ao azul
a direito ou obliquamente, a noventa graus, caminhando nos dois sentidos
a norte e a sul, a este e a oeste, na clareza do ar e no manto das raízes –

somos tão complexos como a primeira célula, como a nebulosa
como a atmosfera que esconde moléculas, somos e não somos
como a inversão da direcção dos ventos, como um desenho semipintado
um ser e ainda não ser, em movimento, na dinâmica dos tecidos, orgânicos
de alimentos e sinergias, faíscas
um ser em construção, de incompletudes, em formação, de amálgama
no almofariz da química humana, nós e os outros –

mas somos nós, somos únicos
tu,  com os teus olhos âncora, com o cimo das estrelas e os dedos
as polpas de seda, a deslizarem como  barcos na imensidão das costas
 rodeando os obstáculos, das vértebras até ao cerebelo
como se fossem rochas salientes entre as margens de um rio –

eu,  como uma criança, pedindo-te  que sejas a mulher, a essência
que ponhas a mão na minha cabeça
e entregando-te  a concha do corpo, o lume descomposto do rosto
num sorriso luminoso, explosivo, deixando fluir a cor dos afectos
em cada gesto
enquanto te seguro o rosto, enquanto me apoio no teu ombro
e enquanto nos tornamos lisos, esmagando toda a densidade do ar
todas as montanhas, sem precipícios, unidos, como um nirvana -

josé ferreira 7 julho 2012



Leda e o Cisne

Súbito golpe: as grandes asas a bater
Sobre a virgem que oscila, a coxa acariciada
Por negros pés, a nuca, um bico a vem reter;
O peito inane sobre o peito, ei-la apresada.

Dedos incertos de terror, como empurrar
Das coxas bambas o emplumado resplendor?
Pode o corpo, sob esse impulso de brancor,
O coração estranho não sentir pulsar?

Um tremor nos quadris engendra incontinenti
A muralha destruída, o teto, a torre a arder
E Agamêmnon, o morto.

Capturada assim,
E pelo bruto sangue do ar sujeita, enfim
Ela assumiu-lhe a ciência junto com o poder,
Antes que a abandonasse o bico indiferente?
 
William Butler Yeats

(trad. de Paulo Vizioli)
 

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Quando se Vive a Substância Intacta -um poema de António Ramos Rosa


                                Almada NegreirosVive-se quando se vive a substância intacta 
em estar a ser sua ardente   harmonia 
que se expande em clara atmosfera 
leve e sem delírio ou talvez delirando 
no vértice da frescura onde a imagem treme 
um pouco na visão intensa e fluida 
E tudo o que se vê é a ondeação 
da transparência até aos confins do planeta 
E há um momento em que o pensamento repousa 
numa sílaba de ouro É a hora leve 
do verão a sua correnteza 
azul Há um paladar nas veias 
e uma lisura de estar nas espáduas do dia 
Que respiração tão alta da brisa fluvial! 
Afluem energias de uma violência suave 
Minúcias musicais sobre um fundo de brancura 
A certeza de estar na fluidez animal 

António Ramos Rosa, in"Poemas Inéditos"lido aqu
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quarta-feira, 4 de julho de 2012

Se tanto me dói que as coisas passem - um poema de Sophia


                            Wily Roni

Se tanto me dói que as coisas passem É porque cada instante em mim foi vivo Na busca de um bem definitivo Em que as coisas de Amor se eternizassem Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 3 de julho de 2012

escrevo-te



escrevo-te de novo com a ponta dos dedos
como se fosse uma dança, como se fosse um sussurro
um segredo urgente, uma música  distendida e exclusiva
 jazz ou blues de um filme antigo, uma fotografia.
 as fotografias reflectem uma história
um pormenor, a iluminação do alfinete;
lembro-me –

lembro-me do teu laço com um nó azul
um chapéu largo de sombra por cima de uma trança
um bikini de malha que não se usa mais
as sabrinas no saco das riscas
os pés cobertos de algas nas espumas brancas
as marcas das gaivotas a tornarem-se humanas
as asas dos barcos a acenarem distantes
e a  mostrarem horizontes. horizontes.
lembro-me –

lembro-me da tua primeira decisão
uma mão de cada lado de uma barba adolescente
uma coragem de olhos com a boca em frente
o primeiro incêndio, sem fogo, e como arde –

Uma vez…
era Setembro e partiam os carros dos bois com cestos entrançados
cachos de uvas mouriscas, moscatel, e simples, de bagos pequenos.
corremos como se fossemos crianças,  com sandálias tortas e jogos na cabeça
partimos muito depressa, o vestido voava, os calções eram rápidos.
naquela época os torrões da terra eram secos, vários tamanhos
uma capa branca e depois castanhos. corremos muito
corremos como se fossemos crianças.
lembro-me.
era Setembro.
seguraste-me a cabeça
as mãos como setas misturaram cabelos
e depois corremos. corremos muito, como se fossemos crianças
e demorámos cinco minutos
entre a rocha das merendas e o muro das pedras soltas.
era Setembro. lembro-me –

de uma vez…
era junho. a cidade era muito antiga. corria a temperatura do solstício
a queimadura do Verão. saboreámos os gelados de limão.
havia uma fonte de desejo em cada esquina. não se chamava Trevi.
muita gente. era junho.
lembro-me.
lembro-me de um cinema, uma camisa branca, a superfície de renda.  
a minha mão era pequena . passou por cima do ombro
desceu como uma cortina, lenta, a esconder uma janela
 como se fosse um barco, movendo-se na direcção do vento.
a minha mão era pequena
com o interior redondo, em concha, no hemisfério sul do tempo
e o coração batia muito de repente.
os olhos olhavam em frente. lembro-me. no cinema.
a mão era pequena, a renda. lembro-me.

escrevo-te com os olhos muito acesos.  com a ponta dos dedos
como se fosse uma dança, um sussurro, um segredo urgente
como se não nos doesse nunca a alma, como se não nos doesse nunca o corpo
e com o sangue a bater, a bater muito, como um mercúrio quente
a bater muito e em todas as paredes –

josé ferreira 2 Julho 2012


segunda-feira, 2 de julho de 2012

low cost



Deve ser verdade que a natureza enche, o vácuo, o zero, o nada, o vazio?!


É que às vezes pensa
Como também precisaria de adormecer

No final desse dia lembrou ter ele dito
Vou por uns dias
Imaginou que no caminho da ponte iria
Ver aquela pouca neve na serra
As poucas nuvens
E também as cores de fim de tarde
(só que ele foi por outro caminho)

Gostaria tanto de descrever por palavras
Ou de outra maneira que fosse
O que via 


Anabela Couto Brasinha
(2011)

sábado, 30 de junho de 2012

amanhã seria notícia


                                               

tenho os olhos ardentes de uma noite curta
não recordo os sonhos e sigo o caminho do mar , das ondas
dos seus frios fundamentais na manhã que desperta.
há um linho na espuma e uma renda que cobre a areia.
vai e volta.
na manhã luminosa há olhos que não existem
e gaivotas que piam com bicos amarelos.
haverá um cais
no interstício da rocha,  na capa escorregadia  de uma lapa
na tessitura verde da pedra, luzidia e lisa esculpida pelas gotas soltas,  pelas mãos do mar –

observo  o meu infinito. o infinito de uma transição. o infinito de nós.
o infinito tem a permanência em cada veia levantada que atravessa o sal,
que atravessa a pedra da calçada, que atravessa o estrado de madeira de uma esplanada
- aquela que grita ao som dos passos e que chia sistematicamente num parafuso gasto –

lembro-me dos gatos.
os meus gatos, sim, os meus gatos, aqueles que me encostam os pêlos brancos, amarelos,
pretos e cinzentos, sem saberem que há contrariedades,
nebulosas para lá da lua que rodou para outro lado, para lá da manhã silenciosa –

os meus gatos aguardam e aguardam sempre que chegue a casa
para que lhes empreste as palmas, para que lhes mostre as pontas das pernas
para que lhes abra o colo
para que elevem o dorso, estiquem a cabeça ou enrolem o corpo
fazendo-se muito pequenos, um novelo que arfa, ritmado –

na praia, o azul é tímido no  último dia de junho, tem a cor de uma aguarela
 improvável para quem carrega sonhos e castelos na areia,
para quem brilha nos espelhos e se constrói de si mesmo
e de muita gente, a do passado, a do agora, a do futuro, e a da cor das vagas
que chegam e partem, entrando de novo naquele mundo
um mar mais calmo, como hoje –

quando muitos chegam à praia, há camisolas e caras tortas
um desespero de ausência de raios nos guarda-sóis
uma orfandade de um momento prescrito, sem remédio
para uma doença de rotinas. falha a luz e a temperatura adequada
para cremes e soluções protectoras, bíceps firmes, cintas curtas
umbigos planos, lábios iluminados, e sentam-se a meu lado
de revistas e jornais, na escuridão das lentes, com a meia-de-leite, o pão torrado –

devo ser uma ave. uma ave com mãos e palavras. queria ser uma ave.
queria fechar –me um instante. fechar-me num som tibetano, muito calmo.
queria ter penas e asas, ser leve, leve, muito leve

e voar –

na mesa, a caneta soltaria a tinta numa mancha preta
a estender-se como uma maré que cresce, assim de repente
envolvendo o infinito, a transição e as letras.

quando chegasse ao cais de uma rocha, ali à frente,
na forma de um pescoço branco que oscila
observaria a sombra, a sombra de um homem
a sombra do homem num espaço vazio
recortado, de uma tela de cinema, de uma realidade
construída,
e observaria o espanto dos turistas, a sua boca aberta, a sua convivência com o ridículo
e o anotável de uma improbabilidade sem sentido. quem explica?

e amanhã seria notícia -

josé ferreira 30 de Junho de 2012




quarta-feira, 27 de junho de 2012

Cantar de amigo - um poema de José Almeida Silva




Cantar de Amigo

Não mais, meu amigo,
O passado ido –

O caminho feito
Revelou a luz

E trouxe o presente
Voltado ao futuro.

Sei que não rasuro
O medo e a miséria,

Nem a ignorância
Nem a opressão

Que foi o passado
De dor e sem pão.

Não mais, meu amigo,
O passado ido –

Sei que estou atento
Ao frágil momento –

Velados desejos
De um tempo perverso,

Vestido de outrora
E bandeira preta.

Mas se for preciso
Há luta na hora

Que os dias são outros
E a consciência acesa –

O cansaço é muito,
Muito o desencanto

Mas há muita força
Para defender

O grande poder
Que é a liberdade –

Não mais, meu amigo.
Vem cantar comigo –

                     2012.06.11
    José Almeida da Silva

Do que Nada se Sabe

 






A lua ignora que é tranquila e clara
E não pode sequer saber que é lua;
A areia, que é a areia. Não há uma
Coisa que saiba que sua forma é rara.
As peças de marfim são tão alheias
Ao abstracto xadrez como essa mão
Que as rege. Talvez o destino humano,
Breve alegria e longas odisseias,
Seja instrumento de Outro. Ignoramos;
Dar-lhe o nome de Deus não nos conforta.
Em vão também o medo, a angústia, a absorta
E truncada oração que iniciamos.
Que arco terá então lançado a seta
Que eu sou? Que cume pode ser a meta?

Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"

terça-feira, 26 de junho de 2012

Com os olhos em fuga, na superfície do mar


                                        Giorgio di Chirico, ca. 1930

As franjas de superfícies chegam à praia, ondas e som.
A reverberação do sal e do plâncton na ligação seguinte, chegam e partem.
As íris são duas ilhas unidas pela montanha do nariz
e um horizonte que se estende até ao infinito.
O infinito tem a distância do sol –

As íris, as duas, as minhas, estão sós como uma fotografia
e paradas como uma biblioteca, com os pés descalços
e os dedos muito encolhidos, como se recolhessem a força de uma alga
ou o beijo de um peixe, quando a onda passa.
 O sol intenso  de Junho queima como Krípton e há temperatura a toda a volta
como se o ar fosse todo igual, muito morno, um ar irmão de muito ar
um oxigénio profundo, como as tuas palavras –

Uma alquimia que transmuda as intensidades, fogo, minérios e água
até à reinvenção da forma, uma estátua invisível do mundo –

Tenho um cristal, branco, verde, azul a cintar-me a mente
a receber as mãos,  as espalmadas de linhas
as veias que se estendem  como rios inflamados
acima das espumas, sem sair o sangue –

Sinto um sangue fechado
um sangue de artérias em cima dos pulsos, pulsando
nas artérias que vêm de todos os lados do corpo, unindo como um silogismo.
Este sangue não tem nada de dor é um sangue de cor
que invade que afluiu na face, como se existisse uma grande mesa
e dois copos de vinho mosto, um copo em cada uma das extremidades
doce, muito doce, como um sonho, um sorriso  e uma eternidade –

 josé ferreira

segunda-feira, 25 de junho de 2012

procura a metamorfose



                                               Maurice Denis


nas tardes infinitas
há árvores enormes de folhas amarelas
e um livro aberto.
 o livro pode ser de mil e uma folhas e muitas palavras
ou de grandes páginas com poucas letras.
não é o tamanho nem a quantidade que importa –

as árvores enormes de folhas amarelas
podem ter sido  inventadas.
e podes estar sentado numa mesa, num jardim ou dentro de uma casa.
se tiveres um livro aberto podes ter viajado pela Patagónia ou pela Sibéria
e podem crescer raízes na terra, assim rapidamente, num instante
com árvores enormes de folhas amarelas.
podes ser surpreendido pela metamorfose do chão –

e pode haver mais do que silêncio por debaixo das copas inventadas
como por exemplo, os pássaros ou mulheres gregas e romanas
em túnicas longas e largas -

nas tardes infinitas depois da metamorfose pode soprar a brisa
pode girar o novo mundo solar à tua volta 
antes do crepúsculo
um mundo sofisticado ou campesino
e músicas, sim, músicas, de harpa ou de flautas.
acredita na possibilidade –

as metamorfoses não surgem do acaso nas tardes infinitas
tens que as procurar.
procura sem descanso como se fossem pérolas
ou  tesouros de grutas milenares.
há uma filosofia na Grécia
que fala de pergaminhos sábios, de um oásis, de um segredo bem guardado:
o inatingível, o inalcançável e o maior de todos os bens, a felicidade -

talvez seja possível pelo sonho ou pela proximidade –

procura de todas as maneiras, não te esqueças.
abre portas e janelas.
procura sempre. 
pela genética e pelos poemas

josé ferreira