sábado, 10 de setembro de 2011

While my guitar - um poema de mar com cidade dentro

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Setembro é o bom mês dos poetas
Das pedras virgens e almas imperfeitas
Como as tramas de tecidos de linho
E as ondas nos espelhos de mar-

Os olhos em frente esticam os dedos, longamente
E misturam cabelos nos desvios de cor e sal, o pensamento
Até à pré-história dos poemas, deslizantes
Por quartos imperiais e insolúveis -

O mar é pleno, apela ao infinito
Na asa aberta que se afasta do cimento;
A robusta matéria de contornos definidos -

O sol queima o antebraço, clareia a tonalidade dos pelos
Deita-os, paralelos e submissos, adormece-os
Combina na pele a voz incisiva, insistente
Na luz e na sombra das veias -

E brilha no assentimento de sentir a mudança
A periferia azul, o líquido oceano;
Um mar maciço de imagens flutuantes
E a importância de ser diferente -

Duas torres estragaram o mês de Setembro
Lembro-me, juntaram-lhe os medos
A sepultura dos gritos; culpados, inocentes
De quê e de quem? um símbolo
Da insegura volatilidade, a vida suspensa -

A norte, o Setembro, é menos ameno
Mas por vezes 20º Celsius torna os véus suficientes;
Transparências de derme, passos breves
A superfície morna de areias impoluídas
Sem as cicatrizes de gente, sem os panos coloridos
Sem os guarda-sóis esvoaçantes em lugares pouco firmes -

Por vezes, em Setembro
O vento veste a ausência e acalma o dia
Mas os braços doem-me tanto
E a boca afunda-se, sobre o mar e o silêncio -

Os lábios fixam-se, juntos, apertados
Do lado de dentro dos dentes, como gémeos
E falam inaudíveis sobre o desejo vermelho -

E preciso dizer o teu nome ao som de uma cidade italiana -

Sobra-me a memória, falta-me o relâmpago
Mas há um pequeno brilho, o raio branco, a música alcalina
E as cordas de nylon soam gentilmente -


José Ferreira 9 Setembro 2011

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