quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

o livro - segundo Jorge Luís Borges


Martins de Barros

Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.
Em «César e Cleópatra» de Shaw, quando se fala da biblioteca de Alexandria, diz-se que ela é a memória da humanidade. O livro é isso e também algo mais: a imaginação. Pois o que é o nosso passado senão uma série de sonhos? Que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Tal é a função que o livro realiza.
(...) Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que transcorreu até nós desde o dia em que ele foi escrito. Por isso convém manter o culto do livro. O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos não estar de acordo com as opiniões do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, não para ser objecto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria.


Jorge Luís Borges, in 'Ensaio: O Livro'
lido aqui

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

brumas e pinturas diferentes por sobre a nuvem negra


fotografia do filme gato branco, gato preto de Emir Kusturica

Entre o lado esquerdo e aquele mais absorto
oscilam raios breves
quando me olhas de novo no rumo dos meus versos,
as palavras simples de que me visto quando amanheço,
como a onda revolta e um mar de dedos brancos,
passeando por entre brumas e pinturas tão diferentes -

Não uso a superstição como nuvem negra,
que me condene em penitências e falsos juízos de demónios.
uso tudo, como uma grande lente sobre os significados da pele, do corpo,
e ouso tudo, o sopro, o sol e a chuva sobre essa nuvem negra,
a nuvem negra que escurece o azul e o vermelho dos lábios.

Falo-te na distância dos próximos,num futuro predominante
e na predominante esperança de sempre e sempre
por sobre um universo de segundos renitentes.

e falo.
falo por um mundo de palavras
por um mundo eterno
quase sempre imenso, de muitas chamas,
daquelas que queimam como mãos,
dentro da alma e um fumo de incenso –

E abro-te o meu peito como um livro novo
onde os gatos me visitam e se deitam,
naquele som de agradecimento, de afecto branco
enrolados no seu corpo,
de braços cruzados
e olhos de pestanas -

josé ferreira 10 janeiro 2010

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

não sei o que é conhecer-me




não sei o que é conhecer-me.
não vejo para dentro.
não acredito que eu exista por detrás de mim.

Alberto Caeiro

domingo, 8 de janeiro de 2012

Fragmento XIII - «e a noite iluminava a noite»


Cindy Sherman

noite. Todo o estado que suscita no sujeito a metáfora da obscuridade (afectiva, intelectiva, existencial) em que ele se debate ou tranquiliza


1. Atravesso sucessivamente duas noites, uma boa e outra má. Sirvo-me por assim dizer, de um distinção mística: estar a oscuras (estar as escuras) pode produzir-se sem que para isso haja motivo, porque privado da luz das causas e dos fins; estar en tinieblas (estar nas trevas) acontece-me sempre que fico cego pela ligação às coisas e pela desordem que daí resulta.
Na maior parte das vezes, estou na própria obscuridade do meu desejo; não sei o que ele quer, o próprio bem é para mim um mal, tudo ressoa, vivo momento a momento: estoy en tinieblas. Mas, também por vezes, é uma outra noite: sozinho, em atitude de meditação ( é talvez um papel que me atribuo) penso calmamente no outro, tal como ele é; suspendo toda a interpretação; entro na noite do não sentido; o desejo continua a vibrar ( a obscuridade é translúcida ), mas nada quero agarrar; é a noite do não lucro, do dispêndio subtil, invisível: estoy a escuras: estou ali sentado simplesmente e calmamente no interior negro do amor.

Roland Barthes " Fragmentos de um discurso amoroso "

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

o mar espelha-se nos olhos do céu ou da noite . um poema de Paul Eluard


Man Ray

...

E a terra cobriu-se
Da tua carne clara e eu senti-me leve
Vieste a solidão fora vencida
Eu tinha um guia na terra
Sabia conduzir-me sabia-me desmedido
Avançava ganhava espaço e tempo
Caminhava para ti dirigia-me incessantemente
para a luz

A vida tinha um corpo a esperança desfraldava

O sono transbordava de sonhos e a noite
Prometia à aurora olhares confiantes
Os raios dos teus braços entreabriam o nevoeiro
A tua boca estava húmida dos primeiros orvalhos
O repouso deslumbrado substituía a fadiga
E eu adorava o amor como nos meus primeiros
tempos

Os campos estão lavrados as fábricas irradiam
E o trigo faz o seu ninho numa vaga enorme
A seara e a vindima têm inúmeras testemunhas
Nada é simples nem singular
O mar espelha-se nos olhos do céu ou da noite

A floresta dá segurança às árvores
E as paredes das casas têm uma pele comum
E as estradas cruzam-se sempre
Os homens nasceram para se entenderem
Para se compreenderem para se amarem
Têm filhos que se tornarão pais dos homens
Têm filhos sem eira nem beira
Que hão-de reinventar o fogo
Que hão-de reinventar os homens
E a natureza e a sua pátria
A de todos os homens
A de todos os tempos.

Paul Eluard, "Algumas das Palavras",Trad. António Ramos Rosa, Dom Quixote,1977

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012


sobe a custo um corpo 
na minha rua
a acrescentar curva à luz
só assim sabe que é corpo 
com ele cruza-se um cesto vazio à cabeça 
de peso igual ao corpo que sobe
e é este o único cruzamento
ao fundo da rua 
o gesto curva um pouco mais
ao pousar do cesto
entre o batimento de pernas e asas 
que passam e nunca se cruzam
o infinitésimo pousar
de morar

poema sem nome




talvez a pura razão seja um mito
e as manhãs sempre seguidas;
justas e perfeitas porque se movem nos mesmos sítios.
as manhãs não pedem para nascer
não se despedem da volúpia das noites
das suas inconstâncias da sua indeterminada fantasia –
as manhãs são a sequência imperfeita
quando a claridade não ilumina
quando a lua surge e não apaga o dia –

portanto falo-te da noite que conheço bem.
esse lugar que me inclina como um vento
ora a norte ora a este, ora ao lugar mais esquerdo que conheço
um universo sem frente, de reversos
na convicta linearidade de nunca respeitar as linhas
de não seguir caminhos rectos
de inundar as margens e de ser rebelde como os rios;
estas frases gastas de que te ris quando as repito
e em que não acreditas -

portanto falo-te de Barthes, Cohen e Magritte
que sonham ou tentam compreender as pedras no caminho
de uma forma vasta; com o simbólico dos signos
com a milionésima profundidade do beijo
com o plausível da realidade ser
como um cachimbo -

no primeiro dia do ano o relógio bateu o meio-dia
numa esquina de Santa Catarina.
um sol breve afastou as nuvens.
a maior parte das pessoas dormiam.

era uma manhã sem verbo. alguns turistas.
era uma manhã daquelas sem razão.
como te falei no princípio -

josé ferreira 4 janeiro 2012

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Poema 1.

Qual o peso da loucura
Sua gramagem ou cor?
Será leve ou muito dura
Cor de dor ou cor de amor?
Terá lucidez em si
A raiar a escuridão?
Será o sol disfarçado
De uma escura imensidão?
Será nossa ou desse outro
Que nos morde o coração?
Nos oprime ou ignora
Sem afecto e sem razão.
Qual a forma da loucura
Será redonda ou esquinada?
Com lados bem angulosos
A afastar normalidade
Coisa de seres mais formosos
Qual o peso do normal
Sua gramagem ou cor?
Será de um peso ideal
Todo branco e sem sabor?
Terá lucidez em si
Tanta luz, sol tão pleno?
Será o caos disfarçado
De um mais morno e quente inferno?
Será nossa ou desse outro
Que nos exige razão?
Nos oprime ou ignora
Sem afecto ou coração.
Qual a forma do normal?
Será uma esfera perfeita?
Sem arestas, nem paragens
Tão fechada e inquebrável
Que se torna uma desfeita!
Dêem-me a loucura já
Que não há normalidade
Antes riso, choro e cor
Que a ténue salubridade
Da normal mármore indolor.

Liliana C.C.

a amizade além de contagiosa é completamente incurável - um poema de Vinicius de Moraes


Paul Gauguin

Eu talvez não tenha muitos amigos.
Mas os que eu tenho são os melhores que alguém poderia ter.
Além disso tenho sorte, porque os amigos que tenho têm muitos
amigos e os dividem comigo.
Assim o meu número de amigos sempre aumenta, já que eu sempre ganho amigos dos meus amigos.
Foi assim aqui, uns eu ganhei há tempos, outros são mais recentes.
E quem os deu não ficou sem eles, pois a amizade pode sempre ser
dividida sem nunca diminuir ou enfraquecer.
Pelo contrário, quanto mais dividida, mais ela aumenta.
E há mais vantagens na amizade: é uma das poucas coisas que não
custam nada e valem muito, embora não sejam vendáveis.
Entretanto, é preciso que se cuide um pouco das amizades. As mais recentes, por exemplo, precisam de alguns cuidados...Poucos, é verdade, mas indispensáveis.
É preciso mantê-las com um certo calor, falar com elas mais amiúde e no início, com muito jeito.
Com o tempo elas crescem, ficam fortes e até suportam alguns trancos.

Prezo muito minhas amizades e reservo sempre um canto no
meu peito para elas.
E, sempre que surge a ocasião, também não perco a oportunidade de dar um amigo a um amigo, da mesma forma que eu ganhei.
E não adiantam as despedidas, de um amigo ninguém se livra fácil.
A amizade além de contagiosa é totalmente incurável.

Vinicius de Moraes

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

a primeira lua do ano


Gerhard Richter

janeiro começa sempre parado, move-se lento,
de portas fechadas –
na primeira manhã rompeu o sol ao meio-dia,
iluminou as arestas brancas de um meteorito na Boavista –
lembro-me da escolha de um concerto faz dois anos
ou um, já não fixo, há sempre nuvens que atrapalham
e os corredores da cabeça são de uma casa cheia de pressas,
guardam muitas coisas em quartos escuros
que se tornam claros só muito mais tarde –

inicia-se a cronologia.
já soam as pancadas de dedos nas letras
como se fossem de tosco e bruto barro,
tornando-as redondas, mostrando-lhe os braços
e a cor azul dos olhos, de que se alimentam –

escrevo-te,
o primeiro,
o primeiro poema do ano, na primeira luz da primeira lua,
nos ponteiros tardios da abundância com que te penso,
ao batimento preciso do metrónomo cardíaco;
ritmo alto, pulsação ao segundo,
muitos, muitos, que nunca são os últimos
e se renovam de formas muito brancas, em espumas
escoando lentamente com o ruído das ondas –

bem sei que os dias são carregados de nevoeiros
e os relâmpagos são prometidos pelos deuses dos metais brilhantes,
mas não sei a que propósito lembro-me da rosa de hiroshima
e daqueles cálculos que erram por milímetros, ou metros
e cientificamente lançam-nos no precipício –

não me tomes por lunático nem por bicho do mato,
os dias são sempre vestidos, é difícil penetrar essências,
ninguém sabe a verdade –

sem o dizer exactamente, alguém me disse:
não tinha que ser assim, fiz sempre de modo diferente
não foi a máxima derrota nem o estandarte da vitória
luto com as circunstâncias e acredito nas passadas da alma,
conforme os dias -

no primeiro poema que te escrevo não consigo dizer tudo
e é sempre muito pouco daquilo que penso, já o disse.
é como se na inconsciência que me persegue e habita
guardasse as metáforas como um sopro de vento,
para ser um sopro de surpresa,
desde o primeiro dia

e durante o ano inteiro
quando apareça -

josé ferreira 1 Janeiro 2012

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011


Imaterial Girl


    

A natureza fez os dançarinos no seu círculo como fez o milho no seu círculo
                                                                                                              Antonin Artaud

I.

Magra consolação a de haver linguagem
se em tantos fundos ela não toca,
Há ainda a pele, por baixo a velocidade
o coração a bombear  a música, a ultrapassagem -
É ela a nossa única matéria
Repara como tudo o que é incompleto te chama
e se te juntares a isso tudo, isso tudo não deixa de estar incompleto,
descansa agora o  olhar neste novelo, só te posso dar o que não tenho
e é tanto o que não tenho,
Aquece a voz, deixa que tudo o que é bom se enrole em ti
A bretã tem um trevo no bolso,
Não aparece no desenho o que se tem nos bolsos
Quatro folhas como a Declaração Universal dos Direitos do Homem,
 Alguns deles são respeitados acima do Equador
onde Ronald Macdonald nos dá a comer o seu pão negro
também ele precisa tanto do chão como uma semente
Um pouco mais acima alguém fala da dignidade e diz: Não sei de que ângulo
os vi partir, levavam antenas de prata nas mãos, os olhos muito abertos
Os corpos pediam novas formas de beber:
A primeira loba dorme, o leite vai-se formando nos seus seios…


II.

Sobre a morte não sei mais do que uma borboleta
Também ela cai ao fim de sete dias
ou é apanhada num esguicho de urina de alguém que vai para Fátima
 pára na berma da estrada nacional – faz pontaria o assassino da natureza
A filha mais nova ri-se, o sol lambe-lhe a cara, molda-lhe o sorriso
a perfeição é perto disto, voltam ao carro:
levam na mala uma lancheira, na lancheira vai a merenda
nos assentos vai a família unida e quentinha e no meio delas a união
E dentro delas a crença e dentro delas também a felicidade e todos os mistérios
mais uma hora e o santuário e o suor e as velas reproduzindo a anatomia humana, pernas e braços-velas a derreterem - à noite a Casa dos Segredos
 O tempo que uma borboleta demora a cair parece-se com a tua pele
Também a queda tem cor, é um acordar,
Não ter chegado ainda é a razão de ser dos caminhos
A pele não é um limite, apenas um começo,
A nuvem humaniza
O céu-da-boca desloca-se para zonas mais austrais
A bretã caminha porque a pintora o quis, desenha-lhe
 um país, as suas gentes, os seus campos de trigo, as fábricas,
as igrejas, os sinos, a giz o fumo que sobe e se soma ao ar
Tudo é soma na natureza humana.


III.

Só as obsessões flutuam neste bar onde se bebem lágrimas de Orfeu
com muito limão, é a Espera o barman que enche o copo
Mas ele não tem fundo, lágrimas de Orfeu amargas
A saudade sabe a Gin, vejo por esta janela a Bretã
Há um nervo nela que treme: nas fontes onde corre a vida inteira
um fio de azeite desce pela montanha, contornando
as patas dos ouriços e dos javalis,
Antes de haver bicicletas e os caminhos que elas percorrem
Já havia ladrões de bicicletas que roubavam à linguagem
Novos caminhos
só se pode dar o que não se tem
e é muito o que não temos, passa a ser também nosso quando damos
No bico de um corvo as cinzas de um ditador morto
serão uma árvore, será depois papel,
Fechar um ciclo faz também parte do ciclo
Sobre a perenidade não sei mais do que uma borboleta
também ela asfixiada num esguicho de urina de alguém que
estaciona o carro na estrada nacional, vai para Fátima, fica aflito
leva na mala uma lancheira, à noite dá a casa dos segredos,
resta-me saber que também aqueço, é talvez esse o milagre
Vêm-se de todos os ângulos os fotões ágeis atravessar o corpo do mensageiro
é ele a mensagem toda:
preciso mais de chão do que uma semente,
debaixo da pele, líquido quente de um astro,
de todas as escalas – a humana, a mais perigosa, a Maior
Há ainda a inclinação natural dos girassóis a acompanhar o astro que foge,     
Numa auto-estrada para sul aproximamo-nos cada vez mais dos pólos
a sombra de um ditador enrola a paisagem em mortalha de goma antiga
Cair tem todas as cores, tudo é soma e Link perfeito

 Também o cimento é Deus.


 Nuno Brito

um poema sobre um quadro de hammershoi


Vilhelm Hammershoi

aproximam-se na memória os teus dedos de sombra
quando suspensa na ausência lanças palavras sem nome –
pergunto, perante uma tão larga desistência
quem delineou caminhos? quem construiu horizontes?
ambos, ambos, por detrás das portas –
quem fechou as portas? quem silenciou as vozes ?
ambos, ambos, nos medos do vento norte –
quem ofereceu rosas? quem ofereceu os corpos?
ambos, ambos, num leito inevitável, sem margens –
quem contrariou o rio? quem suprimiu as águas?
ambos, ambos, olhando rodelas de limão numa última varanda,
justificando as circunstâncias da forma mais fácil,
como todos os outros, numa rotina de enganos,
numa preguiça lassa, indiferente, conforme -

e agora sem a mobília dos versos
sem o fogo dos alicerces
a casa é um caco de tábuas
um espaço em branco, sem chama –

nem cinzas soltas nem braços sem roupas.
um vestido negro veste o teu corpo.
preparas a partida sem a pressa do regresso.
as malas esperam no alpendre.
no vazio de todos os lugares varres
os últimos traços da memória.
não há pó, apenas um cheiro a cera, penetrante, intensa –

era uma casa muito antiga de tectos altos
agora abandonada.
se acreditasse em Jüng, diria que tinha uma alma
muito forte, de antepassados.
e diria que depois de fechares a porta
continuará a escrever a nossa história,
para que nunca acabe -

josé ferreira 30 dezembro 2011

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

que lindo que me mandaram no natal...

.
Cai a noite e as ruas ficam repletas
de escuridão e vazias de gente. Por cada
casa que passas brilha o que resta de uma
noite milenar. Imaginas a alegria dos
reencontros principalmente quando a
distância é apenas a do abraço. Decoras
uma música atrás de outra como se
talvez fosse importante manter-nos
em vigília. E quase de repente acreditas
que a infância ainda é um mapa do
tesouro que esconde as mais complexas
explicações do mundo.
.Dezembro de 2011
Sandra Costa
.

Sintomas e Síndromes - um poema de Ana Luísa Amaral


fotografia daqui

Primavera em sintoma repetido.
Estão aí outra vez, intrusos na
manhã. Não me deixam pensar.
O gato quer sair, treme ao vê-los
nos ramos a cantar. Preciso de
pensar. Silêncio em síndrome.
Ruídos de madeira, o tempo a ba-
dalar, são dez e meia. Intrusos
no meu sono de pensar. Preciso
de ar. Mas eles são piores, agora
na manhã já levantada, juntaram
companhia. É ópera de azul.
Um Wagner maior. Navio Real.
O enjoo do ar. Preciso de pensar.
Mas cantam. Cantam. Canção que
não me deixa nem ramo de pensar.
Primavera outra vez e todas as
manhãs o seu sintoma. O gato em
frenesi a tremer mais ao vê-los
a saltar de ramo em ramo. É
primavera e cantam: ligações i-
legais, o ninho em alvoroço.
Só um falcão de asa franjada e
preta que tem casa aqui perto
e que não canta. Só por ele eu
podia pensar. Só por ele o meu
ar, como um telhado. (E o gato
sem ousar-se, viciado, nem
exibindo assim, junto à janela,
estes sintomas de delirium tre-
mens.)

Ana Luísa Amaral, Assinar a Pele, Assírio & Alvim, 2001