quinta-feira, 20 de maio de 2010

como te chamas?


fotografia retirada da internet


não sabia porque contava histórias.
como o sol a chuva o vento acontecia.
eram duas da tarde no jardim das buganvílias
onde cresciam as brancas as mais raras
em armação de ferro e alumínio.

chegaram um e uma de mãos dadas ligadas
moravam do outro lado da estrada.
sentaram no relvado mais escuro da sombra
de uma latada ainda adormecida de bagos
em frente de um aroma claro que crescia
por trás de um banco e de uma bengala.

doze e doze vinte quatro e as mãos dadas.
a curiosidade pequena: aqui não há praia?

soltava uma das mãos e pousava.
a outra mão e pousava. De novo uma.
de novo outra. o queixo na curva de prata.
colocava a bengala de lado. Cofiava a barba.
no sabor da idade lembrou a história:


doze de agosto a tarde plana
por cima de duas três árvores uma ave
de peito claro e cauda rápida
parecia que chamava.

doze de agosto. Porto. a maré vaza
liberta areia muito acesa depois húmida
no preenchimento de pés de espuma e água.
o sol daquela hora é uma chuva de brasas
nos bicos dos ombros na beira do mar branco.
acima só andam os cães descalços
com as línguas de fora de lado.

doze de agosto melhor a barraca.
os olhos nos olhos indicam que os pés se tocam
dez dedos brancos dez dedos morenos
os brancos de unhas de cor.

como te chamas? – como as estrelas
como te chamas? – como as deusas
como te chamas? – açúcar de sobremesa
como te chamas? – como queiras

sobre a toalha laranja dos quadrados
um raio de poeira diagonal atravessa as riscas largas da barraca;
velas fortes de telas de algodão nas mãos de vento
como um balão de fôlego côncavo convexo.

doze de agosto não há qualquer cadeira
geladeira de sandes queijo ou marmelada
leite de morango ou limonada. água lisa
uma saca um saco duas toalhas uma cassete
posições várias de cohen leonard.
como te chamas? - dança dança

a voz clara e fina no feminino:
não é o mais importante vai vai
vai sem pressa como quando se descansa.
primeiro falamos do Verão e do Inverno
se houver encantos os verbos de verdade
definem as frases
encostam os ouvidos nas leituras
definem as curvas de caligrafias.
gostas mais de rios ribeiros
largos poços ou vastos mares?
falemos de programas de televisão
nada de exclusivos e defesas de ocasião
não queiras parecer, sê, sê como um piano.

como te chamas? – amanhã sabes.

continuaram de pés juntos como teclas
encontraram tudo o que era no que viam.
caiu na tarde uma leve cor laranja no mais longe do mar.

como te chamas?

de olhos grandes e cabelos sem trança
subiu apoiada na barraca beijou-lhe a testa
sorriu nos lábios dela:
amanhã à mesma hora e de surpresa
fala-me de flores para além da rosa
e não tenhas pressa
quatro estações tem a natureza
não vejo inverno chegou cedo a primavera
quem sabe
quando os olhos sentem
quando os olhos falam o coração sabe
adormece num conto sem data.

doze de agosto na praia do Porto.
a maré vaza.

levantou-se na dificuldade da curva da bengala.
doze e doze vinte quatro voltaram para casa
de mãos dadas.

uma música longínqua de um canto de pássaros
cravou-lhe no espírito uma melodia de força
um voo de garças que pousam e molham
as pernas altas de novo nas águas
e um sal grosso salvou-lhe os olhos
da secura de só palavras mudas sem nuvens
no jardim das buganvílias.

amanhã de novo o banco e as crianças
continuava a história
ocorreram-lhe muitos nomes e a resposta
como te chamas?

as claves claras de um sol de leonard
traziam o aleluia e a dança de uma valsa
nas posições várias das faixas.

caminhou sem a pressa do regresso
levava dentro da cabeça uma teia feita de cordas
melodias de um novo universo.

dobrou as voltas de uma chave pesada
curvou o puxador de pedra mármore ou seria ágata?
recolheu algumas migalhas de um bolo de manga

horas de lanche -

2 comentários:

raquel patriarca disse...

é tão bonito José. tenho vontade de largar o trabalho e ir para a praia...
"sobre a toalha laranja dos quadrados
um raio de poeira diagonal atravessa as riscas largas da barraca;
velas fortes de telas de algodão nas mãos de vento
como um balão de fôlego concâvo convexo"
maravilhoso.
r.

Anabela Brasinha disse...

Sim, é tão bonito,

e ela dizia,
como te chamas? – amanhã sabes.