segunda-feira, 13 de outubro de 2008

A "minha" África ...

África foi o meu berço, foi a minha escola, foi o meu primeiro amor. Aí cresci, como uma flor que desponta, estremece e desabrocha devagar, nas meias-tintas suaves das madrugadas, na luz forte e exausta dos poentes .
E, parte das minhas raízes ainda lá estão, na terra imensa, suada, sofrida: junto ao embondeiro gigantesco, sentinela imponente da savana africana; junto ao mar, enterradas na areia fina, translúcida e, talvez também, no coração da Ana, a ama-seca negra que me embalou, com doçura, nos braços roliços e macios e me contava histórias que eu escutava, ansiosa, com os olhos redondos de satisfação e de espanto !

A Ana que eu gostaria de ter guardado comigo, só para mim, até ao fim dos meus dias, mas que, por um desígnio mais forte do que todo o querer do mundo, também perdi .
Dela, ficaram, para sempre, docemente aninhadas no meu coração, a ternura, a alegria, as canções de ninar e o encantamento das pequenas histórias, onde a realidade ingénua da sua vivência, o místico e o fantástico se entrelaçavam numa harmonia perfeita e estranha, como se a Ana tivesse, em si, toda a força, todo o mistério e todo o fascínio de África!

África do sol quente, dolente e voluptuoso; do capim, descorado e ressequido e das árvores espectrais, erguidas para o céu, na época seca, como mãos descarnadas, implorantes, quase mortas . Mas, também África da vegetação luxuriante, plantas raras, únicas, de folhagem verde e macia, onde o cacimbo escorre, tranquilo e límpido como lágrimas de reconciliação .

África dos flamingos cor-de-rosa, toque de delicado romantismo nos mangais; dos pássaros de mil cores que cortam o espaço numa vibração de alegria e de plenitude; dos animais selvagens, senhores absolutos de uma terra que é sua, estampas de perfeição e imponência, que aí se criam e reproduzem, numa estonteante explosão de vida e de beleza.

África da espantosa riqueza do minério e das pedras preciosas; das extensas plantações de cana-de-açúcar, do algodão e do café que, em muitas zonas, se oferece espontâneo e farto, num esbanjamento de fidalguia abastada !

África das baías azuis, langorosas e doces como um regaço de mãe; das areias delicadas e douradas como carícias de criança; dos palmeirais esguios, lânguidos e ondulantes, que o vento agita mansamente, amorosamente, com requintes de amante !

África do cheiro consolado da terra depois da chuva. Chuvadas fortes, repentinas, benção do céu que fecunda e cria; das trovoadas violentas, assustadoras que atroam os ares e despertam, malévolas, os velhos medos de infância; dos poentes breves, mas intensos, clarões fortes, vermelhos, sanguinolentos como lagos incandescentes de amor, de ciúme e de traição!

África do cantar monocórdico das cigarras; da alegria atrevida, provocante das acácias em flor; dos milhares de pirilampos, pequenos pontos de luz perdidos no escuro profundo de uma terra adormecida!

E, à sexta-feira à noite, no frenesim das batucadas que irrompem súbitas no ar, África estremece vibrante e ansiosa. Nas sanzalas, os corpos negros, elásticos, suados, agitam-se indomáveis, em frémitos de prazer e de paixão, à luz ardente das fogueiras, ao som agreste e exuberante dos batuques! E, durante duas noites, a sanzala cuidada e pachorrenta, transfigura-se ao ritmo inquietante dos tambores, na sensualidade lasciva da dança, nas brigas violentas, em tremendas bebedeiras!

África do andar lento e requebrado das negras, corpos sinuosos, indolentes, envoltos em panos coloridos, artisticamente traçados, carregando com naturalidade e alegria os filhos que criam livremente, sem pressas e sem angústia, confiantes na força de uma Natureza tantas vezes caprichosa e nem sempre compassiva, mas que respeitam e amam !

Mulheres que aceitam, submissas, o pesado fardo de viver, bebem aguardente de cana, que destilam em alambiques caseiros e saboreiam, vagarosamente, gostosamente, o tabaco ordinário e forte, que fumam com a ponta acesa dentro da boca.

África da gente simples, alegre, dedicada, gente de pele negra, mas onde pulsam corações lindos, puros e cristalinos, que enfeitaram, parte da minha vida, com sorrisos, afecto e luz! E, todos e muitos são, permanecem nítidos, vivos na minha memória!
O Faustino, religioso convicto, a quem eu dava "santinhos" para me deixar comer as batatas estaladiças que ele ía, incessantemente, fritando para o jantar; a Averina, a nossa lavadeira, que adorava o chá da manhã e dizia que, quando eu fosse "grande", ficaria comigo para cuidar de mim e dos meus filhos; o Chipeco que me conhecia desde o berço e sempre que eu, já universitária, viajava até casa, em férias, ía visitar-me, abraçava-me, dizia que eu estava linda mas magrinha e, talvez por isso, oferecia-me, invariavelmente, ovos das galinhas que a mulher criava, na sanzala e um pão de forma branco, macio e fofo, com o doce sabor da ternura; o Mussarilo, que adorava o meu pai, porque ele ajudava-o, muitas vezes, sobretudo, economicamente, e que insistia, teimosamente, em lavar-lhe o carro, todos os dias, e poli-lo até parecer um espelho! O meu pai comovia-se e ficava um bocadinho embaraçado, mas sabia que essa era uma maneira delicada e, talvez a única que, na sua simplicidade, ele tinha, para lhe dizer quanto o estimava e lhe estava grato!

África dos grandes espaços abertos, imensos, impressão de infinito que nos conduz muito para além do trivial e do medíocre, dando-nos da vida e do universo que nós somos, perspectivas novas, mais amplas, mais humanas como se ali, o pensamento e o mundo adquirissem dimensões diferentes, maiores e mais profundas.

Estive, pela última vez, na "minha" África há muitos anos, tantos, que não os quero contar, poucos dias antes de partir rumo a uma Europa bem mais sofisticada, fria e cinzenta.

Nesse dia, frente a mim, resplandecia um pouco da África exuberante e misteriosa que amei apaixonadamente e que, para sempre, retenho na minha memória, nos meus sentidos, nas minhas veias, como parte integrante de mim, como uma marca de fogo, indelével! E, essa terra vermelha, de contrastes vivos e bem marcados, que ainda vejo e guardo na minha alma, permanece bela e intacta, depurada de todo o Mal, pelo filtro mágico da distância e da nostalgia !

Contudo, não é sem espanto e mágoa que, em momentos como este, me vou dando conta do muito que já esqueci. Pedaços de vida que já não são meus, perdidos na névoa de um Passado, aqui e ali, já morto, porque, aqui e ali, já desvanecido pela erosão implacável do Tempo !
E, nas clareiras que os anos foram abrindo na minha memória, ergue-se, solitária e dorida, a Cruz negra da Saudade e florescem, cansadas, estranhas violetas, sem viço e sem perfume!

Naquele dia, há muitos anos, tantos, que não os quero contar, estendia-se frente a mim um pedaço da "minha" África, num deslumbramento de cascatas, vegetação e árvores altas, numa sinfonia de luz, de sons sussurrantes e de verdes de mil matizes, a mais bela e majestosa catedral, para o mais fantástico Te Deum.

Sem pressas, sem dramatismos, encerrou-se, então, suavemente mas para sempre, um ciclo precioso da minha vida. Foi o ponto final de uma Infância e Juventude sem história, porque dias felizes não têm história, vividos em Cinemascope e em Technicolor, porque tudo em África é, naturalmente, grande, colorido, luminoso!

Ali, há muitos anos, tantos, que não os quero contar, naquela hora singular, feita de encantamento e de lágrimas, a minha alma rasgou-se numa prece sentida, que era já um infinito adeus:"Domine, miserere nobis! Domine, miserere me!"

Maria Celeste Carvalho

7 comentários:

Elza disse...

Celeste: Há tantos anos rasgou-se a sua alma... Mas hoje, desse rasgão, nasceram muito mais do que violetas sem pefume!!! Eu pude sentir, através da sua brilhante poesia em prosa, essa "África do sol quente... das árvores espectrais, erguidas para o céu... como mãos descarnadas, implorantes, quase mortas." Essa "África do cheiro consolado da terra depois da chuva... dos poentes breves... sanguinolentos como lagos incandescentes de amor... das baías azuis... sem pressas e sem angústia... de corações puros e cristalinos... dos grandes espaços abertos... dando-nos perspectivas mais novas, mais amplas, mais humanas..." Obrigada pela viagem a uma terra que não conheço, mas que, como a tantos outros, me fascina. Com certeza pelo que nos fazem sentir os livros, os filmes, as histórias que alguém nos contou e os textos, como este seu, belissimo!!! Muitos parabéns!!! Elza

Anónimo disse...

A ausência permite sempre a efabulação. Daí, o ter-nos trazido nacos de uma África sublime - realidade transfigurada tão parecida com a realidade vivida. Uma África poetizada pela memória e pela distância. Uma África que existe, essencialmente, na memória acesa da sua narradora, «feita de encantamento e de lágrimas». Registada neste belo texto, a sua África perdurará para sempre.

Gostei imenso.

José Almeida da Silva

Angeles Sanz disse...

Cara Celeste, também eu consegui "cheirar" a terra africana. Gostei muito,muito mesmo.
Angeles Sanz

liliana disse...

É bom reler as suas memórias das histórias e Àfrica. Já tinha vontade de conhecer África, agora ainda mais :) África apesar de longe continua bem dentro de si, como se estivesse sempre ao seu lado :)

auxília disse...

Depois de "África minha", "A «minha» África" voltou a incendiar o desejo de conhecer África... mas nunca será do mesmo modo, nem com a mesma intensidade com que a Celeste a viveu. Obrigada por partilhar connosco a "sua" África, de forma tão intimista.

António Pinto Oliveira (António Luíz) disse...

Não consegui ler até final teu maravilhoso texto (irei relê-lo com toda a calma) , pois tive uma nesga de nostalgia e saudade, e deixei-me reviver (ancorado às tuas e minhas memórias de África) aqueles cheiros, as visões do mato e savanas, o nascer e o pôr do sol, e aquela intensa, ampla e idílica liberdade que a todos apaixona. Vi-me de novo passeando de buggi numa praia brasileira, em Natal, onde sem prévio aviso os cheiros da terra quente e assaz selvagem me inundaram e me provocaram lágrimas silenciosas de saudade... Belo trabalho. Parabéns. António

josé ferreira disse...

Sempre ouvi falar de uma África da qual apenas junto impressões e imagens de documentários; uns reais, outros invenções.
Nunca como nestes textos os senti tão verdadeiros, plenos de metáforas, de cor, de poesia.
Nessa saudade que transpira das palavras nasce em nós o desejo e a vontade de viver essa paixão de imagens doces.
Este texto é um verdadeiro " Cinema Paraíso" e nós sentimo-nos meninos deslumbrados.
Parabéns!