quinta-feira, 3 de maio de 2012

Abraço

Sol são teus lábios na pele
Suave baloiço em si bemol

(Abraço longo com mel)

Uma dança de relógios
Em colmeias transparentes

(Abraço longo e dormente)

Peço-te em câmara lenta
Um sorriso de presente

(Abraço longo em ditongo)

O amor é um raio de luz
Preso no teu infinito

(Abraço longo e esquisito)

A chuva canta o teu nome
Embrulhada em colcheias

(Abraço longo a meias)

Chegas leve de ternura
Abres os braços em par

(Abraço longo de amar).

A(Mar)

Incerta imensidão do mar recluso
Encerrado no seu sono de gigante
Sozinho descobriu estar em desuso
Casar com terra incerta e distante

(oferece suas ondas a quem passa,
ondeia ondulante a solidão)

O mar de humores instáveis e incertos
Na ciclicidade própria de quem sente
Ora se revolta em altas vagas
Ora se enternece de contente

(salgado de chorar o seu fado,
ondeia ondulante a solidão)

O mar futuro incerto, só passado
Tece redes de sal para o coração
É no presente um berço debroado
A ondas de ondulante solidão.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

A incerta luz do poema

(A incerta luz do poema)

Surge pequena, de um nada
Em cada nova alvorada

Trago mil luzes nas mãos
Para doar a quem passa
Candeeiros de brincar
Com versos por carapaça

(A incerta luz do poema)

Ilumina pequena, escondida
Mais uma forma, uma vida

Lanço poemas ao mar
Quando adormeço, confesso
Para em naufrágios de sonhos
Ter barcos feitos em verso

(A incerta luz do poema)

Tem dos brilhos o mais certo
Numa ponta o coração
Na outra o universo

Penduro estrofes em ramos
Para florirem em cor
Quando as linhas se cruzarem
Nos olhos de um novo amor

(A incerta luz do poema)

Não tem fim nem amanhã
Nasce hoje e por magia
Torna a nascer amanhã

(A incerta luz do poema:
Guarda-a embalada bem dentro)

Poesia

Anoitece o medo e a ausência
Os campos coloridos da memória
Esboçam pensamentos de outra história
A metade incerta da paciência
Quando o pensamento é ilusão
Há na natureza da poesia
Voz, tormento, imensidão
A face inteira da magia.

Anoitece a dor e a ternura
Vagas ondas mortas de poente
Elevam-se as vozes da doçura
A metade incerta de um repente
Quando a melancolia é paixão
Há na natureza da poesia
Só matemática exactidão
A face inteira da alegria.

a carta que te escrevo ( XIV )



escrevo-te esta carta para que a guardes
como um instante de tempo, um fragmento, uma memória
um I remember you well que se inscreva sem matéria
por dentro do cérebro, como um quarto que se abre
no lugar do belo, num firmamento, numa âncora de céu.
vou-te contar, começa assim:

a memória é sempre uma janela sobre a vida
é como um grande livro, uma bíblia de muitas folhas
desde papiros a folhas da china, de casquinha, finas muito finas –

nem sempre sabemos os números, aquela página, aquela letra
no entanto surge um dia por um motivo. um motivo bom pode ser um sorriso
uma forma de encostar os olhos, de ser original, ou apenas um encontro por acaso
de surpresa como quem diz: ao bater assim depressa este batuque de selva
é porque significas, muito, sabia, desconfiava, mas agora que sinto as plantas dos pés
a escorregar, a querer parar muito, a transpirar e  a tropeçar, é porque …
a memória é um livro, muitas páginas escritas de sílabas e verbos
de pele, muita pele desde aquele primeiro grito quando pela primeira vez
pela primeira vez se respira, quando pela primeira vez …

sabes, I remember quando numa catequese -  um segredo há muito guardado
- uma mão pequenina  num intervalo, tornou-se concha no ouvido
num intervalo, uma mão pequenina, e eu era da mesma idade
com uns calções de alfaiate, uma camisa amarrotada, um pé rodando sobre o outro
uma meia branca, um sapato esmurrado, todo vermelho
com as mãos  cruzadas ao fundo das costas, todas baralhadas
e depois muito de repente, um salto e uma cara alegre
e a menina da mão pequenina riu muito
e disse devagarinho: queres ser meu namorado
num intervalo
entre fixar dez mandamentos e rezar de cor todas as orações que levassem os pecados –
num intervalo, há muito tempo –

sabes, hoje quase não saí de casa, li de corrida algumas das linhas
e juntei algumas letras, que não as minhas, para perceber as notícias
as más notícias dos jornais.
e queria ter saído muito
sair ao acaso pela rua como se fosse África, uma aventura
para sentir a química, um ar que sufoca, por acaso
e encontrar-te com duas magnólias e dezenas de prímulas sobre o braço
depois um saco de quem vem das compras, do supermercado
assim subitamente e por acaso –

nessa altura uma ajuda é preciosa e torna-se mais suave caminhar
falar das coisas, de muitas coisas, como por exemplo, das focas
do Pólo Norte, da sustentabilidade do planeta ou de Freud
das últimas descobertas sobre o sonho como uma pedra polida
que espelha no rodar dos olhos não tanto do inconsciente  que pensávamos
mas mais das vezes, uma realidade semi-acordada –

ou então falar de experiências e devagar sentindo da mesma forma
como há muitos anos a mão pequenina,  dizer um segredo
e ilustrar uma pérola com a luz do dia, depois amadurar os dedos
torná-los mais corajosos para apertarem as sombras e os medos
para mais tarde recordar, remember and remember  you well, antes de acordar –

desculpa, e é tarde, e não aconteceu –

antes de escrever a décima quarta, esta carta
estava de rosto fechado, depois clareei
depois comecei a esticar os remos como se estivesse no leito de um lago
um Windermere perto de Lancaster
depois o movimento  e era um rio – Tamisa, Reno e Sena;
aquela cidade que se acende de muitas lâmpadas e transporta milagres –

depois um rápido e um Kayak, um coração a querer  tornar-te célebre
a querer ser maior, a querer adorar o Sol, a suportar o calor.
 e por fim o mar, o grande mar, uma baía, um cabo, uma imensidão de ondas
de espumas, de barcos, de aves em visitas de águas –

o mar –

espero que estejas confortável e morna,  com as pálpebras junto da janela
e a olhar a lua
como se ela fosse a nossa grande amiga, alguém que faz força
alguém que faz força para que as estrelas se libertem –

espero que toques com os dedos o bordado inglês das cortinas
como uma despedida, sensível
e que sintas o sono, um caminhar pequeno, um som no ouvido
para que te deites, para que te encostes na fronha da almofada
e que sintas um aroma, um aroma de algodão doce na cidade
como se fosse um ombro depois dos pés cansados
 junto de uma ponte de uma outra cidade
uma ponte de Neptuno, não de tridente mas com uma lira
uma voz grossa, a encontrar o acorde secreto das cordas
os dedos de uma canção
que adormeça como um berço, como uns olhos de mãe
na proximidade de um cheiro e da compreensão perfeita –

e espero que adormeças
como sempre
com a orquestra de asas e de anjos
como se não fosse sonho
e dormíssemos ambos –

as palavras tornam-se mais longínquas como um eco que se escoa
como encostas que se juntam
fazendo cessar  todos os ruídos –

ouço vozes, sinto-te cansada, os meus olhos também caiem –
desejo-te a  noite boa e guardo-te os lábios  –



terça-feira, 1 de maio de 2012

Ciclo de vida do Poema


Nasce sobre o manto da poeira
Verso ante verso cria espaço
Ternos firmamentos a compasso
Desenha-se na lua a noite inteira

Cresce a entoar a estrela etérea
Canta ao universo imensidão
Luz a envolver tal escuridão
Pedaço infinito de matéria

Morre em leito lácteo ao avesso
O Poema ainda a nascer
Na Poesia como no viver
Há no fim o esboço de um começo.

a carta que te escrevo ( XIII )




escrevo-te esta carta para que a guardes
aberta sobre um qualquer lugar do quarto
em cima de uma pulseira, de um vestido ou de uma meia
para quando por lá passares por uma outra razão
a encontres por acaso
e com um sorriso nos braços
a coloques sobre o olhar dos cabelos
e entre as duas mãos e os dez dedos.
vou-te contar, começa assim:

tenho uma camisa azul clara, sem bolso e com um desenho bordado
pequeno, um cavalo de crina sobre o lado esquerdo
o lado mais apertado, este esquerdo que tanto bate.
as persianas estão corridas naquela dualidade de serem brancas e estar escuro
para que a manhã não rompa de raios, clara,  sobre as marcas da noite
um sono tardio de pecados que não se confessam a ninguém
só aos botões, desapertados pelos sonhos luminosos nesta carta e nestas letras
com o propósito bom de ser um voar sobre as margens, mais além
uma ponte romana de uma primeira construção
um avanço sobre as pedras estreitas, sobre os peixes que descem
sobre as borboletas que sobrevoam, sobre as lilbélulas que voam
sobre os reflexos dos choupos, dos pinheiros, das bétulas, dos plátanos
de todas as árvores, ramos, folhas ou flores de frutos num maio trabalhador –

são muitas palavras para dizer o desejo de ser
de ser o som de um despertador, um despertador diferente
que em vez de gente, desperta o intangível, de uma leveza e de um sossego –
se não houvessem paredes, nem janelas fechadas, nem quartos, nem casas
provavelmente habitaríamos uma choupana com uma cama de juncos e folhas
ou de um linho tecido de manualidades, certamente um outro lugar, autêntico
de um artesanato inventado pelas mãos
e não haveria portas
e se nessa choupana, não muito distante, morasse o mar
poderíamos ouvir os búzios, a toda a hora, e sem os chamar-

desculpa, começo a falar-te de uma camisa azul clara, de uma crina
e acabo a falar do mar, perco-me, dou voltas com o corpo numa articulação de vento
que me sopra de lado de dentro e me faz perder a direcção –

estás confortável? às vezes interrogo-me de como colocas as mãos e os braços
e de que forma me lês; com os cotovelos sobre a mesa
ou se estendida sobre o sofá, de lado, com o cabelo preso ou solto
numa trança ou em ondas
e sempre com os olhos grandes sobre as minhas pequenas letras
que se tornam enormes se te forem como a seda             
como um lenço de flores
sobre a fealdade dos medos e das sombras –
letras enormes sobre os perigos das ilhas, sobre os novelos sem história
sem agulhas que tecem camisolas, sem as primaveras  que se adoram –

adorar é uma boa palavra, uma palavra de essência
que nasce sem que as outras consigam explicar
adora-se o sol, o mar, as pedras roxas de um caminho, as carumas
as folhas de um salgueiro, mesmo o cheiro do eucalipto senão for em demasia
mas adorar como essência e como palavra inexplicável, implica mente e corpo
mãos e dedos e braços que se abraçam, memórias, ausências e presenças
saudades e permanência
adorar é querer mais do que a razão explicável –

adorar implica escrever cartas com letras emprestadas pelo céu
por um paraíso que junta no branco da lua
ou num crepúsculo que arde;
a febre sempre a febre a fronteira da sublimação –

mas chega de palavras, sim, palavras que ardem, uma fogueira permanente
no primeiro dia de Maio e a ser mais quente que um verão, chega de palavras
é tarde como os dias de inverno, é preciso que te acomodes no lugar onde estiveres
e que escutes um violão, o seu som, as suas cordas reboando sobre a madeira nobre
e exótica, uma a uma, dedilhadas pelo imã, pelo indicador, pelo baixo do polegar, devagar
para que a carta caia ao chão, das duas mãos, dos dez dedos, devagar
sobre o chão, quando da invasão do sossego, para quando adormeceres –

a concha e a pérola, o búzio e o mar, repito o som –
a concha e a pérola, o búzio e o mar, repito o som –
a concha e a pérola, o búzio e o mar, repito o som –

um dia azul, quando a manhã acordar.
tiro a camisa, o motivo e afago a crina, o pelo curto do pescoço
um tom mel de um cavalo lusitano
os meus olhos estão enormes de cansados
mas julgo que dormes –
vou guardar o resto das palavras
e abraço-te muito sem que estremeças –
boa noite, meu anjo, dorme bem, sobre uma onda de fenos –









segunda-feira, 30 de abril de 2012

a carta que te escrevo ( XII )




escrevo-te esta carta para que a guardes
dentro de um livro, um livro de poesia
daqueles que podem ter um poema, um único poema que nos segure dentro
dentro do seu  mundo, com as nossas letras, dentro das suas janelas.
vou-te contar,  começa assim:

hoje é cedo ainda. é um fim de dia, de um dia que pela segunda vez escrevo
com os ombros pousados na mesa e os olhos dentro de um poema.
escrevo como se os meus cabelos cada um e de maneira diferente
tocassem  teclas de piano, acertadas, para te embalar dentro
dentro da minha cabeça, uma dança de imagens e do pensamento –

há uma pele fora e uma pele dentro
uma cadeira, um colo, um abraço e uma música por todos os cantos do poema
há uma pele ferida com todas as nossa letras, com todos os nossos caminhos
e não podemos julgar os medos ou os dias só porque nasceram e existiram
nem tão pouco julgar os segredos que são segredos e aqueles que um dia se descobrem
e se tornam uma troca de palavras,  compreendidas na mistura dos dedos 
que abrem botões, tirando lentamente as camisas, mostrando sinais
clareando na noite, madrugadas e manhãs  –

falamos sempre de nós com os poemas.
 umas vezes somos brancos  como o cimo das montanhas
uma claridade mais perto do céu
outras como um vento,  uivando, para distrair os outros sem que ninguém nos perceba
outras como mudos sem uma língua que fala,  com fragmentos de frases e palavras
e sem os gestos que percebam
outras brancos como a cal, com receios, como pêndulos baralhados sem ritmos
perdendo todos os tempos e a continuidade do movimento
o movimento que nos embala e nos invade os ouvidos –

mas como sabes que sabes que sinto o mesmo que sinto
sabes que quero ser um sussurro de seda e um sossego zen
como um gongo que tocou forte e deixa escoar o som, lentamente
como um eco de um grito de alegria no cimo de um mundo
um som de uma canção de infância a baixar as pálpebras
como dedos de mãos subitamente tão pequenos
a perderem força e as pálpebras esticadas e redondas –

 quero que te encostes na cadeira como se fosse forrada de penas e com o pólen das flores
uma cadeira de braços de preferência, uma cadeira de embalo com um poema.
deixa cair o braço direito, abre a mão como se dela se soltasse a ansiedade
e deixa que o ombro sinta, sinta  a diferença –
levanta de novo e pousa a mão no braço e agora com a esquerda
repete o movimento –

parece que nada muda mas afinal é como se estivéssemos juntos, frente a frente
como um espelho em que seres mulher e homem não interessa
porque essa é uma diferença que mora do lado de fora
mas não tem o dobro da pele, de dentro e de fora,  que se juntam dentro –

o que te quero dizer é que te quero, e que te quero muito
como naquele poema de Leonard com as duas metades dentro de tudo
para completar os búzios, o mar, as ondas e a espuma nesta noite tão escura –
mas de uma forma sossegada para esperar todos os minutos
que nos tornem como uma muralha, uma muralha mais longa e construída –

o Inverno é frio e molha os pés mas podemos usar o mesmo casaco
e viver três quilómetros de rua debaixo de um guarda chuva
no Outono, tantas árvores e tantas folhas, e tantas flores na estação de março;
aromas que nos abrem e desnudam como magnólias soltas, glícinias e petúnias
a doçura do jasmim,  a lantejoula de flores desenhando os jardins.
e na estação cálida, caliente, a impaciência da roupa, a transpiração
a pele morena e quente a clamar pelas brisas,  em qualquer praia de gente
ou sem gente, desde que as mãos sejam duas no mesmo cálice de tempo
de horizonte e de marés –

todas as estações são boas para adormecer
 desde que a alma pela aragem dos poemas
possa pousar em sossego, é o que mais quero –

estes poemas ao fim da noite como uma mão que enlaça a tua
aconchega-te a face e beija-te as orelhas
e quer que a guardes, a carta, a mão e o poema –

boa noite… beijo-te as orelhas
e o pescoço, e as orelhas e o pescoço
para que adormeças –

encosto-me nos teus cabelos –


domingo, 29 de abril de 2012

a carta que te escrevo ( XI )




escrevo-te esta carta para que a guardes
muito apertada, debaixo da almofada
como um  segredo por um dia inteiro
e esquece-a um pouco
não toda, apenas algumas linhas, para ler de novo
pela manhã, pela manhã de um dia de domingo.
vou-te contar, começa assim:

apesar da luz que ilumina, não se acalmou o frio
um  frio que corre pelas mãos do vento a abrir-me o colarinho
a camisa às riscas quando chego a Santa Catarina –

sabes, foi uma surpresa. gosto da escada metálica
que primeiro mostra o céu e depois os azulejos
e a rua, uma rua cheia de gente, de muita gente.
hoje uma música celta, duas gaitas de foles  e tambores
tambores de pele e de gente que se anima –

levo os olhos bem abertos para enfeitarem o meu silêncio
para cobrirem de versos  o meu caminho,  anónimo e sozinho
e eis que surge uma cena de antologia e verde, verde como uma ervilha.
não te rias. que tem isso de surpresa de ser verde e ser ervilha?
bem sei que de início parece uma iluminura tola e sem sentido
mas ouve, ouve melhor, verde, verde como uma ervilha –
batiam, quer  dizer não batiam, que as horas não batem, aparecem rotativas
para nos mostrar a lua, uma luz branca que nos cinta
para nos mostrar estrelas brilhantes de platina
para nos mostrar as manhãs do Porto e as neblinas
para eliminar as sombras nas horas do meio-dia
para as tornar mais escondidas e menos  oblíquas –

mas voltando à relojoaria e a Santa Catarina
 sem batimentos era uma e trinta.
junto de uma venda de rua, um par de namorados
escondidos num fim de escada de porta fechada.
o rapaz de cabelo encaracolado, olhava de um e outro lado
a rapariga de costas voltadas, erguia na frente dos olhos uma casa de ervilhas
e uma a uma,  com um sorriso nos lábios
uma a uma, e comia subitamente, directamente da casa verde
uma a uma o verde das ervilhas.
ficava apenas a casa verde e os ombros muito encolhidos
e um sorriso, sim, um sorriso –

não te rias. é disparate bem sei, parece uma conversa de meninos
mas enternece-me, lembra-me o campo e não o  cimento
lembra-me os arbustos, lembra-me os caminhos de terra
lembra-me a frescura de um cogumelo de árvores nas montanhas do Minho
lembra-me muito e faz esquecer este vento
este vento frio que me cerca a gola
e que me entra pelos colarinhos –
a ervilha, assim uma a uma e eu a salivar como na psicologia experimental
a salivar o sabor de uma ervilha pelo palato, verde a rolar
a rolar pela língua –

não te rias. chega de disparate, bem sei, e afinal não tem muita piada
mas é um facto, aconteceu, era uma e trinta –

e como sempre a saudade trouxe-me os teus olhos
os teus olhos de princesa, deixa-me dizer assim
uma princesa de flor de lis como vi numa tela gigante
numa parede de Florença quando o calor era feito de mármores de Giotto
de esplanadas no meio de praças, de pontes com margens de casas
e de dias luminosos, lembro-me bem –

como me quero lembrar de todas as canções:  as de vozes roucas
as de cordas simples e as mais bem tecidas, de palavras
de palavras de pele pelas pratas do rio –

agora é como se visse bem os teus olhos, como se lhes pusesse as mãos em cima
os teus olhos de esconderijo –
como se lhes pusesse as mãos em cima para te fazer sorrir
e depois  com as agulhas dos dedos, tecer poemas, tecer poemas  bem devagarinho
mas com ritmo,  tecer poemas  em tecidos, belos tecidos
tecidos de flor de lis
para usares todos os dias –

e lembro-me de um quadro do realismo, um quadro de gôndola
um quadro de bancos vermelhos, dois bancos vermelhos, sem gente
junto de escadas, sem namorados, num espelho de águas
e recordo-me da fita preta nos chapéus de palha da madeira
e sonho conduzir o barco com uma t-shirt de riscas
a gôndola no deslizar suave por entre prédios altos
para que possas virar de todos os lados um pequeno ramo de violetas
ou de amores-perfeitos, ou de flores pequenas como miosótis
emolduradas pelos aroma de glicínias –

por vezes a chuva quando cai regular e certa, adormece sem que pese
e nunca sequer tinha pensado nas gôndolas como um rumorejar
que ao espalhar as sucessivas ondas até aos alicerces
pudesse adormecer e sossegar de forma tranquila
mas parece-me bem porque sinto, sinto o barco avançar
e sinto o sono e sinto um sorriso no rosto  -

hoje quero que adormeças numa gôndola de Veneza
ou nas pratas luminosas de um rio Arno de Florença
envolvida em tecidos de seda
envolvida de versos e poemas
num aconchego de dedos, de dedos que te desejam
a noite da lua e a noite das estrelas –

e que sonhes, sonhes muito e tanto, e tão intensamente
para que chovam madrugadas,  vestidas de verde
de forma tão intensa que sossegadamente
se abracem os dias –

os anjos, bem sabes, estão contigo
dorme bem,dorme muito, amanhã é domingo –

boa noite...




sábado, 28 de abril de 2012

a carta que te escrevo ( X )




escrevo-te esta carta para que a guardes
como um pássaro da manhã que escolhe uma janela
como um pássaro que pousa num parapeito, num pedaço de mármore
e  nele eleva o canto, uma música de sons que cresce como um soneto.
vou-te contar, começa assim:

a vida é muito complicada, uma frase comum mas de importante significado
porque durante muito tempo temos que guardar as palavras, encolhê-las
para que caibam juntas e nunca se fragmentem, nunca se percam
nos labirintos da cidade –

é importante guardar todas as letras como um pedaço de pó iluminado
ou um pedaço de chuva, um traço de um tracejado muito delicado;
um molha-tolos, muitos dirão, o que é vulgar, toneladas de vulgar
de rotinas,  um não original, mas mesmo assim complicado, complicado
difícil de explicar  -

gosto das tuas calças de ganga, da forma como te aconchegam o corpo
a cor azul, azul clara , como uma transpiração das nuvens
para que não se descubra o céu de uma só vez
e  para que se abram portas, devagar -

como um primeiro verso,  e um outro verso, como um lego que se junta
pela atracção de letras e algo mais: um olhar, uma química
um espírito por explicar –

reconheço a minha adolescência, a minha febre, esta doença
reconheço, e sei da imprudência e sei dos muitos que erguem a voz
 e dizem aos quatro ventos: cala-te, cala-te, pára de falar
 pega numa tesoura de letras para a lobotomia central
 corta um anel de cabelo e faz uma magia de fogueiras
não ouças a voz de Iemanjá –

cala-te e cala essa trombeta de areias, as tempestades de estrelas
não olhes o girassol, fecha os olhos, não olhes o mar –

guarda todas as sensações, os dedos empolados, os remos dos lábios.
não faças mais versos, não inventes métricas e fala  de coisas concretas
como as curvas de Gauss, um sistema euclidiano, a curva de um meteorito
em trajectórias de deserto –

não há só uma direcção, a direcção obrigatória, do sinal vermelho,  das negritudes do Restelo
das temeridades, das auto-estradas iguais, dos cadeados ditos normais –

preocupa-me o teu sono,sim, o teu sono, o teu sossego, e agora, nada mais –

neste momento escrevo-te  como se fosses a única mulher na terra
uma privacidade boa, uma pérola hexagonal e multifacetada
a única que deve ser observada, com a calma e a carícia do olhar
um puro néctar  de orvalho, uma gota enrolada e frágil –

hoje carreguei um nardo, uma forma diferente de dizer aroma
quando menos esperava, surgiu alguém com pétalas brancas
ramos verdes e uma pinta vermelha, tratava-se apenas de um adereço
um adereço de alguém
um pequeno espaço de jasmim em mãos anónimas, de cheiro doce
uma cena súbita e imprecisa que exigiu a passagem da flor
e um  aroma subindo, aflorando as narinas  –

olhei para o lado e fixei os olhos castanhos numa parede branca
irracional  e parada no meio da  cidade –
 transformou-se em tela, uma tela  animada, visível e privada
de um único filme, de uma única cena, sistemática
em câmara lenta, de repente, no meio da cidade, na parede branca
para que possa de novo rever-te, lentamente
e com saudade –

os teus olhos de lua, os teus olhos de mar –

o aroma era forte como redes, uma prisão de algas, e todos os que me rodeavam
falavam de outras coisas, batiam palmas de algo que acontecia, e era normal
algo de que perdia a consciência e deixava desaparecer em  forma queda
como uma migalha  que não se pode evitar –

há um exercício que faço, que faço muito,  sobrevoar
 apanhar nos braços o teu corpo, apanhar no rosto os teus dedos
apanhar nos lábios os teus lábios, doces –
e o teu inclinar da cabeça
quando te aconchegas numa concha original, tecida  de sonhos
tecida de músicas, tecida de asas de borboletas que são coloridas e sabem voar –

asas, asas, se tivermos asas podemos voar –

desculpa esta carta que  escrevo, desculpa-me muito.  
o teu sono e é tarde e elevo a voz sem o sussurro habitual:
um sussurro de swing, um sussurro de jazz
desculpa-me o entusiasmo, o subir muito, sabes, eu tento
mas é cada vez mais forte este tambor de pele
esta  continuidade de bater, bater muito, um batimento contínuo.
há este estado de um novo elemento na tabela química
chamo-lhe insígnia, chamo-lhe espírito de primavera
chamo-lhe espelho de novos lugares no multiplicar da alma
uma perda de densidade, a magnitude da leveza
a impossibilidade de segurar 
de o fazer parar, de o conseguir pousar
e ele a bater muito e a querer  voar –

desculpa, eu sossego para que sossegues, apelo e chamo todas as brisas
as brisas da companhia, um afecto sobre a linha dos olhos
a linha de uma mão estendida e uma face direita e suave
e as brisas, as brisas  que se colocam na frente dos nossos sonhos
sem complexidades como uma maresia, a maresia que é sempre única
e existe –

esta carta que te escrevo é a décima, uma dezena
pensei toda a tarde neste número notável -

quero que sossegues, abranda um pouco, se estivesse ao teu lado
gostava que sem pressas te deitasses num sofá grande
com as calças de ganga, de azul claro e uma camisa branca
ligeiramente descaída num botão que se abre
para que te embale um pouco e te afague com uma manta escocesa
de quadrados, bem apertada nos ombros, para esconder o frio e as sombras.
sentar-me-ia no chão com a metade da felicidade e uma página em branco
para recomeçar o poema, para recomeçar o canto
nesta carta que te escrevo –

é talvez a mais longa, a décima, a da dezena
e desejo uma lenta queda de pálpebras, uma lenta queda de uma pena branca.
quero que adormeças, que adormeças e sossegues
para te tirar os sapatos e te deixar dormir de meias
meias de algodão a segurar os dedos
enquanto os versos preenchem folhas completas
espalhadas pelo chão, um tapete de poemas  –

hoje, um só beijo na veia mais carregada
não te mexas, mantém essa manta bem apertada
respiras como o meu gato quando se aninha
e esconde as garras em tufos macios
não te mexas
chamo os anjos, chamo os anjos …
para que aconteça o milagre
não te mexas -

 boa noite, boa noite...





sexta-feira, 27 de abril de 2012

Luz

Quando os sonhos encontram terra fértil
Nasce uma luz dourada e frágil
Quando a face da tristeza se desmonta
A alma ágil enrola o universo e o reconta

(nasce uma luz dourada e frágil)

Quando as estrelas se deitam nas pestanas
Enfeitam outra íris companhia
Sobem e descem as pálpebras, persianas
Focando ora a vida, ora a magia

(no sono nasce a luz dourada e frágil)

Quando o tempo se levanta dos relógios
Se ergue e dá ao espaço a sua mão
Todo o universo roda num poente
Como suave voo de um beijo
Deixando um som, prazer dormente
Em inquieta doce vibração
Encontram-se as pupilas face a face
No sono nasce a luz de novo enlace

(essa quieta luz dourada e frágil)

quinta-feira, 26 de abril de 2012

a carta que te escrevo ( IX )




escrevo-te esta carta para que a guardes
nas tuas mãos como um amuleto, uma sorte
como um espírito que voe por sobre o insossego
e que te conforte, e este forte é força.
vou-te contar, começa assim:

quando abro a torneira do lava-louças, aquele ruído
por vezes incomoda-me, quebra-me as ideias
como se o detergente actuasse sobre alguma gordura de forma inexplicável.
parece de uma mente hermética, mas explico-te
o que quero dizer é que não consigo ordenar as letras
como quando tropeço nas escadas ou abro um guarda-chuva
ou percorro com os pés as ruas paradas ou respiro os pólens
de olhos, absortos e fechados, nas mensagens das flores –

quando lavo a louça as mãos enchem-se de espuma
e aproveito para calar os ouvidos num rodopio de braços
um momento zen, um esvaziar de ideias
 uma massagem de cerâmicas na procura dos resíduos
e tento, absolutamente, não partir os copos, os copos de que gosto
meio cheios, meio vazios,  sem néctares,  antes de se tornarem limpos–

eu explico, não te aborreças e não me feches os ouvidos
porque o que te quero dizer começa quando aquela chuva na torneira parou
e os pratos eram um brilho, os brancos como um sorriso
e os outros quase secos, em terapia –

quando aquela chuva de torneira parou, dizia
sentei-me  na mesa, com a tinta permanente e  aquele bico de versos   -

tenho pena que não me vejas enquanto escrevo
a forma como coloco os meus redondos e os meus inclinados
no deslizar das letras, a caligrafia por espaços,  como uma paragem suave
enquanto se movem os lábios e sorrio, e paro e recomeço
como uma carícia que coloco na ponta dos dedos, como se a sentisse
como se chegasse perto de ti e em  ti permanecesse como um recado
que escutasses parada, sem dizer nada, e uma aprovação tácita
para que de novo voltasse
e para que não me perdesse, neste enleio em que te abraço –

escrevo, escrevo com esta pele nervosa e sensível
escrevo as chuvas e as mandrágoras, as ameixas antes de nascer
as amendoeiras da melhor flor, as amoras
 que me riscam de branco os polegares
naquela dificuldade de espinhos
e me enviam a cor dos vinhos
ou a cor da paixão nas marcas das mãos –

as amoras são boas aos pares, com quatro mãos
para serem apanhadas uma a uma e construírem uma montanha
para depois ser descida pelos dois lados das colinas, uma a uma
até que a planície das palmas surja como um sol
entre as linhas,  uma quiromancia adivinha
 de vida, de cabeça e  do coração –

e que a planície aconteça –

sabes, hoje senti-te intensamente como quem apanha uma revolução
e a enche de cravos, apertando-a entre os braços
para que respires com suavidade, sossegada com o nariz encostado e dentro
muito dentro a conduzir as aurículas, os ventrículos, aqueles rios
aqueles rios vermelhos que recebem um cálice de oxigénio
para que se sintam bem, para que te sintas bem –

um abraço amarrado daqueles de nós repetidos e de ombros encolhidos
para que permaneçam assim –

um abraço de fogo que nos deixa o rosto como um forno
onde se constrói um alimento, um crescimento, um fermento impossível de conter –

mas explico-te, exactamente,  como aconteceu
as tuas mãos abertas e os dedos seguravam as omoplatas
 os meus braços eram um círculo soldado como se abarcasse um oceano
e não pudesse deixar sair a água –

os meus braços em círculo sobre os teus medos, fazendo sombra
e o meu nariz como um selvagem no meio dos teus cabelos
a sossegar os planetas e os icebergues como um cais de barcos perdidos
a saciar a tua insegurança das febres quando desfaleces e perdes  os sentidos –

quando te escrevo as faces fazem ginástica e alegram a alma
sorrio tantas vezes –

a sério, não duvides, se aqui estivesses verias –

quando te escrevo há uma duplicidade boa  e tudo é uma brisa
os dias mesmo cobertos de chuva podem ser belos até com um guarda-chuva partido
como se fosse ao mesmo tempo um acrobata num salto sobre um espelho de água
ou um par de namorados, em Paris, na minha outra cidade
onde a língua rouca se embala ,no som de acordéons
de Piaf, Gilbert, Ferré e Aznavour, num Quartier Latin de amour
She
She, a canção, e shhh… para que me cale
ainda com os braços agarrados com força, para que te sintas segura
numa âncora, numa Atlântida, numa cidade surpreendente, debaixo do mar –

faz de conta que adormeces, que coloco um braço por trás dos teus joelhos
sem que acordes
que te levo no colo e te conduzo ao quarto, que  te liberto das roupas
uma a uma
que te coloco de lado, que te levanto um pouco os joelhos
que não deixo que estremeças e que te afago a roupa
que te beijo as duas pálpebras, três vezes
e em dois beijos de cada vez –

sem que acordes, nem de ti nem dos sonhos –

escrevo-te esta carta, a nona,  na surdez da noite
sem saber  a quantos quilómetros de distância
mas não é importante se tiver acontecido assim
e durmas profundamente, com os anjos de Paris
entre as telas dos pintores, entre os búzios das ondas
como estas cartas, que partem cheias de palavras, palavras de amor
e que voltam para que possam partir de novo, como as ondas e o areal-

dorme em sossego no teu ritmo perfeito, coloca as duas palmas simétricas
invertidas junto dos dois joelhos ou erguidas no rubor das faces
e dorme, dorme a noite toda –

beijo-te,
beijo-te muito,
boa noite –


josé ferreira



quarta-feira, 25 de abril de 2012

Liberdade

Quando a liberdade se transforma em voz Surge um poema ou um segredo Quando a liberdade se transmuta em gesto Apaga o medo Quando a liberdade sopra um pensamento Nasce uma canção ou momento. Trago versos de embalar a passear Para serem livres como a chuva Trago livros gastos de encantar Para contarem histórias às janelas. Quando a liberdade faz magia Tira da cartola tantos sonhos Cria ilusões e mil sorrisos Que alimentam vidas tão concretas Trago a liberdade nos meus braços Entrego-ta inteira e recomeças.

Liberdade


LiberdadeO poema é 
A liberdade 

Um poema não se programa 
Porém a disciplina 
— Sílaba por sílaba — 
O acompanha 

Sílaba por sílaba 
O poema emerge 
— Como se os deuses o dessem 
O fazemos 

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas" 
lido aqui

terça-feira, 24 de abril de 2012

a carta que te escrevo ( VIII )




escrevo-te esta carta para que a guardes
dentro de um cofre de paredes invisíveis
para que mais ninguém a saiba viva e sempre perto de ti
para que seja como uma alma feminina, sensível
para que a possas tocar sem receio e lembrar.
vou-te contar, começa assim:

hoje li palavras de uma peça antiga, de romantismo em desuso
porque manda o mundo que sejamos duros como peças de computador
e micros nos sentimentos,  para olharmos o amor como volátil e solúvel
como um ar de montanha, um nevoeiro ou um tropel imediato
que devemos aceitar como passageiro, um intervalo de nuvens
e depois aceitar de forma fácil como um papel amarrotado
na pressa telúrica e animal –

porque não há intensidades  e forças que nos cresçam nos pés
e que durem para sempre?
porque não há olhos siderados e braços sempre encostados
porque não se acredita nas possibilidades da fogueira
de um interminável fogo, nos  olhos transparentes como água
e que durem para sempre?
porque não se acredita no amor e na proximidade das cartas?
porque não há sempre as noites sossegadas num círculo único
como as libélulas que desenham corações inteiros –

não que seja o nosso caso, o nosso pensar. falámos da magnólia
da íris, dos aromas inconfessáveis de jasmins e jacintos d’água
e são coisas de cristal, coisas de coisas que não se podem partir
coisas  que não se esquecem mais –

queria adormecer por cima do teu ombro
com os braços à roda do teu corpo, da coluna das costas
como se fôssemos uma única tábua
à deriva e sem medo, na imensidão do mar –

haveriam de chegar manhãs com a curiosidade das gaivotas
e noites forradas de estrelas
a lua seria uma página escrita,  uma lista amovível e interminável
das palavras que diríamos, iluminadas, insaciáveis –

sempre que me transformo em tinta fluida
corro como um rio de letras sobre a folha branca, passam as horas,  todas as horas
e poderia crescer-me a barba antes de que me canse e encolha os dedos
e pouse a caneta como um barco vazio e esgotado, adornado e preso
na âncora pesada, perto da praia, perto do cais, no ninho das tuas asas –

quando te escrevo é como se suspendesse o tempo e nada mais á volta
é construir-te em todas as tuas formas;  a curva do pescoço,
o sorriso no movimento dos olhos,
as mão sobre o meu rosto num triângulo perigoso
que me leve os lábios, que me leve os lábios
 infiltrados no teu gosto –

quando te escrevo construo-te perfeitamente e sofro
e caiem-me lágrimas vermelhas, um crepúsculo medonho
na noite que se estende
antes do sono, antes do sonho  –

são altas horas e ouço  músicas de jazz, um vício de swing
uma dança de corpos –
passam filmes em grandes rodas, películas Kodak e Eastman, câmaras claras –

 desculpa-me.  inflama-se a  noite. abraço-te na sombra
e embalo-te nos ombros como se houvesse ondas
e sinto o teu cheiro, a pele transpira um pouco, e depois cala-se.
a tua respiração avança como uma neblina.
sinto o teu sossego, sinto que estás tranquila.
as ondas tornam-se miúdas e transformam-se num espelho parado
uma estrada branca. a tua boca está fechada e a minha caminha
numa voz interminável,  como o ar que respiras –

escrevo-te esta carta sem data e sem número
para que não termine, para que sossegue todos os teus segundos
para que seja uma cítara de um romantismo antigo
para que te diga que não és de ninguém e és única e que te admiro
para que te diga que podes ser lava de vulcão ou um tecido de linho
que podes ser humana, fada, sereia ou ninfa
em todos os meus poemas, porque existes e te aceito de todas as formas
na forma como me transformas numa marionete de belos sentidos
e porque o teu rosto é bonito e sou escravo
escravo dos teus olhos, escravo do teu sorriso –

sei que respiras, uma e duas, uma e duas e três vezes
com os pulmões a crescerem e a pousarem em lugares de desejo
e transpiro um pouco, agora mesmo que estás longe, adormecida –

desejo-te uma música  de jazz, uma big band e uma voz de Diana.
um Stan Getz numa música de samba, swing and low
e que sempre que o ruído aconteça coloques as duas mãos em concha
por debaixo das faces na pele do rosto
para que se liberte uma pérola de sono, a que te envio
nesta carta de palavras mansas e nesta carta de palavras de fogo
nesta carta que te escrevo
para que de novo sossegues, para que de novo adormeças -

recebe a infinidade da minha carícia, de mão inteira, de dedos grandes
adormeço com os olhos nas estrelas -

beijo-te muito -