segunda-feira, 7 de maio de 2012

um poema para minha mãe


                               Pablo Picasso 

os braços nos braços de minha mãe
um grande sorriso
um recuar de muitos anos
quando escrevia uma quadra de palavras bonitas
as mesmas que surgem agora  como asas de ternura
quando  me dizem : meu filho
quando lhe digo: minha mãe -

são palavras de muitos gestos que escrevemos
quando roça as mãos no meu cabelo
e um grande sorriso
não há palavras ditas não é preciso
não há desculpas, nem lamentos, nem mágoas escondidas
uma claridade, uma felicidade completa nos olhos de minha mãe
e sinto-me tão pequeno -

como naquele dia mais antigo:
calções nas pernas finas e um postal de desenhos
uma quadra feita de caligrafia, letra a letra
e rima, sempre uma rima
uma rima que dura muitos anos, sempre, infinita, sempre
na vida de alguns netos e de cinco filhos –

e todos escreviam –


José Ferreira  

domingo, 6 de maio de 2012

Palavras para a minha mãe - um poema de José Luís Peixoto


                                      imagem retirada da internet
Palavras para a Minha Mãemãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses 
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz. 
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.

pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te 
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente. 

às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo, 
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia 
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz. 

lê isto: mãe, amo-te. 

eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não 
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que 
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não 
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes. 

José Luís Peixoto  Lido aqui

a carta que te escrevo ( XVI )



                                         Picasso, Guitar, 1913


escrevo-te esta carta para que a guardes
como uma música acústica de lianas sensíveis
um discurso de alma no meio das cordas
a tocar as madeiras exóticas , a torná-las únicas.
a dedicá-las, as cartas, com os desenhos de letras
e o pêlo encostado dos gatos, sussurrando poemas.
vou-te contar, começa assim:

não podia deixar de soltar as palavras. oferecê-las como aromas
para que emoldurem a noite, a noite grande de lua cheia.
peço que te aproximes, na ponta dos pés, um rodopio de dedos fortes
pelo meio de salas, pelo meio dos quartos como un pas de deux
no primeiro dia do primeiro ano, até às cortinas
até aos vidros mais claros para que o som se inspire
para que o som se inflame e suba, suba acima
pelas estradas do corpo, na longitude do pescoço
pela aurora  da cabeça e com asas nos cabelos;
a insustentável leveza -

e para que sempre  te segure, sem nunca te magoar
 numa seda branca, numa recordação segura
e te acalme
e te sossegue
num colo longo –

escrevo-te com um milagre nos olhos e nada mais à volta
escrevo-te no meio de um coro de vozes
um coro de vozes pequenas e infantis que nos une e encanta
e nos faz sorrir como se não houvesse chuvas fortes
com as ruas todas molhadas. 
como se não houvesse tempestades
como se não houvesse nada para além de um silêncio bom
um silêncio bom num intervalo de palavras -

escrevo-te como se não houvesse códigos e incertezas
como se todos os segredos fossem os nossos segredos
um bailado de sonhos, um milhar de poemas, a cor e o sentir das alfazemas –

escrevo-te na noite branca de uma lua cheia
para que os olhos não tenham frio, não tenham o trémulo arrepio
para que a boca seja um smile de dois pontos no finalizar de parênteses
um amarelo de flores e um vermelho intenso e invisível
da cor das primeiras cerejas, nas encostas do Douro
num maio de maias, um fruto doce e luminoso –

escrevo-te na caligrafia dos poetas, um mar de versos
um oceano diferente, uma pele de ondas e uma labareda de incêndios
as duas ao mesmo tempo, porque habitam para além do horizonte
um lugar que nem a todos surpreende, mas existe.
existe como uma conversa que não acaba porque chega o sono
e ao fechar os olhos continua na semi-realidade de freud e dos sonhos
um inconsciente que ilumina os olhos e faz ver todas as vírgulas
os dois pontos, o achamento precoce de alvoradas, a protecção das baías
 e a imensidão de ser tão fluida a planície –

a meteorologia fala de oito graus, oito graus de mínima
portanto espero que te cubras de um manto temperatura
a temperatura óptima de um conforto, com uma botija de água quente
onde de proximidades se juntam os pés; primeiro na fuga e no retomar
de uma e de outra vez, como nos apetecer, até que botija e pé
pé e botija se equilibram e permanecem unidos durante muito tempo –

espero que te acomodes num livro de poemas, que os leias devagarinho
com uma música que não digo, seria óbvio, sem mais caminho –
preciso que te acomodes para que o tempo se envolva, da flor ao fruto
na cor dos nossos olhos, depois de um rubor súbito e o pé a rodar tímido
as orelhas vermelhas e um calor do tamanho do Edna, um perigo –

um perigo, um palco, uma alegria capaz de reinventar o cálice
o cálice de Graal, um cálice doce de vinho, para alimentar os sentidos –

cresceu tanto a lua, cresceu tanto a lua… grande como duas luas juntas
tanto que cresceu a lua, como duas, e redonda e perfeita, como duas
duas luas juntas, e branca e redonda e perfeita, como duas
as luas, duas, tão juntas
duas luas em uma, duas
uma lua grande sem nuvens
e um mar como um espelho gigante de duas almas que se juntam –

sossega, chega, bem sei, caiem as pálpebras. espalho a mão aberta  sobre o teu rosto
sobre a tua testa, num repetido gesto de um pouco de cabelo que se ajeita
e que retorna e que se ajeita e depois um beijo, muito inocente
na têmpora, por sobre a veia que acalma o sangue.
junto do cabelo que retorna e de novo na têmpora
e depois um gesto mais largo, mais cuidado
apertando melhor a roupa, arredondando a curva do colo
para que o frio não entre, oito graus de mínima –

e depois uma canção antiga, de Brahms, junto aos ouvidos
de nã,nã, nã nã, nã ni, muito baixinho, nã, nã, nã nã, nã ni, devagarinho –

até que se feche a janela de uma lua cheia, até que a boa-noite seja um ninho
no silêncio de um quarto, com um livro aberto no chão
e as costas inamovíveis de um gato, no seu ruído agradecido –

bem sei que todas estas cartas, as que têm significado, são ridículas
não as mostres a ninguém, são um segredo de duas luas juntas
um trevo de quatro cantos, ou de oito cantos, como queiras
duas luas juntas, a iluminura de um sorriso
tranquilo –

dorme bem, suavemente, ouço as cordas da guitarra
um conjunto de sinos, o paralelismo das linhas.
fico esgotado com tantas palavras que te digo
mas dormes, estás adormecida
e a lua está grande, magnífica  -

e sinto-te 
com os anjos que não sabes
que não sabes
e que te envio -

sexta-feira, 4 de maio de 2012

esta carta que te escrevo ( XV )


                                    Annie Leibovitz


escrevo-te esta carta para que a guardes
e para que não temas qualquer tempestade na Primavera
“Imagine” digo-te, um outro mundo um outro lugar
há mais do que ramos partidos, o que existe é o que está
mas se quisermos podemos sublimar as intempéries
passar acima dos raios, acima, acima de tudo.
vou-te contar, começa assim:

imagina a cidreira e o chá,  não em pacotinhos de papeis permeáveis
mas como folhas e pequenos tufos amarelos, em pequenos galhos
que emaranham na fervura das águas.
imagina o vapor , a condensação
a capacidade de conseguir voar e ganhar asas e voltar de novo
numa tranquilidade de gotas que se espalham –

o chá de cidreira tem a capacidade, o valor da história
a narrativa quente que recolhe resultados, pólens e aves
a cidreira acalma, não fiques nunca triste, disse-te um dia
abre os braços e respira, de cima das encostas do Kilimanjaro
abre os braços e sente uma alegria nos lábios
adorna e revolve a cabeça por sobre os ombros
no conhecimento dos pássaros. abre os braços e respira
respira longe como o horizonte e um crepúsculo que arde
respira e aspira a libertação do corpo e sobreleva todas as maldades;
o cinzento dos carros, os fumos e os ruídos das buzinas
a imensidão de prédios altos, tapando o sol sobre as estradas
e sobre a alma, porque o sol faz bem à alma, levanta o sangue
faz apetecer ser grande, para guardar um ramo de raios sempre
como o mar e as praias e o areal –

imagina  como corro com as palavras
sem conseguir escrevê-las ao mesmo tempo que saiem
procurando que te toquem o rosto, hoje depressa, com muita força
com os braços todos abertos, e os lábios e o corpo –
Imagine,  digo-te, tudo o que quiseres
porque fiz com as palavras um quadro de imagens
que povoam o deserto
que povoam os bosques e os muros das aldeias
que povoam os mares –

as febres, sim as febres de transcender, as levezas
as pontas dos dedos, a um milímetro das tuas faces
antes de tocarem e de fecharem os braços
apenas durante alguns minutos, um intervalo, o intermezzo, como um gosto
a imensidão do gesto, essa nova forma de respirar
abre os braços

respira de novo a alfazema e os odores naturais, a autenticidade
de querer ir mais e mais e mais e mais, sempre mais
devolvendo todos os segundos mal utilizados para reencontrar o mundo
o mundo dos teus braços. abre os braços –

se te acontece como a mim, há gotas de suor e os olhos como achas, acesas
e o cansaço não tem qualquer expressão porque chegámos alto
como se estivéssemos dobrados e juntos, todos misturados
com as cabeças nos braços, com as cabeças nos ombros –

aquele momento em que nos sentimos no máximo afecto e na pertença
de mais do que matéria, uma magia, um lugar de oceanos
um fundo de mar de corais, para que os peixes saibam, já o disse
quero os teus olhos felizes, uma gargalhada de lábios
as cabeças a escorregarem com as palavras e sem medos –

como todos os dias quero o teu sossego, emprestar os meus braços
para que os desmontes e construas de um outro modo
como um canto de aves e uma melodia, como as cordas de uma guitarra
que toca alegrias –

sou tonto, bem sei, uma loucura boa, que deseja e que vislumbra
uma loucura que responde a todas as perguntas e sonha –

podemos ser mais e podemos muito, uma frase simples
e pode ser tudo –

a complexidade das palavras por vezes atordoa adormece na forma penosa
e depois já não encontramos a bússola
já não conseguimos encontrar as nossas estrelas, a nossa lua –

aconchega-te de novo e ronrona, suspira e depois deixa que eu de novo
ronrono, por toda a noite, por cima do teu corpo –

desculpa-me, hoje estou deste modo, em abandono, como um forno
mas os dias e as cartas não podem ser todas iguais
as palavras saem e soltam-se sem serem obrigadas a ser notícia
como os títulos dos jornais, vê esta aurora como uma privacidade das pupilas
as pupilas que se abraçam –

quero que adormeças devagar
com as duas mãos devagar, a puxar as roupas até ao pescoço
para que não arrefeças e  sem olhos tristes: um sorriso no corpo, um sorriso na alma 
um sorriso do tamanho do mundo
para que os peixes saibam, para que os peixes saibam
para que os peixes saibam –

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Abraço

Sol são teus lábios na pele
Suave baloiço em si bemol

(Abraço longo com mel)

Uma dança de relógios
Em colmeias transparentes

(Abraço longo e dormente)

Peço-te em câmara lenta
Um sorriso de presente

(Abraço longo em ditongo)

O amor é um raio de luz
Preso no teu infinito

(Abraço longo e esquisito)

A chuva canta o teu nome
Embrulhada em colcheias

(Abraço longo a meias)

Chegas leve de ternura
Abres os braços em par

(Abraço longo de amar).

A(Mar)

Incerta imensidão do mar recluso
Encerrado no seu sono de gigante
Sozinho descobriu estar em desuso
Casar com terra incerta e distante

(oferece suas ondas a quem passa,
ondeia ondulante a solidão)

O mar de humores instáveis e incertos
Na ciclicidade própria de quem sente
Ora se revolta em altas vagas
Ora se enternece de contente

(salgado de chorar o seu fado,
ondeia ondulante a solidão)

O mar futuro incerto, só passado
Tece redes de sal para o coração
É no presente um berço debroado
A ondas de ondulante solidão.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

A incerta luz do poema

(A incerta luz do poema)

Surge pequena, de um nada
Em cada nova alvorada

Trago mil luzes nas mãos
Para doar a quem passa
Candeeiros de brincar
Com versos por carapaça

(A incerta luz do poema)

Ilumina pequena, escondida
Mais uma forma, uma vida

Lanço poemas ao mar
Quando adormeço, confesso
Para em naufrágios de sonhos
Ter barcos feitos em verso

(A incerta luz do poema)

Tem dos brilhos o mais certo
Numa ponta o coração
Na outra o universo

Penduro estrofes em ramos
Para florirem em cor
Quando as linhas se cruzarem
Nos olhos de um novo amor

(A incerta luz do poema)

Não tem fim nem amanhã
Nasce hoje e por magia
Torna a nascer amanhã

(A incerta luz do poema:
Guarda-a embalada bem dentro)

Poesia

Anoitece o medo e a ausência
Os campos coloridos da memória
Esboçam pensamentos de outra história
A metade incerta da paciência
Quando o pensamento é ilusão
Há na natureza da poesia
Voz, tormento, imensidão
A face inteira da magia.

Anoitece a dor e a ternura
Vagas ondas mortas de poente
Elevam-se as vozes da doçura
A metade incerta de um repente
Quando a melancolia é paixão
Há na natureza da poesia
Só matemática exactidão
A face inteira da alegria.

a carta que te escrevo ( XIV )



escrevo-te esta carta para que a guardes
como um instante de tempo, um fragmento, uma memória
um I remember you well que se inscreva sem matéria
por dentro do cérebro, como um quarto que se abre
no lugar do belo, num firmamento, numa âncora de céu.
vou-te contar, começa assim:

a memória é sempre uma janela sobre a vida
é como um grande livro, uma bíblia de muitas folhas
desde papiros a folhas da china, de casquinha, finas muito finas –

nem sempre sabemos os números, aquela página, aquela letra
no entanto surge um dia por um motivo. um motivo bom pode ser um sorriso
uma forma de encostar os olhos, de ser original, ou apenas um encontro por acaso
de surpresa como quem diz: ao bater assim depressa este batuque de selva
é porque significas, muito, sabia, desconfiava, mas agora que sinto as plantas dos pés
a escorregar, a querer parar muito, a transpirar e  a tropeçar, é porque …
a memória é um livro, muitas páginas escritas de sílabas e verbos
de pele, muita pele desde aquele primeiro grito quando pela primeira vez
pela primeira vez se respira, quando pela primeira vez …

sabes, I remember quando numa catequese -  um segredo há muito guardado
- uma mão pequenina  num intervalo, tornou-se concha no ouvido
num intervalo, uma mão pequenina, e eu era da mesma idade
com uns calções de alfaiate, uma camisa amarrotada, um pé rodando sobre o outro
uma meia branca, um sapato esmurrado, todo vermelho
com as mãos  cruzadas ao fundo das costas, todas baralhadas
e depois muito de repente, um salto e uma cara alegre
e a menina da mão pequenina riu muito
e disse devagarinho: queres ser meu namorado
num intervalo
entre fixar dez mandamentos e rezar de cor todas as orações que levassem os pecados –
num intervalo, há muito tempo –

sabes, hoje quase não saí de casa, li de corrida algumas das linhas
e juntei algumas letras, que não as minhas, para perceber as notícias
as más notícias dos jornais.
e queria ter saído muito
sair ao acaso pela rua como se fosse África, uma aventura
para sentir a química, um ar que sufoca, por acaso
e encontrar-te com duas magnólias e dezenas de prímulas sobre o braço
depois um saco de quem vem das compras, do supermercado
assim subitamente e por acaso –

nessa altura uma ajuda é preciosa e torna-se mais suave caminhar
falar das coisas, de muitas coisas, como por exemplo, das focas
do Pólo Norte, da sustentabilidade do planeta ou de Freud
das últimas descobertas sobre o sonho como uma pedra polida
que espelha no rodar dos olhos não tanto do inconsciente  que pensávamos
mas mais das vezes, uma realidade semi-acordada –

ou então falar de experiências e devagar sentindo da mesma forma
como há muitos anos a mão pequenina,  dizer um segredo
e ilustrar uma pérola com a luz do dia, depois amadurar os dedos
torná-los mais corajosos para apertarem as sombras e os medos
para mais tarde recordar, remember and remember  you well, antes de acordar –

desculpa, e é tarde, e não aconteceu –

antes de escrever a décima quarta, esta carta
estava de rosto fechado, depois clareei
depois comecei a esticar os remos como se estivesse no leito de um lago
um Windermere perto de Lancaster
depois o movimento  e era um rio – Tamisa, Reno e Sena;
aquela cidade que se acende de muitas lâmpadas e transporta milagres –

depois um rápido e um Kayak, um coração a querer  tornar-te célebre
a querer ser maior, a querer adorar o Sol, a suportar o calor.
 e por fim o mar, o grande mar, uma baía, um cabo, uma imensidão de ondas
de espumas, de barcos, de aves em visitas de águas –

o mar –

espero que estejas confortável e morna,  com as pálpebras junto da janela
e a olhar a lua
como se ela fosse a nossa grande amiga, alguém que faz força
alguém que faz força para que as estrelas se libertem –

espero que toques com os dedos o bordado inglês das cortinas
como uma despedida, sensível
e que sintas o sono, um caminhar pequeno, um som no ouvido
para que te deites, para que te encostes na fronha da almofada
e que sintas um aroma, um aroma de algodão doce na cidade
como se fosse um ombro depois dos pés cansados
 junto de uma ponte de uma outra cidade
uma ponte de Neptuno, não de tridente mas com uma lira
uma voz grossa, a encontrar o acorde secreto das cordas
os dedos de uma canção
que adormeça como um berço, como uns olhos de mãe
na proximidade de um cheiro e da compreensão perfeita –

e espero que adormeças
como sempre
com a orquestra de asas e de anjos
como se não fosse sonho
e dormíssemos ambos –

as palavras tornam-se mais longínquas como um eco que se escoa
como encostas que se juntam
fazendo cessar  todos os ruídos –

ouço vozes, sinto-te cansada, os meus olhos também caiem –
desejo-te a  noite boa e guardo-te os lábios  –



terça-feira, 1 de maio de 2012

Ciclo de vida do Poema


Nasce sobre o manto da poeira
Verso ante verso cria espaço
Ternos firmamentos a compasso
Desenha-se na lua a noite inteira

Cresce a entoar a estrela etérea
Canta ao universo imensidão
Luz a envolver tal escuridão
Pedaço infinito de matéria

Morre em leito lácteo ao avesso
O Poema ainda a nascer
Na Poesia como no viver
Há no fim o esboço de um começo.

a carta que te escrevo ( XIII )




escrevo-te esta carta para que a guardes
aberta sobre um qualquer lugar do quarto
em cima de uma pulseira, de um vestido ou de uma meia
para quando por lá passares por uma outra razão
a encontres por acaso
e com um sorriso nos braços
a coloques sobre o olhar dos cabelos
e entre as duas mãos e os dez dedos.
vou-te contar, começa assim:

tenho uma camisa azul clara, sem bolso e com um desenho bordado
pequeno, um cavalo de crina sobre o lado esquerdo
o lado mais apertado, este esquerdo que tanto bate.
as persianas estão corridas naquela dualidade de serem brancas e estar escuro
para que a manhã não rompa de raios, clara,  sobre as marcas da noite
um sono tardio de pecados que não se confessam a ninguém
só aos botões, desapertados pelos sonhos luminosos nesta carta e nestas letras
com o propósito bom de ser um voar sobre as margens, mais além
uma ponte romana de uma primeira construção
um avanço sobre as pedras estreitas, sobre os peixes que descem
sobre as borboletas que sobrevoam, sobre as lilbélulas que voam
sobre os reflexos dos choupos, dos pinheiros, das bétulas, dos plátanos
de todas as árvores, ramos, folhas ou flores de frutos num maio trabalhador –

são muitas palavras para dizer o desejo de ser
de ser o som de um despertador, um despertador diferente
que em vez de gente, desperta o intangível, de uma leveza e de um sossego –
se não houvessem paredes, nem janelas fechadas, nem quartos, nem casas
provavelmente habitaríamos uma choupana com uma cama de juncos e folhas
ou de um linho tecido de manualidades, certamente um outro lugar, autêntico
de um artesanato inventado pelas mãos
e não haveria portas
e se nessa choupana, não muito distante, morasse o mar
poderíamos ouvir os búzios, a toda a hora, e sem os chamar-

desculpa, começo a falar-te de uma camisa azul clara, de uma crina
e acabo a falar do mar, perco-me, dou voltas com o corpo numa articulação de vento
que me sopra de lado de dentro e me faz perder a direcção –

estás confortável? às vezes interrogo-me de como colocas as mãos e os braços
e de que forma me lês; com os cotovelos sobre a mesa
ou se estendida sobre o sofá, de lado, com o cabelo preso ou solto
numa trança ou em ondas
e sempre com os olhos grandes sobre as minhas pequenas letras
que se tornam enormes se te forem como a seda             
como um lenço de flores
sobre a fealdade dos medos e das sombras –
letras enormes sobre os perigos das ilhas, sobre os novelos sem história
sem agulhas que tecem camisolas, sem as primaveras  que se adoram –

adorar é uma boa palavra, uma palavra de essência
que nasce sem que as outras consigam explicar
adora-se o sol, o mar, as pedras roxas de um caminho, as carumas
as folhas de um salgueiro, mesmo o cheiro do eucalipto senão for em demasia
mas adorar como essência e como palavra inexplicável, implica mente e corpo
mãos e dedos e braços que se abraçam, memórias, ausências e presenças
saudades e permanência
adorar é querer mais do que a razão explicável –

adorar implica escrever cartas com letras emprestadas pelo céu
por um paraíso que junta no branco da lua
ou num crepúsculo que arde;
a febre sempre a febre a fronteira da sublimação –

mas chega de palavras, sim, palavras que ardem, uma fogueira permanente
no primeiro dia de Maio e a ser mais quente que um verão, chega de palavras
é tarde como os dias de inverno, é preciso que te acomodes no lugar onde estiveres
e que escutes um violão, o seu som, as suas cordas reboando sobre a madeira nobre
e exótica, uma a uma, dedilhadas pelo imã, pelo indicador, pelo baixo do polegar, devagar
para que a carta caia ao chão, das duas mãos, dos dez dedos, devagar
sobre o chão, quando da invasão do sossego, para quando adormeceres –

a concha e a pérola, o búzio e o mar, repito o som –
a concha e a pérola, o búzio e o mar, repito o som –
a concha e a pérola, o búzio e o mar, repito o som –

um dia azul, quando a manhã acordar.
tiro a camisa, o motivo e afago a crina, o pelo curto do pescoço
um tom mel de um cavalo lusitano
os meus olhos estão enormes de cansados
mas julgo que dormes –
vou guardar o resto das palavras
e abraço-te muito sem que estremeças –
boa noite, meu anjo, dorme bem, sobre uma onda de fenos –









segunda-feira, 30 de abril de 2012

a carta que te escrevo ( XII )




escrevo-te esta carta para que a guardes
dentro de um livro, um livro de poesia
daqueles que podem ter um poema, um único poema que nos segure dentro
dentro do seu  mundo, com as nossas letras, dentro das suas janelas.
vou-te contar,  começa assim:

hoje é cedo ainda. é um fim de dia, de um dia que pela segunda vez escrevo
com os ombros pousados na mesa e os olhos dentro de um poema.
escrevo como se os meus cabelos cada um e de maneira diferente
tocassem  teclas de piano, acertadas, para te embalar dentro
dentro da minha cabeça, uma dança de imagens e do pensamento –

há uma pele fora e uma pele dentro
uma cadeira, um colo, um abraço e uma música por todos os cantos do poema
há uma pele ferida com todas as nossa letras, com todos os nossos caminhos
e não podemos julgar os medos ou os dias só porque nasceram e existiram
nem tão pouco julgar os segredos que são segredos e aqueles que um dia se descobrem
e se tornam uma troca de palavras,  compreendidas na mistura dos dedos 
que abrem botões, tirando lentamente as camisas, mostrando sinais
clareando na noite, madrugadas e manhãs  –

falamos sempre de nós com os poemas.
 umas vezes somos brancos  como o cimo das montanhas
uma claridade mais perto do céu
outras como um vento,  uivando, para distrair os outros sem que ninguém nos perceba
outras como mudos sem uma língua que fala,  com fragmentos de frases e palavras
e sem os gestos que percebam
outras brancos como a cal, com receios, como pêndulos baralhados sem ritmos
perdendo todos os tempos e a continuidade do movimento
o movimento que nos embala e nos invade os ouvidos –

mas como sabes que sabes que sinto o mesmo que sinto
sabes que quero ser um sussurro de seda e um sossego zen
como um gongo que tocou forte e deixa escoar o som, lentamente
como um eco de um grito de alegria no cimo de um mundo
um som de uma canção de infância a baixar as pálpebras
como dedos de mãos subitamente tão pequenos
a perderem força e as pálpebras esticadas e redondas –

 quero que te encostes na cadeira como se fosse forrada de penas e com o pólen das flores
uma cadeira de braços de preferência, uma cadeira de embalo com um poema.
deixa cair o braço direito, abre a mão como se dela se soltasse a ansiedade
e deixa que o ombro sinta, sinta  a diferença –
levanta de novo e pousa a mão no braço e agora com a esquerda
repete o movimento –

parece que nada muda mas afinal é como se estivéssemos juntos, frente a frente
como um espelho em que seres mulher e homem não interessa
porque essa é uma diferença que mora do lado de fora
mas não tem o dobro da pele, de dentro e de fora,  que se juntam dentro –

o que te quero dizer é que te quero, e que te quero muito
como naquele poema de Leonard com as duas metades dentro de tudo
para completar os búzios, o mar, as ondas e a espuma nesta noite tão escura –
mas de uma forma sossegada para esperar todos os minutos
que nos tornem como uma muralha, uma muralha mais longa e construída –

o Inverno é frio e molha os pés mas podemos usar o mesmo casaco
e viver três quilómetros de rua debaixo de um guarda chuva
no Outono, tantas árvores e tantas folhas, e tantas flores na estação de março;
aromas que nos abrem e desnudam como magnólias soltas, glícinias e petúnias
a doçura do jasmim,  a lantejoula de flores desenhando os jardins.
e na estação cálida, caliente, a impaciência da roupa, a transpiração
a pele morena e quente a clamar pelas brisas,  em qualquer praia de gente
ou sem gente, desde que as mãos sejam duas no mesmo cálice de tempo
de horizonte e de marés –

todas as estações são boas para adormecer
 desde que a alma pela aragem dos poemas
possa pousar em sossego, é o que mais quero –

estes poemas ao fim da noite como uma mão que enlaça a tua
aconchega-te a face e beija-te as orelhas
e quer que a guardes, a carta, a mão e o poema –

boa noite… beijo-te as orelhas
e o pescoço, e as orelhas e o pescoço
para que adormeças –

encosto-me nos teus cabelos –


domingo, 29 de abril de 2012

a carta que te escrevo ( XI )




escrevo-te esta carta para que a guardes
muito apertada, debaixo da almofada
como um  segredo por um dia inteiro
e esquece-a um pouco
não toda, apenas algumas linhas, para ler de novo
pela manhã, pela manhã de um dia de domingo.
vou-te contar, começa assim:

apesar da luz que ilumina, não se acalmou o frio
um  frio que corre pelas mãos do vento a abrir-me o colarinho
a camisa às riscas quando chego a Santa Catarina –

sabes, foi uma surpresa. gosto da escada metálica
que primeiro mostra o céu e depois os azulejos
e a rua, uma rua cheia de gente, de muita gente.
hoje uma música celta, duas gaitas de foles  e tambores
tambores de pele e de gente que se anima –

levo os olhos bem abertos para enfeitarem o meu silêncio
para cobrirem de versos  o meu caminho,  anónimo e sozinho
e eis que surge uma cena de antologia e verde, verde como uma ervilha.
não te rias. que tem isso de surpresa de ser verde e ser ervilha?
bem sei que de início parece uma iluminura tola e sem sentido
mas ouve, ouve melhor, verde, verde como uma ervilha –
batiam, quer  dizer não batiam, que as horas não batem, aparecem rotativas
para nos mostrar a lua, uma luz branca que nos cinta
para nos mostrar estrelas brilhantes de platina
para nos mostrar as manhãs do Porto e as neblinas
para eliminar as sombras nas horas do meio-dia
para as tornar mais escondidas e menos  oblíquas –

mas voltando à relojoaria e a Santa Catarina
 sem batimentos era uma e trinta.
junto de uma venda de rua, um par de namorados
escondidos num fim de escada de porta fechada.
o rapaz de cabelo encaracolado, olhava de um e outro lado
a rapariga de costas voltadas, erguia na frente dos olhos uma casa de ervilhas
e uma a uma,  com um sorriso nos lábios
uma a uma, e comia subitamente, directamente da casa verde
uma a uma o verde das ervilhas.
ficava apenas a casa verde e os ombros muito encolhidos
e um sorriso, sim, um sorriso –

não te rias. é disparate bem sei, parece uma conversa de meninos
mas enternece-me, lembra-me o campo e não o  cimento
lembra-me os arbustos, lembra-me os caminhos de terra
lembra-me a frescura de um cogumelo de árvores nas montanhas do Minho
lembra-me muito e faz esquecer este vento
este vento frio que me cerca a gola
e que me entra pelos colarinhos –
a ervilha, assim uma a uma e eu a salivar como na psicologia experimental
a salivar o sabor de uma ervilha pelo palato, verde a rolar
a rolar pela língua –

não te rias. chega de disparate, bem sei, e afinal não tem muita piada
mas é um facto, aconteceu, era uma e trinta –

e como sempre a saudade trouxe-me os teus olhos
os teus olhos de princesa, deixa-me dizer assim
uma princesa de flor de lis como vi numa tela gigante
numa parede de Florença quando o calor era feito de mármores de Giotto
de esplanadas no meio de praças, de pontes com margens de casas
e de dias luminosos, lembro-me bem –

como me quero lembrar de todas as canções:  as de vozes roucas
as de cordas simples e as mais bem tecidas, de palavras
de palavras de pele pelas pratas do rio –

agora é como se visse bem os teus olhos, como se lhes pusesse as mãos em cima
os teus olhos de esconderijo –
como se lhes pusesse as mãos em cima para te fazer sorrir
e depois  com as agulhas dos dedos, tecer poemas, tecer poemas  bem devagarinho
mas com ritmo,  tecer poemas  em tecidos, belos tecidos
tecidos de flor de lis
para usares todos os dias –

e lembro-me de um quadro do realismo, um quadro de gôndola
um quadro de bancos vermelhos, dois bancos vermelhos, sem gente
junto de escadas, sem namorados, num espelho de águas
e recordo-me da fita preta nos chapéus de palha da madeira
e sonho conduzir o barco com uma t-shirt de riscas
a gôndola no deslizar suave por entre prédios altos
para que possas virar de todos os lados um pequeno ramo de violetas
ou de amores-perfeitos, ou de flores pequenas como miosótis
emolduradas pelos aroma de glicínias –

por vezes a chuva quando cai regular e certa, adormece sem que pese
e nunca sequer tinha pensado nas gôndolas como um rumorejar
que ao espalhar as sucessivas ondas até aos alicerces
pudesse adormecer e sossegar de forma tranquila
mas parece-me bem porque sinto, sinto o barco avançar
e sinto o sono e sinto um sorriso no rosto  -

hoje quero que adormeças numa gôndola de Veneza
ou nas pratas luminosas de um rio Arno de Florença
envolvida em tecidos de seda
envolvida de versos e poemas
num aconchego de dedos, de dedos que te desejam
a noite da lua e a noite das estrelas –

e que sonhes, sonhes muito e tanto, e tão intensamente
para que chovam madrugadas,  vestidas de verde
de forma tão intensa que sossegadamente
se abracem os dias –

os anjos, bem sabes, estão contigo
dorme bem,dorme muito, amanhã é domingo –

boa noite...




sábado, 28 de abril de 2012

a carta que te escrevo ( X )




escrevo-te esta carta para que a guardes
como um pássaro da manhã que escolhe uma janela
como um pássaro que pousa num parapeito, num pedaço de mármore
e  nele eleva o canto, uma música de sons que cresce como um soneto.
vou-te contar, começa assim:

a vida é muito complicada, uma frase comum mas de importante significado
porque durante muito tempo temos que guardar as palavras, encolhê-las
para que caibam juntas e nunca se fragmentem, nunca se percam
nos labirintos da cidade –

é importante guardar todas as letras como um pedaço de pó iluminado
ou um pedaço de chuva, um traço de um tracejado muito delicado;
um molha-tolos, muitos dirão, o que é vulgar, toneladas de vulgar
de rotinas,  um não original, mas mesmo assim complicado, complicado
difícil de explicar  -

gosto das tuas calças de ganga, da forma como te aconchegam o corpo
a cor azul, azul clara , como uma transpiração das nuvens
para que não se descubra o céu de uma só vez
e  para que se abram portas, devagar -

como um primeiro verso,  e um outro verso, como um lego que se junta
pela atracção de letras e algo mais: um olhar, uma química
um espírito por explicar –

reconheço a minha adolescência, a minha febre, esta doença
reconheço, e sei da imprudência e sei dos muitos que erguem a voz
 e dizem aos quatro ventos: cala-te, cala-te, pára de falar
 pega numa tesoura de letras para a lobotomia central
 corta um anel de cabelo e faz uma magia de fogueiras
não ouças a voz de Iemanjá –

cala-te e cala essa trombeta de areias, as tempestades de estrelas
não olhes o girassol, fecha os olhos, não olhes o mar –

guarda todas as sensações, os dedos empolados, os remos dos lábios.
não faças mais versos, não inventes métricas e fala  de coisas concretas
como as curvas de Gauss, um sistema euclidiano, a curva de um meteorito
em trajectórias de deserto –

não há só uma direcção, a direcção obrigatória, do sinal vermelho,  das negritudes do Restelo
das temeridades, das auto-estradas iguais, dos cadeados ditos normais –

preocupa-me o teu sono,sim, o teu sono, o teu sossego, e agora, nada mais –

neste momento escrevo-te  como se fosses a única mulher na terra
uma privacidade boa, uma pérola hexagonal e multifacetada
a única que deve ser observada, com a calma e a carícia do olhar
um puro néctar  de orvalho, uma gota enrolada e frágil –

hoje carreguei um nardo, uma forma diferente de dizer aroma
quando menos esperava, surgiu alguém com pétalas brancas
ramos verdes e uma pinta vermelha, tratava-se apenas de um adereço
um adereço de alguém
um pequeno espaço de jasmim em mãos anónimas, de cheiro doce
uma cena súbita e imprecisa que exigiu a passagem da flor
e um  aroma subindo, aflorando as narinas  –

olhei para o lado e fixei os olhos castanhos numa parede branca
irracional  e parada no meio da  cidade –
 transformou-se em tela, uma tela  animada, visível e privada
de um único filme, de uma única cena, sistemática
em câmara lenta, de repente, no meio da cidade, na parede branca
para que possa de novo rever-te, lentamente
e com saudade –

os teus olhos de lua, os teus olhos de mar –

o aroma era forte como redes, uma prisão de algas, e todos os que me rodeavam
falavam de outras coisas, batiam palmas de algo que acontecia, e era normal
algo de que perdia a consciência e deixava desaparecer em  forma queda
como uma migalha  que não se pode evitar –

há um exercício que faço, que faço muito,  sobrevoar
 apanhar nos braços o teu corpo, apanhar no rosto os teus dedos
apanhar nos lábios os teus lábios, doces –
e o teu inclinar da cabeça
quando te aconchegas numa concha original, tecida  de sonhos
tecida de músicas, tecida de asas de borboletas que são coloridas e sabem voar –

asas, asas, se tivermos asas podemos voar –

desculpa esta carta que  escrevo, desculpa-me muito.  
o teu sono e é tarde e elevo a voz sem o sussurro habitual:
um sussurro de swing, um sussurro de jazz
desculpa-me o entusiasmo, o subir muito, sabes, eu tento
mas é cada vez mais forte este tambor de pele
esta  continuidade de bater, bater muito, um batimento contínuo.
há este estado de um novo elemento na tabela química
chamo-lhe insígnia, chamo-lhe espírito de primavera
chamo-lhe espelho de novos lugares no multiplicar da alma
uma perda de densidade, a magnitude da leveza
a impossibilidade de segurar 
de o fazer parar, de o conseguir pousar
e ele a bater muito e a querer  voar –

desculpa, eu sossego para que sossegues, apelo e chamo todas as brisas
as brisas da companhia, um afecto sobre a linha dos olhos
a linha de uma mão estendida e uma face direita e suave
e as brisas, as brisas  que se colocam na frente dos nossos sonhos
sem complexidades como uma maresia, a maresia que é sempre única
e existe –

esta carta que te escrevo é a décima, uma dezena
pensei toda a tarde neste número notável -

quero que sossegues, abranda um pouco, se estivesse ao teu lado
gostava que sem pressas te deitasses num sofá grande
com as calças de ganga, de azul claro e uma camisa branca
ligeiramente descaída num botão que se abre
para que te embale um pouco e te afague com uma manta escocesa
de quadrados, bem apertada nos ombros, para esconder o frio e as sombras.
sentar-me-ia no chão com a metade da felicidade e uma página em branco
para recomeçar o poema, para recomeçar o canto
nesta carta que te escrevo –

é talvez a mais longa, a décima, a da dezena
e desejo uma lenta queda de pálpebras, uma lenta queda de uma pena branca.
quero que adormeças, que adormeças e sossegues
para te tirar os sapatos e te deixar dormir de meias
meias de algodão a segurar os dedos
enquanto os versos preenchem folhas completas
espalhadas pelo chão, um tapete de poemas  –

hoje, um só beijo na veia mais carregada
não te mexas, mantém essa manta bem apertada
respiras como o meu gato quando se aninha
e esconde as garras em tufos macios
não te mexas
chamo os anjos, chamo os anjos …
para que aconteça o milagre
não te mexas -

 boa noite, boa noite...





sexta-feira, 27 de abril de 2012

Luz

Quando os sonhos encontram terra fértil
Nasce uma luz dourada e frágil
Quando a face da tristeza se desmonta
A alma ágil enrola o universo e o reconta

(nasce uma luz dourada e frágil)

Quando as estrelas se deitam nas pestanas
Enfeitam outra íris companhia
Sobem e descem as pálpebras, persianas
Focando ora a vida, ora a magia

(no sono nasce a luz dourada e frágil)

Quando o tempo se levanta dos relógios
Se ergue e dá ao espaço a sua mão
Todo o universo roda num poente
Como suave voo de um beijo
Deixando um som, prazer dormente
Em inquieta doce vibração
Encontram-se as pupilas face a face
No sono nasce a luz de novo enlace

(essa quieta luz dourada e frágil)