quinta-feira, 23 de abril de 2009
Todos os dias
Sim! Os operários são moléculas unidas unidas
numa extensão de átomos famintos famintos
onde argamassas de electrões gravitam gravitam.
As palavras são cascas de ovo partidas
que como ecos se repetem
as mesmas
definindo os lugares
onde se exprimem vários sentidos
na tômbola dos espaços preenchidos.
Cabriolando de cascos as montanhas Himalaias
sufocando nos ares rarefeitos os limites.
Miméticas de início nos silêncios
e de seguida
expandindo os inaudíveis sinais
à harmonia que endoidece de sinfonias
nonas.
Por vezes acham-se belas as palavras
e no momento seguinte na seguinte leitura
falsas vulgares fracas. Ainda não
literatura poema balada grito garra
no espírito absorto da febre
que arrasa
ao criar o impossível espelho
dentro de nós e nele nos vermos
transparentes límpidos nas verdades
nos sentimentos.
São sempre incompletas as palavras
e sendo assim se recomeça a miragem
sabendo que
nunca extenso é o saber
nunca perfeito o poema
nunca a escrita máxima
deslinda-se pouco o céu ignoto
o paraíso o infinito
nas sete capas protectoras
do indizível.
E o que faço?
Todos o dias fabrico fabrico
um manto de versos
de palavras invisíveis.
Dia mundial do livro

Não seria de bom tom ficar por assinalar no blogue a transição que permite a partilha de tantos milhões de palavras em tantas diferentes expressões, para tantos milhões de pessoas através dos livros. Por isso participemos e no dia de hoje, pequeno ou grande, se houver disponibilidade procure-se e compre-se um livro, um novo amigo nada exigente.
quarta-feira, 22 de abril de 2009
Uma história de candelabros
nasce o discurso ínfimo de recados
no início de um dia impuro cínico
de argumentos cobertos de neblina
não desejável não correcto
na procura da cura
posologia tão mínima que rasa
no tamanho o grão de milho
na dimensão do silo.
E tudo na mesma
sem sentido sem poema
como gota de geleia em caramelo
na borda do frasco de tampa seca.
Anoitece
desfiam-se folhas de alface rodelas de legumes
na salada fresca de água corrente
juntam-se cogumelos fatiados
a receita de um fio de azeite e gotas azedas
tudo se rebola na taça em cima da mesa.
O silêncio no ruído das notícias
como avalanche e certeza
que ao fim de tantos anos somos
somos apenas
uma história de candelabros
esguios apagados vazios.
Tudo começou na auréola de um crepúsculo.
Era tarde a praia deserta e trinta e um
nas águas tépidas de um Junho algarvio.
Contei-os antes do mergulho de pés molhados
à distância do pontão: trinta e um.
As gotas escoavam acendiam a pele luminosa.
Os cabelos eram limos confusos
na toalha amarela nos reflexos do sol.
Os dedos longos arqueados em brilhos de concha
distendiam em espaços uma chuva míuda de areias.
Trinta e um de novo no regresso mais junto
colocando a sombra o arrepio o pressentimento
paralelo entre o meu e o teu corpo.
Nesse fim de tarde nessa noite cada um seguiu
o seu caminho.
Na manhã seguinte uma mesa ao lado no hotel
a toalha branca a meia-de-leite o croissant
sumo de manga uma torrada e a geleia.
Foi o doce o argumento no presente
no guindaste leve do meu braço.
Usaste o charme como fala do destino
uniu palavras ideias nas areias afundadas
quando a espuma deixa o seu falar liso
e se afasta num jogo subtil que nem sempre
se entende qual o caminho: se nos falta
o areal ou se escorregam mais e mais
as ondas de caracóis nos embalos do mar.
Foi a tarde mais longa na volta das dunas
no disfarce nas cortinas dos arbustos.
Guardo imagens precisas não difusas
do puzzle descomposto de peças tuas.
Era um fruto de cidade tu mais aldeã:
" Gosto das maias que afastam os demónios
nas fechaduras, não gostas?"
Nem sequer conhecia e como esta outras
histórias. Deslumbraste as rotinas
de cafés negros jornais livros
nos fumos das nicotinas.
Naquele verão no intervalo das férias
disseram meus pais: "Vem!" eu nada sabia
passei a noite no comboio de mão dada
em misturas de saliva com uma menina algarvia.
Adormeci no seu ombro "pouca-terra...pouca-terra"
era já de madrugada. Acordei e disse adeus
na estação de Tavira.
De seguida trinta e um consequência
a praia o pontão o hotel o crepúsculo
da primeira vez.
Um fim-de-semana e foi preciso um mês
no juntar novo de brisas dos candelabros
de velas imóveis e mais cinco anos de chamas
sem derreterem as ceras fortes únicas
até aos dias de consumos vastos
só saciados no desacato das cinzas.
Anoitece
agora passaram mais cinquenta
e se por vezes falas ao meu ouvido
apenas escuto as memórias e o som
ininterrupto do silêncio
na distância de dois candelabros
entre a salada e a indiferença
sem sementes de futuros de existência
sem os fetos e as heras esquecidas
na circunstância de não sermos mais
e ser apenas dois candelabros vazios.
Dia da Terra

foto Bullit Marquez/AP
O dia da Terra passa quase despercebido em Portugal. Criado em 1970, pelo senador norte-americano Gaylord Neson, manifesta-se essencialmente nas escolas do país.
O que começou, em 1970, como um protesto nacional contra a poluição, é assinalado à escala mundial, com iniciativas centradas na preservação do Planeta e na importância da reciclagem.
Por todo o país decorrem actividades que comemoram o Dia da Terra, assinalado mundialmente, a partir de 1990, no dia 22 de Abril.
No Porto o projecto "Together Green", vai oferecer flores na Rua S. Francisco Xavier. Se um dos 78 estudantes de “t-shirt” verde mobilizados para a campanha lhe oferecer flores não estranhe, não é "Impulse", é o Dia da Terra.
(Copiei de um site a imagem e o texto) Não temos outra.A Terra é a nossa casa há que cuidar dela: "R" e "R" e "R" - Reduzir, reciclar reutilizar! Esta é casa maior que existe logo os problemas são muitos, mas as gotas todas juntas fazem um mar, com a contribuição de uns poucos podemos começar pela nascente e com muitos seguir o rio!
Sejamos atentos!
O futebol dos filósofos
Um pequeno momento de humor genial!
Pergunta ao mocho se sabe ou não
velas gastas dedos vazios
alguém me chamava
eu não ouvia!
A roda rodava
moía moía
branca farinha
tornava macia.
As vozes lá fora
e eu não sabia!
Um vulcão um dia
do ventre da terra
subia subia
lançava lava
brechas abria.
Portas janelas
rodas farinha
num mar de raiva
tudo sumia!
Quanndo assustado
do lume das pedras
nos arvoredos
já me escondia
indaguei ao vento
o que acontecia?
"Eu só sopro e ribombo
em voz de trovão
das tempestades
não sei a razão!
Pergunta ao mocho
se sabe ou não!"
Vi alto o mocho
parado ficou não se mexia
olhos redondos fechava e abria.
Eu acordado já não tremia
do negro sonho já emergia.
Olhos abertos via caminhos
na quietude sabedoria!
terça-feira, 21 de abril de 2009
segunda-feira, 20 de abril de 2009
Vladimir
fugitiva lesta:
gesto de enfado
a resposta é não.
Procura o cotovelo
menos sorte
no desvio na saída
acerta-lhe de raspão.
"Quem espera sempre alcança"
vai ao ombro
no toque leve
ingénua decisão.
Indiferença nem se vira
gélida fria
arrogante declina
desafina o coração.
Escrevi este pequeno poema depois de ler um livro pequeno ou antes um conto grande
de Turguéniev chamado "Primeiro Amor" em que Vladimir é um jovem personagem.
domingo, 19 de abril de 2009
MIGRAÇÔES
são análogas às daquela árvore que tenho no quintal. Já a vi despida,
ébria, numa ânsia de líquidos
e nuvens. Depois, vi-a
resplandecente de folhas, pesada,
impondo-me o respeito dos seus frutos - como
se eles não estivessem ali para que eu os colhesse antes que
apodreçam, caídos no chão, ou os pássaros os comam! E
pergunto-me: que relação existe entre
essa árvore nua de Inverno, e a árvore sob o verde manto
do verão? Serão os mesmos ramos os que se estendem na sua despida
fragilidade, como se nada os prendesse no ar, e os que ostentam
a jóia de flores e rebentos, com o seu ar primaveril?
Ao cortá-los, para que não tapem o sol às plantas que têm de
nascer à sua volta, penso nesta comparação
entre a árvore e a alma; e em como, nas coisas da natureza, não se liga
a sentimentos, deitando fora o que é inútil para que o novo possa ter
o seu lugar. Mas uma alma não se
deixa podar, como a árvore. O seu crescimento faz-se sobre si mesma; não crescem
sobre outras flores e frutos, juntando-se nessa mistura que
obriga o homem a decidir, a ter de esquecer partes da sua vida,
mesmo que saiba que a alma guarda tudo, e que um dia tudo voltará
ao de cima.
Nuno Júdice "Cartografia de emoções"
sábado, 18 de abril de 2009
The Raven
em Inglês e a tradução de Fernando Pessoa e resolvi publicar.
nao sei o que se passa com a formatação, que alguns versos aparecem cortados... quem perceber disso por favor componha o poema, que eu não sei.
Ah, que bem disso me lembro! Era no frio dezembro,
E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.
Como eu qu'ria a madrugada, toda a noite aos livros dada
P'ra esquecer (em vão!) a amada, hoje entre hostes celestiais -
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,- Mas sem nome aqui jamais!
Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo
Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!
Mas, a mim mesmo infundido força, eu ia repetindo,
"É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;
Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais. - É só isto, e nada mais".
E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,
"Senhor", eu disse, "ou senhora, decerto me desculpais;
Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,
Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,
Que mal ouvi..." E abri largos, franqueando-os, meus umbrais. - Noite, noite e nada mais.
A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,
Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.
Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,
E a única palavra dita foi um nome cheio de ais -
Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais. - Isso só e nada mais.
Para dentro então volvendo, toda a alma em mim ardendo,
Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.
"Por certo", disse eu, "aquela bulha é na minha janela.
Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais."
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais. - "É o vento, e nada mais."
Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,
Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.
Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,
Mas com ar solene e lento pousou sobre os meus umbrais,
Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais, - Foi, pousou, e nada mais.
E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura
Com o solene decoro de seus ares rituais.
"Tens o aspecto tosquiado", disse eu, "mas de nobre e ousado,
Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!
Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais." - Disse o corvo, "Nunca mais".
Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,
Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.
Mas deve ser concedido que ninguém terá havido
Que uma ave tenha tido pousada nos meus umbrais,
Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais, - Com o nome "Nunca mais".
Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,
Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.
Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento
Perdido, murmurei lento, "Amigo, sonhos - mortais
Todos - todos já se foram. Amanhã também te vais". - Disse o corvo, "Nunca mais".
A alma súbito movida por frase tão bem cabida,
"Por certo", disse eu, "são estas vozes usuais,
Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono
Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,
E o bordão de desesp'rança de seu canto cheio de ais - Era este "Nunca mais".
Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,
Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;
E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira
Que qu'ria esta ave agoureia dos maus tempos ancestrais,
Esta ave negra e agoureira dos maus tempos ancestrais, - Com aquele "Nunca mais".
Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo
À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,
Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando
No veludo onde a luz punha vagas sobras desiguais,
Naquele veludo onde ela, entre as sobras desiguais, - Reclinar-se-á nunca mais!
Fez-se então o ar mais denso, como cheio dum incenso
Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.
"Maldito!", a mim disse, "deu-te Deus, por anjos concedeu-te
O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,
O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!" - Disse o corvo, "Nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Fosse diabo ou tempestade quem te trouxe a meus umbrais,
A este luto e este degredo, a esta noite e este segredo,
A esta casa de ância e medo, dize a esta alma a quem atrais
Se há um bálsamo longínquo para esta alma a quem atrais! - Disse o corvo, "Nunca mais".
"Profeta", disse eu, "profeta - ou demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais.
Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,
Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!" - Disse o corvo, "Nunca mais".
"Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!", eu disse. "Parte!
Torna á noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!
Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!
Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!
Tira o vulto de meu peito e a sombra de meus umbrais!" - Disse o corvo, "Nunca mais".
E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.
Seu olhar tem a medonha cor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão há mais e mais, - Libertar-se-á... nunca mais!
O CORVO *
(de Edgar Allan Poe)

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,
Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,
E já quase adormecia, ouvi o que parecia
O som de algúem que batia levemente a meus umbrais.
"Uma visita", eu me disse, "está batendo a meus umbrais.
É só isto, e nada mais."
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Imagine
Esta é uma das minhas canções preferidas e com base nela fiz este poema que aqui deixo! Também gostei dos óculos redondos de lentes azuis imaginei uma tela branca e de cada vez que abrisse os olhos ter o céu azul - sempre!
IMAGINA
Fecha os olhos ...
Imagina!
O Sol durante o dia
estende seu manto morno
no alpendre
no baloiço
no jardim das mariposas
nos ramos de um salgueiro
tremeluzindo de cores!
Fecha os olhos...
Imagina!
Na noite crepuscular
sobe a Lua dos mistérios
não redonda mas esguia
nesse quarto crescente
que namora a melodia!
Imagina!
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Dias de Abril
nuvens cinzentas e largas outras de dedadas
buracos de meia onde espreita o Sol.
Nas carapaças qual tartaruga aquece
fecha-se os olhos no espaço de luz
sugando o astro nas precisas
tão quentes energias.
Assim se sente da natureza as temperaturas
abrem pétalas e polens de voos mínimos
febres de fenos espirros de resfrios
e sempre o calor descendo de dossel
no rosto silente imóvel querendo
sentir as mensagens do vento no bronze
da pele.
Nestes dias de Abril estendo palmas abertas
recebo as outras mãos distantes do Paraíso
a dança breve de uma brisa nos cabelos
que entra nos meandros da cabeça
onde me sento de almofada nos sentidos
desvendando segredos nos altares inconscientes.
A surpresa de um novo filme numa trama de seda
um casulo nascente de folhas de amoreira
deslumbrante improvável resplandecente
só nossa tão dentro
Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.
Com dor da gente fugia,
Antes que esta assi crecesse:
Agora já fugiria
De mim , se de mim pudesse.
Que meo espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?
Sá de Miranda