segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

o amor esconde-se nas arestas da dor

O amor é um jogo sem regras
Nada é simples
Ladrão de vontade
Poeta perdido sem pés
Tudo é simples
Só asas
O amor
É um jogo sem regras
São sempre três no amor
Eu
tu
os outros
nada é simples
ladrão de vontade
O amor
É solidão em estado duplo
trilogia incompleta
Uma dor tripartida em prazer
Solidão em estado duplo
Amo o amor na sua indelicadeza
Rude de amor
Perene
Eterno
Etéreo
É solidão em estado bruto
Só asas
O acaso ditado que se redobra
Tudo pode ser
Tudo é simples
Reciclagem de afecto em dor
Dor em afecto
Nada é simples
Poeta perdido
Sem pés
Só asas
Sombra em luz
Sombra em nós
Amo o amor na sua indelicadeza
Nossa sombra
Amor nosso
É caos organizado
Em estado duplo
Amo o amor na sua indelicadeza

Em estado puro
É paz

3 comentários:

josé ferreira disse...

Liliana é sempre complicado de definir "o amor è" e é sempre complicado reinventar metáforas. Gostei muito de "poeta sem pés" pelo desiquilibrio, do "ladrão de vontade" pela dependência, pelo "simples" e o "nada simples" que ele é, pelo "caos organizado em estado duplo" e "amo o amor na sua indelicadeza". No poema surgiu-me a ideia de que o amor, o afecto tem asas e a dor tem pés. Terminaste de uma forma que também gostei "no estado puro é paz" remetendo para o que antes estava expresso "São sempre três no amor/eu/ tu/ os outros/" a presença do universo, o que nos rodeia, os que nos rodeiam.
O teu poema é uma psicanálise do amor, a catarse, vamos lá atrás e vivemos cá à frente, na procura de paz/felicidade.

Bjo e muitos parabéns!

A. Roma disse...

Que poema mais lindo!
Tambem não tenho regras para justificar porque gostei. Fico ainda a pensar na ambiguidade das sensações que recolho, nos versos tristes que se tornam felizes, nos versos alegres que aparentemente aprofundam uma solidão(ou duas).

E dou-me conta ainda, que ao contrário do que pensava, o passo que é dado quando o amor é indelicado é um corte que pode não ser um fim , mas um rasgo numa cortina de tradições que com asas a soltar pêlo deixa de ter sentido.
Ai os amantes - os mal educados, que voam sem delicadeza e não pedem liçenca quando se magoam.
Puro é o amor. Antes de ser puro, talvez não seja amor. Talvez seja uma promessa ou a ilusão do poeta.
E no entanto é assim que o amor começa. E um poema nunca é um fim.

Marlene disse...

Eu acrescentaria ainda que o amor e a dor rimam no número de arestas que possuem. Daí a possibilidade da impossibilidade e vice-versa. É de facto um jogo de espelhos. E o teu poema tem versos que são vértices desse prisma que espalha a complexa branca luz em diversas cores e tons.
As repetições dos versos que frequentemente usas nos teus poemas são muito bonitas e contribuem muito para o timbre poético das tuas palavras.