segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Aproveitar o tempo


Fotografia retirada da Internet


Aproveitar o tempo!
Mas o que é o tempo, que eu o aproveite?
Aproveitar o tempo!
Nenhum dia sem linha...
O trabalho honesto e superior...
O trabalho à Virgílio, à Mílton...
Mas é tão difícil ser honesto ou superior!
É tão pouco provável ser Milton ou ser Virgílio!

Aproveitar o tempo!
Tirar da alma os bocados precisos - nem mais nem menos -
Para com eles juntar os cubos ajustados
Que fazem gravuras certas na história
(E estão certas também do lado de baixo que se não vê)...
Pôr as sensações em castelo de cartas, pobre China dos serões,
E os pensamentos em dominó, igual contra igual,
E a vontade em carambola difícil.
Imagens de jogos ou de paciências ou de passatempos -
Imagens da vida, imagens das vidas. Imagens da Vida.

Verbalismo...
Sim, verbalismo...
Aproveitar o tempo!
Não ter um minuto que o exame de consciência desconheça...
Não ter um acto indefinido nem factício...
Não ter um movimento desconforme com propósitos...
Boas maneiras da alma...
Elegância de persistir...

Aproveitar o tempo!
Meu coração está cansado como mendigo verdadeiro.
Meu cérebro está pronto como um fardo posto ao canto.
Meu canto (verbalismo!) está tal como está e é triste.
Aproveitar o tempo!
Desde que comecei a escrever passaram cinco minutos.
Aproveitei-os ou não?
Se não sei se os aproveitei, que saberei de outros minutos?!

(Passageira que viajaras tantas vezes no mesmo compartimento comigo
No comboio suburbano,
Chegaste a interessar-te por mim?
Aproveitei o tempo olhando para ti?
Qual foi o ritmo do nosso sossego no comboio andante?
Qual foi o entendimento que não chegámos a ter?
Qual foi a vida que houve nisto? Que foi isto a vida?)

Aproveitar o tempo!
Ah, deixem-me não aproveitar nada!
Nem tempo, nem ser, nem memórias de tempo ou de ser!...
Deixem-me ser uma folha de árvore, titilada por brisa,
A poeira de uma estrada involuntária e sozinha,
O vinco deixado na estrada pelas rodas enquanto não vêm outras,
O pião do garoto, que vai a parar,
E oscila, no mesmo movimento que o da alma,
E cai, como caem os deuses, no chão do Destino.

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

sábado, 10 de outubro de 2009

O cúmplice


Juan Gris "A guitarra em frente do mar" 1925


Crucificam-me e eu tenho de ser a cruz e os pregos.
Estendem-me a taça e eu tenho de ser a cicuta.
Enganam-me e eu tenho de ser a mentira.
Incendeiam-me e eu tenho de ser o inferno.
Tenho de louvar e de agradecer cada instante do tempo.
O meu alimento é todas as coisas.
O peso exacto do universo, a humilhação, o júbilo.
Tenho de justificar o que me fere.
Não importa a minha felicidade ou infelicidade.
Sou o poeta.

Jorge Luis Borges, in "A Cifra"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

Sorriso líquido


Paul Klee " Anatomia de Afrodite " 1915

O oposto do silêncio é o sorriso
na madrugada incinzenta, incisiva
de quatro paredes brancas.
O sorriso líquido sem penumbra
na fina claridade.
Paralela a escada que nos liga
na altíssima noite branca
como águas puras de uma nascente
de pedras luminosas subindo
sem veredas, medo ou labirinto
aos véus da Lua grávida
um mar de estrelas -

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Em Outubro chove


Retirado de gobysplace.files na internet



justiça ou injustiça nada tem a ver com isto

as chuvas de espadas nas batalhas do milénio
os elmos, os gritos dos cavalos
os rostos negros dos soldados
as misturas dos lugares, dos que caem
dos que correm, dos que fogem
dos que olham os últimos risos do prado
no voo seco e duro dos pássaros

não
justiça ou injustiça nada tem a ver com isto

nem um daqueles que portam as bandeiras
nem um daqueles de imagens paradas nas pálpebras
nem um daqueles é senhor ou mendigo
de um limbo onde nasce a razão
a luz clara que apaga o universo.

pó e em pó, somos o pó informe sem prova
sem julgamento de ordem ou desordem
embora por vezes nos dias singulares
num relâmpago uma voz de trovão rasga o céu
abre a submersa claridade a diagonal origem
de um arco-íris.

em Outubro as águas primeiras são martelos
e as roupas molhadas togas
juízes de nós sem testemunhas do mal.

de passos curtos concluo que sou um pássaro
numa gaiola oscilante e fraca
observo os bigodes de um gato que inclinado
no equilíbrio de duas patas
segura as pedras molhadas.

em Outubro chove
e sem juiz sem juízo concluo
que justiça ou injustiça nada tem a ver com isto
em Outubro chove

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Sophia e o primeiro dia


Fotografia retirada da Wikipedia


Decorreu hoje a primeira sessão da 3ªfase do curso de escrita criativa. Como já é hábito brilhou quem mais sabe, a origem do Blogue Ana Luísa Amaral. Foi bom rever alguns de nós e conhecer alguns dos novos. Há promessas de trabalhos, muitos... e de novidades. O primeiro consta de 15 palavras e poderá , eventualmente, reavivar os ribossomas escondidos em cada um de nós. Não serão de estranhar de hoje para amanhâ etiquetas TPC e outras, as vindouras de mais uma etapa de partilhas e crescimento.

O 1º dia falou um pouco de Sophia:



"Sozinha estou entre paredes brancas
Pela janela azul entrou a noite
Com seu rosto altíssimo de estrelas"

Sophia do Mello Breyner Andresen"Noite" (Mar Novo, 1958)


"Pois a minha poesia é a minha explicação com o Universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala de uma vida ideal mas sim duma vida concreta: ângulo de janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão."

Sophia "Arte Poética II, Geografia, 1967"

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Anjo


Chagall "Adão e Eva" 1912


Mais calmo que um urso panda numa alcofa lisa de bambu.
A brisa morna traz o vento leve
o embalo de um ramo de planície.

Uma pequena lágrima nos teus olhos claros?
Não chores!Vá!Não chores! Dorme meu anjo
dorme o sono, o sonho azul de Oceano
e rema o mundo, vence a água das medusas
ao som de uma canção de Brahms.
Sabes meu anjo os lavagantes têm carapaças duras
e quando dançam selam o medo, a dúvida, a ausência
no labirinto dos corais de forma simples. Sossega.
Adormece. Dorme. Não te prendas nos meus olhos
neles caminham as chamas morenas, os focos da alma
na fogueira dos poemas. Por isso adormece. Dorme.
Canto aquela canção de cordas tão calma.
Canto sim. Mais calmo que um urso panda
meu anjo meu anjo meu anjo

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Escrita Criativa Poesia

URL=http://sigarra.up.pt/reitoria/noticias_geral.ver_noticia?P_NR=639

Hoje terminam as inscrições para a 3ª fase do curso de escrita criativa de poesia com a Ana Luísa Amaral. As inscrições estão abertas no site em cima mencionado da Universidade do Porto.
Não publiquei antes porque só hoje recebi o e-mail!
Vá lá inscrevam-se o curso começa já amanhã e será todas as quartas-feiras até 7 de Novembro.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Autografia


Mário Cesariny " Sem título"

sou um homem
um poeta
uma máquina de passar vidro colorido
um copo uma pedra
uma pedra configurada
um avião que sobe levando-te nos seus braços
que atravessam agora o último glaciar da terra
o meu nome está farto de ser escrito na lista dos tiranos: condenado
à morte!
os dias e as noites deste século têm gritado tanto no meu peito que
existe nele uma árvore miraculada
tenho um pé que já deu a volta ao mundo
e a família na rua
um é loiro
outro moreno
e nunca se encontrarão
conheço a tua voz como os meus dedos
( antes de conhecer-te já eu te ia beijar a tua casa )
tenho um sol sobre a pleura
e toda a água do mar à minha espera
quando amo imito o movimento das marés
e os assassínios mais vulgares do ano
sou, por fora de mim, a minha gabardina
e eu o pico Everest
posso ser visto à noite na companhia de gente altamente suspeita
e nunca de dia a teus pés florindo a tua boca
porque tu és o dia porque tu és
a terra onde eu há milhares de anos vivo a parábola
do rei morto, do vento e da primavera
Quanto ao de toda a gente – tenho visto qualquer coisa
Viagens a Paris – já se arranjaram algumas.
Enlaces e divórcios de ocasião – não foram poucos.
Conversas com meteoros internacionais – também, já por cá
passaram.
Eu sou, no sentido mais enérgico da palavra
uma carruagem de propulsão por hálito
os amigos que tive as mulheres que assombrei as ruas por onde
passei uma só vez
tudo isso vive em mim para uma história
de sentido ainda oculto
magnifica irreal
como uma povoação abandonada aos lobos
lapidar e seca
como uma linha-férrea ultrajada pelo tempo
é por isso que eu trago um certo peso extinto
nas costas
a servir de combustível
e é por isso que eu acho que as paisagens ainda hão-de vir a ser
escrupulosamente electrocutadas vivas
para não termos de atirá-las semi-mortas à linha
E para dizer-te tudo
dir-te-ei que aos meus vinte e cinco anos de existência solar estou
em franca ascensão para ti O Magnifico
na cama no espaço duma pedra em Lisboa-Os-Sustos
e que o homem-expedição de que não há notícias nos jornais
nem
lágrimas à porta das famílias
sou eu meu bem sou eu
partido de manhã encontrado perdido entrelagos de incêndio e o teu retrato grande!

Mário Cesariny de Vasconcelos

For my lady



My boat sails stormy seas
Battles oceans filled with tears
At last my ports in view
Now that Ive discovered you

Oh Id give my life so lightly
For my gentle lady
Give it freely and completely
To my lady

As life goes drifting by
Like a breeze shell gently sigh
And slowly bow her head
Then youll hear her softly cry.

Oh Id give my life so lightly
For my gentle lady
Give it freely and completely
To my lady

Words that you say when were alone
Though actions speak louder than words
But all I can say is I love you so
To drive away all my hurt

Oh Id give my life so lightly
For my gentle lady
Give it freely and completely
To my lady

Set sail before the sun
Feel the warmth thats just begun
Share each and every dream
They belong to everyone.

Oh Id give my life so lightly
For my gentle lady
Give it freely and completely
To my lady

domingo, 4 de outubro de 2009

Casa antiga


Fotografia retirada da internet


Cede a porta bordada na mão do vento
o som de surdina encosta leve o trinco
corrente de ar da porta que abriu
em frente ao fundo de um corredor
de longas tábuas de dez metros de comprido.

- as casas antigas têm tectos altos
inscritos de gesso, mantas de rendas
salientes flores de Lis, folhas
nervuras de uma àrvore de neve
a arte das gravuras, alegorias
harpas, violinos no céu próximo
nas mãos nuas de meninos -

De novo se abre a porta que fechou
elevam-se batimentos, o ritmo
nos passos brancos até acima
a cor rubra de um receio, a má sina
que não traga de volta à casa antiga
ao corredor, quem mais se espera
nas longas tábuas de dez metros de comprido ...

- nas casa antigas não há espelhos de verniz
antes o sabor das ceras em nuvem descida
do alto tecto até ao nível da cinta
como um livro de imagens que aviva
o voo cheio das abelhas, o aroma
de um campo inclinado onde dançam
as flores -

As duas portas abrem na mesma parede
dentro de um túnel luminoso, iluminado
em cada lado nos olhos húmidos finos
sonâmbulos, encantados, como ondas
de dois mares no encontro consentido
ao fundo do corredor
de longas tábuas de dez metros de comprido

- nas casas antigas há risos de cem anos
o arrastar de vestidos, as casacas de grilo
mas os lábios de dois vultos
em segredo
são redondos e tamanhos
e neles não cabe o mundo
são o sonho das estrelas
a meio das longas tábuas
de dez metros de comprido ...

sábado, 3 de outubro de 2009

Procuro-te


Magritte "O belo Mundo" 1962


Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.

Eugénio de Andrade, in "As Palavras Interditas"

Sem senso


fotografia retirada da internet


Sem senso o fio da palavra
sem poema
sem ser a água de lago
transparente e acetinada
nesse jardim onde crescem e caem
as camélias.
Sem a luz das frases, preso na voz ausente
transforma-se o pêlo claro de um gato
na côr malhada: o leopardo
manchas insanas, rugido agreste.

Nas árvores felinas de silêncio
descansam as feras -

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Do fim dos segredos


Júlio Pomar "Auto-retrato, duas (ou três) laranjas e, de pernas para o ar, um macaco" 1973


Quando se conta a outrem um segredo este
desmaia: a palavra
torna-se pele
sem leão lá dentro.

Não é mais segredo e não o sendo
finge ser lembrança
de fabrico imperfeito:
um cliqueti no silêncio escancara

a dantes inamovível porta
e virada a página acha-se apenas
uma moeda
que não corre já.

Júlio Pomar, in "TRATAdoDITOeFEITO"

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

How many seas must a white dove sail



Blowin' In The Wind

How many roads must a man walk down,
Before you call him a man?
How many seas must a white dove sail,
Before she sleeps in the sand?
Yes and how many times must cannonballs fly,
Before they're forever banned?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind
Yes and how many years can a mountain exist,
Before it's washed to the seas (sea)
Yes and how many years can some people exist,
Before they're allowed to be free?
Yes and how many times can a man turn his head,
Pretend that he just doesn't see?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind
Yes and how many times must a man look up,
Before he can see the sky?
Yes and how many ears must one man have,
Before he can hear people cry?
Yes and how many deaths will it take till he knows
That too many people have died?
The answer, my friend, is blowin' in the wind
The answer is blowin' in the wind

Estão todas as verdades à espera em todas as coisas


Camille Pissarro " Vista de Eragny" 1888


Estão todas as verdades
à espera em todas as coisas:
não apressam o próprio nascimento
nem a ele se opõem,
não carecem do fórceps do obstetra,
e para mim a menos significante
é grande como todas.
(Que pode haver de maior ou menor
que um toque?)

Sermões e lógicas jamais convencem
o peso da noite cala bem mais
fundo em minha alma.

(Só o que se prova
a qualquer homem ou mulher,
é que é;
só o que ninguém pode negar,
é que é.)

Um minuto e uma gota de mim
tranquilizam o meu cérebro:
eu acredito que torrões de barro
podem vir a ser lâmpadas e amantes,
que um manual de manuais é a carne
de um homem ou mulher,
e que num ápice ou numa flor
está o sentimento de um pelo outro,
e hão-de ramificar-se ao infinito
a começar daí
até que essa lição venha a ser de todos,
e um e todos nos possam deleitar
e nós a eles.

Walt Whitman, in "Leaves of Grass"