segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Mao II - Don Delillo dez anos antes de 11 de Setembro



(diálogo entre uma fotógrafa, andando de um lado para o outro na procura do melhor plano, e um escritor no seu esconderijo secreto):

"- Fale-me de Nova Iorque - pediu ele - já deixei de lá ir. Quando penso nas cidades em que vivi, vejo grandes quadros cubistas

- Vou dizer-lhe o que vejo.

- Todos aqueles gumes, a densidade, esses velhos tons ocres e o modo como as cidades envelhecem e nos mancham o espírito, como se fossem muralhas romanas.

- No sítio onde vivo, é verdade, a vista dos telhados é caótica, uma confusão. quatro, cinco, seis, sete pisos, com os seus depósitos de água, as cordas da roupa, antenas, campanários, pombais, chaminés, tudo o que de humano existe na parte inferior da ilha - jardins atarracados, estatuária, letreiros pintados. E eu acordo para esta paisagem e tenho-lhe amor e dependo dela. Mas está tudo a ser arrasado e varrido, para que possam construir as suas torres.

- Talvez em breve as torres venham a parecer humanas, uma coisa local, e subtil. Dê-lhes tempo.

- Então eu vou ali bater com a cabeça na parede. Avise-me quando quiser que eu pare.

- Vai acabar por perguntar porquê toda essa fúria.

- É que eu já tenho o World Trade Center.

- Que por sinal, é já inofensivo e sem idade. Como que esquecido. E pense no quão pior seria

- O quê ? - disse ela

- Se fosse uma torre em vez de duas

- Quer dizer com isso que elas interagem. Que estabelecem um jogo de luzes.

- Não seria muito pior se fosse só uma?

- Não porque o tamanho é apenas uma parte do problema. O tamanho é mortífero. Mas ter duas torres é como se fosse uma espécie de comentário, como um diálogo, só que eu não sei que coisas estão elas a dizer."

Don Delillo, Mao II, Relógio d'Água, 2004 ( livro publicado em 1991 nos Estados Unidos)

sábado, 10 de setembro de 2011

Pedro e Inês (40 anos depois) - um poema de Ana Luísa Amaral



INÊS E PEDRO: QUARENTA ANOS DEPOIS

É tarde. Inês é velha.
Os joanetes de Pedro não o deixam caçar
e passa o dia todo em solene toada:
«Mulher que eu tanto amei, o javali é duro!
Já não há javalis decentes na coutada
e tu perdeste aquela forma ardente de temperar
os grelhados!»


Mas isto Inês nem ouve:
não só o aparelho está mal sintonizado,
mas também vasto é o sono
e o tricot de palavras do marido
escorrega-lhe, dolente, dos joelhos
que outrora eram delícias,
mas que agora
uma artrose tornou tão reticentes.

Inês é velha, hélas,
e Pedro tem caibras no tornozelo esquerdo.
E aquela fantasia peregrina
que o assaltava, em novo
(quando a chama era alta e o calor
ondeava no seu peito),
de ver Inês em esquife,
de ver as suas mãos beijadas por patifes
que a haviam tão vilmente apunhalado:
fantasia somente,
fulgor que ele bem sabe ser doença
de imaginação.

O seu desejo agora
era um bom bife
de javali macio
(e ausente desse horror de derreter
neurónios).

Mais sábia e precavida (sem três dentes
da frente),
Inês come, em sossego,
uma papa de aveia.

Ana Luísa Amaral



( Este poema foi lido por Ana Luísa Amaral durante o encontro sobre o O Mare a propósito de um novo tema para um próximo encontro, com algumas dúvidas se sobre chocolate ou joanetes )

Amar, O Mar

Queria amar.te como o mar.
Abraçar.te de onde cheia
e lamber.te o corpo, grão a grão,
numa tarde de Inverno.
Sussurrar-te mansamente, levemente,
como nas manhãs de maré baixa.
Queria ser tua furiosamente,
debater-me nos teus rochedos laminosos
e desfazer-me em espuma branca.
Queria ser una contigo,
numa entrega de perpétua maresia.
Queria amar-te... como o mar.

While my guitar - um poema de mar com cidade dentro




Setembro é o bom mês dos poetas
Das pedras virgens e almas imperfeitas
Como as tramas de tecidos de linho
E as ondas nos espelhos de mar-

Os olhos em frente esticam os dedos, longamente
E misturam cabelos nos desvios de cor e sal, o pensamento
Até à pré-história dos poemas, deslizantes
Por quartos imperiais e insolúveis -

O mar é pleno, apela ao infinito
Na asa aberta que se afasta do cimento;
A robusta matéria de contornos definidos -

O sol queima o antebraço, clareia a tonalidade dos pelos
Deita-os, paralelos e submissos, adormece-os
Combina na pele a voz incisiva, insistente
Na luz e na sombra das veias -

E brilha no assentimento de sentir a mudança
A periferia azul, o líquido oceano;
Um mar maciço de imagens flutuantes
E a importância de ser diferente -

Duas torres estragaram o mês de Setembro
Lembro-me, juntaram-lhe os medos
A sepultura dos gritos; culpados, inocentes
De quê e de quem? um símbolo
Da insegura volatilidade, a vida suspensa -

A norte, o Setembro, é menos ameno
Mas por vezes 20º Celsius torna os véus suficientes;
Transparências de derme, passos breves
A superfície morna de areias impoluídas
Sem as cicatrizes de gente, sem os panos coloridos
Sem os guarda-sóis esvoaçantes em lugares pouco firmes -

Por vezes, em Setembro
O vento veste a ausência e acalma o dia
Mas os braços doem-me tanto
E a boca afunda-se, sobre o mar e o silêncio -

Os lábios fixam-se, juntos, apertados
Do lado de dentro dos dentes, como gémeos
E falam inaudíveis sobre o desejo vermelho -

E preciso dizer o teu nome ao som de uma cidade italiana -

Sobra-me a memória, falta-me o relâmpago
Mas há um pequeno brilho, o raio branco, a música alcalina
E as cordas de nylon soam gentilmente -


José Ferreira 9 Setembro 2011

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

O mar é longe, mas somos nós o vento - um poema de Pedro Tamen


Salvador Dali

O mar é longe,mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira,até ser ele,
é doutro e mesmo,é ar da tua boca
onde o silêncio pasce e a noite aceita.
Donde estás,que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos,dedos ,sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes,fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar.

Pedro Tamen (lido aqui)

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Nos próximos dias o tema é o MAR


fotografia retirada daqui


Na sequência de um encontro que vai decorrer com Ana Luísa Amaral e alguns participantes deste blog durante os próximos dias o tema é o MAR.

O mar e Sophia


fotografia retirada daqui

MAR-POESIA: POÉTICA DO ESPAÇO E DA VIAGEM

1. MAR, IDENTIDADE, LIBERDADE E REINO

1.1. Mar, Identidade e identificação do sujeito lírico


MAR-POESIA abre com uma epígrafe poética detonadora da identidade da alma do sujeito lírico:

Mar,
Metade da minha alma é feita de maresia.
Atlântico, p. 9


A expressão prima pela economia de palavra que povoa o texto poético de Sophia: um verso ao qual não foi necessário acrescentar outros que igualmente o povoam; nem com eles fazer montagens, como se o poema fosse um filme, segundo o que Sophia de Mello Breyner explica com a maior clareza numa das suas Artes Poéticas (8). Um verso que define uma idiossincrasia da sua alma poética, como se a maresia pudesse a um tempo constituir metade da essência da sua alma e eventualmente cobrir, pelo seu elemento etéreo – o cheiro vindo do mar que penetra no ar -, a outra metade da sua alma.


A essência da sua alma poética vive da cumplicidade da maresia e da sua identidade como respiração da brisa marinha, numa harmonia perfeita de ritmo vital anímico e espiritual em que confluem as metáforas vividas do mar, do ar e da brisa ou vento suave, ritmo da própria respiração vital do sujeito lírico que, por sua vez, faz parte do universo do próprio mar, o qual dá pela ausência do sujeito lírico quando ele se aparta de uma praia e por ele vai esperando, no esplendor da maré vasa:

Há muito que deixei aquela praia
De grandes areais e grandes vagas
Mas sou eu ainda quem na brisa respira
E é por mim que espera cintilando a maré vasa
Há muito, p. 48


Relacionaremos as esperas com os espantos e a nostalgia da epopeia, ao longo do presente trabalho. Neste início, concentramo-nos sobre a espera na sua relação com a identidade poética do sujeito lírico. A poesia de Sophia vive muito de caminhadas, partidas e reencontros solitários, sendo a praia espaço de caminho, partida, reencontro, contemplação, renovação, até de esperança de regresso do post mortem para recuperar o não- vivido em plenitude e convertê-lo em vivido, na vida misteriosa liberta do peso da caducidade e da morte; ou para integrar toda a sua alma poética, identificada com toda a sua vida vivida junto do mar, em todos os instantes, e do instante para a eternidade, como libertação das contingências do tempo:


Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar
Inscrição, p. 40


Na poesia de Sophia, é relevante a identificação e identidade do sujeito lírico que se procura e encontra o seu próprio nome, relacionado com o acto de nomear pela palavra a essência do ser, a essencialidade do real, o “nome das coisas”. No poema “No mar passa”(p.26), o seu nome como essência do seu ser mais recôndito e identificado com o mar tem a expressâo “o meu nome fantástico e secreto”, perpassa e ecoa no mar e é apenas reconhecido pelo espírito, pelas metáforas do espírito – “os anjos do vento”- que sopra onde e como quer, em movimentos de sopro que se aproxima, e repentinamente se afasta do sujeito lírico que exprime o encontro e a perda dos “anjos do vento”. No universo poético de Sophia é importante o acto de reconhecer e ser reconhecido como exactidão de actos que é a justiça, muito em particular no plano ontológico. Na sua poesia, onde tudo se move com a maior liberdade, numa expressão contida, rigorosa, próxima do cinema e do bailado, consideramos que o vento é, por vezes, a um tempo o sopro do ar e do espírito. A expressão “anjos do vento”, no mesmo poema, sintetiza a ideia de seres espirituais ou “puros espíritos”, de seres alados que se aproximam semanticamente de aves e pássaros que povoam a poesia de Sophia, em suma, a metáfora do voo do vento conciliável com o voo do espírito (vide metáfora do voo da “ave do espírito” no poema São Tiago , in Ilhas) (9); sintetiza ainda uma forma de dança do vento, integrada no que ousamos designar como dança cósmica, movimento contínuo da natureza integrada no cosmos que povoa a poesia de Sophia, com a qual o sujeito lírico se encontra e da qual por vezes se perde, num ritmo natural, como veremos ao longo do presente trabalho (10):


No mar passa de onda em onda repetido
O meu nome fantástico e secreto
Que só os anjos do vento reconhecem
Quando os encontro e perco de repente
No mar passa , p. 26

.................


Helena Conceição Langrouva in Revista Brotéria Lisboa Maio- Junho e Julho 2002( ler mais aqui )

Avalanches ou Anunciações: Sugestão - um poema de Ana Luísa Amaral


Paula Rego

Logo pela manhã, em avalanche, entras-me por aí.
Solenes, como reis, chegam contigo gatos, papagaios,
algum astro pulsante à beira-mar e valsa, uma palavra
verde ou de outra cor. Se chegasses na hora do calor,

correndo pela estrada nacional, e em velocidade tal,
que conseguires parar junto à falésia: fantasia maior –
não serias mais bela alegoria. E em alegria, vejo-te a cair,
o risco de erosão a confirmar-se, uma pedra minúscula

a bastar, para que o meu sossego assim se pulverize.
Podia, se quisesse, ter desenhado ali, a meio do ar, de ti
(em queda livre): arbusto de resgate…Ou uma equipa
inteira de resgate: roldanas, capacetes, moderno material,

e lanternas com luz, último grito. Se o desejasse, podia,
se quisesse – E em fio equilibrado para lá de normal,
hesitar-me: alegria? A morte por ditongo iluminado,
ou o grito ao meu lado, sobre mim, comigo? Faço

do corpo em verso o mais puro colchão, e suave,
e resistente, chamo o resto da gente que me habita
e deitamo-nos rente ao final mais final desta falésia.
Convoco: aqueles astros, os gatos que trouxeste atrás

de ti, solenes, elegantes como valsa. Torno-me em pó
contigo cá em baixo, ou não me torno nada e só a ti
te faço estilhaçar, a ilha azul explodindo de mil cores,
em tela de cinema. Agora podes vir, que o tema em perigo:

igual à dura terra que nos abençoa. E as penas tão
brilhantes são motivo maior de pára-quedas. Vivem
a sustentar essa avalanche toda da manhã. Feita de
gelo e luz, e o calor morno dessa anunciação. Então,
Faça-se em mim.

Ana Luísa Amaral (lido aqui )

Quintas de Leitura com Ana Luísa Amaral

.
Quintas de Leiturapoeta convidada 

Ana Luísa Amaral
apresentação
Nuno Carinhas
leituras
Constança Carvalho Homem|Teresa Coutinho|Nuno Lamares|Ana Luísa Amaral
música
Teia (voz)|André Cardoso (guitarra)|Sérgio Carolino (tuba)
imagem
Manuela Pimentel

29.Setembro.2011
Teatro do Campo Alegre


Paula Rego: a Caçadora Furtiva


Quadro da exposição na Fundação EDP junto à Casa da Música no Porto

Tive muito medo e fiquei com uma certa apreensão! Mas para encontrar o nosso próprio caminho é necessário encontrar a nossa porta, como Alice. Ao tomarmos demasiadamente de uma mistura ficamos grandes demais, depois tomamos demasiado de outra e ficamos pequenos demais. Temos de encontrar a nossa própria entrada para as coisas ...


Paula Rego, Histórias da National Gallery, Fundação Calouste Gulbenkian, 1992

terça-feira, 6 de setembro de 2011

a propósito de um aniversário





Viajavas antigamente nos círculos de um vinil
e não o sabia, tanto tempo de intervalo -

As agulhas eram diamantes do tipo best friend
e as palavras eléctricas acendiam chamas de sílex
fragmentando as noites, aguçando os dias;
ironias, os ruídos e silêncios -


Escrevia sem lua porque o quarto não tinha céu
fechado sobre uma clarabóia onde a roupa estendida
e um eco de vizinhos, por baixo e mais acima
mas talvez sonhasse uma janela e as estrelas -

O gira-discos de napa branca rodando rodando
rodando automático de um e de outro lado
repetindo a luz de um sol sem dó, repetindo -

E não sabia decifrar ainda a força do palco, o braço esticado
a febre saindo nas garras de bagas brilhantes
iluminando a testa no suor das melodias -

O disco de capa branca nunca teve a morte em duas pernas
e permanece numa ópera diferente, gritando a plenos pulmões
que se soubermos agarrar as cordas que nos seguram ao chão
podemos encontrar anjos e subir as paredes das nuvens
e ter um sangue vermelho infinito, indefinidamente
como aqueles que se libertam dos cravos nas mãos
e de punhos fechados seguram o tempo -

Quando Freddie escreveu a canção pensou num corpo feminino
uma pele acetinada, um olhar escondido no travo de cabelos
provavelmente na súbita elevação de um sorriso
ou em braços estendidos -

A música, a rainha, the music’s Queen
como e quando e através de qual circunstância
será impossível de determinar mas surge como a semente dos versos
e dos poetas resguardando os segredos e criando, sucessivamente
novos vendavais e indícios de paraísos
arrepios, arrepios -

Como agora escutando o mesmo gira-disco
a mesma agulha sobre os círculos
e o diamante robusto, rodando rodando
e supondo a musa
no seu refúgio de distância
escutando a música -

josé ferreira 6 Setembro 2011

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

uma história demasiado sensível




uma história demasiado sensível
invulgar surpreendente mas não sei se digo
hesito entre um momento de espanto
e o segredo, a permanência circular da história
que oscila nas linhas finas da mente
dentro de quartos inpovoados, silenciosos, indecisos
onde livros e pós misturam rostos e cabelos
mãos e seios, lábios conseguidos e milhares de desejos -

uma história que não se supõe possível - uma irrealidade
uma música de Paganini, violino, violinos
uma madrugada de princípio de Outono, húmida
a névoa translúcida, a dedução imprecisa das formas -

mesmo nas cidades que se encontram sempre iluminadas
e vivem em diversas intensidades: noite madrugada luz
sempre me disseram que nas horas mais mortas
tivesse mil cuidados, os olhos abertos, na frente e nas costas
e delinear as sombras, tentar entendê-las
à distância necessária, como amigas
ou de sinal contrário como luta ou fuga -

hesito, não sei se digo, hesito
e depois nem sei se será suficiente na mudança
os teus olhos estão fixos na obsessão de uma borbulha
na palma por onde correm linhas de quiromancia, a vida -
hesito na minha inocência e hesitas na mais uma oportunidade
ou nas recorrentes palavras afogadas, sem sílabas -

hesitas
impaciente, preocupada como as flores e os frutos
perante as intempéries fora de época
hesitas na conclusão e circulas centrípeta
em vários centros e motivos que possam esclarecer
o inìcio, o princípio, o clarear activo de um enredo
o grave e o agudo, o normal e o sustenido, o meio tom
a tempestade de ruídos -

e há razão no teu sentir, passaram três anos -
muito tempo, em três anos cresce a barriga
as crianças apertam os dedos adultos, cedem ao choro
ao riso, gatinham o chão, sopram bolas de sabão
e gritam sequências: números cores letras -
há razão no teu sentir -

hesito, não sei se digo, hesito -

uma história surpreendente como as de Aladino
e um tapete voador por desertos amarelos
e meias luas de mesquitas em histórias de orientes:
final de verão, madrugada, bateu a porta
saiu na primeira luz da neblina;
dirigiu-se ao rio, uma rua inclinada, seis horas
corria um frio, os passos ouviam-se, um eco contínuo
levava um pólo azul e umas calças de bombazine
apertadas na cintura devido a excessos
e justas nas barrigas das pernas, usava sapatilhas.

o pólo era de manga comprida
parou em frente de uma porta magenta de trinco ruivo
e patilha antiga na cor de ferrugem.
uma nuvem branca escondia a paragem de autocarro
a cor baça de janelas de alumínio, os vidros aramados de uma tabacaria.
se olhasse apenas a porta magenta no seu ar deslocado
poderia recuar a um castelo medieval, uma ponte levadiça
malhas e espadas, sentinelas nas ameias, templários e gentios -

a tinta era descontínua e rareava a espaços
sem perder a substância da diferença;
uma cor alta a terminar num arco redondo -

estás pálida, que estúpido, queres umas águas ?
agora as de Vidago são de plástico e abertura fácil.
que estúpido, não queres saber da história, do seu sentido
se tem candelabros ou néons de boutique, cristais ou plásticos -

hesitas, usas os dedos que são teus nas duas mãos
e rodas um anel largo de pedra polida
na cor negra de uma antiga tulipa
em todas as direcções, como se fosse uma bandeira difícil
um perigo, uma defesa ténue de seara entre sombra e brilho
mas se os olhos se prendem nesse volteio
repito, obssessivo, precisas soltar o dique
deixar cair essas palavras do alto dessa montanha
deixá-las cair, perder altura, naturais e sinceras
e então afundo-me no fumo que pressinto
brasas perdendo fogo, a fogueira exinta;
calo-me com a minha história de nevoeiros
cavaleiros e moinhos, uma outra altura -

coloca a tua mão direita voltada para cima
e deixa que sinta a tua pele
e não me leias a sina
qualquer que seja o sentido, não feches os lábios
fala comigo -

josé ferreira 4 Setembro 2011




domingo, 4 de setembro de 2011

Biografia ( curtíssima ) - um poema de Ana Luísa Amaral


Pablo Picasso 1936

Ah, quando eu escrevia
de beijos que não tinha
e cebolas em quase perfeição!

Os beijos que eu não tinha:
subentendidos, debaixo
das cebolas

(mas hoje penso
que se não fossem
os beijos que eu não tinha,
não havia poema)

Depois, quando os já tinha,
de vez em quando
cumpria uma cebola:

pérola rara, diamante
em sangue e riso,
desentendido de razão

Agora, sem contar:
beijo ou cebolas?

O que eu não tenho
(ou tudo): diário
surdo e cego:

vestidos por tirar,
camadas por cumprir:

e mais:
imperfeição


Ana Luísa Amaral

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Não digas nada - um poema de Maria do Rosário Pedreira


fotografia retirada daqui

Não digas nada – a tua boca já me pertenceu
e agora tenho ciúmes das palavras. O que
disseres será um beijo pousado nos lábios de
outra mulher, dor e mais dor, traição maior
para quem acreditou que o teu amor era para
a morte. Não fales – tenho também ciúmes
da tua voz; ouvir-te é ficar só uma vez mais.

Maria do Rosário Pedreira (lido aqui)

Bach e o filme de um homem calvo



Li as tuas palavras antigas
E caíram-me bem como o som de Bach
Num carrilhão de cinquenta sinos;
Um filme francês, há dias -

Mas não interrogues as estrelas
Conto-te, sem pressas, uma história pequena:

Um homem calvo
Queria rumar ao sul e encontrar praias azuis.
Usaria um método infalível -

Falhou o plano, em vez do Sol, o frio do Norte
Uma vila pequena, gente de aldeia, um susto grande
Restava a conformidade obrigada, a penitência
E o degredo, num lugar selvagem, primário
Até o reaprender da linguagem -

Mas a música grande nas almas que julgava pequenas
Fizeram crescer mãos e braços sobre o homem calvo
Uma concha de afectos, e o mundo mudou -

O Norte não era tão frio que congelasse os pés
Nem tão empedernido que estalasse a alma
E enquanto na alta torre da igreja medieval
O cobre dos sinos discursava
O homem calvo largou a mensagem
Na janela mais alta, estreita e longínqua
em serenata à lua, e em inverso
de cima para baixo a uma mulher na rua
de olhos brilhantes e mãos lancinantes, impacientes -

Tudo contrariou a previsão do início
Completando assim o sentido primeiro do poema:
O bem que fizeram as palavras antigas e a melodia;
O som de Bach -

Que segundo consta nas pinturas das fotografias
Não era calvo e usava caracóis grandes

Por companhia -


José Ferreira 2 Setembro 2011