disse faltavam ainda milhares de gestos não sei porque saíste da frente do espelho.
- pousou os óculos e acendeu um isqueiro naquele jeito religioso de um nirvana no meio de um concerto como era possível ser o único no meio da melodia -
não sei porque escondeste esse olhar de sereia de afundar navios, a pique, agora, quando desaprendi a sobrevivência nua de ser ilha.
- foi obrigado a pousar a caneta inclinada de bolina enquanto o gato lhe subia o colo arredondava o dorso numa curva da espinha e no olhar suplicante de uma festa acendia o seu modo de trabalhar afectos e exigia a repetição contínua pelo meio da cabeça, esticando as orelhas -
não sei porque recusaste o devaneio das luas escondidas o jogo erotizado das cortinas.
- o gato pequeno mesclado de tigre miou o desespero de poder viajar o ombro e descer de novo ao colo na tremura dolente -
como conclusão que não surpreende o poeta desistiu provisoriamente do poema - enquanto insaciável afagava o pêlo - e o gato de olhar intermitente simbolizou ao mesmo tempo o desejo e o recalcamento enviando sinais de fogo a cada novo movimento da pele ao deslizar os dedos -
Em que pensar, agora, senão em ti? Tu, que me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a manhã da minha noite. É verdade que te podia dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou, até sermos um apenas no amor que nos une, contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor: ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo esse que mal corria quando por ele passámos, subindo a margem em que descobri o sentido de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor, de chegar antes de ti para te ver chegar: com a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu: a primavera luminosa da minha expectativa, a mais certa certeza de que gosto de ti, como gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.
duas horas da manhã o aquecedor no máximo. os pincéis esfregam os cabelos em cem por cento algodão misturam cores organizadas e suaves, na absorção serena de um quadro húmido; a impressão de ser esta a cor mágica aguarelada; um verde mar, um barco sépia, a transparência rosa no fundo do fundo da água ao encontrar a tarde descendente os olhos abertos do areal, bege e largo.
duas horas e um quarto o aquecedor no máximo. o pintor interroga-se dos pormenores. o mar está calmo. no barco desenha os braços, dois de cada lado -
o sintoma era aquele bater de asas querendo ganhar o espaço com o peso pesado do tronco o chumbo dos ossos, o lastro dos pés colados na calçada sem sair para qualquer lado -
desactualizado estava o divã vermelho, a poltrona escondida o bloco aberto na ponta do lápis, o cofiar da barba. desejado era o face-a-face, o desfolhar associado de palavras recolhidas no fundo da alma.
e de que é feita a alma? feita de dúvidas plenas ? de nuvens largas? de histórias e viagens?
aquele incessante bater de asas -
qual o segredo das células? o verdadeiro estado? a identidade rodopiante sem catarse?
o disco sol girava no amarelo forte, um princípio tardio depois da enublada manhã cinza. corria um ar grave sobre os cravos brancos sem a cor rubra de setenta e quatro. as mãos alimentavam uma música de blues na suspensão de teclas que estendiam as tonalidades à companhia de uma voz rouca, de cordas gastas no excesso de horas sem intervalo, horas repetidas. os dedos de pontas quadradas reflectiam atrasos no tempo ternário e suportavam o resumo de textos que se misturavam em indecisas palavras. o peso insubmisso da inconsciência traçou o fim do caminho a queda forte sobre a melodia, a cabeça, sobre as mãos lentas num acorde de sustenidos, fá menor, Simon, sound of silence. um ruído imenso. a queda de um granito denso, a cabeça. desde a madrugada, antes mesmo do nascimento de uma luz baça conseguira povoar de passos os círculos da sala transformando as ideias num fumo vago, até ao cansaço até ao sentar-se , exausto, no banco novo do piano de mecânica sensível, precisa, na regulação das alturas. recordou obsessivo todas as canções que sabia. doze horas. doze horas seguidas, doze horas seguidas; o inverso da sublimação, o estado sólido, o peso metálico de chumbo. mais não. calava o cansaço nos olhos raiados de vermelho. calava e calava-se sobre as teclas do piano
enquanto o canário compreensivo, no alto da gaiola, desafiava o gato negro e assente sobre as patas, de ar convicto, incandescia o ar de uma outra melodia-
ao acordar podes apontar a arma dispara, não falhes. todo o poeta deveria provavelmente saber que as palavras têm um duplo sentido um branco e um preto e quando as escreve, frequentemente afunda-se no subjectivo, uma ilha e alinha a caneta com as raízes, por vezes pequenas do seu pensamento.
portanto não há lugar à desculpa fraca. ser poeta não é ser idiota. é interdito magoar as folhas que pousam na erva. por isso não desistas, verifica o número de balas e ao acordar podes apontar a arma não hesites não esperes pela abertura perigosa dos olhos dispara, não falhes.
estas luzes inomináveis que se prendem constantes em lugares múltiplos, físicos tão próximas quanto o ar que respiramos - luzes diferentes, clarões operantes, em fragmentos extremando os limites do pulmão, oxigenizando os dióxidos de uma tosse intermitente um desequilíbrio do impossível -
estas luzes insistentes de um olhar de fogo sem cedências, permanentes qual final de opereta descendo o pano, alargando o sorriso líquido impedindo a desistência de sentir, a afluência rubra, luzes… …luzes, incondicionáveis, inomináveis, tuas provocando os caminhos aerográficos da consequência; palavras, palavras flutuantes, palavras insinuantes palavras navegantes, nuas como pétalas caídas da profundidade dos dedos, tuas qual espuma flexível de luvas brancas música de sílabas, música de luas na opacidade de esconder o tempo que se aproxima -
La marée je l'ai dans le coeur Qui me remonte comme un signe Je meurs de ma petite soeur De mon enfant et de mon cygne Un bateau ça dépend comment On l'arrime au port de justesse Il pleure de mon firmament Des années-lumière et j'en laisse Je suis le fantôme Jersey Celui qui vient les soirs de frime Te lancer la brume en baisers Et te ramasser dans ses rimes Comme le trémail de juillet Où luisait le loup solitaire Celui que je voyais briller Aux doigts du sable de la terre
Rappelle-toi ce chien de mer Que nous libérions sur parole Et qui gueule dans le désert Des goémons de nécropole Je suis sûr que la vie est là Avec ses poumons de flanelle Quand il pleure de ces temps-là Le froid tout gris qui nous appelle Je me souviens des soirs là-bas Et des sprints gagnés sur l'écume Cette bave des chevaux ras Au ras des rocs qui se consument Ô l'ange des plaisirs perdus Ô rumeurs d'une autre habitude Mes désirs dès lors ne sont plus Qu'un chagrin de ma solitude
Et le diable des soirs conquis Avec ses pâleurs de rescousse Et le squale des paradis Dans le milieu mouillé de mousse Reviens fille verte des fjords Reviens violon des violonades Dans le port fanfarent les cors Pour le retour des camarades Ô parfum rare des salants Dans le poivre feu des gerçures Quand j'allais géométrisant Mon âme au creux de ta blessure Dans le désordre de ton cul Poissé dans les draps d'aube fine Je voyais un vitrail de plus
Et toi fille verte mon spleen
Les coquillages figurants Sous les sunlights cassés liquides Jouent de la castagnette tant Qu'on dirait l'Espagne livide Dieu des granits ayez pitié De leur vocation de parure Quand le couteau vient s'immiscer Dans leur castagnette figure Et je voyais ce qu'on pressent Quand on pressent l'entrevoyure Entre les persiennes du sang Et que les globules figurent Une mathématique bleue Dans cette mer jamais étale D'où nous remonte peu à peu Cette mémoire des étoiles
Cette rumeur qui vient de là Sous l'arc copain où je m'aveugle Ces mains qui me font du flafla Ces mains ruminantes qui meuglent Cette rumeur me suit longtemps Comme un mendiant sous l'anathème Comme l'ombre qui perd son temps À dessiner mon théorème Et sur mon maquillage roux S'en vient battre comme une porte Cette rumeur qui va debout Dans la rue aux musiques mortes C'est fini la mer c'est fini Sur la plage le sable bêle Comme des moutons d'infini Quand la mer bergère m'appelle
O sonho tem estas árias misteriosas que acompanham as manhãs frias músicas muito antigas numa voz rouca e sensível com andas de mãos grandes encaminhando os pés uma corrida num monte limpo na fuga imprevidente de uma aula incompleta um abecedário esquecido, um pó sem origem um filtro de realidade, filtro branco gotejante de segundos, nos ponteiros pálidos da nebulosidade.
os passeios são os mesmos na cidade, a inexistência de garças os vapores na frente dos lábios, os mesmos, breves transformados no próprio ar químico, vaga irrealidade repetindo, repetindo sempre sem dar lugar à consistência porque é essa a natureza, o lugar escondido o lugar escondido.
são os mesmos os passeios da cidade na manhã fria e não consta que cheguem hoje, segunda-feira os extraterrestres do destino desenrolando papiros afirmando cronologias definidas, passos certos de uma dança atrás à frente, de lado, vira agora, não consta. e o café, que é o mesmo, preto de anfetamina, vibrando as células ainda adormecidas, surgindo como vício, o vício dos dias solta as livres letras como um fumo desprendido uma associação livre, uma leve transparência de um mundo inconsciente sem a percepção de o quanto a dosagem, a mistura, a percentagem de açúcar e farinha que sobe de dentro, conduzindo empurrando o aparo, soltando a tinta, tisnando um pouco as figuras de estilo.
hoje, segunda feira, 24 de Janeiro, os passeios são os mesmos e não ouso interromper esta ária de segredos, dentro, os sonhos não ouso desapertar totalmente os laços de uma fita semi-aberta, semi-fechada, dourada e brilhante observo-os na felicidade constante de uma oferenda de um outro dia vinte e quatro, dentro de uma meia junto a pedras ainda ofegantes de cinza, a lareira e o entusiasmo de saber que existem e estão lá dentro -
os sonhos não são como os passeios da cidade nem sempre são os mesmos, às vezes surpreendem quando surgem como um quadro naïf, uma ingenuidade na cor verde do exagero, originais, provocando o sorriso na realidade dos dias -