segunda-feira, 22 de junho de 2009

A retina dos poemas

Na noite mais noite
os pirilampos acendiam as vestes verdes
e os mosquitos serpenteavam globos de vidro
nos passeios;
actividade de solstício
despertar natural da canícula.

Quando dia
quente tão quente a areia.

Oito horas a praia deserta...
na toalha de conchas e bolsa amarela
há quanto tempo não era assim o crepúsculo
lento descer até ao fim
uma linha ténue de aguarela
laranja decrescente paralela
na vertigem de um mar chão...azul.

O olhar na ausência de Rolleiflex
os passos breves o adeus da cor;
um mergulho ao centro dos peixes.

Depois do dia
na noite mais noite
asas longas ao encontro
de um rosto que divide o horizonte
e adianta de um lado a madrugada
do outro o nascer de estrelas
e a luz dos pirilampos
nos silêncios da noite
na retina dos poemas.

4 comentários:

David Campos Correia disse...

o poema flui como um crepúsculo passageiro. Mas tão e tão imortal. Parabéns José, gostei muito.

josé ferreira disse...

Obrigado David! Os quadros reais do fim de tarde foram a causa do poema!

Maria Celeste Carvalho disse...

Lindo o crepúsculo e lindíssimo este poema, José!
Só hoje li o delicioso e terno poema que dedica à sua mãe: "... Celeste - Azul".
Gostei muito!
Deixei-lhe um comentário e deixo-lhe aqui o meu abraço. Comovido!
MC

josé ferreira disse...

Celeste
Obrigado pelas palavras e comentário. Fazer um poema à mãe ou ao pai foi para mim um prazer tardio que atingi através da minha poesia, uma pequena oferta ao muito do equilíbrio e colo que para lá dos oitenta ainda me deixam seduzido quando leio nos olhos a transparência de "querido filho".
Somos ainda cinco, como escrevi no poema de homenagem ao meu pai "princípio bom", e para todos, eles e elas, manifestam o carinho das mesmas palavras, por isso, como filho, sinto-me cheio e preenchido. Espero com os meus filhos continuar a herança na forma boa!

Abraço amigo!