domingo, 12 de fevereiro de 2012

entra pela janela o anjo camponês - um poema de Carlos Oliveira


Charles Curran

Entra pela janela
o anjo camponês;
com a terceira luz na mão;
minucioso, habituado
aos interiores de cereal,
aos utensílios
que dormem na fuligem;
os seus olhos rurais
não compreendem bem os símbolos
desta colheita: hélices,
motores furiosos;
e estende mais o braço; planta
no ar, como uma árvore,
a chama do candeeiro.


Carlos de Oliveira In Entre Duas Memórias

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

a luz é a unidade que não desaparece


Claude Monet 1873

"A luz é a unidade que não desaparece nem se dilui em relação alguma: a todas as sustenta como uma mão diáfana. E quando, a uma primeira e mal interpretada vista, desaparece, é só porque se cobre com um pano de sombra para não deslumbrar. Assim como um céu, num entardecer, usa as nuvens fucsias, roxas, rosas, para que ressaltem o seu verde, o seu amarelo e os seus azuis."

Antonio Gala, La Luz en la Pintura, Carrogio Ediciones, Barcelona, 1998

sem que soubesses




Falei de ti com as palavras mais limpas
Viajei, sem que soubesses, no teu interior.
Fiz-me degrau para pisares, mesa para comeres,
tropeçavas em mim e eu era uma sombra
ali posta para não reparares em mim.

Andei pelas praças anunciando o teu nome,
chamei-te barco, flor, incêndio, madrugada.
Em tudo o mais usei da parcimónia
a que me forçava aquele ardor exclusivo.

Hoje os versos são para entenderes.
Reparto contigo um óleo inesgotável
que trouxe escondido aceso na minha lâmpada
brilhando, sem que soubesses, por tudo o que fazias.




Fernando Assis Pacheco in Musa Regular

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

A espantosa realidade das coisas


Bill Brandt

A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei de escrever muitos mais, naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada.
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem esforço,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer cousa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.



Alberto Caeiro, Poemas Inconjuntos, Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

a segunda Gioconda


Gioconda Louvre


Gioconda do Prado


uma outra Gioconda sem a mão de Leonardo, dizem em França.
consta que na mesma época desde os anos sessenta
um século antes da Bastilha e de um povo armado de forquilhas.
não afirmo, mas li no Figaro
jornal com o nome de ópera -

segundo dizem os especialistas
viu a mesma luz nos mesmos dias mas não houve boda
nem flutes de gancia ou de espumante gasoso
pois não consta qualquer casamento nem da primeira nem da segunda
não houve concordância de famílias, nem na Gallery de Londres
nem nas pirâmides do Louvre nem tão pouco no Museu de Madrid;
uns copistas estes latinos, mas ao certo nem o nome;
verdadeiramente lamentável –

na última, talvez uma maior luminosidade
um azul mais condizente com a manhã de Itália e uma serra de Bergamo
mas nada que se compare na subtileza do sorriso
aos dedos do mestre; o sfumato, a técnica, dizem os especialistas
não afirmo, mas li no Figaro –

mas pergunto de que vale o quadro sem a assinatura, seria conhecido?
e se agora surgisse a primeira em vez da outra, a segunda, a mais branca
mais Lisa e menos monolítica do que a original naquelas cores de musgo;
bem sei, pensas, sacrilégio, energúmeno, como podes alterar esse ícone
até o homem de barbas, sisudo, estudioso, científico, se revolve no túmulo.
ignorante para além de tudo, não poderia sair da sua mão como a mesa sublime
só mesmo por Andrea, o discípulo, um mero aluno –

não afirmo, mas li no Expresso –

no mesmo número onde se anuncia que Hitler o ditador
na idade não longe de Gioconda, era pintor.
sujava as mãos na tinta e coloria paisagens marinhas
mas nocturnas e sem submarinos –

gémeas dizem, manas, até no tamanho, 77x53 e 76x57
até nos números a rima, 77 e mais dois sete, é uma malícia ou numerologia
uma obscura ciência, talvez pertença de Templários ou Maçonaria.
porém, o azul e a cor da pele, mais celestial, láctea e fina, lembra Rubens.

pas mal, dizes tu e os especialistas, mas não é a mesma,é uma falsa,uma ilegítima –

bem sei, desculpa, nem sequer acrescento mais nada
mas escreve-se-me dentro da cabeça que se vivesse no mesmo tempo
e se encontrasse as duas, as supostas gémeas, preferia esta
para passear pelos prados, esconder-me depois atrás das árvores
desvendar as musselines e rebolar nas ervas longe de Da Vinci –

desculpa Leonardo, sem ofensa –dorme descansado.

mas mesmo na parede branca, prefiro esta, até por causa da segurança
e das máquinas fotográficas –

e quanto ao olhar vê bem
parece que se virou agora, um pouco mais enigmática e surpreendida.
mesmo o modo como se senta e a forma nítida da cadeira;
lembra-me memórias antigas, aquelas em forma de S
uma espécie de namoradeiras, em que dois sentados lado a lado
facilmente conversavam face a face
e facilmente estendiam os braços –

bem sei que não chega para te convencer
e falas no sorriso da primeira, mais de menina, mais atrevido
e acredito, mais de desafio, mais tentador
mais de dedo esticado, mais de maçã -

no entanto, digo-te que a segunda, apenas não sorri
porque o pintor interfere, talvez mais delicado, condiciona
torna-a mais sonhadora como se imaginasse um petit déjeuner
à beira de um lago, remos e um barco
e dentro do olhar noto uma íris mais precisa, mais madura, mais de mulher
e uma certa melancolia nas pálpebras descidas
como um segredo que se espalha na luz clara da paisagem –

josé ferreira 7 Fevereiro 2012

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Ajax ou deus pastoral

Um lugar para a sede
onde não haja
Água – só desejo de a ter
e por isso Vínculo,
Só as saias da Sede
Que alguém desenhou
 a subirem devagar
Uma mão de homem – sede do seu joelho
Sobe as coxas – a mão
Procura a parte mais quente da sede,
Todo o corpo pede novas formas de beber
Entre as pernas da sede - o homem lambe o seu sexo
A saia curta, ficou à cinta, por baixo dela a cabeça
O homem lambe a sede – ambos são seres personificados
A cuequinha de algodão para o lado
Pode ser no Miradouro do Adamastor
onde Churchill pediu para sair do táxi - olhou para a nuvem com a boca aberta
bebeu um bocado da chuva - mas queria beber a nuvem toda,
como disse o taxista cheio do Sonho Americano, se eu fosse homem
estava agora com uma erecção só de ver Churchill a olhar para Almada
enquanto os submarinos passam o Canal da Mancha - Todos os ministros no Bunker,
 ele foi comprar charutos a Picadilly -
deve estar a chegar, não deve estar em Portugal a beber nuvens -
O Fim da Guerra precisa dele - e a Paz também precisa dele
 Com a boca cheia de chuva olha para Almada (para o ponto onde vai estar  o Cristo Rei,
está lá só um homem que é uma estátua de sono - substitui-se por outra estátua
mete-se uma saia - Relva na cabeça, um bocado de gel - e vira-se a estátua para a América




Não existem eles nem nós – se virmos o desenho que faz
no espaço-tempo este prazer, por baixo da saia-
O tornozelo-sede – os dedos-sede, sem filtros
Ligados por um fio de Mão Aberta – a mão sede onde dorme um helicóptero
 um insecto suicida que choca com outros no ar quando há fogo cruzado -
tenho medo porque tenho mãos - a nossa Possibilidade incluí essa Voz
que nos chama


Antes de entrar no táxi     
Churchill olha para o relógio - seis e meia - Portugal a acordar - vê as traseiras de uma pastelaria
espreita pelas frinchas - Vê os pasteleiros com as grandes seringas culinárias
a injectarem o creme dentro das bolas de berlim e dos eclaires, dos outros bolinhos
como o mais perverso voyeur da indústria alimentar
espreita os pasteis de nata a saírem do forno - todo ele treme de euforia ao ver os bolos de arroz
a serem amassados, os bolinhos húngaros de chocolate e manteiga,


***

A mão da sede, em jeito de abandono pede ao homem:

Traduz o meu corpo para a linguagem dos rios,
Se me queres dar um prazer verdadeiro, traduz tu
Ajax ou Deus Pastoral
Que sabes todas as línguas
Que estás entre todos os povos,
Traduz tu Ajax ou Deus pastoral
A minha sede em água
As linhas da minha vida em rios
Da minha medula faz nascentes de ribeiros frescos
(Põe dois pastores em cada lado) e um guarda-rios
Mais a sua família feliz e o doce lar em que habitem
E que eles velem a minha descida pelas montanhas,
Desço por ti, fertilizo-te a terra
                                                dos meus joelhos faz barcos,
                                                Das rótulas as velas, dos ossos dos dedos: canoas
O tronco seco
E do meu sopro os que nela andem e que neles remem,
que os aldeões vejam o rio engrossar o seu leito
na medida proporcional da sua sede
E na medida proporcional da sua sede abram poços,
Traduz pois Ajax ou deus pastoral os meus olhos negros
em poços fundos, para que eles venham com os seus baldes
beber-me um pouco mais
E a sede que sou eu esteja neles e que a procura que é a sede
E és tu e todos, esteja entre nós,
Fontes límpidas de Minos, rio seguro que nós somos
A descer contínuo, no fundo deles põe um mar
Tradu-lo do leite do meu sexo quando me lambes e dás prazer
Ajax ou deus pastoral – tu tradutor que me lambes
Vês agora o mar que criaste do teu desejo
Vês essa onda que te molha os pés, coalha-se em espuma
É só uma onda que ri
um pouco atrás no paredão
num banco atrás dos namorados
alguém me desenhou para velar por ti


                                                              Nuno Brito

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

a porta de Duchamp



uma porta é sempre uma porta
mas por vezes as portas surpreendem
as fechaduras encravam e prendem-se nas ferragens
obstruídas por películas e pequenas escamas, castanhas
a que chamamos ferrugem
a ferrugem também pode ser de uma origem indeterminada
pode ser propositada e fechar a porta
um, dois ou mais de doze anos de forma continuada
preservando um espaço difícil de alcançar
uma miragem, ou uma má imagem
como aconteceu com Duchamp –

as portas existem de uma forma muito própria
por dentro dos bolsos relutantes e inamovíveis
e as portas existem porque se abrem
nas cavidades preenchidas da cabeça
num intangível livro sem páginas e sem letras
que se constrói de pensamentos
e tem paraísos, infernos e deslumbres –

as portas existem como árvores centenárias
como portas de chumbo
ou como portas escancaradas de setas e sangue
portas que se fazem, fecham e destroem
na condição de um beijo ou de um abraço
portas
portas
portas
e chaves sem horas
que se abrem numa música
num rasgo luminoso de um olhar
numa distância imprecisa
feita só de palavras–

josé ferreira 5 de fevereiro 2012

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Fragmento XV - a queimadura suave


Richard Avedon


Languidez:estado subtil do desejo do amor, experimentado na ausência deste, fora de todo o querer-para-si

«...pois desde que te sinto um instante, não consigo articular mais nenhuma palavra: mas a minha língua quebra-se e, sob a minha pele, desliza entretanto um fogo subtil: os meus olhos não têm olhar, as minhas orelhas zumbem, o suor corre-me pelo corpo, um calafrio apodera-se de mim: fico mais verde do que a erva e pouco falta para me sentir morrer.»
...
«...todo o meu eu é retirado, transferido para o objecto amado que fica em seu lugar: a languidez seria esta passagem extenuante da líbido narcisista para a líbido objectiva. ( Desejo do ser ausente e do ser presente: a languidez sobreimprime os dois desejos, coloca a ausência na presença. Daí um estado de contradição: é a "queimadura suave" »

Roland Barthes "Fragmentos do discurso amoroso" Ed. 70,

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Falas comigo ao ritmo da tua respiração - um poema de Gérard de Cortanze




Encho a minha boca
com o teu intenso odor sagrado:
azul de pavões azuis, cordilheira
e búzios volutas de anéis.
Falas comigo
ao ritmo da tua respiração.
Tornas-te exacta,
cascata de mel e de meio-dia.
Respeito a tua atenção.

Gérard de Cortanze "O movimento das coisas", Campo de Letras, 2002

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

a génese, a água e a luz


Giovani Bellini 1505-1510

o verso de que partimos começa em luz.
é errado pensar que só da água a génese
só da água a forma inicial da vida complexa.

a luz na condição humana navega por vezes na suposta leveza
de um mar que se preenche sem surpresas
uma mansidão de azeite ou de mel na vastidão plana do horizonte
mas em grande movimento, desapercebido pela superfície dos ponteiros
embora como o plâncton pela boca aberta dos peixes
bem seguro pelo filtro das guelras –

mas vou ser breve.
não pretendo estender as palavras como bosque sempre ou seara extensa
embora de um lado se ondeie o brilho dos cabelos, um espelho
e de um outro o mistério, o segredo e as sombras, as sombras
e a vida, sim, a vida complexa das células, as mais destemidas –

prometi que não te cansava os olhos
e termino junto às portas da distância
enquanto as mãos se encontram perdidas, e sensíveis, sim
mas perdidas, pousadas sobre a razão como num rugoso muro
um muro que divide –

o verso de que partimos começa em luz
uma luz singular e imbatível, e tantos anos
e tantos anos –

neste mar de chão em que pousamos
como na divisibilidade de água e plâncton
nem tudo passou nem tudo foi filtrado –

permanece o verso de que partimos
a luz
a luz, sim, a luz, e este pó nos lábios –



josé ferreira 2 fevereiro 2012

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

ternura - um poema de Vinicius de Moraes


imagem daqui

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente

E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não trai o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o
[olhar extático da aurora.

Vinicius de Moraes lido aqui

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

uma carta a Leonardo



admiro a tua resistência ao frio e conheço um pouco da tua vida.
o Canadá sobrevive na pele de um urso branco, a cor do teu cabelo
mas a voz não perdeu a força, talvez menos límpida nas cordas tangidas
uma garganta um pouco mais gasta, de um violoncelo ao contrabaixo
mas profunda, um veludo, uma manta por sobre o silêncio
de onde surgem outros e outras que fazem coro, ao lado e por cima
de muitos burning violin –

viajas nas Babilónias modernas e nas montanhas cálidas e mudas
pelas tuas ondas e longe de Suzana
embora a ames como nunca.
não consegues apreender este mundo
falta-lhe o feminino, a longitude solta dos cabelos
mais e mais, a parte sensível –

por vezes pareces triste.
mas outras em brasa abrindo os braços
na forma de um corpo luminoso
de uma lava imensa, acesa
e ao mesmo tempo com o musgo nos olhos
em milhares de pontos verdes –

sabes Leonardo há um charme completo que te veste o casaco
no entanto descubro um barco, uma segunda pele, uma barba rala
um cabelo despenteado num palco de 60
e acho possível, porque sinto
que houve o desconforto, o imprevisível
partidas e chegadas
portas e janelas, a ventania branca
o hibernar
e o descanso do urso em placas de oceano
para de novo mergulhar no azul das águas
pelo espaço do plâncton, ágil como os golfinhos –

a mão desliza-te no bolso como um gato que procura um peixe
uma magia e o corpo inclina por partes:
de um lado a voz projectada, profunda
e de um outro a outra mão, cheia de rugas, esticada
separando o ar e ouvindo o vento
esse teu amigo que te sopra versos pelos ouvidos
como se os teus tímpanos fossem ramos de uma árvore
grossa de raízes, e escutassem uivos, lamentos
mas também vozes femininas e a suavidade dos carinhos –

o chapéu é um adereço, por vezes também penso nele
não no mesmo formato, menos formal, já não uso a gravata –
fica-te bem e pousa-te no tempo.
prolonga e afia-te o rosto e no negro tolda um contrário
e abre um novo sabor de mosto, uma delicadeza, um apreço
um afecto quando o levantas e juntas as mãos e os olhos
os olhos soberanos, abrindo o externo num golpe extenso
e navegando por entre os seios
navegando, dentro de naked gente –

perdeste esse ar selvagem de adolescente, do
don’t care about all the man that look the same
only with love I can be a slave –

mas acredito que ainda pensas o mesmo
não pareces perdido, há uma tranquilidade infinita;
cresci contigo, e hoje escuto de um outro modo a circunstância aflita -

quando se abrem muitas brechas e se escoam alguns rios
encontro os teus poemas como ombro e como jangada de troncos
qualquer que seja o caminho, mar ou cidade de asfalto sombrio
e subo acima, no ar, acima, acima
na pele de um imitador que descobre as palavras de um mestre.

diriges pelo leme de baladas múltiplas
e conduzes com a compreensão dos anos, como só tu sabes
pelo intervalo escondido das melodias;
confundo os nomes, folk com um pouco de indie?

Leonardo tu és um artista, constróis poemas
notas e claves numa pauta de letras
apontas as chaves dentro de muitas cabeças
para abrir os quartos da mudança
da casa flexível
por vezes como cabana, por vezes como abrigo
e por vezes
como uma margem de lírios, lily
e como um rio
inesgotável e fluido -



josé ferreira 31 janeiro 2012

terça-feira, 31 de janeiro de 2012


talvez os polegares não desviem as águas
dobradas pelas raízes 
em conversas a fio
pensava nela a regressar das raízes pelas mãos
de como se lembra de toda a água que já foi
e se ouve ainda o fechar da maré 
em cada rotação dos seus olhos
ouvia repetidamente
divide a luz se te atreves
e talvez aí a sombra
cada célula 
grávida de um segredo:
não espero da água 
o que espero de mim
que no código de vez em quando 
tenha sobrado um verso:
pode levar-se uma pergunta ao infinito
ou dar-lhe um beijo

a ideia antiga (Old Idea)



.........The troubles came I saved what I could save
.....a thread of light a particle a wave
L.Cohen

recupero um poema e deito-me sobre ele
como se falasse e tivesse mãos, dedos, cabelos longos
a ideia antiga –

um poema de mulher
a mulher
de olhos ternos, eternos -

em Abril corriam os rios pelos sinais das nuvens
a janela estava fechada e os vidros tracejados de gotas;
escrevi-o como se cada palavra fosse um pedaço de roupa
a cair, a desnudar o corpo, o teu, o meu, ao mesmo tempo
e à distância:

- serás sempre, disse-o. não chovia -

reli-o na última hora de um dia.
Janeiro, não estava frio -
caiu-me no colo como Freud, o gato branco
de olho azul, não na cor de safira mas mais claro
encolhido na curva quieta da cauda e ronronando
como um motor de barco abrindo as águas e olhando o rio -
caiu-me no colo como se fosse uma canção de gôndola
um sole mio num canal de Veneza; um remo longo
uma camisola de algodão, às riscas -
caiu-me no colo e pronto, o inevitável morno rodopio
de um crepúsculo laranja macio e persistente
que pode ser miragem, pode ser desvario
pode ser tudo porque sentido -

é curioso observar a ladeira do tempo
o escorregar nas folhas dos versos como se de um Outono
e o ultrapassar dos frios polares conservando o fluir do pêndulo –

batem intensamente os batimentos de fogo
e mergulho no acaso do poema
a ideia antiga
para sentir o presente e o futuro

como um rumo

e um destino -

josé ferreira

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

sei que te cansas quando pára o vento


imagem daqui

sei que te cansas quando pára o vento
quando cessa o movimento e pára o dia
sei que te cansas quando pára a cor
quando se perde o girassol
e os campos são nítidos de vazio –

os círculos não podem perder a velocidade, dizes
não podem perder a tontura centrífuga, dizes
precisam do arco das penas e do ar de suporte, dizes
a subida a um lugar de onde se vê tudo
sem chão e sem a gravidade do cinzento
o insustentável desvanecimento
o azul é o caminho –

o lugar é único e moves-te como ninfa;
um lugar sem cartografias, de nuvens sem linhas
um algodão suspenso a meio caminho
soprado pelo vento para cima
sempre para cima –

e depois a promessa e o eterno afastamento;
um leão de ausência, a selva no vazio -

como nos noves meses de um parto
assim não se explica o rosto, a cor dos olhos
a inclinação do nariz.
como no parto antes de ser
o rosto surge como inanimado, de cera, resistindo à água
e não cresce, não abre os lábios, não faz nascer a palavra.

não temos falado é certo e hesitas decidididamente, digo –

o momento, a hora marcada, hás-de ouvir-lhe os passos, dizes.
os vidros, a janela, o corpo deitado numa cama desarrumada
e os gatos, sempre os gatos, de olhos esticados
talvez um dia, dizes –


não é possível deduzir e não se explica o azul
o intocável céu e o mar que parece impossível
o horizonte longínquo e o equador de linha invisível
a sedutora mania que se afirma
o simbolismo de um gesto, o improviso –

não é possível deduzir não se explica
porque apertamos cordas de nós que parecem infalíveis
e porque se desprendem.
qual o momento definido?

será que existe o fogo que escreves como clic?
não eternizes, digo.
a eternidade pode não existir.
não coloques o éter nos sentidos
e ilumina
o insustentável azul
e a nitidez do caminho -

josé ferreira 29 janeiro 2012