quinta-feira, 17 de novembro de 2011

precisava falar-te ao ouvido


Garmash

Precisava falar-te ao ouvido
De manter sobre a rodilha do silêncio
A escrita.
Precisava dos teus joelhos. Da tua porta aberta.
Da indigência. E da fadiga.
Da tua sombra sobre a minha sombra
E da tua casa
E do chão.


Daniel Faria

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Adiamento




Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o rnundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

Álvaro de Campos

terça-feira, 15 de novembro de 2011

a história de um caso



quando cruzas as pernas não descuido o olhar
sem danos, que se dane
pior seria, observar outras estrelas
um outro rosto junto ao mar –

quando cruzas as pernas não evito o teu olhar
a interrogação na ironia dos lábios
um ligeiro sorriso, um proteger de intimidade
e é fim de tarde, e é Verão
e no areal todas as mulheres mostram mais –

quando cruzas as pernas há um desejo de sexo
e é normal como as ondas, como a água e o sal
no entanto ajeitas a saia e perdes os olhos na folha branca
uma posição flexível e abstracta, baixando e erguendo pupilas
como quem pensa num poema ou numa carta
naquela pura dificuldade
de pensar da mesma forma
sem dizer nada –

quando cruzas as pernas perco-me a imaginar quadros
cores azuis, cores mais pequenas, sensibilidades
entre o prodígio e o vulgar, reinventando penínsulas
numa soldadura de países, sem fragilidades, de hinos –

corre uma brisa de amenas tardes
na lateralidade do rosto, nas maçãs coradas
quando se solta ao de leve a gargalhada
um som pequeno, de quem viu, gostou e disse nada
no rodeio de escrever na folha em branco
uma primeira palavra –

e a razão é fácil, como saborear um rebuçado
caíram-me os óculos, pois claro
sem mais, desamparados sobre o grão de areia
na esplanada de madeira, sem danos
que se dane, ser óbvio não é pecado -

quando abandonamos o supor de intensidades
desce a noite como ave a planar
e sem mais, ao dar os dedos
guardamos dentro da cabeça todas as palavras

e fechamos os lábios -

José Ferreira 14 Novembro 2011

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A infância de Herberto Helder - um poema de Tolentino de Mendonça


Magritte


No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas

Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos

Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva

Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito

Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio

Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios

Isso foi antes
de aprender a álgebra

Tolentino de Mendonça

domingo, 13 de novembro de 2011

faz greve à rua, não apertes os sapatos



Almada Negreiros

"A vocação de Almada foi a de dizer-se, de afirmar-se, de passar a vida a ser-se Almada" Eduardo Lourenço



pressas de partida e pressas de chegada, a regular situação da cidade.
não há o encontro de faces na semana que parte.
os comboios abstraem-se das pessoas e olham os rails, parados, secos, calados.
chuvas caiem –

um homem de olhar estranho desce a rua inclinada.
uma voz fala “ faz greve à rua, fala com a lua, perde-te nos astros “.
os olhos não olham a direito, dão curvas improváveis,
dobram esquinas de mármore e vêem estátuas, lisas, físicas, claras
numa prosa tão correcta que não roça o verso nem desenlaça a alma;
uma questão de luz, túnel e obscuridade, talvez um facto
justificado pelas cores substantivas de um quadro imaginário –

não há a solidez de um corpo junto da voz que fala, auricular.
supõe-se de alguém porque o vento sopra sem palavras.
mas eis que repete: “faz greve, faz greve à rua não apertes os sapatos,
tropeça, cai, não permaneças inclinado”
- uma irrealidade de que Eco falava.
mas será verdade?

a voz repete grave “faz greve, faz greve ao quadrado e aos quadrados,
faz greve à ferrugem nos cronómetros incendiados,
faz greve à ilha, à caverna ou à nau fora d’época,
faz greve simplesmente, abstracto, e cria depois um soluço de paz
encostado no habitual semáforo.
depois corre, corre, até que sopre um vento muito forte
mais quente, e que se acenda , que fumegue, que seja fogueira,

e com esses pés tortos de teatro
procura a simetria próxima, a sede do corpo, a seda e a face –

corre, corre, não pares
nas ruínas e nos ruídos da cidade, corre,
corre sempre
enrola o silêncio na velocidade dos passos –“

o homem não corre e faz lembrar Almada;
ossos largos, faróis redondos, um boné sobre o rosto,
e há uma voz que diz enquanto passam os carros:
“é um homem estranho e inclinado
por vezes tem as mãos perdidas na arte, no fumo dos quadros,
no cair do amarelo. por vezes flutua entre a totalidade e o intermédio,
entre as filosofias de Pessoa e o ultrapassar do vermelho.
por vezes cala-se, por vezes chama, por vezes grita
e por vezes despe-se, insignificante,
na insegurança dos lábios -

José Ferreira 11.11.2011

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

não é tarde e não é cedo




uma chávena de chá preto em cima da mesa
e a luz branca por cima das teclas, uma lupa redonda.
a ampliação da noite decide a palavra,
a palavra solta na frente dos cabelos desgrenhados
como uma massa redonda, polvilhada,
o pão da alma, no forno que se acende –

não é tarde e não é cedo, respondo-te,
nem nunca cessa o luar sem silêncio
que percorre as distâncias
e cinta cada gota de vermelho –

passam carros a momentos e gente
e ninguém sabe desse tempo de quinta-feira, madrugada,
que aperta uma coleira na pressa do poema
pelo bulício escrito da desistência –

não é tarde e não é cedo, e há o erro da fraqueza
junto a uma girândola de círculos de urgência, sirenes autênticas
no alarme gritante e injusto de um céu de inverno -

passa das duas horas e não há vivalma no asfalto.
é a noite cerrada como as portas altas dos museus da cidade.
não há quadros, nem a luz das obras de arte,
porque se criou a mentira do facto na criação errada, a falácia,
falácia apenas, simplesmente, como por vezes a democracia
que parece justa e é ingrata –

cai aquela chuvinha flácida que mal se enxerga,
uma chuvinha sem qualquer ruído, de pouco brilho,
uma água sem rumo, parada pela dúvida, pela escolha do escuro,
parada pelo húmido musgo verde sobre a cor do granito,
o desequilíbrio do muro, tão forte na erosão dos ventos,
mas que treme no desfazer da terra, a possível perda,
o suporte que lhe serve de alicerce –

as notícias despedem o ministro italiano,
a Grécia é um desassossego sem dracmas,
o Mediterrâneo está morto de cansaço
e o peito bate de ritmos céleres, passadas de lebres,
naquele lado tão frágil dos medos, o esquerdo,
escorrendo como um choro, um desencanto próximo,
a possível perda, o quebrar dos espelhos –

não é tarde e não é cedo -

há uma chávena de chá preto em cima da mesa,
ainda quente.
a persiana corre como um comboio expresso,
de trilhos ao lado,
coloca a ténue fronteira de plástico
entre o quarto e a cidade, o opaco.
mas não decide o fim da transparência,
não elimina o singular, o mármore único da aura -

não é tarde e não é cedo -

há uma chávena de chá preto em cima da mesa,
interrompe-se o poema -

josé ferreira 10 de Novembro de 2011

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Criação - um poema de Cesare Pavese


Fernand Léger

Estou vivo e de manhã surpreendi as estrelas.
A companheira dorme ainda e não sabe.
Dormem todos, os companheiros. O claro dia
vejo mais nítido que os rostos submersos.


Passa um velho à distância, a caminho do trabalho
ou a gozar a manhã. Não somos diferentes,
ambos respiramos o mesmo esplendor
e fumamos tranquilos para enganar a fome.
Também o corpo do velho deve ser puro
e vibrante – deveria estar nu ante a manhã.


Esta manhã a vida escorre-nos na água
e em terra: em torno o fulgor da água
sempre jovem e a descoberto os corpos de todos.
Haverá o grande sol e a aspereza da praça
e o rude cansaço que nos verga para o chão
e a imobilidade. Estará a companheira
- um segredo de corpos. E cada um dará sua coisa.


Não há voz que rompa o silêncio da água
de manhã. Nem nada vibrando sob o céu.
Apenas um calor que dissolve as estrelas.
Treme-se ouvindo vibrar a manhã virginal,
como se nenhum de nós estivesse acordado.


Cesare Pavese

terça-feira, 8 de novembro de 2011

e ao anoitecer - um poema de Al Berto


Gerhard Richter

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

Al Berto

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Visitações, ou o poema que se diz manso - um poema de Ana Luísa Amaral


Lilla Cabot Perry

De mansinho ela entrou, a minha filha.

A madrugada entrava como ela, mas não
tão de mansinho. Os pés descalços,
de ruído menor que o do meu lápis
e um riso bem maior que o dos meus versos.

Sentou-se no meu colo, de mansinho.

O poema invadia como ela, mas não
tão mansamente, não com esta exigência
tão mansinha. Como um ladrão furtivo,
a minha filha roubou-me a inspiração,
versos quase chegados, quase meus.

E mansamente aqui adormeceu,
feliz pelo seu crime.

Ana Luísa Amaral

domingo, 6 de novembro de 2011

Shakespeare e a epígrafe


Charles Curran


voltaria sempre ao lugar da epígrafe
ao cruzar de olhares
às palavras não ditas:
escondem-se, escondem-se, em ruas de sombras;
ruas que escutam os sonos, os sonhos
tão aflitos de serem puros, de serem perfeitos
como naquele filme num alto de um monte
outros actores -

voltaria sempre ao lugar das praças longas
às noites miraculosas de músicas ruidosas
um pedido de dança
no meio de tantas pontes
e muitas letras no tamanho grande
fugas no silêncio sem nenhum outro ramo
como um poço fundo, uma ausência
a incerteza de algum dia subir no bico de uma cegonha
uma água de aromas -

voltaria sempre às janelas perdidas
às luas feridas na distância
aos raios de sangue na tempestade das lágrimas
ao meu caminho patético de um sofrimento de alma
porque a vida dá tantas voltas
e há círculos que se formam
que se abraçam
como se fossem as últimas horas;
um fugir de noites
em semanas escorregadias –

voltaria sempre ao som da harpa
às cordas que se encontram
dedilhadas e suaves
amplificando e extenuando o som
pelos braços do inverno como um tempo sem tempo
na invenção de inverter as setas desferidas
recomeçar o pensamento; os primeiros versos
a primeira luz, a primeira praia, o primeiro vento
o primeiro Vesúvio fluorescente, o primeiro –

lembro-me
da mesma forma que quando escrevo no presente
nunca afasto as teclas do piano, as cordas do violino
e ao mesmo tempo
os bosques e as silvas, uma corrida de mãos unidas
longe de todos os limites; um chão de pedras
uma cama de outono, uma sagração da primavera
uma cavalaria rusticana, sem mágoas e sem cinzentos
e ao mesmo tempo
as asas da borboleta, a proximidade suspensa –

voltaria, nesta hora fechada de granitos, ao lugar dos silogismos
nesta particularidade de Damásio ter provado
que Descartes era um náufrago do juízo;
não há certezas, nem tão pouco somos sofistas
procuramos o possível, o plausível
e as sementes crescem como degraus ascendentes
riscos, cores e linhas
porque a vida dá tantas voltas e é sempre autêntica
como as nascentes, onde as águas nascem

e os rios –

José Ferreira 5 Novembro 2011

sábado, 5 de novembro de 2011

a meu favor tenho o verde secreto dos teus olhos


Vladimir Kush

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.

Alexandre O'Neill

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

A minha avó



A minha avó costumava contar histórias assim. Ela era perita no fim do mundo e achava estranho ter nascido com um pé dentro desta espécie e o outro, visivelmente deslocado, na boca mórbida da suspeita e no sexo ufano da ironia. A minha avó passava o tempo a coser mentiras umas às outras, criou o crochet cruel das minudências, e ainda se dava ao luxo de povoar essas mentiras de pássaros orientais, paisagens soberbas onde a serenidade e a percepção sofriam os ventos mal representados da hesitação sombria. A minha avó contava-me contos distópicos antes de eu dormir. Sentava-se na cama e falava da falência da Terra, do advento do cripto-individualismo, da comicidade com que, tantas vezes, se reveste a distorção do real, como, por exemplo, na “demonização baudelairiana do riso”. Dizia poemas onde a guerra e o bom senso amavam-se para sempre e a era da demência era mundialmente aplaudida. E por vezes, perguntava: queres que eu te leve a este planeta? Ou preferes ficar esta noite apenas na casa escura do ensino? Falava exactamente assim. Por intermédio de uma rede organizada de metáforas e tiques da elevação do estilo, levemente apoiada na sua língua bífida e sibilina, nas encostas de um português com 35 % de sotaque romeno e 65% de sotaque desconhecido. Falava assim.
Eu tinha 39 anos naquela altura, quase todos os dias 39º de febre e queria muito dormir. Mas, naquela noite, por mais que a senhora se esforçasse, eu não conseguia. Resolvi recorrer ao serviço de avós ao domicílio, secção avós distópicas para netos cínicos, Avenida Marqués del Abandono, Ciudad Irreal.
Vou protestar, pensei. Vou exigir uma avó nova ainda esta noite. Uma que me conte histórias do princípio. Mas entretanto, adormeci.

por uma luz real




A rapariga debaixo da luz verde
da árvore
parecia usar a máscara disforme
dos pesadelos.

Era uma imagem nítida,
quase branca.

Fumava.
Olhava-me para dentro do medo
sem rosto
debruçada, lenta, circular.

Era noite.
Eu estava na rua à tua espera.
Na rua não, no carro.
Eu estava no carro de vidros abertos
de olhos abertos
debruçada.

Mas felizmente tu chegaste
com a tua luz real (tão real)
para me interromper o pesadelo.

Filipa Leal lida aqui

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Balada do amor através das idades




Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar seu irmão.
Matei, brigámos, morremos.

Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catacumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o leão que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.

Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria de meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal-da-cruz
e rasgou o peito a punhal...
Me suicidei também.

Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão de Versailles,
espirituoso e devasso.
Você cismou de ser freira...
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina.

Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.

Carlos Drummond de Andrade