segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Coco Chanel e Igor Stravinsky



tem a cor branca das pétalas
Coco
Chanel
e o perfume cinco de um postal
no Lafayette
os lábios vermelhos de pêndulo
em cima do piano
são grandes os dedos de Igor
em ti Coco
Chanel
sagrada primavera
e um bailado de pássaro de fogo
em ti Coco
Chanel
uma chuva de magnólias, Ela
Igor-

não te sabia assim Igor
e Nijinsky sonhou antes
os saltos das bailarinas-

domingo, 25 de outubro de 2009

CAIM

A alma içada no teu rosto
invadida de terror e sangue,
e exangue o corpo de Abel.

Em ti, Caim, se abate o céu,
e a voz de Deus.

– Por que mataste a inocência?
Errarás então por esse oriente
e serás penitente
no castigo.

– Morrerei, Senhor, onde lavrar.

– O Sol de ti: o meu sinal.

Clara Oliveira e José Almeida da Silva

Que fizeste?

Sombra de sangue
Sangue no chão
Colo de morte
Morte na mão
Ventre de vento
Lento. Por dentro
Sete vezes.

Que fizeste?

Inês e Ana Lúcia

novos tpcs.

Aqui está a etiqueta para publicarmos aqui os muitos trabalhos de casa desta semana!
Um grande beijinho e muita inspiração.
Inês Beires

sábado, 24 de outubro de 2009

Carta a meus filhos - sobre os fuzilamentos de Goya


Goya " O três de Maio " 1814

Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, porque tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem conta o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente â secular justiça,
para que os liquidasse «com suma piedade e sem efusão de sangue.»
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de urna classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadela de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de té-1a.
É isto o que mais importa - essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão-de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar-se vivo e sabendo que nenhuma vez alguém
está menos vivo ou sofre ou morre
para que um só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
- mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga -
não hão-de ser em vão. Confesso que
multas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam «amanhã».
E. por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa
que não é nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.

ao meio-dia


(não sei de quem é, retirei da net)


a autoestrada repleta
o asfalto molhado.
um carrossel de música calma
na frequência modulada de clima
húmido e morno; dias de outubro.
ao largo sem as asas de corvo
a mancha esquiça de pinheiros
as lágrimas sacudidas dos eucaliptos
os sorrisos da motociclista
ao jovem motorista
doze horas meio-dia.

a serpente de cor verde, treze
treze carros de lata
um "panzer" outro "chaimite"
as lagartas na estrada à luz do dia.
abro mais a janela, abro mais sobrolho
procuro a fatia o sumo de amora
melancia passam dez do meio-dia.

um camião tir lança águas mil
lança gemidos cissia a travagem.
correm os trinta no pára-brisas
saltam as gotas ao meio-dia.

portagem ticket
"dinheiro ou cartão?"
estendo a mão-

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

manet e a carta de olympia

enquanto recebo o calor da celeuma
lembro letra a letra a carta de Olympia
a surpresa de a ver assim (in)vestida
de nudez, nas cores do seu poema
o adeus:

"manet meu ingénuo e querido amigo

beijo a tua mão direita

comovi-me

naquele divã de donzela
o lugar das minhas linhas.
sentida perfeita no meu corpo
no meu olhar felino que domina.

maria vestida de flores
escondida no seu olhar de noite
guarda os segredos daqueles que autorizo
os meus melhores momentos
a voz aguda dos amantes
e são tantos.
não os quero loucos nem distantes
de fogueiras impertinentes
ou amores frios
trato-os como filhos nos meus seios
a quem sugo os receios, os seus medos
na falta dos berços.

comovi-me

na largura dos traços
nas camadas de tinta
por sobre a tela virgem
de muitas horas e anseios.

beijo a tua mão direita

a do laço de cetim
trémula de pudor
quando inclinavas o rosto
e pousavas a paleta.

meu querido e ingénuo amigo
espero não te ver
sob pena de não ser
olympia-

e assim será manet
serei o poema
o teu espelho
e só meu o teu olhar
até ao fim -

beijo a tua mão direita
olympia

p.s. envio-te a flor "

Caim - William Blake


William Blake " Caim "

Caim e Abel - o espírito a leste do paraíso

a leste do paraíso

debaixo do céu em cada plano
em cada alto a liberdade do rebanho-

a atenção dos frutos da terra prende o chão
seca o ar, sua o rosto, gasta o homem-

o espírito transparece eleva a canção
em cada montanha espalha o sabor do leite
a lã fia o dia aquece a noite sã
abel respira a poeira como um travo doce
sem mágoa-

os frutos da terra trazem o sabor do sal
a íngreme resistência do húmus
a cor amarela dos vegetais
o terror do medo suga raízes
caim cria o deserto-

a morte voa no castigo dos abutres
sete vezes caim vive
os olhos, as mãos, o semblante de sangue
o espírito de abel
a leste do Paraíso-

Carmen e José

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Olympia

Enviaste-me as tuas mãos
e os teus dedos travestidos
de flores. Entre elas havia
uns lábios gordos de sangue,
dispersos de desejo. De mim?

Deitada e nua, espero-te
com meu olhar aceso
como o da negra,
como o do gato,
na serena tarde alvoroçada.
[De certo tiveste uma reunião
ou não foste capaz de confrontar
a força do prazer e a consciência.
Enviaste-me flores anunciando
a perversa bondade da acção.]

Agora só te falta a minha mão
os meus adornos, a minha flor
entre laços e abraços de ilusão.

Vem despentear a loucura
que Eros semeou em nós. Vem
ser meu rei e meu prazer. Serei
a tua Vénus e a tua Olympia – corpo
de sede no calor de um beijo e fogo
convidando o fogo do outro olhar.

José Almeida da Silva

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Trabalho de casa "Olympia"- texto 2

Eu disse-te meu amor
Ou o gato, ou eu
Alérgica, coçada e nada

Tenho o sofá cheio de pelos
Não me deito nele pelada

A casa é minha
O gato é teu

Sabes que acordei de rabo de gato em nó de gravata?
Nua de gato ao pescoço

Mijo na almofada e nas chinelas!
Mijo no gato e tiro-lhe o rato!

Gato castrado
Ralado?
Papinha de piriláu

A casa é minha
O gato é teu

Tranquei a porta do quarto
E nem tu nem gato

Espreitas à fechadura enquanto me masturbo
Bem feito se de tusa o gato te agarra a blusa

(Ana Janeiro)

Trabalho de casa "Olympia"- texto 1

Recebi as flores, meu amor
Entra no quarto sem bater
E não admires a figura pálida...
Beija os lábios de vermelho

Entra, meu amor
Não receies

E se te parecem mortos os meus olhos, não os feches
Desenha neles o olhar de Olympia

Não vejas o castrado que ali jaz
O sangue seria menos vivo
Imagina a virgem agora mulher
E adorna-me de oiro e uma flor

Teu mais não serei

(Ana Janeiro)
Pois é, apareci como "omarpareceazeite"... perdoem-me a sinédoque!

ana luísa amaral
Minhas caras e meus caros,

Queria dar-vos as boas vindas, infelizmente não com o meu nome, mas com o nome de gestão do blogue – não encontro a minha password, mas, em contrapartida, encontrei endereço e password de gestão do site -- foi a Teresa Almeida Pinto que mo enviou o ano passado, alguns de vós lembrar-se-ão dela.

Não era minha intenção aparecer na qualidade de gestora, nem sei bem como irá isto ficar, quando carregar na tecla “Publicar mensagem”… Veremos. Amanhã peço a um/a de vós, que saiba um pouco mais destes mistérios internéticos do que eu, se me ajuda a “recuperar a identidade” (as aspas têm a ver com a contingência que sempre preside a estes assuntos).

Gostava de dizer-vos como gostei das duas sessões que tivemos já e deixar-vos aqui, como comentário geral ao TPC (o do poema a partir da notícia de jornal), um poema de Adrienne Rich. Fica então original e tradução. Penso que se adequa aos nossos propósitos. Quero ainda deixar os parabéns a todas e a(os dois) todos.

Um abraço – e, creiam, é um prazer estar convosco.

ana luísa



Power (Adrienne Rich, 1974)

Living in the earth-deposits of our history

Today a backhoe divulged out of a crumbling flank of earth
one bottle amber perfect a hundred-year-old
cure for fever or melancholy a tonic
for living on this earth in the winters of this climate

Today I was reading about Marie Curie:
she must have known she suffered from radiation sickness
her body bombarded for years by the element
she had purified
It seems she denied to the end
the source of the cataracts on her eyes
the cracked and suppurating skin of her finger-ends
till she could no longer hold a test-tube or a pencil

She died a famous woman denying
her wounds
denying
her wounds came from the same source as her power


Poder

Viver nos sedimentos da nossa história

Hoje uma escavadora divulgou num flanco de terra em derrocada
uma garrafa âmbar perfeita com cem anos
cura para a febre ou melancolia um tónico
para viver nesta terra nos Invernos deste clima

Hoje eu estava a ler sobre Marie Curie:
ela deve ter sabido que sofria do mal das radiações
o corpo bombardeado anos a fio pelo elemento
que purificara
Parece que negou até ao fim
a origem das cataratas nos seus olhos
a pele da ponta dos dedos gretada e supurante
até já não conseguir segurar um tubo de ensaio ou um lápis

Morreu mulher famosa negando
as suas feridas
negando
as suas feridas vindas da mesma fonte que o seu poder

lembro-me bem




lembro-me bem de ti no hotel de paris.
a avenida larga repleta de almas
as doces palavras, as mãos dadas
o casaco apertado, a cor do frio
no fumo branco do cigarro.

a japonesa de ar pequeno
a boina, o cabelo negro, o laço magro
os lábios excessivos de um rouge lascivo
os laivos de perfume que subiam.
reparaste no olhar, na mão segura
as calças de pirata sem navio
as sabrinas e disseste
"não é vénus de urbino mas olympia"
e rias, rias e rimos ao entrar na pizzaria.
o tinto "rufino" os copos de pé alto
e riamos, riamos.

"marlboro" a marca de um couro duro
no quarto, descomposto abandonado sem corpo
no reflexo do espelho no qual nos revejo.

sem fumo o telhado cinza, lousa sem giz
e tantas, tantas frases soltas que pousavam
e subiam sem raiz, livres e céleres
nos ecos de paris.
lembro-me bem de ti

e dela na avenida
a atitude longa da limousine
alguém de fama;
a sombra da boina, a luva branca
a última sabrina. a pergunta
o navio -

lembro-me bem de ti e dela naquele dia -