segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

versão melhorada de poema com início promissor

humm!!
come-me!!
sei ser irresistível
no piscar dos teus olhos
espelho de luz vitralizada
cílios redondos
longos
tremeluzem
advento da sensação
humm!!
anda, sim...
trinca-me!!
retorno impossível
não me resistas,
toca-me com veludo de língua
devagar...mais devagar
inspira
expira
não sejas gulosa
take your time
sente o esplendor da doçura
no céu palatino
envolve-me no macio manto vermelho fogo
boca carnuda em botão de rosa.
fecha os olhos
fechado o semblante
em prazer egoísta
dentro rebentam pequenos terminais
explosões de gozo luz
fogo d'artifício em faíscas de prazer.
e eis que chega...orgasmo piramidal dos sentidos
querida! mais um quadradinho de chocolate?

claraoliveira12.01.14

domingo, 15 de janeiro de 2012

Natura

Quebraria algo e forçosamente,
fecharem olhos é até à mínima distância
sobre mar inteiro, sobre porto.

Teimosa ideia enquanto imagem,
mar, a ter o que não ter,
hastear vela, ali, onde fica.

Raio de limite ainda líquido
quase chega aos pés, no entanto,
brisa pode ou cheiro ou música
e o anúncio quando exaustos!

A seguir à areia, semáforo em fogo,
evasivo cansaço torna para som,
acende mecha, tudo por demais.

Nós, já um bocadinho mistos,
à força sobrevoar estrada,
praia, água, perpendicularmente.

Também voltar nas serras, vales,
e mais, repondo o toque,
visão que abrindo não deixe:
sem casa, sem verde azul mar!

sábado, 14 de janeiro de 2012

Porto After Nine – a história de um cabelo e uma caixa de chocolates



costumava escrever como se não houvesse tempo
como se fosse morrer amanhã
e os versos penassem pela vida fora
sem rumo e sem horas, invisíveis e sem voz –

um dia os olhos apagaram-se subitamente e ficaram cinzentos.
mal conseguia vislumbrar as palavras antecedentes.
a mente espreguiçava-se com braços de borracha,
não terminava nem resplandecia.
as mãos ficavam escorregadias como patas de rãs
e deixavam fugir letras fundamentais,
provocavam o intervalo e sucessivos lapsos.
invadido pelo medo saltou para as ruas da cidade
como um tonto, em confronto com ausências, uma alma angustiada -

estavam esgotadas todas as palavras leves como penas
sobravam muitas palavras pesadas, junto ao chão
como os pós negros de Alexandria, concluía.
parou junto a uma esquina de semáforo
ao cair de um amarelo e depois um vermelho.
em frente, uma loja em cor de fim de tarde
parada como um cotovelo, sem mesa, num rosto de casas.
compraria chocolates, a caixa verde e pequena.

não era a primeira vez, via-se pela pressa da porta que rodava.
sorriu-lhe como uma aurora nórdica, matutina, mágica.
o cabelo era farto e arranjado, a pele fina, clara.
sorriu-lhe na mão branca
sorriu-lhe no gesto ao embalar de cuidados,
sorriu-lhe no gesto de esticar a fita como se fosse um penteado.
não era a primeira vez que comprava chocolates
mas pela primeira vez, talvez premonizado,
um cabelo , um sinal, uma recordação.
talvez mais, uma memória que observava –

correu para casa, para junto da janela de vidros quadrados.
não podia evitar um olhar mais demorado, desapertou o adesivo,
com cuidado, e retirou a caixa, com cuidado,
mantendo a respectiva forma enquanto observava.
um único cabelo, preso no papel vazio
sem a caixa, de onde retirava agora a primeira fatia de chocolate
que derretia doce, até adquirir aquele sabor ácido, fresco,
um condimento que lhe elevava os olhos longe do cimento
e pousava na mente uma praia distante de há muito tempo -

era a forma adequada, um paralelepípedo rectângulo,
não um cubo rodeado de quadrados,
mas com um cabelo que teimava, parado.

lentamente o chocolate envolvia o palato,
perdia a consistência, envolvia-se e enrolava-se, desenrolava-se e demorava-se
como uma lâmpada de economia que apenas difundisse uma certa penumbra
de um certo fim de tarde, depois de uma certa maré vaza
e da compra de uma caixa de chocolate.

a televisão plasmática era um espaço negro, um silêncio aberto, não dizia nada.
um livro mostrava letras em itálico,
palavras, frases, pontos finais, parágrafos.
talvez o livro tivesse também alguma alma,
talvez tivesse um cabelo na página centro e trinta ou cento e trinta e quatro,
talvez incorporasse também um sinal, não descodificado, um segredo.
virou, folheou e rodeou o livro com olhos de águia, afilados perante o pó,
o traço, o pormenor de uma linha e desistiu ao fim de dez minutos. pousou o livro.
permaneceu quieto, fechado, como um mocho no cimo de uma árvore;
uma capa negra, sem letras douradas –

um ar interior de uma anterior caixa de chocolate
mantinha a forma sólida de um afecto
- um rosto, um ombro, lábios sobre lábios -
um único cabelo, um cabelo adorado –

os dedos macios, suavemente, deslizaram dentro da caixa
e retirou uma outra fatia fina, doce de início,
e esperou pelo frio, de olhos fechados –

subitamente achou-se doente.
procurou o termómetro, os comprimidos do resfriado.
com uma mão sobre a cabeça correu para a chaleira.
um chá de limão, não tinha, talvez cidreira –

esperou um vapor sem assobio,
embora lhe recordasse Tex Avery, comboios e filmes.
abriu a asa esquerda porque lhe dava mais jeito.
o termómetro, aquele pedaço de plástico flácido e electrónico
apontava a temperatura habitual, sem alarme. acalmou-se.
dentro da chaleira a água tremia.
trinta e sete depois das sete observou a rua escura, passou um autocarro.
o vapor formava gotículas no relógio por cima do frigorífico. não havia perigo.

como um balão sem fita, percorreu os outros cantos da casa e esvaziou a ansiedade.
riu-se sozinho naquele espectáculo de folhear o livro,
talvez um corvo, a torre de um castelo, anabell lee, vozes, ecos,
porque não um copo de vinho?
ria-se, devia estar completamente louco
e sentia-se ridículo, como um burro que urrasse sozinho
sem que ninguém ligasse
ou como se alguém risse daquele rir esganiçado;
dos lábios trémulos, dos olhos grandes e o pescoço a destacar-se –

basta!
abriu de novo a caixa e procurou no envólucro,
naquela bolsa preta de enfeites dourados, mais um pouco de chocolate,
a derreter, a perder de doce
a demonstrar que o fresco era um agriveludo endeusado.
parou de rir. sentou-se na mesa. os olhos brilhavam como planetas cintilantes
imediatamente acendidos por magia, como se fossem estrelas em noite limpa –


recomeçava a escrever como se não houvesse inverno.
como se usasse luvas de lã de dedos cortados
e um barrete de algodão com berloque longo sobre o ombro.
como se usasse um pijama de riscas azuis convenientes
e não houvesse guardas naquela prisão,
apenas um ligeiro cansaço de mão que desabava a caneta,
por momentos, enquanto um néctar reaquecia as palavras e o poema
e recomeçava furiosamente, na mesma linha, pouco depois o ponto,
mais um pouco, um ponto e vírgula
e uma outra linha, retomando a ideia e colocando-a em Marte,
de cor verde, surpresa e inusitada.

recomeçava a escrever como se fosse um filósofo
e procurasse a verdade, sabendo-a inalcançável
tentando perceber o quotidiano e o complexo, distanciando-se,
alargando o leque, observando com um binóculo nebulosas saltitantes,
interpretando estupefacto a cerimónia das lágrimas
na coreia mais a norte, mais próxima da china:
o que diria Átila de tanta lágrima,
ele que sobreviveu ao desengano, nas batalhas
e que provavelmente agradeceu não saber a verdade
antes da espada e de um golpe único, directo, acertado?

recomeçava a escrever como se tivesse vinte e três anos
nas sombras de um beliche de onde surgiam livros misteriosos,
gabardines de detectives, comboios sud express e um apito longo
uma fumarada de fornalha nos braços vigorosos, queimando carvão
e uma locomotiva de nariz, nos carris, correndo mundo
- um dia vou a Paris e a Nova Iorque, ao Quebeque dos índios -
um dia vou ser feliz -
um dia vou ser grande com as mãos de gigante e os dedos compridos
e os pés como plantas, cheios de raízes, habituados a muitos caminhos:
penhascos altos, pernas de rios, calças de margens, verdes ainda
ou areias mais leves e mais macias
e fragas fugidias, as mais difíceis -
um dia vou ser grande e escrever com muitas letras,
com muitas ideias no umbigo,
vou descobrir umas asas para um ano inteiro –

recomeçava a escrever não com a fúria e não com o medo
mas com a tranquila ternura de um olhar sensitivo.
um ligeiro abrir de lábios mostrava um sorriso fácil,
era quase fim de ano, e era noite e estava sem peso.
bebericava o chá quente, saboreava o chocolate.
passava das nove, não sentia fome.
as palavras surgiam tão fluídas como folhas de algas,
num mar tão próximo.
era fim de ano,
tudo recomeçava para ser diferente –


como aquele único cabelo
da esquerda para a direita, da direita para a esquerda,
como se fosse uma canção ténue em brisas de leveza
como se fosse um barco
num rio imaginário -

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Indo eu

sabes lá
ontem ali em s.bento
andava eu descalça pela estação
vi uma patela e meto-lha a pata
e assim que me curvo, a olhar para o chão
uma cega mete-me a bengala no joanete
e ai meu amor, que dor!

dez pulos a pé coxinho
e lá me sentei num banquinho

e sabes lá, meu amor
a patela nem era chocolate
aquilo era uma sola de borracha

fiquei ali sentada
e o tipo gordo da cicatriz,
o da tatuagem, esquisito
mete conversa:

Englise? Francé?
Dancé?
indeu indo eu
a caminho debeseu
indeu indo eu
a caminho debeseu

e antes do: ai jesus que lá vou eu
lavanta-se, dá duas voltas
e cai morto

e vem a policia
pergunta o que foi
e que eu não posso andar descalça
e eu digo que é do joanete
e levo um raspanete
e raspo-me dali

e vou a subir a 31
vem o gajo dos relógios:
Chocolate? Chocolate?
E comprei

desculpa amor
depois do azar, não pensei...
e tinha o pé a doer
devolvo-te os 20 p´ra semana
a sério!
o gajo já não me engana

Pink Cigarette

                                          
                                                                       À Anezinha

                                                                      

Quero impregnar-me de gente, de paisagem portuguesa
 Luiz Pacheco


Nesta terra as mulheres crescem à sombra,
como os cogumelos, o musgo ou a razão,
em ponto de cruz a saudade vai sendo domesticada,
o mais honesto  e obediente animal  puxado por uma trela dourada
 feita de medo e outras coisas que ligam
o seu viso tem a expressão de todos
e é nestas caras quentinhas que descem ainda as lágrimas de Eros
mudando por dentro o nome do continente, outra cara, possível Começo
sem nome, sem coisa nenhuma, é às vezes o sal
que cai destas caras que tempera o prato, porque todo o sal não chega
para compensar o amargo que veio morar para a boca
cansada de saber que a linguagem não chega
porque eles fugiram, cada um em seu barco:
os filhos


Nesta terra as mulheres crescem à sombra
E têm sombra nos olhos, que o eco veio pintar
a lápis de cor por cima da paisagem humana
que se aloja debaixo de tudo o que a alma espelha,
veias, artérias, vasos, curvas fininhas que o tempo vai moldando
A anatomia rasgando o cosmos à escala humana, soprando-o para longe
Transbordo que a sede cria,
E enquanto as filhas vão ao poço, sol, risos, perfeita anatomia
As sombras crescem. Pequeninas rendinhas em baús
Terços, santinhos, livros de areia, um dente de leite
o fio de ouro a que está ligado,
e são de sombra os seus gestos porque quando se movem
são os braços de outros que ganham vida e retiram à paisagem
a natureza para pôr nela a arte, a civilização, a linguagem e a vitória
a mais alemã invenção,
e o seu sorriso é uma espécie de Deus
e quanto mais se enrola na paisagem mais deus é
Até parece que a razão dorme dentro delas,
e a razão dorme dentro delas –  o capitão do navio dá-lhes duas opções
Ou embarcam no barco do amor ou embarcam no barco do amor
Mas vão ter ainda de o Criar para o o atravessar, e partir as árvores, da madeira fazer o barco e calafetá-lo e dar-lhe um nome, e baptizá-lo, porque tudo aquilo em que se toca também se é
A sede vai-lhes toda para os olhos,
Urgente era que as sombras saíssem, como o fumo adocicado dos pulmões
Para dentro doutros pulmões.


Estas mulheres seriam modelos se as estátuas de sono não dormissem dentro delas
Se não fossem só alma,
O planeta chama-as do centro, as rugas vão rasgando a sua pele
Mas elas riem pouco,
E há poucos jovens
Estão todos no meio da Europa, Lisboa, Porto
Em Lisboa está a arte e no Porto está a arte
E no Couço está a arte e em todo o lado está a arte
Se não fossem só alma teriam visto mais vezes o mar
Não são filhas da revolução nem são filhas de ninguém
os seus filhos estão todos na taberna e são mais  velhos que elas
À noite estas sombras limpam com um guardanapo o beiço dos velhos
Porque desce-lhes azeite pelos queixos, e esses guardanapos podiam ser a página 100
de uma História Contemporânea, edição de luxo, a meio da investigação os eruditos
folheavam o guardanapo em Lisboa onde está a arte ou no Porto onde está a arte.

Exportámos marmelada para a Austrália ou para os armazéns de retalho da capital
que importa se toda a geografia é interior? - Enquanto dormem até de deus são mães
E entre as suas pernas as almofadas (penas de pato, segredos ou outros novelos).


As suas casas são feitas de queda, de verticais os muros ganham contornos,
a mais cara renda que são os dias a vir
formas breves, novas formas, dias que incham
 parecem areia soprada pelo fogo
com que se  faz o vidro e se embacia o espelho
 um dia também ele será inventado pelas mãos quentes de um artesão etrusco
antes mesmo de haver as moedas para o comprar
e que levarão os nossos filhos para longe,
Para o Canadá, Luxemburgo, Cantões,
nos navios, nas bagagens, nos aviões, todos com o seu preço
calafetado por dentro e por fora, impregnado na paisagem,
claves de sol pontilham a paisagem, por cima do trigo, a picotado:

As sombras destas mulheres são às vezes música, entram nos búzios
Não só por nos lembrarem que elas provêm do sol,
como tudo o que parte, mas por nos erguerem como o caule de um girassol
a sua voz é a sua seiva, está dentro da nossa espinha, é o nosso equilíbrio
uma balança onde se pesam as palavras que ficaram por dizer


Futura-te*
Também a rede quer dormir mas não é da natureza das redes dormirem
e a rede pede que lhe cortem as pontas, que tragam uma tesoura
E alguém corta as pontas, mas as pontas crescem com mais força, como uma estrela-do-mar, a tesoura é também informação e acrescenta-se à rede, tudo é soma nesta nova anatomia
Coisas que entram
Abre as portas, vem muita gente atrás e todos querem entrar em ti,
Entrar é ser gente, crescer é ser rede,
homens e redes nunca dormem verdadeiramente,


Em Manchester as fábricas enchem-se de música e no Couço
cresce o trigo dos latifúndios e todos estes homens precisam
de equadores ao mesmo tempo que precisam de pólos
E todas estas mulheres precisam um pouco mais de calor
Não só para deixarem de ser sombras
mas para saberem que de se descarrilarem se fazem novos caminhos
Nas carruagens vai este gado
Já não de ferro nem de vento são os caminhos em que é feita a viagem
Sem pontes de aço, betão ou de cimento, só ultrapassagem

No Portugal dos pequeninos os filhos que se vão perder em todos os continentes
das suas perdas novos filhos nascerão: Filhos da revolução. Qual?
Na natureza nada se apaga
Na natureza não existe amanhã
Mas o homem põe a manta da civilização por cima da natureza
e por baixo da manta fica o escuro e alguns animais sem expressão
às vezes fica também o riso,
a razão fica a sobrevoar a manta
e ficam mulheres debaixo da manta
danças primitivas, ecos, sonhos,
capitães de mar nenhum ficam também
debaixo da manta a razão de ser da literatura,
definir poesia é dar as mãos
Só a gente e paisagem não desce para baixo da manta da razão
E as mãos aquecem agora mais


Nuno Brito                                              
 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

o livro - segundo Jorge Luís Borges


Martins de Barros

Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.
Em «César e Cleópatra» de Shaw, quando se fala da biblioteca de Alexandria, diz-se que ela é a memória da humanidade. O livro é isso e também algo mais: a imaginação. Pois o que é o nosso passado senão uma série de sonhos? Que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Tal é a função que o livro realiza.
(...) Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que transcorreu até nós desde o dia em que ele foi escrito. Por isso convém manter o culto do livro. O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos não estar de acordo com as opiniões do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, não para ser objecto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria.


Jorge Luís Borges, in 'Ensaio: O Livro'
lido aqui

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

brumas e pinturas diferentes por sobre a nuvem negra


fotografia do filme gato branco, gato preto de Emir Kusturica

Entre o lado esquerdo e aquele mais absorto
oscilam raios breves
quando me olhas de novo no rumo dos meus versos,
as palavras simples de que me visto quando amanheço,
como a onda revolta e um mar de dedos brancos,
passeando por entre brumas e pinturas tão diferentes -

Não uso a superstição como nuvem negra,
que me condene em penitências e falsos juízos de demónios.
uso tudo, como uma grande lente sobre os significados da pele, do corpo,
e ouso tudo, o sopro, o sol e a chuva sobre essa nuvem negra,
a nuvem negra que escurece o azul e o vermelho dos lábios.

Falo-te na distância dos próximos,num futuro predominante
e na predominante esperança de sempre e sempre
por sobre um universo de segundos renitentes.

e falo.
falo por um mundo de palavras
por um mundo eterno
quase sempre imenso, de muitas chamas,
daquelas que queimam como mãos,
dentro da alma e um fumo de incenso –

E abro-te o meu peito como um livro novo
onde os gatos me visitam e se deitam,
naquele som de agradecimento, de afecto branco
enrolados no seu corpo,
de braços cruzados
e olhos de pestanas -

josé ferreira 10 janeiro 2010

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

não sei o que é conhecer-me




não sei o que é conhecer-me.
não vejo para dentro.
não acredito que eu exista por detrás de mim.

Alberto Caeiro

domingo, 8 de janeiro de 2012

Fragmento XIII - «e a noite iluminava a noite»


Cindy Sherman

noite. Todo o estado que suscita no sujeito a metáfora da obscuridade (afectiva, intelectiva, existencial) em que ele se debate ou tranquiliza


1. Atravesso sucessivamente duas noites, uma boa e outra má. Sirvo-me por assim dizer, de um distinção mística: estar a oscuras (estar as escuras) pode produzir-se sem que para isso haja motivo, porque privado da luz das causas e dos fins; estar en tinieblas (estar nas trevas) acontece-me sempre que fico cego pela ligação às coisas e pela desordem que daí resulta.
Na maior parte das vezes, estou na própria obscuridade do meu desejo; não sei o que ele quer, o próprio bem é para mim um mal, tudo ressoa, vivo momento a momento: estoy en tinieblas. Mas, também por vezes, é uma outra noite: sozinho, em atitude de meditação ( é talvez um papel que me atribuo) penso calmamente no outro, tal como ele é; suspendo toda a interpretação; entro na noite do não sentido; o desejo continua a vibrar ( a obscuridade é translúcida ), mas nada quero agarrar; é a noite do não lucro, do dispêndio subtil, invisível: estoy a escuras: estou ali sentado simplesmente e calmamente no interior negro do amor.

Roland Barthes " Fragmentos de um discurso amoroso "

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

o mar espelha-se nos olhos do céu ou da noite . um poema de Paul Eluard


Man Ray

...

E a terra cobriu-se
Da tua carne clara e eu senti-me leve
Vieste a solidão fora vencida
Eu tinha um guia na terra
Sabia conduzir-me sabia-me desmedido
Avançava ganhava espaço e tempo
Caminhava para ti dirigia-me incessantemente
para a luz

A vida tinha um corpo a esperança desfraldava

O sono transbordava de sonhos e a noite
Prometia à aurora olhares confiantes
Os raios dos teus braços entreabriam o nevoeiro
A tua boca estava húmida dos primeiros orvalhos
O repouso deslumbrado substituía a fadiga
E eu adorava o amor como nos meus primeiros
tempos

Os campos estão lavrados as fábricas irradiam
E o trigo faz o seu ninho numa vaga enorme
A seara e a vindima têm inúmeras testemunhas
Nada é simples nem singular
O mar espelha-se nos olhos do céu ou da noite

A floresta dá segurança às árvores
E as paredes das casas têm uma pele comum
E as estradas cruzam-se sempre
Os homens nasceram para se entenderem
Para se compreenderem para se amarem
Têm filhos que se tornarão pais dos homens
Têm filhos sem eira nem beira
Que hão-de reinventar o fogo
Que hão-de reinventar os homens
E a natureza e a sua pátria
A de todos os homens
A de todos os tempos.

Paul Eluard, "Algumas das Palavras",Trad. António Ramos Rosa, Dom Quixote,1977

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012


sobe a custo um corpo 
na minha rua
a acrescentar curva à luz
só assim sabe que é corpo 
com ele cruza-se um cesto vazio à cabeça 
de peso igual ao corpo que sobe
e é este o único cruzamento
ao fundo da rua 
o gesto curva um pouco mais
ao pousar do cesto
entre o batimento de pernas e asas 
que passam e nunca se cruzam
o infinitésimo pousar
de morar

poema sem nome




talvez a pura razão seja um mito
e as manhãs sempre seguidas;
justas e perfeitas porque se movem nos mesmos sítios.
as manhãs não pedem para nascer
não se despedem da volúpia das noites
das suas inconstâncias da sua indeterminada fantasia –
as manhãs são a sequência imperfeita
quando a claridade não ilumina
quando a lua surge e não apaga o dia –

portanto falo-te da noite que conheço bem.
esse lugar que me inclina como um vento
ora a norte ora a este, ora ao lugar mais esquerdo que conheço
um universo sem frente, de reversos
na convicta linearidade de nunca respeitar as linhas
de não seguir caminhos rectos
de inundar as margens e de ser rebelde como os rios;
estas frases gastas de que te ris quando as repito
e em que não acreditas -

portanto falo-te de Barthes, Cohen e Magritte
que sonham ou tentam compreender as pedras no caminho
de uma forma vasta; com o simbólico dos signos
com a milionésima profundidade do beijo
com o plausível da realidade ser
como um cachimbo -

no primeiro dia do ano o relógio bateu o meio-dia
numa esquina de Santa Catarina.
um sol breve afastou as nuvens.
a maior parte das pessoas dormiam.

era uma manhã sem verbo. alguns turistas.
era uma manhã daquelas sem razão.
como te falei no princípio -

josé ferreira 4 janeiro 2012

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Poema 1.

Qual o peso da loucura
Sua gramagem ou cor?
Será leve ou muito dura
Cor de dor ou cor de amor?
Terá lucidez em si
A raiar a escuridão?
Será o sol disfarçado
De uma escura imensidão?
Será nossa ou desse outro
Que nos morde o coração?
Nos oprime ou ignora
Sem afecto e sem razão.
Qual a forma da loucura
Será redonda ou esquinada?
Com lados bem angulosos
A afastar normalidade
Coisa de seres mais formosos
Qual o peso do normal
Sua gramagem ou cor?
Será de um peso ideal
Todo branco e sem sabor?
Terá lucidez em si
Tanta luz, sol tão pleno?
Será o caos disfarçado
De um mais morno e quente inferno?
Será nossa ou desse outro
Que nos exige razão?
Nos oprime ou ignora
Sem afecto ou coração.
Qual a forma do normal?
Será uma esfera perfeita?
Sem arestas, nem paragens
Tão fechada e inquebrável
Que se torna uma desfeita!
Dêem-me a loucura já
Que não há normalidade
Antes riso, choro e cor
Que a ténue salubridade
Da normal mármore indolor.

Liliana C.C.

a amizade além de contagiosa é completamente incurável - um poema de Vinicius de Moraes


Paul Gauguin

Eu talvez não tenha muitos amigos.
Mas os que eu tenho são os melhores que alguém poderia ter.
Além disso tenho sorte, porque os amigos que tenho têm muitos
amigos e os dividem comigo.
Assim o meu número de amigos sempre aumenta, já que eu sempre ganho amigos dos meus amigos.
Foi assim aqui, uns eu ganhei há tempos, outros são mais recentes.
E quem os deu não ficou sem eles, pois a amizade pode sempre ser
dividida sem nunca diminuir ou enfraquecer.
Pelo contrário, quanto mais dividida, mais ela aumenta.
E há mais vantagens na amizade: é uma das poucas coisas que não
custam nada e valem muito, embora não sejam vendáveis.
Entretanto, é preciso que se cuide um pouco das amizades. As mais recentes, por exemplo, precisam de alguns cuidados...Poucos, é verdade, mas indispensáveis.
É preciso mantê-las com um certo calor, falar com elas mais amiúde e no início, com muito jeito.
Com o tempo elas crescem, ficam fortes e até suportam alguns trancos.

Prezo muito minhas amizades e reservo sempre um canto no
meu peito para elas.
E, sempre que surge a ocasião, também não perco a oportunidade de dar um amigo a um amigo, da mesma forma que eu ganhei.
E não adiantam as despedidas, de um amigo ninguém se livra fácil.
A amizade além de contagiosa é totalmente incurável.

Vinicius de Moraes

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

a primeira lua do ano


Gerhard Richter

janeiro começa sempre parado, move-se lento,
de portas fechadas –
na primeira manhã rompeu o sol ao meio-dia,
iluminou as arestas brancas de um meteorito na Boavista –
lembro-me da escolha de um concerto faz dois anos
ou um, já não fixo, há sempre nuvens que atrapalham
e os corredores da cabeça são de uma casa cheia de pressas,
guardam muitas coisas em quartos escuros
que se tornam claros só muito mais tarde –

inicia-se a cronologia.
já soam as pancadas de dedos nas letras
como se fossem de tosco e bruto barro,
tornando-as redondas, mostrando-lhe os braços
e a cor azul dos olhos, de que se alimentam –

escrevo-te,
o primeiro,
o primeiro poema do ano, na primeira luz da primeira lua,
nos ponteiros tardios da abundância com que te penso,
ao batimento preciso do metrónomo cardíaco;
ritmo alto, pulsação ao segundo,
muitos, muitos, que nunca são os últimos
e se renovam de formas muito brancas, em espumas
escoando lentamente com o ruído das ondas –

bem sei que os dias são carregados de nevoeiros
e os relâmpagos são prometidos pelos deuses dos metais brilhantes,
mas não sei a que propósito lembro-me da rosa de hiroshima
e daqueles cálculos que erram por milímetros, ou metros
e cientificamente lançam-nos no precipício –

não me tomes por lunático nem por bicho do mato,
os dias são sempre vestidos, é difícil penetrar essências,
ninguém sabe a verdade –

sem o dizer exactamente, alguém me disse:
não tinha que ser assim, fiz sempre de modo diferente
não foi a máxima derrota nem o estandarte da vitória
luto com as circunstâncias e acredito nas passadas da alma,
conforme os dias -

no primeiro poema que te escrevo não consigo dizer tudo
e é sempre muito pouco daquilo que penso, já o disse.
é como se na inconsciência que me persegue e habita
guardasse as metáforas como um sopro de vento,
para ser um sopro de surpresa,
desde o primeiro dia

e durante o ano inteiro
quando apareça -

josé ferreira 1 Janeiro 2012