quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Poeta ausente poema ao lado

Ontem acordei a meio da noite (4hOO) com algumas frases na cabeça.
Não consegui adormecer com receio de as perder. Não sei se fiz bem
ou mal, mas surgiu este poema como dedicatória à nossa escrita criativa,
e a todos vós com a nossa "Prezada Mestra"... Amiga ( não resisti
a pôr umas reticências! ), aqui vai ele:



Poeta ausente poema ao lado



Dissecar. Abrir o poema.
Os versos despidos.

O autor presente.
A procura de caminhos da Nascente
entre fragas e salgueiros, a água
corrente, degelo estalado, caldo
e as gotas do orvalho no acordar
da manhã, estremunhado.

O poeta ao lado.
As letras, metáforas, suspensão
parada de segundos e de novo
vários eles descendo a encosta,
passando junto à casa de tábuas
sem portas; a escada por fora
janelas na entrada.

Alguém diz: - São mais bonitos
os cadernos, as argolas mais a
jeito. Não há quadriculado.
Brancas as folhas, os poetas.
Lembram-se: A Tabacaria.

O poema ao lado.
Aliviado. O poeta diz:"- Não é
costume desmontá-lo."mas tenta-se,
desfia-se, desaperta o cordão
assenta as emendas nas linhas,
"âncora",alisa a renda,caricia
o bordado.

O poeta revelado.
Aguém se acomoda, foge a cadeira,
o guizo dos ruídos interrompe o
juízo. A sala é de ideias régias
a mesa oval,na pintura da parede
desvela-se um pedaço de tela,
a falha no óleo granizado.

E o poeta alheado.
Olha para o chão, escuta, procura,
a ínfima partícula, a premonição:
não ter usado a palavra certa;
a estrofe manca, a ideia fraca,
as reticências, um ponto final.


A vela acesa.

Não é távola nem redonda, mas há quem mande.
Não há malhas, nem elmos, nem espadas.Os
cadernos, as canetas, nas mãos ao lado
e os espaços brancos das palavras moças.

Dez mais dez
ouvidos pendurados, no elevador dos guardanapos;
sobem e descem nos lábios dos versos,
à mesa dos poetas.

E ele ausente.
Guardando um pouco o segredo,
da musa e da semente!

4 comentários:

blankbluebooker disse...

José, adorei o retrato da nossa "escola de poetas". Muito bom. Mesmo.

Elza disse...

Olá José! Obrigada pelos versos que nos dedicou. Também me vi sentada em volta dessa mesa de poetas e poetas em projecto. Gostei de descobrir um pouco do poeta acordando de madrugada sufocado com os versos que têm de sair. Mas não descobri tudo... Ainda assim, acho que deve continuar "guardando um pouco o segredo", é nele que está todo o encanto!

auxília disse...

Boa noite, José. Tenho saudades de me sentar à mesa dos poetas. Não como poeta, mas perscrutando o trabalho dos poetas... "e os espaços brancos das palavras moças".
Uma boa noite, sem insónias.

Joana Espain disse...

Obrigada pelo poema. Está lindíssimo. Tem um ritmo de ritual, iluminado por velas que se acendem e apagam...