domingo, 23 de maio de 2010

Esquecimento Global




O tempo é um grande diurético.

Um dia Eva sofre o seu primeiro susto
verdadeiro quando acorda condecorada
pela música da hematúria.

A declarada intrusão do tempo no chichi
fazendo-se passar com as credenciais
de um sangue apócrifo
procurado pela polícia
microscópica do sigilo
fê-la readormecer.

Não contou nada do que viu e sentiu a Adão,
que continuava ocupado a contrair a sua sífilis.
E começou a emagrecer.

Eva era uma cidade cheia de fome
fundada no baixo-ventre,
rotundas com circulação temporária
nos dois sentidos
e avenidas amplas e amabilíssimas
onde se podia encontrar artistas,
multidões e arquitectura incandescente.
Mas agora ela tinha o tempo todo contra si.
Por isso, quando chegou aos 40 quilos
e vendo-se enclausurada num corpo
que mantinha apostas cada vez mais
altas e arriscadas com o silêncio
teve a primeira conversa com o marido.

Adão chegava sempre demasiado cansado
e bêbado para a ouvir.
Foram inúmeras as vezes que tentou
ligar ao seu criador, mas o número estava
sempre deserto.

Além de emagrecer, Eva encolhia.
De uma forma, aliás, magistralmente
proporcional e moderna.
Migrava até à nulidade com uma nitidez quase abrasiva
talvez por nostalgia da nudez perdida
algures entre um e outro arquétipo
talvez porque a decepção lhe pagava
um melhor salário pelo seu trabalho imunodeprimido
que era viver.

O enfraquecimento e a nulidade crescentes
colocaram-na primeiro numa cadeira de rodas
depois numa cadeia de acontecimentos reduzidos
mas com grande impacto no futuro da Terra.

Quando não tinha mais do que o tamanho
e o protagonismo de uma bactéria, Eva
descobriu, por si própria, a cura contra o tempo
e pela primeira vez insurgiu-se.
Tinha agora uma verdadeira família
e, nas regiões anaeróbias do desejo,
o regime patriarcal do tempo
praticamente não existe.

Antes de voltar a ser mulher, Eva participou
em muitas festas, colónias e ritos
unicelulares e proibidos.
Depois despediu-se de todos e voltou a si.

Adão não quis acreditar novamente no que via.
Deus tinha o telemóvel desligado
ou com um número não atribuído.
E Eva, cansada de limpar o pó
das roldanas da história
e de beijar as mãos oportunistas
da injustiça
foi procurar a mentira.
Que é como quem diz: voltou a dormir.

Jorge Luis Borges - Entrevista soler serrano 1980 1/9

Um dos raros testemunhos televisivos com um dos maiores mestres da língua espanhola e das letras do mundo inteiro.

sábado, 22 de maio de 2010

Rua João das Regras - número cinco


Gustav Klimt "Castelo sobre a água" 1908

A casa é a harmonia pentagonal,
As estrelas debruçadas à janela,
Dinâmicas cozinham iguarias
Enfeitadas com flores de hortelã.

A casa é reunião de treze comensais
– A força do poder e do sublime –
Estimando as leis universais regidas
Pelo céu, e sempre cinco no total –
Cores, sabores, tons, metais
Vísceras, planetas, orientes
E do espaço cinco regiões,
Cinco sentidos, não seis que são demais –
Eis a Terra toda em sensível plenitude.

A casa é também Poesia, Vinho e breve Spleen
E a Alegria de estar assim em união, nutrindo
O corpo, o espírito e a magia surgida da cozinha
Transtagana. Janeiro em Abril é Mulher e é Viola
E acordes em estreia absoluta. Em tudo melodia.
Melodia é ainda a casa toda – há ecos do direito
E monarquia – as Cortes de Coimbra, os discursos
Exaltados a favor do Grão Mestre de Avis –
a eloquência na argumentação, a força do braço
Em Aljubarrota, as fontes da Lei Mental de D. Duarte
– Um baluarte, o João das Regras!

Bendito seja quem assim recebe.
Abril, 2010.
José Almeida da Silva

Acorde ou sinfonia




Quero um acorde de serenidade.
A vida é um ruído em sobressalto,
E chaga dolorosa o dia-a-dia,
E a alma do meu corpo radiosa
É quaresmal em pleno carnaval.

Sei bem que um acorde será pouco,
Mas mais é impossível por agora;
Senão pedia-te uma sinfonia – talvez
A Pastoral ou a Nona de Beethoven
– Um hino ao choro e à alegria de viver.
2010.05.19
José Almeida da Silva

Efémera eternidade





Soa a música vinda do universo
E entra na alma serenando-a
Ou agitando-a. O pensamento
Entra assim na cadência do verso
Ou do anverso do ser. Transfigura –

O bater do coração acelerado ou calmo
É sinal de lá maior ou menor em fusa
Ou semifusa, em sorriso ou lágrima,
O sossego de toda a agitação –

Lembro de Beethoven a sua Pastoral,
Lembro-a aquietando a dor da morte,
Lembro-a exultando a alma em festa,
Sinfonia bifronte – o choro e a alegria.

A música é o divino no humano, essa força
Que reforça os laços com a efémera eternidade.
2010.05.19
José Almeida da Silva

a casa semi-pintada


Magritte

sopros na altura de três pisos fustigam folhas.
sombras oscilam impressas no asfalto
de uma rua tracejada, traços brancos.

um homem de olhos vagos de zeros igual a nada
atravessa indiferente de ver ninguém.
não pertence na rua na cidade
faz parte de um quadro que desenha
na parede mais larga de uma pequena casa.

a casa pequena é um acaso de horizonte;
cem hectares de campos e searas
cinquenta árvores e a forma grávida de terra
por onde nascem os bagos e as parras
junto a muros de penedos partidos.

assim o grito quando pousa os pés subidos
nas botas duras rosadas de muitos sinais;
modelo de sapateiro no meio da aldeia;
cordões de três voltas e saltos de borracha.

não pertence não pertence
a construções de régua e esquadro;
passeios de muitos quadrados e paragens de autocarro.

não usa caminhos de zebra listada nas aberturas de compasso
foge do ruído de uma multidão brava ao lado dos semáforos.
e passa ausente passo a passo mais abaixo longe de gente
longe de gente
nos cabelos de erva em frente do alpendre onde onde
o espírito diponível acende as chamas quentes do silêncio
e forma brasas e acende e reacende e deixa cinza cinzas
na poeira nas poeiras uma poeira fina ínfima que se levanta
e ultrapassa clareiras dividida em parcelas de ar ar muito ar
e pousa trémula nas pernas do melro que recicla migalhas
migalhas de um pão de centeio.

será que sabem?
como é bom andar sózinho nos campos essa morte das cidades

será que sabem?
o sabor parado de chapéus de palha o defunto rumor dos sinos
ao longe e os badalos breves e múltiplos de rebanho
um prado de lã nos ritmos de heras e o som esvaindo.

na casa semi-pintada na parede mais larga
ruiram roeram os alicerces da cidade
e em todo lado flautas de pampas encantadas
uma torre invisível sem confusões de babel
na proximidade dos astros.

na cidade o vento espalha a sombra das folhas
e um metrónomo cresce tenso de intensidade
em milhares de olhares vigilantes, as idades
os calçados, as roupas decotadas, o caminhar pinguim
de ombros apertados e patas patas digitalizadas.
contas números num crivo redondo
depois de uma espátula, espátula de esquinas;
as mesmas que diferenciam e exprimem
como âncoras firmes.

os olhos vagos
a impressão de um homem que não pertence
de planos virados ao céu ao fundo da terra inclinados
e uma rosácea circular de medir o tempo
sem acordar o pêndulo que aprofunda a hipnose
que adormece nos poços de profundidade
com as cegonhas a derramarem águas
lágrimas de águas frescas águas selvagens
e acorda que acorda de pés de terra no meio da cidade
no calor preto e duro dos asfaltos

e esboroa e esfuma e desaparece
nos olhos vagos de zeros igual a nada -

sexta-feira, 21 de maio de 2010

quinta-feira, 20 de maio de 2010

unir ao nada, todo o ar ser cor

Mundo do corpo todo
útil vagar em ritmo
sonoridade fácil
ilumina lugares
como deixando de ser
a humana voz na corda

19 dias y 500 noches - Joaquin Sabina

Música para cépticos (um caso de negligência médica)







O médico tinha acabado de desistir
de mim.
Ouvi o rufar de um tambor próximo
da expectativa mais negra.
O sexo exausto de um saxofone
na periferia da vida
anunciando
do alto das suas últimas notas terrestres
o nível de saturação da vertigem.
E o público, finalmente,
a aplaudir.

A sua sombra era uma poça de suor,
o suor da sua desistência traduzida
em transpiração, memórias vagas
de um quarto em Antuérpia
agora compelido num estranho número de sapateado
de dedos inquietos
sobre a pele proibida
da escrivaninha.

O médico pousava o estetoscópio
como um domador de serpentes
pousa a flauta na melodia
e dizia qualquer coisa incompreensível
enquanto atirava a espátula ao lixo e o olhar à parede
que se perdia nas sombras soerguidas
da descrição do problema
e o verbo que viria a seguir
começava já a brincar
numa cama de sangue
ao início da sua boca
como uma espécie de alegoria
com baixo índice de glicose
na certeza.

Amar começa por uma ligeira inflamação
nos bons princípios
- disse ele -
e depois essa música que me fala,
essa música é pertinente,
infectou, fez-se ver,
arrastou literalmente o senhor Humberto
para uma patologia amoral que o corpo nega
numa escola de desejo e espelhismos.

O senhor está a amar, senhor Humberto,
- continuou o médico, deixando um pouco a sua desistência
de lado, tentando convencer-me de que a música
que eu ouvia era apenas uma consequência deserta
própria dos seres com uma forte susceptibilidade
à voz amada, morta e constituinte,
e às suas inúmeras plateias de sentido
nem sempre do agrado de um Orfeu
com pouco jeito e paciência para descer
às profundezas do objecto.

Amar não tem cura, senhor Humberto,
mas também não mata ninguém.
Pode ter uma vida quase normal.
Faça longos passeios e divirta-se.
Evite apenas a profilaxia.

E mandou-me sair.

Mas eu não estava a brincar.
Nem a amar verdadeiramente
a vida.
E no dia seguinte,
enquanto o médico lia a notícia
do meu falecimento
passaram helicópteros do exército
cisnes da polícia lírica
e sinestesias com pedaços de metáfora
entre os dentes
doentes civilizacionais
com falsos apaixonados pela trela

e a tarde rebentou e a noite eclodiu
e o silêncio voltou a dar o exemplo
numa cidade onde ninguém existia
na acústica do outro
a não ser como ruído
ou revés.

Cantiga dos Ais



poema de Armindo Mendes de Carvalho (1927-1988)
dito por Mário Viegas (1948-1996)

como te chamas?


fotografia retirada da internet


não sabia porque contava histórias.
como o sol a chuva o vento acontecia.
eram duas da tarde no jardim das buganvílias
onde cresciam as brancas as mais raras
em armação de ferro e alumínio.

chegaram um e uma de mãos dadas ligadas
moravam do outro lado da estrada.
sentaram no relvado mais escuro da sombra
de uma latada ainda adormecida de bagos
em frente de um aroma claro que crescia
por trás de um banco e de uma bengala.

doze e doze vinte quatro e as mãos dadas.
a curiosidade pequena: aqui não há praia?

soltava uma das mãos e pousava.
a outra mão e pousava. De novo uma.
de novo outra. o queixo na curva de prata.
colocava a bengala de lado. Cofiava a barba.
no sabor da idade lembrou a história:


doze de agosto a tarde plana
por cima de duas três árvores uma ave
de peito claro e cauda rápida
parecia que chamava.

doze de agosto. Porto. a maré vaza
liberta areia muito acesa depois húmida
no preenchimento de pés de espuma e água.
o sol daquela hora é uma chuva de brasas
nos bicos dos ombros na beira do mar branco.
acima só andam os cães descalços
com as línguas de fora de lado.

doze de agosto melhor a barraca.
os olhos nos olhos indicam que os pés se tocam
dez dedos brancos dez dedos morenos
os brancos de unhas de cor.

como te chamas? – como as estrelas
como te chamas? – como as deusas
como te chamas? – açúcar de sobremesa
como te chamas? – como queiras

sobre a toalha laranja dos quadrados
um raio de poeira diagonal atravessa as riscas largas da barraca;
velas fortes de telas de algodão nas mãos de vento
como um balão de fôlego côncavo convexo.

doze de agosto não há qualquer cadeira
geladeira de sandes queijo ou marmelada
leite de morango ou limonada. água lisa
uma saca um saco duas toalhas uma cassete
posições várias de cohen leonard.
como te chamas? - dança dança

a voz clara e fina no feminino:
não é o mais importante vai vai
vai sem pressa como quando se descansa.
primeiro falamos do Verão e do Inverno
se houver encantos os verbos de verdade
definem as frases
encostam os ouvidos nas leituras
definem as curvas de caligrafias.
gostas mais de rios ribeiros
largos poços ou vastos mares?
falemos de programas de televisão
nada de exclusivos e defesas de ocasião
não queiras parecer, sê, sê como um piano.

como te chamas? – amanhã sabes.

continuaram de pés juntos como teclas
encontraram tudo o que era no que viam.
caiu na tarde uma leve cor laranja no mais longe do mar.

como te chamas?

de olhos grandes e cabelos sem trança
subiu apoiada na barraca beijou-lhe a testa
sorriu nos lábios dela:
amanhã à mesma hora e de surpresa
fala-me de flores para além da rosa
e não tenhas pressa
quatro estações tem a natureza
não vejo inverno chegou cedo a primavera
quem sabe
quando os olhos sentem
quando os olhos falam o coração sabe
adormece num conto sem data.

doze de agosto na praia do Porto.
a maré vaza.

levantou-se na dificuldade da curva da bengala.
doze e doze vinte quatro voltaram para casa
de mãos dadas.

uma música longínqua de um canto de pássaros
cravou-lhe no espírito uma melodia de força
um voo de garças que pousam e molham
as pernas altas de novo nas águas
e um sal grosso salvou-lhe os olhos
da secura de só palavras mudas sem nuvens
no jardim das buganvílias.

amanhã de novo o banco e as crianças
continuava a história
ocorreram-lhe muitos nomes e a resposta
como te chamas?

as claves claras de um sol de leonard
traziam o aleluia e a dança de uma valsa
nas posições várias das faixas.

caminhou sem a pressa do regresso
levava dentro da cabeça uma teia feita de cordas
melodias de um novo universo.

dobrou as voltas de uma chave pesada
curvou o puxador de pedra mármore ou seria ágata?
recolheu algumas migalhas de um bolo de manga

horas de lanche -

música

linhares da beira - serra da estrela
.© raquel patriarca

há uma música bonita
que me inunda a
memória
de gestos serenos
e dias de sol

uma melopeia de coisas simples

o encanto de uma
história
contada de cor

‘era uma vez
há muitos muitos anos
numa terra distante...’

o murmúrio de uma oração
e o toque das contas
do terço
o abrir -
- vagaroso
de uma manga
à procura de um lenço

o som da água
a correr no ribeiro
empurrado pelo vento
e o bailar da roupa
que se mergulha e esfrega
ao ritmo
sincopado
de uma cantiga sem tempo

o burburinho
dos dias de feira
o tamborilar das compras
na cesta
o toque dos sinos tão perto
o encadeado dos cumprimentos
‘como está?
vamos indo obrigada
até amanhã
se deus quiser’

o flautear de uma
gargalhada
no fim da brincadeira

o compasso do
caminhar
em direcção a casa

o estalar do
pão de trigo
à hora da merenda

o suspiro cansado e
fundo
ao pousar
as mãos nodosas
no colo
alisando
resignadamente
as rugas da pele
as pontas do avental

o sussurro doce de uma
canção
de embalar
o soluço de
um afago e de um
beijo
antes de deitar



há um silêncio surdo
que me ensopa a
alma
de ecos vazios
e ausências doridas

‘era uma vez
há muitos muitos anos
numa terra distante...’

aos avós

raquel patriarca
dezanove.maio.doismiledez

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Coisas que servem para ver mais longe

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1.

Sonhei que Santo Agostinho emergia de uma piscina de etanol, a mesma do nosso colégio. Tinha uma touca às riscas, a mesma que usávamos nas competições de natação. O Santo olhava para mim com uns binóculos antigos, notou a minha erecção, que fazia nos calções justos um chumaço torto. A minha boca sabia ainda lixívia doce. O Bispo de Hipona voltou a mergulhar com os binóculos como se procurasse no fundo da piscina uma relíquia da cruz de Cristo.

2.

Vinha da piscina em direcção aos balneários, todos os outros estavam a jogar futebol, no balneário estava o monge, sentado e nu, apenas com uma toalha azul-marinho pelas pernas, que lhe escondia o sexo, a toalha tinha uma ânfora dourada.

3.

Disse que eu era um bom rapaz e convidou-me a sentar ao lado dele, enquanto se ia esfregando, senti aumentar o estampado da toalha, uma ânfora em fio dourado erguia-se com a erecção do monge, parecia triste. Senti necessidade de lhe dizer qualquer coisa, que cantava bem por exemplo, que tinha sido com ele que tinha aprendido a decorar e solfejar os salmos mais belos dos livros antigos. Ele sabia a minha paixão por hagiografias e sobretudo do meu interesse pela obra de Santo Agostinho, e muitas vezes pedia ao monge bibliotecário para me deixar ficar mais tempo com os volumes da “A Cidade de Deus” que eu lia muito devagar, tirando algumas citações do Santo para o meu caderno porque não os podia sublinhar.

4.

A toalha estava quente, o monge guiava a minha mão para cima e para baixo, tive vergonha de olhar para ele. Tirou a toalha e vi o seu sexo erecto, guiou-me a mão até ao sexo e voltou-me a falar dos binóculos, que tinham sido do seu avô, e falava-me de “A Cidade de Deus”. Corrigiu-me a postura da mão, depois disse – um bocado mais depressa – Os binóculos são bons – Eu disse que aquilo era porco e podia aparecer alguém. Ele disse que não e voltou a falar dos binóculos. Eu adorava ter aquele livro, por isso, quando me pôs a mão na cabeça e ma baixou devagarinho, não me atrevi a negar.

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5.

Pensei nos binóculos e na edição nova da “A Cidade de Deus”. Pediu só que eu tocasse na toalha, na parte da ânfora, a que estava mais levantada, eu toquei, e ele pôs a mão por cima da minha, e disse – Faz assim devagar – Eu disse que aquilo era porco e não se devia fazer – Ele não respondeu e começou a contar a história da nossa Instituição, dizia que se lembrava de cor da cara de todos os meninos abandonados que passaram nesta casa, meninos que cresceram e têm agora um futuro pela frente podíamos ter nesta Santa Casa um abrigo, uma esperança e um futuro. Falou-me de um menino que era agora deputado e de um outro professor Universitário em Inglaterra. Enquanto eu continuava no ritmo regular, ajudado pela sua mão, que corrigia por vezes os meus movimentos, fazendo acelerar ou abrandar a intensidade do gesto contou-me que foi ele que pressionou o director a montar a piscina e o pequeno ginásio, porque é bom para nós e para os monges fazer-mos desporto, e o campo de terra batida só dava para os jogos de atletismo, a ginástica e o futebol quando não chovia.

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6.

- Meti a boca e chupei, tentando pensar nas imagens de um livro de milagres ilustrado que tinha no meu quarto. Segurou-me na cabeça, e pediu que continuasse, esquecendo-se de falar. O sexo ficava cada vez mais duro, e ele pediu para eu continuar até que grunhiu e a minha boca encheu-se de um jacto quente. Ele disse que depois passava no meu quarto e foi tomar banho.
Fui lavar a boca, o esperma quente estava-me nas covas dos dentes, no fundo e debaixo da língua, algum nas amígdalas, e durante vários dias parecia que tudo o que comia no refeitório me sabia a lixívia adocicada.

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O monge boiava numa piscina de etanol, Depois voltou à superfície com uma touca igual às riscas, e Santo Agostinho ficou lá em baixo durante muito tempo. Depois o monge grunhiu de prazer, o mesmo som que tinha feito comigo, imaginei a mancha de esperma a boiar no fundo da piscina. Os espermatozóides em dança eléctrica, nadando uns bruços imperfeitos: procurando um útero, que lhes garantisse a sobrevivência, inexistente na piscina do Etanol.

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No sonho tive medo que pensassem que a mancha branca na piscina fosse minha, de fazer coisas porcas na piscina e sai a correr para o pátio. Entrei na igreja e rezei em frente ao altar de Santa Helena. No etanol a mancha, por um efeito químico, tornava-se fluorescente, como se fosse uma mensagem que o colégio devia acolher.
À noite voltei à piscina para me certificar se a mancha ainda lá estava, procurando o intervalo em que o funcionário do ginásio estava a fumar um cigarro.
Da água escura voltou a emergir Santo Agostinho com a sua touca às riscas, trazia na mão um pedaço de madeira e um espinho. Saiu da água e deu-me as relíquias para a mão, ainda com os binóculos ao peito. A minha boca ainda sabia a lixívia doce, e o arroz na cantina sabia a lixívia doce, e os rissóis pareciam ser de lixívia doce. Embrulhei as relíquias na minha toalha.


Nuno Brito

Cidade-ponto (poema de Sylvia Beirute)



















CIDADE-PONTO


{ao tiago gomes, com amizade}

não escrevi um livro em miniatura sob uma lupa falsa.
não pedi qualidade aos clássicos.
não pretendi reparar a eficácia de qualquer sistema humano.
não endossei poemas porque os poemas não são cartas.
não tenho um cativeiro de poetas.
não visitei cidades-poema.
não segui preceitos que se vejam.
não azuleci por pertencer ao céu.
não tive ilusão e coragem para crer na desistência.
não escrevi que o fingimento pode ser um ódio com casca.
não tenho maneiras puramente estéticas.
não tenho processos literários.
não tenho dois corações.
não li masaoka shiki ou matsuo bashō.
não li a crítica para não perder a liberdade e o meu
dom impreparado.
não peguei no tempo e o atirei para dentro do corpo
como células estaminais.
não escrevi sobre a revolução industrial.
não respeitei o meu passado enquanto índice temático.
não estimulei diagnósticos de subtileza grosseira.
não recuperei emoções com a cabeça.
não coloquei questões delicadas no campo da poesia suprema.
não transferi permissões de mim para mim.
não imaginei versos paralelos para prender significados.

Sylvia Beirute
inédito