ridículas as ilhas
as pedras nas ilhas
as casas nas pedras
e as janelas
as cartas são brancas
e dizem ilha
não sei ler cartas
ou os mapas do tempo
que tenho por dentro
mas uma ilha não é ridícula
se as ilhas não tivessem olhos
segunda-feira, 5 de abril de 2010
domingo, 4 de abril de 2010
Uma esplanada sobre o mar

Kartész "Mesa de café em Paris com um poema de Ady" 1928
(Reli este conto de Vergílio Ferreira e achei-o tão bem escrito que não resisti a publicar)
A rapariga estava sentada a uma mesa numa esplanada sobre o mar. Vestia de branco e era loura, mas muito queimada do sol. Ao lado da mesa estava montado um guarda-sol giratório de pano azul que o criado veio regular, para acertar bem a sombra. O criado não perguntou nada e inclinou-se apenas e a rapariga pediu um refresco. Era a meio da tarde e o sol batia em cheio no mar, que se espelhava aqui e além em placas rebrilhantes. O céu estava muito azul e o ar era muito límpido, mas no limite do mar havia uma leve neblina e os barcos que aí passa¬vam tinham os traços imprecisos, como se fossem feitos também de névoa. Na praia que ficava em baixo não havia quase ninguém e o mar batia em pequenas ondas na areia. A espuma era mais branca, iluminada do sol, e o ruído do mar era quase contínuo e espalhado por toda a extensão das águas.
A rapariga de vez em quando olhava ao lado a porta que dava para a esplanada e depois olhava o relógio. Voltava então a olhar o mar e ficava assim sem se mover. Tinha os olhos azuis muito brilhantes, contra a pele morena e o traço negro que os contornava. Foi num desses momentos de alheamento que o rapaz entrou. À porta da esplanada deteve-se um momento a orientar-se por entre as mesas ocupadas, mas logo localizou a rapariga sob o guarda-sol azul. Vestia calça branca e uma camisola amarela de manga curta. E era louro como a rapariga. Quando ela o reconheceu, fez-lhe sinal, mas ele já a tinha visto. Sentou-se-lhe ao pé e olhou em volta como se procurasse alguém. As mesas estavam quase todas ocupadas sob guarda-sóis coloridos e uma ou outra ao sol. Era quase tudo gente jovem, vestida de cores claras de praia.
– Desculpa, fiz-te esperar – disse ele.
– Cheguei há pouco, o criado nem trouxe ainda o que lhe pedi. E que é que me querias dizer?
O criado, com efeito, trazia o refresco para a rapariga, voltou-se para o rapaz a perguntar se tomava alguma coisa.
– Pode ser o mesmo – disse o rapaz.
O sol caía em cheio sobre a praia, iluminava o mar até ao limite do horizonte.
– Que é que me querias dizer? – perguntou de novo a rapariga. Ele sorriu-lhe e tomou-lhe uma das mãos que tinha sobre a
mesa.
– Gosto de te ver – disse depois. – Gosto de te ver como nunca. Fica-te bem o vestido branco.
– Já mo viste tanta vez.
– Nunca to vi como hoje. Deve ser do sol e do mar. – Que é que querias?
– Deve ser dos olhos limpos com que to vejo hoje. O criado trouxe o novo refresco e ambos se calaram, tomando as bebidas.
– Não sei para que são tantos mistérios – disse a rapariga. –O melhor é dizeres logo tudo de uma vez.
– Não se trata de mistérios. Trata-se de estar certo o que te disser.
– Porque é que não há-de estar certo? – perguntou a rapariga. – Por tanta coisa – disse o rapaz. – Eu achei que te ficava bem o vestido e tu estranhaste que eu o dissesse.
– Já me tinhas visto o vestido muita vez. Foi só por isso.
– Nunca reparaste que há certas coisas que nós já vimos muitas vezes e que de vez em quando é como se fosse a primeira? – Nunca reparei – disse a rapariga.
– Nunca ficaste a olhar o mar muito tempo?
– Sim, já fiquei.
– Ou o lume de um fogão? – disse o rapaz.
– E que queres dizer com isso?
– Ou uma flor. Ou ouvir um pássaro cantar.
– Sim, sim.
– Não há nada mais igual do que o mar ou o lume ou uma flor. Ou um pássaro. E a gente não se cansa de os ver ou ouvir. Só é pre¬ciso que se esteja disposto para achar diferença nessa igualdade. Posso olhar o mar e não reparar nele, porque já o vi. Mas posso estar horas a olhar e não me cansar da sua monotonia.
O rapaz tinha o olhar absorto na extensão das águas e permaneceu calado algum tempo. As águas brilhavam com o reflexo do sol na agitação breve das ondas. A rapariga calava-se também, fitando o rapaz, porque percebia que ele não acabara de falar. Mas o rapaz calou-se como se não tivesse mais nada a dizer e ela perguntou:
– Mas que é que querias dizer-me?
– Mesmo as coisas mais banais são diferentes se alguma coisa importante se passou em nós.
– Se alguma coisa importante se passou em nós, não reparamos nas coisas – disse a rapariga, acendendo um cigarro.
– Se é coisa mesmo importante, tudo se nos transfigura – disse o rapaz, de olhar alheado no horizonte.
– Que coisa importante? – perguntou a rapariga.
Mas ele não respondeu e ela perguntou outra vez:
– Que coisa importante?
– Não sei. Uma coisa importante. Se te morresse o pai e a mãe e ficasses subitamente sozinha, o mundo transfigurava-se. Se tivesses tentado o suicídio e te salvassem, mesmo as pedras e os cães começavam a ser diferentes. Estavas farta de conhecer os cães e as pedras, mas eles eram diferentes porque os olhavas com outros olhos.
E de novo se calou. Mas agora também a rapariga se calava na indistinta ameaça de não sabia o quê. O sol rodara um pouco, apanhava agora a cabeça do rapaz, incendiando-lhe o cabelo tombado para a testa. Levantou-se, tentou ela fazer girar o guarda-sol azul no pé de ferro articulado, seguro com um gancho recurvo e uma pequena corrente. Sentou-se de novo mas verificou que ficava ela agora com uma mancha de sol que lhe apanhava um ombro e o braço e uma pequena zona da face. Bebeu um pouco de refresco, olhou distraidamente a linha longínqua do limite do mar. Havia no rapaz uma notícia a dar, mas a rapariga não sabia como fazer a pergunta certa para estar certa com a resposta que queria ouvir. E de súbito disse:
– Pediste-me para estar aqui às quatro horas. Telefonaste-me duas vezes. Vieste à praia para isso. Porque é que afinal vieste?
– Mas tenho estado a explicar-te porque vim.
– Tens estado a explicar porque vieste. Mas falta o mais importante. Falta dizeres por exemplo que tudo está acabado entre nós. Falta dizer que essa tal tua amiga sempre conseguiu o que queria. Falta dizer que nunca me achaste tão bela como hoje, mas que já me não podes amar. Falta dizer isso, mas tens de preparar o terreno, porque a coragem nunca foi o teu forte e julgas que não é o meu.
Falava devagar mas com uma grande intensidade interior, e ficou assim ruborizada, os olhos brilhantes de violência. O rapaz ouviu-a e não respondeu. Pensou primeiro concordar com a rapariga e dizer-lhe talvez que já a não amava. E evitava assim ter de lhe dizer a verdade. Quando ela depois a soubesse, talvez já não sofresse, talvez o esquecesse mais depressa. Mas sofreria ele por aceitar uma mentira que ia contra o que sentia. Julgava ser mais fácil dizer tudo e via agora que não.
– Nada disso é verdade – disse por fim.
O mar brilhava cada vez mais. As placas incandescentes tremeluziam nas águas e faziam semicerrar os olhos ao rapaz. Vergou-se para a mesa e bebeu um gole de refresco.
– Há coisas que é difícil dizerem-se – continuou. – É preciso que tudo esteja de acordo. Com esta luz e esta alegria de Verão e este bem-estar de uma esplanada, eu não podia dizer-te, por exemplo, que me vou matar.
– Que estupidez. Mas não tentes desconversar.
– Seria estúpido – disse o rapaz. – Não vou de facto matar-me. Mas não tinha outra maneira de to dizer, se fosse. E seria estúpido, porque tudo estava em desacordo. Não era coisa que se dissesse a uma hora de praia e de sol.
A rapariga ficou a olhá-lo algum tempo intensamente, a tentar ouvir-lhe o que já não dizia.
– Nunca está certa, aliás, seja a que hora for – continuou o rapaz. – Tudo pode estar certo talvez a qualquer hora. Menos essa banalidade ridícula da morte. De tudo se pode falar, menos dela. Nem falar, nem filosofar, nem fazer seja o que for que a tenha a ela em conta. Há uma aliança contra ela como contra uma infâmia. Ou como se o não falar a excluísse. E é a única verdade perfeita.
– Mas é uma conversa idiota – disse a rapariga fitando o companheiro de lado, a entender.
– Tudo é erro e ludíbrio: o triunfo, o poder, as ideias, mesmo as matemáticas. Tu pensa no que quiseres e verás que tudo erra. Há só uma coisa que não. E é do que se não pode falar.
O sol baixara um pouco e estendia agora uma estrada de lume pelas águas. Um barco à vela atravessou-a e um momento foi como se as chamas o envolvessem. O rapaz calou-se e a rapariga não sabia que perguntar. Ou tinha várias perguntas, mas não sabia qual estaria certa.
– Sempre fazes exame em Outubro? – disse ela por fim. Tentava contorná-lo ou distraí-lo, para depois o surpreender onde ele não esperasse.
– Não devo fazer – disse o rapaz. – E mesmo não seria nunca em Outubro. Os exames de Outubro são sempre em Novembro ou Dezembro. Às vezes vão mesmo até ao segundo período.
– Por que é que não deves fazer? – perguntou a rapariga.
O rapaz olhou-a no seu vestido de praia, na cor morena da pele, nos cabelos claros que lhe caíam sobre os ombros, e outra vez sentiu que não sabia como responder. Na praia havia já alguns veraneantes à sombra dos toldos ou estendidos ao sol. Um ou outro mergulhava mesmo nas ondas cheias de luz.
– Por que não deves fazer? – insistiu a rapariga. – Tens ainda uns meses para te preparares.
– Creio que um mês chegava-me – respondeu o rapaz. – Mas não adiantava nada.
– Por que não adiantava? – perguntou a rapariga.
Ele ficou em silêncio outra vez, olhando o mar. Tinha uma resposta certa, mas tinha medo dela como se ele próprio a não soubesse. Depois disse:
– O médico foi claro. Havia um relógio na secretária e olhei as horas. Eram cinco precisas. Estava calmo e reparei. Tenho dois ou três meses no máximo. O tempo contado dia-a-dia. E é extraordinário como tudo agora me parece diferente. Mais belo talvez. Creio que vou viver agora mais intensamente. Dia-a-dia. E três meses no máximo.
– Espera! Três meses como? – disse a rapariga, subitamente iluminada.
Pôs-lhe a mão no braço e olhava-o fixamente. Ele olhou-a também e ambos ficaram a tentar entender-se em silêncio. Depois ela tirou a mão do braço do rapaz e acendeu novo cigarro. O sol escorria do alto e inundava-lhes agora toda a mesa. O rapaz tomou o copo e bebeu um gole devagar.
– Diz outra vez – repetiu a rapariga. – Deixa-me entender. Diz outra vez, para entender tudo muito bem.
– Tu vais dizer que tudo isto é estúpido e eu sei bem que é. Mas se a gente pensar bem, a estupidez é só nossa.
– Sim. Mas explica tudo muito bem. Desde o princípio. Devagarinho.
– A estupidez é só nossa, porque a vida não é verdade. Mas é a única coisa em que se acredita – disse o rapaz.
– Sim – repetiu a rapariga. – Mas era bom que explicasses desde o princípio. Devagarinho. Para eu não acreditar também. Está um dia cheio de sol.
– Mas a explicação é simples – disse ele, balouçando o líquido no fundo do copo. – Eu vou explicar tudo. Eu vou.
Estava uma tarde cheia de sol. As águas brilhavam até ao limite do horizonte, um barco à vela ia passando pela estrada de lume. O ar estava quente. E a brisa do mar quase não chegava ali.
Virgílio Ferreira "Uma esplanada sobre o mar" Difel
Quarenta graus à sombra (com Platão e ideias irrealistas)

Quarenta graus à sombra
e a necessária precipitação dos olhares
que se cruzam depois da meia-noite
nos corredores mal iluminados de uma escola
de nudez absoluta relativamente àquele
que se despe sem querer perante a coisa
que quer ver despida.
O asfalto onde decorre este momento
derrete com o calor e liberta estratégias
de fumo e fuga que se frustram na inércia
que aguardam a água cega do momento
seguinte numa aerodinâmica sala de espera
onde aparecem os dois pela primeira vez
vestidos de convidados para o seu próprio labirinto.
E quando a audácia começar a dar dinheiro
contrata um arquitecto que projecte uma ponte
entre tudo em aberto e nada em rigor.
Pode ser que o amor dure para sempre
por alguns segundos
suspeitos de conterem lá dentro
várias vidas depois.
Lê sempre o prazo da eternidade que te oferecem
mais do que uma vez, e em todas as línguas.
E nunca te preocupes com a forma nem com o trajecto:
atravessa. Apenas e apesar de tudo atravessa.
Afinal a mesma coisa ocorre ao prisioneiro
no dia em que lhe anunciam o dia
envelhecido da sua liberdade perpétua
as grades que o espreitam no mundo das ideias
mais irrealistas.
sexta-feira, 2 de abril de 2010
Perecível o rumo dos meus passos

«… ao desviar-se a rota,
Se rasga a perfeição»
Ana Luísa Amaral
É perecível o rumo dos meus passos,
Sinto-o no caminho que me toma,
Sinto-o nos nervos lassos
Ainda há pouco hirtos como traços.
Sei muito bem que a rota que tracei
São caminhos diversos da emoção –
Descalço-me na areia e penso-me a voar.
É perecível o rumo dos meus passos,
O meu caminho é feito de embaraços,
De laços e de nós como coluna vertebral,
Que com o tempo se curva para o chão,
Assim a perfeição
E a vontade se esbate e gasta o véu,
Transformando-o em rede esparsa
– Sombrios precipícios onde cai a luz.
José Almeida da Silva
O lobo e a neve

Na imagem o repouso e a mansidão,
Contemplação e fixa brandura.
Na voragem do olhar só o silêncio
Acoita vigilantes os sentidos –
Tic-tac, tic-tac, tic-tac, tic-tac
Acelerado bate o coração –
E nem a friagem do vento rompe
Ou atormenta a quente lã de neve.
Somente a lua acende o desejo
Devorador da hábil mansidão
– E instala-se em mim o lobo
Como um sol capaz de explodir
Momento a momento
Sorrindo-se da presa.
Só o sangue é dinâmico na apatia –
José Almeida da Silva
quinta-feira, 1 de abril de 2010
a floração de um fauno

Pedro Bakst "Nijinski como um fauno"
floração de um mês de abril sem actos falhados nem afasias.
interrogações contemplativas.
unidade,evolução e terapia nos lírios brancos
apesar de um descontrolado de um jardim
onde residem inconstantes pétalas e assimetrias;
recantos de bolbos por crescer e diferenças
de ervas invasivas.
em abril há um princípio de primavera, cíclicas vidas
como os ciclames da pérsia, independentes;
cinco lemes de vento num mar de barcos distraídos
em sonhos permanentes.
em abril há os céus intempestivos e os espaços;
gestos completos de palavras
pequenos pormenores de aromas e folhas de serrilha
e o encurtar de distâncias nas sombras de origamis.
em abril há pássaros voadores em árvores ainda despidas
e as metamorfoses de noites intermitentes;
um bailado de faunos alados nítidos de mitologias
e poemas -
Penélope

Waterhouse "Penelope e os pretendentes" 1912
Longo era o dia para tecer a teia e longa a noite para a desfazer,
Não fosse o meu amor esmorecer e o teu amor por mim
Não regressar.
Intacto amor e quase por provar –
Tróia tinha todo o teu olhar.
Ítaca, berço e altar, era o lugar eterno dos afectos.
E tu tinhas de voltar. Sentia-o a arder dentro de mim,
Uma imutável sedução como a luz do sol nascendo
Pela manhã por detrás da altura das montanhas pontiagudas.
A tua aventura e a minha indecisa beleza
Numa teia fiel e expectante.
[Cínica a persistência do meu pai e forte a minha resistência.]
Fingi ser bem-vindo um novo amor.
Não havia drama nem tragédia. Só raiva e só amor.
A teia assim desenrolava o tempo. O palco era o tear –
O mesmo curso por onde caminhava fiel o meu amor.
E uma seta ludibriou o teu intento
– Somente o puro amor é transparente.
2010.04.01
José Almeida da Silva
quarta-feira, 31 de março de 2010
A bela adoecida

Uma mulher ama
as obrigações sujas
da sua igreja e adoece
por tempo indeterminado
numa instituição incompreensível
mas a sua doença, pelo contrário,
melhora a olhos vistos
na perspectiva do príncipe que a vê
da tremenda intolerância da Terra.
Uma mulher adoece onde o branco actua
de tal forma aflito e por toda a parte exigente
uma mulher adoece com um véu mal regulado
pelo veredicto da água surda que corre
da sua castidade extraterrestre
quase como cabelos
aperfeiçoados por enigmas
e pequenas famílias de serpentes
muito pouco verdadeiras
Uma mulher adoece até atingir
um estado suficientemente
adoecido. Depois uma mulher pára
de adoecer de repente:
quer subir na carreira de doente
e maltrata o meu perfil
com motivos pouco nítidos.
De príncipe e de louco
todos nós temos um pouco.
Mas eu não tinha tanto veneno
no beijo para te despertar
do teu desperdício
como te despertei
no dia em que eu próprio adoeci.
terça-feira, 30 de março de 2010
O homem que contempla

William Turner "uma cidade à beira de um rio com crepúsculo" 1833
Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.
E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.
Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.
Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.
Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.
Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira
Últimas vontades

Deixo-te uma indicação inquieta
e uma explicação concisa
sobre a forma como deves
vender a tua ausência
a mais ninguém.
Deixo-te um velho planeta bipolar
e maioritariamente triste nos trópicos
da decência
uma nação na bancarrota da sua pose
irresponsável perante o auxílio.
Deixo-te uma bússola e um pêndulo
completamente perdidos nos seus afazeres
domésticos e desprezíveis.
O pack inclui ainda uma venda de oxigénio
e um revólver compreensivo
que fará as vezes da minha vez.
Deixo-te o misterioso compasso que desenha
ângulos mortos nos desertos onde acaba o coração
e começa o âmbito da flecha que não atingiu
por pouco uma história mais simples.
Escrúpulos que não cabem na caixa
negra deste poema.
segunda-feira, 29 de março de 2010
penélope - a canção de primavera

Jonh William Waterhouse " a song of springtime" 1913
preso,penélope, preso
na memória dos teus seios
que em sonho abres qual cisne de lábios grossos
em dança branca na altura de dois braços.
luzes,penélope, luzes
nos faróis helenos de fogueiras nas muralhas
onde adormeço células de cordas tensas
no círculo veloz de sangue enfermo;
caminhante de desejo .
desconheço, penélope, desconheço
as invejas de helena, as fúrias de aquiles
só não gosto destes muros onde esmoreço
de espada à cinta, lassa, sem deslizes.
ainda,penélope, ainda
trabalham agulhas sobre as águas
na esperança de um barco à vela,
uma jangada, uma tábua colada de dedos
e o corpo, o corpo forte de ulisses.
resistes,penélope, resistes
e sei que um dia não serão só raios
sobre o ulmeiro de ítaca
nem só lágrimas de noite no destecer de tecidos.
a luz exacta de uma seta surgirá no teu pranto
e o fim dos pretendentes.
levaremos argus e o alaúde de ébano
voltaremos a visitar os campos -
O último andar
No último andar é mais bonito:
do último andar se vê o mar.
É lá que eu quero morar.
O último andar é muito longe:
custa-se muito a chegar.
Mas é lá que eu quero morar.
Todo o céu fica a noite inteira
sobre o último andar.
É lá que eu quero morar.
Quando faz lua, no terraço
fica todo o luar.
É lá que eu quero morar.
Os passarinhos lá se escondem
para ninguém os maltratar:
no último andar
De lá se avista o mundo inteiro:
tudo parece perto, no ar.
É lá que eu quero morar:
no último andar.
Cecília Meirelles (Rio de Janeiro, 1901-1964)
do último andar se vê o mar.
É lá que eu quero morar.
O último andar é muito longe:
custa-se muito a chegar.
Mas é lá que eu quero morar.
Todo o céu fica a noite inteira
sobre o último andar.
É lá que eu quero morar.
Quando faz lua, no terraço
fica todo o luar.
É lá que eu quero morar.
Os passarinhos lá se escondem
para ninguém os maltratar:
no último andar
De lá se avista o mundo inteiro:
tudo parece perto, no ar.
É lá que eu quero morar:
no último andar.
Cecília Meirelles (Rio de Janeiro, 1901-1964)
sexta-feira, 26 de março de 2010
Informações Úteis
Richelieu

por favor.por favor. não se importa
mar. tanto mar
o não limite errante num cerco de vento
nuvens e um sol tímido de gente.
muitos anos atrás um túnel escondido
nas linhas de um comboio e encostas de uma serra
época de generais e domínios de frança.
na arqueologia fugaz de fato e alfaiate
desceu escadas de ferro à luz da lanterna
acendeu filamentos dentro de uma capela
no meio de espíritos e nichos vazios;
antigo templo invisível sem nomes nem símbolos.
uma alta abóbada e três barras metálicas onde
porventura rendas, um crucifixo e talha dourada
em toda a volta um ruído de água em direcção ao rio.
desce.desce.sobe.sobe. quatro horas ao fim do dia
e o fim das pilhas. escuro. que susto. A mãe zangada
15 anos e quatro manchas de lama nas abas do casaco.
mar.tanto mar e um altar. A analogia do divino.
vem a propósito a existência dos anjos. Onde são?
vestem-se de branco?
será que se escondem atrás da linha do mar
num terraço plano de precipício onde
descansam asas e saltitam algodão?
a analogia. a entrada secreta de um túnel.
talvez exista uma porta naqueles arenitos mais míudos
uma porta de Alice
que abra uma saída.
de repente um céu húmido de castelos brancos.
um breve granizo. Um pouco de sol.
uma nuvem de asas grandes nas mãos de uma criança.
gaivotas debicam pepitas esfusiantes de milho.
na mesa mineral de um lugar seguro
interroga a possibilidade física de uma porta de mar
e o caminho qual será?
chega o empregado:
por favor. um café curto e um sumo de laranja natural
desculpe. por acaso não tem o público? O jornal?
imaginou um grande espaço branco e anjos
todos descalços, um pouco suspensos de asas
cabelos soltos e olhos de muitas cores, tizianos
na luz de auréolas, uma genética de néons
anunciada de trombetas solenes:
agora à sua direita something completely diferente!
pouco a pouco as gaivotas saíam.
incrível. as nuvens tão diminutas e o azul.
como mudou a atmosfera.
a palha entupiu numa pevide
e lembrou-se do Richelieu, o melro que fugia aos gatos
entre camélias rubras e azáleas claras, floridas, o tempo delas -
A falling love (epílogo e teorema)

I
O amor não é como Roma:
demora a cair.
Por isso, a volúpia é lenta
e o poema não nos ensina
o pára-quedas a tempo
nem que a queda
também ela é um objecto
passível de cair.
Demoradamente.
II
Porque repara: pode-se fazer tudo com o amor a cair.
Pode-se, inclusive, fazer amor com o amor a cair.
A neve, por exemplo, imita o amor a cair
como ninguém. Mas carece do pânico
que por vezes o amor a cair sugere
na sua nudez improvisada pelos gritos
do amor, diz-se por aí muita porcaria
quanto mais a cair.
III
E digo mais:
O amor a cair é um assunto
para ser discutido seriamente
no parlamento da tua indiferença.
IV
Foi ainda a tua falta de visão
teleológica da história
deste amor a cair
que fez com o amor parasse
de cair de vez
e caisse em si,
finalmente.
Ora, o amor pode cair
em todos os lados
menos em si.
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