quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

não sei porque saíste


Edouard Boubat


disse
faltavam ainda milhares de gestos
não sei porque saíste da frente do espelho.

- pousou os óculos e acendeu um isqueiro
naquele jeito religioso de um nirvana no meio de um concerto
como era possível ser o único no meio da melodia -

não sei porque escondeste esse olhar de sereia
de afundar navios, a pique, agora, quando
desaprendi a sobrevivência nua de ser ilha.

- foi obrigado a pousar a caneta inclinada de bolina
enquanto o gato lhe subia o colo
arredondava o dorso numa curva da espinha
e no olhar suplicante de uma festa
acendia o seu modo de trabalhar afectos
e exigia a repetição contínua
pelo meio da cabeça, esticando as orelhas -

não sei porque recusaste o devaneio das luas escondidas
o jogo erotizado das cortinas.

- o gato pequeno mesclado de tigre
miou o desespero de poder viajar o ombro
e descer de novo ao colo na tremura dolente -

como conclusão que não surpreende
o poeta desistiu provisoriamente do poema
- enquanto insaciável afagava o pêlo -
e o gato de olhar intermitente
simbolizou ao mesmo tempo o desejo e o recalcamento
enviando sinais de fogo a cada novo movimento
da pele ao deslizar os dedos -

José Ferreira 3Fev2011

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Pedro lembrando Inês


Edouard Boubat

Em que pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.

Nuno Júdice

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

duas horas da manhã o aquecedor no máximo


Luís Lobo Henriques


duas horas da manhã o aquecedor no máximo.
os pincéis esfregam os cabelos em cem por cento algodão
misturam cores organizadas e suaves, na absorção serena
de um quadro húmido; a impressão de ser esta a cor mágica
aguarelada; um verde mar, um barco sépia, a transparência rosa
no fundo do fundo da água ao encontrar a tarde descendente
os olhos abertos do areal, bege e largo.

duas horas e um quarto o aquecedor no máximo.
o pintor interroga-se dos pormenores. o mar está calmo.
no barco desenha os braços, dois de cada lado -

José Ferreira 1Fev2011

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

XVI


Annie Leibovitz

(mais um poeta concorrente ao prémio "Correntes d'Escrita")


Tudo são máquinas, a luciferina intenção
de cortar, pela janela, o desenho interrompido,

ou então, tudo são máquinas ainda, quando
a boca se desenha presa às palavras

enunciadas desde o começo da biografia
(que biografia, se só haverá farrapos?):

fantasmas enunciando-se à pressa
e que a cidade reúne nos muros que a não cingem já.

Tudo são máquinas prestes a incendiar mapas,
a eliminar traços, a apagar vestígios.

«Começará o mundo depois do mundo acabado»,
escreveste no caderno.

É de lixo lírico, a paisagem, humano resíduo.
As máquinas que escrevem, escrevem na pele.

Tudo são máquinas. O mundo irá começar
dentro de momentos, prepara-te.

Luís Quintais "Riscava a palavra dor no quadro negro" Ed. Cotovia 2010

domingo, 30 de janeiro de 2011

o sintoma era aquele bater de asas


Leonardo da Vinci "Código de voo das aves"


o sintoma era aquele bater de asas
querendo ganhar o espaço com o peso pesado do tronco
o chumbo dos ossos, o lastro dos pés colados na calçada
sem sair para qualquer lado -

desactualizado estava o divã vermelho, a poltrona escondida
o bloco aberto na ponta do lápis, o cofiar da barba.
desejado era o face-a-face, o desfolhar associado de palavras
recolhidas no fundo da alma.

e de que é feita a alma?
feita de dúvidas plenas ? de nuvens largas?
de histórias e viagens?

aquele incessante bater de asas -

qual o segredo das células? o verdadeiro estado?
a identidade rodopiante sem catarse?

e o sintoma
sem sair
para qualquer lado -

sábado, 29 de janeiro de 2011

O azul líquido do Grand Canal


O azul líquido do Grand Canal


O azul líquido do Grand Canal
Em Veneza incendiada.

O vestido de cetim branco
Num corpo de Angeline
Debruçado sobre a noite.

Lustres de luz de murano
Num palácio outrora habitado
Balzac ou Proust?

O olhar enganador de cândido
O vilão que não era.

Pontes e canais e gôndolas
Um nevoeiro nocturno
A dissipar-se.

O amanhecer de ouro
Na cidade que flutua
E sabe
De um “cristal clear”
Que há lábios em todas as gôndolas.

Olho em volta
O escuro de uma sala
O momento escondido que se deixou
Atravessar de cenários, belezas de cinema
E um ecrã, perto, perto de mim.



Auxília Ramos

Um lapso à escuta


Fotografia retirada da internet

(Comecei a publicar com a Filipa Leal e agora com Armando Silva Carvalho alguns dos poetas concorrentes ao prémio Correntes d'Escrita 2011 de poesia)

1

Não há exaltação
este novelo de sombras
e nos ouvidos
a carne descansa o seu
abecedário.

Tornei-me este planeta por ofício.
Alguns colegas pedem: capelas,
luxos, alquimias.
E outros puxam, palavra
por palavra,
peixes de silêncio.

São atletas de Deus.
E eu confirmo.
também já conheci
os mais puros exercícios
do espírito.

E eu ainda: devagar,
em órbita fechada,
no tempo,
o melhor templo.

2

Inclino na folha
a imprecisão de Deus

Quieto na idade
eu já ouvira
o verbo feito luz

Tacteio o nome
incerto

Fixo o lamento
para a eternidade

3

Na sala ouvia os animais
que nunca vira
e a mão de Deus
batia nos pinhais

Estou só e cheio
do pavor do espaço
o céu abre-se ao meio
e cai-me no regaço

Tão feminino
seu gesto na brancura
dá-me o destino
a troco da loucura



Armando Silva Carvalho "As Escadas não têm Degraus" Ed. Cotovia

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Este Livro foi escrito há muito tempo


Fotografia de Daniel no site Olhares


Era uma mulher que estava dentro de uma sala muito branca.

Ouviu: – Não fujas. Não esqueças.

Era uma mulher lívida de medo de não conseguir esquecer

*
À volta da sala, havia um pomar redondo que a envolvia de maçãs

avermelhadas, difusas. Ela estava lívida e suja, entre a castidade

e o remorso.

Ouviu: – Esquece o arrependimento. Fica.

*
Ao redor do pomar, existira um rio que secara nos últimos

anos. Se o seguisse, junto à margem, em linha curva e longa,

encontraria uma cidade desconhecida. Embora nenhuma cidade

seja desconhecida se soubermos onde está.

Ouviu: – Perder-te-ás na ausência

de água do rio.
*
Não havia um único espelho na sala. Ela não sabia o que era o

princípio e o fim. Desconhecia os conceitos de vida e de morte.

Nunca medira a sala, nem o pomar, nem o terror. Se desejasse,

abriria a porta.

Ouviu: – Assustar-te-á a existência

de dia e de noite
*
Sabia o seu nome. Chamava-se Eva. Nunca questionara. Porque

haveria de questionar um nome simples e breve? Desconhecia o

texto bíblico, e o simbolismo das palavras. Se se chamasse mar,

ou cálice, ou manhã, não o questionaria.



A Inexistência de Eva, de Filipa Leal, Deriva, 2009

Simon e o canário amarelo


Paul Klee "paisagem e pássaros amarelos" 1923

o disco sol girava no amarelo forte, um princípio tardio
depois da enublada manhã cinza.
corria um ar grave sobre os cravos brancos
sem a cor rubra de setenta e quatro.
as mãos alimentavam uma música de blues
na suspensão de teclas que estendiam as tonalidades
à companhia de uma voz rouca, de cordas gastas
no excesso de horas sem intervalo, horas repetidas.
os dedos de pontas quadradas reflectiam atrasos no tempo ternário
e suportavam o resumo de textos que se misturavam em indecisas palavras.
o peso insubmisso da inconsciência traçou o fim do caminho
a queda forte sobre a melodia, a cabeça, sobre as mãos lentas
num acorde de sustenidos, fá menor, Simon, sound of silence.
um ruído imenso. a queda de um granito denso, a cabeça.
desde a madrugada, antes mesmo do nascimento de uma luz baça
conseguira povoar de passos os círculos da sala
transformando as ideias num fumo vago, até ao cansaço
até ao sentar-se , exausto, no banco novo do piano
de mecânica sensível, precisa, na regulação das alturas.
recordou obsessivo todas as canções que sabia. doze horas.
doze horas seguidas, doze horas seguidas;
o inverso da sublimação, o estado sólido, o peso metálico de chumbo.
mais não. calava o cansaço nos olhos raiados de vermelho.
calava e calava-se sobre as teclas do piano

enquanto o canário compreensivo, no alto da gaiola, desafiava o gato negro
e assente sobre as patas, de ar convicto, incandescia o ar de uma outra melodia-

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Os versos que te fiz

Encontra mais artistas como Clara Ghimel em Música do Myspace


Clara Ghimel "Entre- Mares"


Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder…
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda…
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei…
E nesse beijo, amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

ao acordar podes apontar a arma


Gerard Richter


ao acordar podes apontar a arma
dispara, não falhes.
todo o poeta deveria provavelmente saber
que as palavras têm um duplo sentido
um branco e um preto
e quando as escreve, frequentemente
afunda-se no subjectivo, uma ilha
e alinha a caneta com as raízes, por vezes pequenas
do seu pensamento.

portanto não há lugar à desculpa fraca.
ser poeta não é ser idiota.
é interdito magoar as folhas que pousam na erva.
por isso não desistas, verifica o número de balas
e ao acordar podes apontar a arma
não hesites
não esperes pela abertura perigosa dos olhos
dispara, não falhes.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Avistei a boca ao entardecer


(fotografia retirada da internet)


Avistei a boca ao entardecer.

A língua não vinha nos mapas,

mas no palato agrupavam-se diversas constelações

e pertencia-lhes a ventura dos meus dedos.

Não havia notícias de outros povos

nem sequer uma mácula de cerejas.

Plantei o primeiro seio

a que chamámos macieira

e abandonei o ventre

à generosidade vegetal.

Nessa noite dormimos por dentro e por fora

do mundo.


Catarina Nunes de Almeida "A Metamorfose das Plantas dos Pés" Deriva, 2008

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

luzes (...luzes)


Alfred Sisquella "Luvas Brancas"


estas luzes inomináveis que se prendem constantes
em lugares múltiplos, físicos
tão próximas quanto o ar que respiramos -
luzes diferentes, clarões operantes, em fragmentos
extremando os limites do pulmão, oxigenizando
os dióxidos de uma tosse intermitente
um desequilíbrio do impossível -

estas luzes insistentes de um olhar de fogo
sem cedências, permanentes
qual final de opereta descendo o pano, alargando o sorriso líquido
impedindo a desistência de sentir, a afluência rubra, luzes…
…luzes, incondicionáveis, inomináveis, tuas
provocando os caminhos aerográficos da consequência;
palavras, palavras flutuantes, palavras insinuantes
palavras navegantes, nuas
como pétalas caídas da profundidade dos dedos, tuas
qual espuma flexível de luvas brancas
música de sílabas, música de luas
na opacidade de esconder o tempo
que se aproxima -

José Ferreira 25 Jan 2011

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

La memoire et la mer


LA MEMOIRE ET LA MER par Mônica PASSOS
Enviado por jeanlouislaforet. - Clipes, entrevista dos artistas, shows e muito mais.


La marée je l'ai dans le coeur
Qui me remonte comme un signe
Je meurs de ma petite soeur
De mon enfant et de mon cygne
Un bateau ça dépend comment
On l'arrime au port de justesse
Il pleure de mon firmament
Des années-lumière et j'en laisse
Je suis le fantôme Jersey
Celui qui vient les soirs de frime
Te lancer la brume en baisers
Et te ramasser dans ses rimes
Comme le trémail de juillet
Où luisait le loup solitaire
Celui que je voyais briller
Aux doigts du sable de la terre

Rappelle-toi ce chien de mer
Que nous libérions sur parole
Et qui gueule dans le désert
Des goémons de nécropole
Je suis sûr que la vie est là
Avec ses poumons de flanelle
Quand il pleure de ces temps-là
Le froid tout gris qui nous appelle
Je me souviens des soirs là-bas
Et des sprints gagnés sur l'écume
Cette bave des chevaux ras
Au ras des rocs qui se consument
Ô l'ange des plaisirs perdus
Ô rumeurs d'une autre habitude
Mes désirs dès lors ne sont plus
Qu'un chagrin de ma solitude

Et le diable des soirs conquis
Avec ses pâleurs de rescousse
Et le squale des paradis
Dans le milieu mouillé de mousse
Reviens fille verte des fjords
Reviens violon des violonades
Dans le port fanfarent les cors
Pour le retour des camarades
Ô parfum rare des salants
Dans le poivre feu des gerçures
Quand j'allais géométrisant
Mon âme au creux de ta blessure
Dans le désordre de ton cul
Poissé dans les draps d'aube fine
Je voyais un vitrail de plus

Et toi fille verte mon spleen

Les coquillages figurants
Sous les sunlights cassés liquides
Jouent de la castagnette tant
Qu'on dirait l'Espagne livide
Dieu des granits ayez pitié
De leur vocation de parure
Quand le couteau vient s'immiscer
Dans leur castagnette figure
Et je voyais ce qu'on pressent
Quand on pressent l'entrevoyure
Entre les persiennes du sang
Et que les globules figurent
Une mathématique bleue
Dans cette mer jamais étale
D'où nous remonte peu à peu
Cette mémoire des étoiles

Cette rumeur qui vient de là
Sous l'arc copain où je m'aveugle
Ces mains qui me font du flafla
Ces mains ruminantes qui meuglent
Cette rumeur me suit longtemps
Comme un mendiant sous l'anathème
Comme l'ombre qui perd son temps
À dessiner mon théorème
Et sur mon maquillage roux
S'en vient battre comme une porte
Cette rumeur qui va debout
Dans la rue aux musiques mortes
C'est fini la mer c'est fini
Sur la plage le sable bêle
Comme des moutons d'infini
Quand la mer bergère m'appelle

- da existência dos sonhos


Henri Rousseau


O sonho tem estas árias misteriosas
que acompanham as manhãs frias
músicas muito antigas numa voz rouca e sensível
com andas de mãos grandes encaminhando os pés
uma corrida num monte limpo
na fuga imprevidente de uma aula incompleta
um abecedário esquecido, um pó sem origem
um filtro de realidade, filtro branco gotejante
de segundos, nos ponteiros pálidos da nebulosidade.

os passeios são os mesmos na cidade, a inexistência de garças
os vapores na frente dos lábios, os mesmos, breves
transformados no próprio ar químico, vaga irrealidade
repetindo, repetindo sempre sem dar lugar à consistência
porque é essa a natureza, o lugar escondido
o lugar escondido.

são os mesmos os passeios da cidade na manhã fria
e não consta que cheguem hoje, segunda-feira
os extraterrestres do destino desenrolando papiros
afirmando cronologias definidas, passos certos de uma dança
atrás à frente, de lado, vira agora, não consta.
e o café, que é o mesmo, preto de anfetamina, vibrando as células
ainda adormecidas, surgindo como vício, o vício dos dias
solta as livres letras como um fumo desprendido
uma associação livre, uma leve transparência de um mundo inconsciente
sem a percepção de o quanto a dosagem, a mistura, a percentagem
de açúcar e farinha que sobe de dentro, conduzindo
empurrando o aparo, soltando a tinta, tisnando um pouco as figuras de estilo.

hoje, segunda feira, 24 de Janeiro, os passeios são os mesmos
e não ouso interromper esta ária de segredos, dentro, os sonhos
não ouso desapertar totalmente os laços de uma fita
semi-aberta, semi-fechada, dourada e brilhante
observo-os na felicidade constante de uma oferenda
de um outro dia vinte e quatro, dentro de uma meia
junto a pedras ainda ofegantes de cinza, a lareira
e o entusiasmo de saber que existem e estão lá dentro -

os sonhos não são como os passeios da cidade
nem sempre são os mesmos, às vezes surpreendem
quando surgem como um quadro naïf, uma ingenuidade
na cor verde do exagero, originais, provocando o sorriso
na realidade dos dias -

José Ferreira 24 de Jan 2011