quarta-feira, 4 de julho de 2012

Se tanto me dói que as coisas passem - um poema de Sophia


                            Wily Roni

Se tanto me dói que as coisas passem É porque cada instante em mim foi vivo Na busca de um bem definitivo Em que as coisas de Amor se eternizassem Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 3 de julho de 2012

escrevo-te



escrevo-te de novo com a ponta dos dedos
como se fosse uma dança, como se fosse um sussurro
um segredo urgente, uma música  distendida e exclusiva
 jazz ou blues de um filme antigo, uma fotografia.
 as fotografias reflectem uma história
um pormenor, a iluminação do alfinete;
lembro-me –

lembro-me do teu laço com um nó azul
um chapéu largo de sombra por cima de uma trança
um bikini de malha que não se usa mais
as sabrinas no saco das riscas
os pés cobertos de algas nas espumas brancas
as marcas das gaivotas a tornarem-se humanas
as asas dos barcos a acenarem distantes
e a  mostrarem horizontes. horizontes.
lembro-me –

lembro-me da tua primeira decisão
uma mão de cada lado de uma barba adolescente
uma coragem de olhos com a boca em frente
o primeiro incêndio, sem fogo, e como arde –

Uma vez…
era Setembro e partiam os carros dos bois com cestos entrançados
cachos de uvas mouriscas, moscatel, e simples, de bagos pequenos.
corremos como se fossemos crianças,  com sandálias tortas e jogos na cabeça
partimos muito depressa, o vestido voava, os calções eram rápidos.
naquela época os torrões da terra eram secos, vários tamanhos
uma capa branca e depois castanhos. corremos muito
corremos como se fossemos crianças.
lembro-me.
era Setembro.
seguraste-me a cabeça
as mãos como setas misturaram cabelos
e depois corremos. corremos muito, como se fossemos crianças
e demorámos cinco minutos
entre a rocha das merendas e o muro das pedras soltas.
era Setembro. lembro-me –

de uma vez…
era junho. a cidade era muito antiga. corria a temperatura do solstício
a queimadura do Verão. saboreámos os gelados de limão.
havia uma fonte de desejo em cada esquina. não se chamava Trevi.
muita gente. era junho.
lembro-me.
lembro-me de um cinema, uma camisa branca, a superfície de renda.  
a minha mão era pequena . passou por cima do ombro
desceu como uma cortina, lenta, a esconder uma janela
 como se fosse um barco, movendo-se na direcção do vento.
a minha mão era pequena
com o interior redondo, em concha, no hemisfério sul do tempo
e o coração batia muito de repente.
os olhos olhavam em frente. lembro-me. no cinema.
a mão era pequena, a renda. lembro-me.

escrevo-te com os olhos muito acesos.  com a ponta dos dedos
como se fosse uma dança, um sussurro, um segredo urgente
como se não nos doesse nunca a alma, como se não nos doesse nunca o corpo
e com o sangue a bater, a bater muito, como um mercúrio quente
a bater muito e em todas as paredes –

josé ferreira 2 Julho 2012


segunda-feira, 2 de julho de 2012

low cost



Deve ser verdade que a natureza enche, o vácuo, o zero, o nada, o vazio?!


É que às vezes pensa
Como também precisaria de adormecer

No final desse dia lembrou ter ele dito
Vou por uns dias
Imaginou que no caminho da ponte iria
Ver aquela pouca neve na serra
As poucas nuvens
E também as cores de fim de tarde
(só que ele foi por outro caminho)

Gostaria tanto de descrever por palavras
Ou de outra maneira que fosse
O que via 


Anabela Couto Brasinha
(2011)

sábado, 30 de junho de 2012

amanhã seria notícia


                                               

tenho os olhos ardentes de uma noite curta
não recordo os sonhos e sigo o caminho do mar , das ondas
dos seus frios fundamentais na manhã que desperta.
há um linho na espuma e uma renda que cobre a areia.
vai e volta.
na manhã luminosa há olhos que não existem
e gaivotas que piam com bicos amarelos.
haverá um cais
no interstício da rocha,  na capa escorregadia  de uma lapa
na tessitura verde da pedra, luzidia e lisa esculpida pelas gotas soltas,  pelas mãos do mar –

observo  o meu infinito. o infinito de uma transição. o infinito de nós.
o infinito tem a permanência em cada veia levantada que atravessa o sal,
que atravessa a pedra da calçada, que atravessa o estrado de madeira de uma esplanada
- aquela que grita ao som dos passos e que chia sistematicamente num parafuso gasto –

lembro-me dos gatos.
os meus gatos, sim, os meus gatos, aqueles que me encostam os pêlos brancos, amarelos,
pretos e cinzentos, sem saberem que há contrariedades,
nebulosas para lá da lua que rodou para outro lado, para lá da manhã silenciosa –

os meus gatos aguardam e aguardam sempre que chegue a casa
para que lhes empreste as palmas, para que lhes mostre as pontas das pernas
para que lhes abra o colo
para que elevem o dorso, estiquem a cabeça ou enrolem o corpo
fazendo-se muito pequenos, um novelo que arfa, ritmado –

na praia, o azul é tímido no  último dia de junho, tem a cor de uma aguarela
 improvável para quem carrega sonhos e castelos na areia,
para quem brilha nos espelhos e se constrói de si mesmo
e de muita gente, a do passado, a do agora, a do futuro, e a da cor das vagas
que chegam e partem, entrando de novo naquele mundo
um mar mais calmo, como hoje –

quando muitos chegam à praia, há camisolas e caras tortas
um desespero de ausência de raios nos guarda-sóis
uma orfandade de um momento prescrito, sem remédio
para uma doença de rotinas. falha a luz e a temperatura adequada
para cremes e soluções protectoras, bíceps firmes, cintas curtas
umbigos planos, lábios iluminados, e sentam-se a meu lado
de revistas e jornais, na escuridão das lentes, com a meia-de-leite, o pão torrado –

devo ser uma ave. uma ave com mãos e palavras. queria ser uma ave.
queria fechar –me um instante. fechar-me num som tibetano, muito calmo.
queria ter penas e asas, ser leve, leve, muito leve

e voar –

na mesa, a caneta soltaria a tinta numa mancha preta
a estender-se como uma maré que cresce, assim de repente
envolvendo o infinito, a transição e as letras.

quando chegasse ao cais de uma rocha, ali à frente,
na forma de um pescoço branco que oscila
observaria a sombra, a sombra de um homem
a sombra do homem num espaço vazio
recortado, de uma tela de cinema, de uma realidade
construída,
e observaria o espanto dos turistas, a sua boca aberta, a sua convivência com o ridículo
e o anotável de uma improbabilidade sem sentido. quem explica?

e amanhã seria notícia -

josé ferreira 30 de Junho de 2012




quarta-feira, 27 de junho de 2012

Cantar de amigo - um poema de José Almeida Silva




Cantar de Amigo

Não mais, meu amigo,
O passado ido –

O caminho feito
Revelou a luz

E trouxe o presente
Voltado ao futuro.

Sei que não rasuro
O medo e a miséria,

Nem a ignorância
Nem a opressão

Que foi o passado
De dor e sem pão.

Não mais, meu amigo,
O passado ido –

Sei que estou atento
Ao frágil momento –

Velados desejos
De um tempo perverso,

Vestido de outrora
E bandeira preta.

Mas se for preciso
Há luta na hora

Que os dias são outros
E a consciência acesa –

O cansaço é muito,
Muito o desencanto

Mas há muita força
Para defender

O grande poder
Que é a liberdade –

Não mais, meu amigo.
Vem cantar comigo –

                     2012.06.11
    José Almeida da Silva

Do que Nada se Sabe

 






A lua ignora que é tranquila e clara
E não pode sequer saber que é lua;
A areia, que é a areia. Não há uma
Coisa que saiba que sua forma é rara.
As peças de marfim são tão alheias
Ao abstracto xadrez como essa mão
Que as rege. Talvez o destino humano,
Breve alegria e longas odisseias,
Seja instrumento de Outro. Ignoramos;
Dar-lhe o nome de Deus não nos conforta.
Em vão também o medo, a angústia, a absorta
E truncada oração que iniciamos.
Que arco terá então lançado a seta
Que eu sou? Que cume pode ser a meta?

Jorge Luis Borges, in "A Rosa Profunda"

terça-feira, 26 de junho de 2012

Com os olhos em fuga, na superfície do mar


                                        Giorgio di Chirico, ca. 1930

As franjas de superfícies chegam à praia, ondas e som.
A reverberação do sal e do plâncton na ligação seguinte, chegam e partem.
As íris são duas ilhas unidas pela montanha do nariz
e um horizonte que se estende até ao infinito.
O infinito tem a distância do sol –

As íris, as duas, as minhas, estão sós como uma fotografia
e paradas como uma biblioteca, com os pés descalços
e os dedos muito encolhidos, como se recolhessem a força de uma alga
ou o beijo de um peixe, quando a onda passa.
 O sol intenso  de Junho queima como Krípton e há temperatura a toda a volta
como se o ar fosse todo igual, muito morno, um ar irmão de muito ar
um oxigénio profundo, como as tuas palavras –

Uma alquimia que transmuda as intensidades, fogo, minérios e água
até à reinvenção da forma, uma estátua invisível do mundo –

Tenho um cristal, branco, verde, azul a cintar-me a mente
a receber as mãos,  as espalmadas de linhas
as veias que se estendem  como rios inflamados
acima das espumas, sem sair o sangue –

Sinto um sangue fechado
um sangue de artérias em cima dos pulsos, pulsando
nas artérias que vêm de todos os lados do corpo, unindo como um silogismo.
Este sangue não tem nada de dor é um sangue de cor
que invade que afluiu na face, como se existisse uma grande mesa
e dois copos de vinho mosto, um copo em cada uma das extremidades
doce, muito doce, como um sonho, um sorriso  e uma eternidade –

 josé ferreira

segunda-feira, 25 de junho de 2012

procura a metamorfose



                                               Maurice Denis


nas tardes infinitas
há árvores enormes de folhas amarelas
e um livro aberto.
 o livro pode ser de mil e uma folhas e muitas palavras
ou de grandes páginas com poucas letras.
não é o tamanho nem a quantidade que importa –

as árvores enormes de folhas amarelas
podem ter sido  inventadas.
e podes estar sentado numa mesa, num jardim ou dentro de uma casa.
se tiveres um livro aberto podes ter viajado pela Patagónia ou pela Sibéria
e podem crescer raízes na terra, assim rapidamente, num instante
com árvores enormes de folhas amarelas.
podes ser surpreendido pela metamorfose do chão –

e pode haver mais do que silêncio por debaixo das copas inventadas
como por exemplo, os pássaros ou mulheres gregas e romanas
em túnicas longas e largas -

nas tardes infinitas depois da metamorfose pode soprar a brisa
pode girar o novo mundo solar à tua volta 
antes do crepúsculo
um mundo sofisticado ou campesino
e músicas, sim, músicas, de harpa ou de flautas.
acredita na possibilidade –

as metamorfoses não surgem do acaso nas tardes infinitas
tens que as procurar.
procura sem descanso como se fossem pérolas
ou  tesouros de grutas milenares.
há uma filosofia na Grécia
que fala de pergaminhos sábios, de um oásis, de um segredo bem guardado:
o inatingível, o inalcançável e o maior de todos os bens, a felicidade -

talvez seja possível pelo sonho ou pela proximidade –

procura de todas as maneiras, não te esqueças.
abre portas e janelas.
procura sempre. 
pela genética e pelos poemas

josé ferreira

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Em tuas veias - um poema de António Ramos Rosa


                                    Maurice Denis 1892


Em tuas veias de rosa
de cândida maturidade
quero derramar o meu encanto
quero fluir no meu outono
Na tua nudez de piscina
dourada e marinha
com minúsculas sombras de melancolia
beberei a tua noite azul
e repousarei a salgada dolência
na firmeza macia dos teus róseos músculos
já não serei o fumo de uma sombra
mas um sopro de estrelas
desfalecendo no moroso júbilo
da minha sombra inteiramente aberta
cheia da nítida substância de um páramo terrestre
em dois vasos num só vaso de lucidez ardente



in «Meditações Metapoéticas», António Ramos Rosa
 e Robert Bréchon, Ed. Caminho, 2003

quarta-feira, 20 de junho de 2012

o depois do amor



também podíamos permanecer assim depois do amor
juntos, no meio de um campo, numa cama de vento, sem as paredes e sem o medo.
assim como um fragmento do tempo, a mostrar-se, a ser instante, a ser presente –

podíamos ver astros-estrelas.
os astros-estrelas não se movimentam com o amor.
quando os dias  e as noites rodam são homens e mulheres
numa dança de mil movimentos, com os dedos e com a mente.
assim como um vai e vem de ondas que naquele  momento se tornam brancas –

também podíamos permanecer assim depois  do amor
quando o céu é um deus que nos fecha  os olhos
e  nos abraça dentro as células satisfeitas –

e abraça muito, e em cada batimento
aquele lado esquerdo, agora em descanso e  tão perfeito  –


josé ferreira

terça-feira, 19 de junho de 2012

O fruto - um poema de Rilke




O Fruto

Subia, algo subia, ali, do chão,
quieto, no caule calmo, algo subia,
até que se fez flama em floração
clara e calou sua harmonia.
Floresceu, sem cessar, todo um verão
na árvore obstinada, noite e dia,
e se soube futura doação
diante do espaço que o acolhia.
E quando, enfim, se arredondou, oval,
na plenitude de sua alegria,
dentro da mesma casca que o encobria
volveu ao centro original.


Rainer Marie Rilke(Tradução: Augusto de Campos) lido aqui





segunda-feira, 18 de junho de 2012

Ácidos e Óxidos - um poema de Ruy Belo


ÁCIDOS E ÓXIDOS
É uma coisa estranha este verão
E no entanto ia jurar que estive aqui
Não me dói nada, não. A tia como está?
Claro que vale a pena, por que não?
Sim, sou eu, devo sem dúvida ser eu
Podem contar comigo, eu tenho uma doutrina
Não é bonito o mar, as ondas, tudo isto?
Até já soube formas de o dizer de outra maneira
Há coisas importantes, umas mais que outras
Basta limpar os pés alheios à entrada
e só mandarmos nós neste templo de nada
E o orgulho é a nossa verdadeira casa
Nesta altura do ano quando o vento sopra
sobre os nossos dias, sabes quem gostava de ser?
Não, cargos ou honras não. Um simples gato ao sol,
talvez uma maneira ou um sentido para as coisas

Ó dias encobertos de verão do meu país perdido
mais certos do que o sol consumido nos charcos no inverno,
estas ou outras formas de morrermos dia a dia
como quem cumpre escrupulosamente o seu horário de trabalho
Não eras tu, nem isto, nem aqui. Mas está bem,
estou pelos ajustes porque sei que não há mais
Pode ser que me engane, pode ser que seja eu
e no entanto estou de pé, rebolo-me no sol,
sou filho desta terra e vou fazendo anos
pois não se pode estar sem fazer nada
Curriculum atestado testemunho opinião…
que importa, se o verão é mesmo uma certa estação?
Escolhe inscreve-te pertence, não concordas
que há cores mais bonitas do que outras?
Sou homem de palavra e hei-de cumprir tudo
hão-de encontrar coerência em cada gesto meu
Ser isto e não aquilo, amar perdidamente
alguém alguma coisa as cláusulas do pacto
Isto ou aquilo, ou ele ou eu, sem mais hesitações
Estar aqui no verão não é tomar uma atitude?
A mínima palavra não será como prestar
em certo tipo de papel qualquer declaração?
Há fórmulas, bem sei, e é preciso respeitá-las
como o gato que cumpre o seu devido sol
São horas, vamos lá, sorri, já as primeiras chuvas
levam ou lavam corpos caras
Sabemos que podemos bem contar contigo em tudo
Amanhã, neste lugar, sob este sol
e de aqui a um ano? Combinado
Não achas que a esplanada é uma pequena pátria
a que somos fiéis? Sentamo-nos aqui como quem nasce
Será verdade que não tens ninguém?
Onde é o teu refúgio, ó sítio de silêncio
e sofrimento indivisível? É necessário
Vais assim. Falam de ti e ficas nas palavras
fixo, imóvel, dito para sempre, reduzido
a um número. Curriculum cadastro vizinhança
Acreditas no verão? Terás licença? Diz-me:
seria isto, nada mais que isto?
Tens um nome, bem sei. Se é ele que te reduz,
aí é o inferno e não achas saída
Precário, provisório, é o teu nome
Lobos de sono atrás de ti nesses dez anos
que nunca conseguiste e muito menos hoje
Espingardas e uivos e regressos, um regaço
redondo – o único verdadeiro espaço, o
sabor de não estar só, natal antigo,
o sol de inverno sobre as águas, tudo novo,
a inspecção minuciosa de pauis, de cômoros, marachas
Viste noites e dias, estações, partidas
E tão terrível tudo, porque tudo
trazia no princípio o fim de tudo
A morte é a promessa: estar todo num lugar,
permanecer na transparência rápida do ser
E perguntar será para ti responder

Simples questão de tempo és e a certas circunstâncias de lugar
circunscreves o corpo. Sentas-te, levantas-te
e o sol bate por vezes nessa fronte aonde o pensamento
– que ao dominar-te deixa que domines – mora
Estás e nunca estás e o vento vem e vergas
e há também a chuva e por vezes molhas-te,
aceitas servidões quotidianas, vais de aqui para ali,
animas-te, esmoreces, há os outros, morres
Mas quando foi? Aonde te doía? Dividias-te
entre o fim do verão e a renda da casa
Que fica dos teus passos dados e perdidos?
Horário de trabalho, uma família, o telefone, a carta,
o riso que resulta de seres vítima de olhares
Que resto dás? Ou porventura deixas algum rasto?
E assim e assado sofro tanto tempo gasto

[in Todos os Poemas, Assírio & Alvim, 3.ª edição, 2009]

domingo, 17 de junho de 2012

o teu ombro nu


                                          Salvador Dali 1925

leio as notícias na mesa de perna bamba, no princípio da tarde de um sábado.
um copo oscila e um prato bate. faz ruído
enquanto recordo o teu nome, os teus olhos tímidos
a tua curva do pescoço
o teu modo doce –

as notícias são iguais a um futebol de letras que muitos jogam melhor
ali mais para a esquerda, ali mesmo ao centro, à direita, que ninguém vê
e ninguém compreende que há uma mesa 
de perna manca, almofadada, para que não se ouça o som
do euro, do dólar e da libra, onde,  por debaixo  se faz silêncio
e se trocam com cuidado moedas e cassetes, discos e envelopes
com um assentimento dos olhos com a participação das mãos –

guardam segredos numa bolsa de contradições
e oposições,  a antítese do sonho, porque por debaixo da mesa se faz o jogo
um jogo de árbitros de fruta podre  e de marcações
um vício, digo, inútil para a alma, mas imenso para o umbigo –

e é tão cansativo este lamaçal –

mas guardo o jornal, dobro-o todo, arrumo-o na saca
como se levantasse uma mesa, como se dobrasse uma toalha que parece branca
mas está cheia de nódoas, de um vinho falso, de umas migalhas de aço
de um riso gasto de espiões de caras quadradas, de testas de ferro –

guardo todas as notícias na saca plástica, e fecho  os olhos
para seguir ao sul, à cor mais azul, até ás casas brancas caiadas de cal
com terraços árabes para secarem figos para trazerem mel
e penso em ti, no teu rosto e nos teus lábios molhados de chá egípcio
nos teus pulsos de veias finas e pulseiras de cores argentinas -


pergunto-me onde está a trança, ao centro ou em que ombro?
suponho que usas o vestido branco e que subiste acima à varanda.
vês provavelmente os telhados, ao fundo o mar.  e é a hora inapropriada da radiação.
mas protejo-te, deixa subir o sangue, crescer a tonalidade vermelha
afinal é quase verão e os deuses exigem atenção:  as tuas pálpebras
o ângulo recto dos  joelhos, os pés descalços nos azulejos
sentada na cadeira e sem a mesa, escutando a sesta e o silêncio próximo –

não te mexas, abre as mãos como quem espera uma carta ou um poema
 espera mais um segundo
pergunto ao vento se me leva, junto do teu ombro

os lábios –



josé ferreira