segunda-feira, 16 de abril de 2012

Metade do Mundo - um poema de Leonard Cohen




Todas as noites ela vinha ter comigo
Eu cozinhava para ela, servia-lhe chá
Ela tinha trinta e tal naquela altura
conseguira fazer algum dinheiro, vivera com homens
Deitávamo-nos para dar e receber
debaixo do mosquiteiro branco
E uma vez que nenhuma contagem começara
vivíamos mil anos num só
As velas ardiam, a lua descia
a colina polida, a cidade leitosa
transparente, sem peso, luminosa,
destapando-nos aos dois
naquele chão fundamental,
onde o amor é fortuito, desatado, desencarcerado
e do mundo perfeito se acha metade.

Leonard Cohen "O Livro do Desejo"

domingo, 15 de abril de 2012

o barco de vela vermelha




procurei um poema que pousasse certo na hora longa
na noite aberta que roda lenta como um relógio de pêndulo
num tica-tac de batimento por dentro do corpo –

não surgiu um espelho de letras e as costas cansadas ligaram-se nos dedos
uma frase, uma frase de um filme : “tenho para ti uma surpresa
sempre quiseste um barco de vela vermelha” –

era um barco pequeno de princípio de séc. como as fotografias de Doisneau
mas a cor naquelas velas altas
corria as águas e dirigia-se para o mar.

no interior do barco, dois vultos num espaço desenhado, exacto
deitados frente a frente e de lado. Os olhos supunham-se ligados
na hipnose e no silêncio, sem pressa, não diziam nada
davam braços, ela de vestido de rendas ele de camisa branca.
a câmara de plano picado seguia a cena
a cena de um barco de vela vermelha que vogava–

tenho as ideias pesadas e há palavras que guardo, uma ideia
uma ideia minha, de uma medida sem contraditório
por vezes um vislumbre, uma brisa e sinais
sinais no interior das estrelas e nas madrugadas quando se afastam
como um novelo nas almofadas das patas dos gatos, que se desenrola –

há palavras pesadas que caem por dentro
tão por dentro que por vezes julgo que caem num poço fundo, tão fundo de uma terra
e que tem iluminações de magma, a incandescência
um rebuliço de brasas –

apercebeste a hora do lince, dos sonhos e das quimeras
o debater da cegonha que tem um bico grande
o peso do elefante, a suavidade das passadas felinas –

cada um entende à luz do seu segredo as mãos nos cabelos
no rosto, no corpo, no meio de uma praça
na cinta e no ombro no meio de uma dança
um segredo que não tem chave e vive num cofre
um cofre que ninguém abre
como a explicação de ser aquele o dia da gravidade na maçã de Eva
ou o poder da impulsão em Arquimedes –

as madeiras de verniz brilhante sulcam as águas
os corpos permanecem deitados
em frente e de lado
a brisa e o vento embalam –

ouve-se a frase
“tenho para ti uma surpresa
sempre quiseste ter um barco de vela vermelha”
o barco segue com suavidade
a brisa e o vento embalam –

estou cansado como um girassol, branco como uma magnólia
os ombros são um guindaste no limite da noite
não adormeço mas doem-me os olhos –

a bicicleta deve ter um cadeado
deve estar presa a uma coluna na garagem
e chove, chove um pouco, dez graus de temperatura
não quero música
penso no barco –

sábado, 14 de abril de 2012

le velo du Printemps


Robert Doisneau "le velo du Printemps", 1948

a fotografia de um par, de tonalidades e não de cor
completa-se no olhar
escreve-se de símbolos na presença da velo
e lembra a mais antiga e mais conhecida de Doisneau –

seria muito opressivo se fosse directo e sem delicadeza, falar-te dela
a objectiva sobre o beijo no fim da guerra
falo antes da bicicleta e de um lugar muito diferente
nem sequer Paris, nem sequer o jardim das Tulherias
nem sequer Versalhes e uma Fête de Nuit com trajes de época –

o lugar pouco interessa; as pedras, as casas sem graça
um muro de argamassa, o presumível zinco de uma chapa –

apenas o sorriso marca, a mão apoiada na terra
o modelo de linhas e quadrados
o paralelismo de duas almas –

nos termos de um especialista, a fotografia
une características de gelatina e prata
uma probabilidade de morangos e de brilhos brancos
de espelhos e de mil palavras –

surpreende acreditarmos tanto na consequência e na continuidade
a transição de um primeiro passo –

naquele sorriso que marca
a falta de gesto e o encontro dos braços
é uma onda atrasada
na mão fechada
na vasta possibilidade –

a velo um símbolo
sabe tudo mas não diz nada –

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Quando o infinito não tem tempo

Onde o tempo se esconde nascem ondas
Que tecem segredos e memórias lentas
Não há pessoas na dobra dos poemas
Apenas luzes escondidas à espreita
Como amantes nos dilemas doces do amor.

Um outro espaço de saudade
(há nas horas a pressa da vida)

Nos poemas o tempo baloiça
Colhe flores e escreve cartas
(há um outro tempo na beleza)
o tempo da luz original
a aura acesa na escura folha branca
(há falta de tempo e de espaço na vida)
(nos poemas não).

Há luz transparente
Feita de sonhos e risos de crianças
Brilhante na escuridão do olhar
À espera do desdobrar dos versos em danças
Num leve berço de embalar.

a carta que te escrevo (IV)




escrevo-te esta carta para que a guardes
dobrada no meio de um livro
a servir de marca, página quatro.
vou-te contar, começa assim:

sento-me sempre perto de ti
mesmo que imagine a decisão dos cabelos
a forma como se enfeitam ;
se se colocam de um e de outro lado dos ombros, em trança
ou se se misturam na desordem dos dedos
na moldura do rosto
no sorriso de um beijo –

os teus cabelos são uma presença
como se corrêssemos pelas veredas e encontrássemos amoras
como se as colhêssemos maduras e as trocássemos uma a uma nos lábios
como se não tivéssemos braços, apenas asas, como os pássaros –

os pássaros e o canto com os pés segurando os ramos
a impaciência e o voo
e seríamos do mesmo tamanho, por dentro
na presença de um ninho –

uma presença, enquanto insisto no desenho das letras
na tinta permanente, na chuva miudinha
na bicicleta, pedalando contra o vento
descendo uma estrada larga, uma Boavista
de bicicleta em vez de um eléctrico amarelo
onde se estica um cordel
e se faz soar a campainha –

como se pode parar o som, a voz de um búzio que não tem garganta
e que apenas sabe que o mar invade e existe num tamanho grande
que nunca acaba e sempre canta, a canção das ondas e da semelhança ?
como se pode parar o mundo? pensaste como seria?
Noite noite, dia dia –

não seria importante se náufragos numa ilha
se construíssemos uma casa numa árvore
se conseguíssemos partir os côcos e enrolássemos folhas
para servir de palhinha
não seria importante, não, não seria importante
se tivéssemos um iate de troncos para visitar a ilha
se tivéssemos uma viola ou um ukelelê para vibrar as cordas
em músicas construídas por noites noites ou dias dias –

e os livros seriam as pedras definitivas ou um chão de terra
em traços provisórios de poemas ou cartas sentidas
e inventaríamos um jogo
30 hectares de mensagens para serem vistas pelos aviões:
estamos assim bem, os dois –

um dia sonhei com um banho de espuma no cimo de uma colina
uma vista sem cimentos, tábuas ou gente
sem os linhos da camisa sem o aperto de botões
a espalhar um sabão de tangerina e a soprar balões –

um dia sonhei com um panamá e um chapéu largo de fita
um dia sonhei com a aquele banco corrido de pinho
um dia sonhei com uma parede de azulejos azuis
um prato típico de cerâmica com um pão estaladiço de trigo
e aquele barro estreito onde se assa uma alheira ou um chouriço
e se acompanha com um copo de vinho –
um dia sonhei que saías e que voltavas sempre como agora
quando sempre me sento contigo –

estrelas e estrelas
não decido quais as constelações que melhor cintilam
quais a que melhor são capazes de te sossegar os ouvidos
massajar as maçãs rosadas do teu sono
amaciar os teus medos, acertar o teu ritmo -

talvez um aroma
um aroma de uma flor nocturna
o aroma de uma flor pequena
o aroma de um sonho por um campo de relva fresca
por uma seara ainda verde, ou de nardos no Alentejo
ou prímulas como há muito tempo, crescendo, tornando-se diferentes –

dorme, dorme com os anjos afastando os pedaços de vento que por vezes ardem
dorme com os olhos fechados e os seios envolvidos no meu peito
dorme de lado ou de frente no silêncio puro de um lago
dorme no silêncio mais perfeito –

sabes ,quando me deito, por vezes com os olhos cansados
e as mãos ainda sujas de alguma tinta, deito-me
da mesma forma como me sento, sempre –

e escrevo-te –

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Tempo em suspensão

É cedo para renascer
Há vontades e desejos contrafeitos
Sonhos apertados nas paredes
Beijos pendurados no ar.

É cedo para voar
O tempo parado aguarda a manhã
O colo da mãe redesenha-se
Os braços são berços de embalo.

É cedo para partir
Há calor nos espaços vazios
O ar é visível e as pontes móveis
As casas movem-se incertas com o vento.

É cedo para amar
Uma liberdade desconhecida
A que se conquista
Na doce dança dos olhares.

É cedo para falar
As palavras não dizem, escondem apenas
Nos muros guardam-se os medos cimentados
Segredos a desflorar na mente
É cedo para os contar
Agora que é tarde para apagar a lenta sombra da desilusão.

a carta que te escrevo ( III )


Matisse

escrevo-te esta carta para que a guardes
é a terceira e espero que nunca pare.
vou-te contar começa assim:

é curioso, hoje fechei o guarda-chuva para receber as águas
no rosto
gotas que caíam sem ser de orvalho, mornas, como se presas pelo sol
do outro lado das nuvens –

possuído pelo íman de uma estranha abstracção
escutava os ruídos contínuos nas calçadas
e pensava na forma exacta de vencer a tempestade:

"bem sei que as nuvens estão cinzentas e não faz sentido recebê-las soltas
as gotas, marcando um casaco largo carregado de letras
pedaços de versos, incompletos, fragmentos de futuros poemas –

não são doces estas gotas que o céu expulsa
e sinto o sabor de sal, e sinto como caem grossas
incompreendidas como se fossem falsas –

com a água e os papeis molhados, os bolsos estão pesados
e esse peso faz pesar a alma;
por um momento estes cimentos da cidade parecem lama e os pés afundam-se
como se tivessem toneladas de chumbo, parados – "

imagina o ridículo: um guarda-chuva grande de mulher, não tinha outro:
uma franja bege, um corpo bordeaux , como uma bengala de Charlot;
a inclinação do dorso, o cabelo líquido
e a chuva caindo, vinda de cima, de uma fúria imprevista –

imagina o ridículo, as pessoas que passavam diziam, deve ser promessa
ou então será louco e não parece, tem os olhos fechados –

sabes, tinha esquecido o facto de usar aquela tinta antiga, um azul destoado
uma tinta que engrossava e difusa escondia as palavras, as datas, os primeiros dias –

na sombra de uma varanda, do lado de fora de uma janela
abri com cuidado os quatro cantos dos quadrados, de guardanapos
folhas de linhas e folhas brancas, cuidadosamente
esperei que secassem –

os fragmentos vivos das letras pulsavam vermelhas
em batimentos cardíacos, um ritmo contínuo nas artérias
um sorriso nas orelhas, como se debaixo da mesma varanda
estivesse um lençol nocturno, uma fuga de um palácio
e nos teus olhos de princesa morasse o mundo –

escrevo-te esta carta com toda a força dos braços
com os cantos dos lábios crescidos e salientes
com o rosto iluminado
e desejo que todas as estrelas estejam a teu lado
cintilantes, para que adormeças e feches as pálpebras
na febre de um sonho sem pecados e um sono verde
de trevos de quatro lados –

terça-feira, 10 de abril de 2012

os pássaros estão calados, não falaram esta tarde


Zhu YiYong

na descida da serra soa a compasso, uma campainha
na cabeça oca, não muito longe, na porta de uma rua.
um som metálico no vidro que inclina a paisagem, uma tontura –

as giestas estão cobertas de flores amarelas
resistem no meio das pedras,em muito pouca terra mas de boas raízes
e os pássaros estão calados, não falaram esta tarde.
o lilás das urzes mais forte que as glicínias
lembra de novo o teu rosto, os olhos e o brilho
como um poema essencial, uma música
a previsão certa de um signo –

e a estrada inclina nas curvas do lado esquerdo
que soam agora súbitas na intensidade dupla
por detrás dos óculos escuros
por detrás das nuvens junto do invisível
antes do nascer da lua –

a lua, a lua branca
como aquela faia de tronco despido em direcção ao rio
como aquela cabana no meio dos pinheiros por cima das carumas
como aquelas magnólias de uma árvore sem folhas enfeitando um muro
um muro alto e uma água fluida –

um muro alto e uma água fluida
como as memórias mais antigas:

dedos inquietos e torcidos
os cabelos,as nucas distendidas, o desvanecimento idêntico
a noite no segredo de um areal preenchido
o ruído dos búzios nas ondas que chegavam
nas ondas que partiam -

tenho o coração apertado como um punho a segurar palavras
para que não fujam -

os poemas que te escrevo são o símbolo
o cálice e o néctar de um vinho maduro
poemas que despem poemas e que se juntam
para que fiquem mais fortes
para que fiquem mais puros -

segunda-feira, 9 de abril de 2012

palavras para que vos quero, o terceiro

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"palavras para que vos quero"
3º encontro de literatura infanto-juvenil da s.p.a. 
dia 14 de abril - biblioteca municipal almeida garrett
entrada livre.
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Enquanto não alcançares não descanses - um poema de Miguel Torga




Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcançares
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.

Miguel Torga, Diário XIII

domingo, 8 de abril de 2012

a árvore tranquila


Magritte

ao subir a serra pela tarde adversa
não pude olhar o teu rosto na forma habitual;
o sorriso e o mar ;
dedico-te a cor lilás das urzes que enfeitavam o caminho –

na frente do vidro corriam as plantas baixas, as rochas calvas
os pinheiros altos –

na frente do vidro duas histórias, palavras na cabeça e a estrada
razões e falhas, o passado que existe e o futuro que se desenha;
o sonho é uma realidade escondida –

a estrada é lenta, a natureza prende os sentidos
era preciso parar esta lata mecânica e encostar as costas numa rocha
sujar as mãos na terra, colher uma alfazema, escutar o melro e o corvo
que se sentam nas pedras e oscilam as cabeças, pensar melhor as palavras
a forma como as digo, a forma como escondo o grito –

hoje falta-me o tempo para tecer as sedas
não porque não queira, sim pelas pedras, pelo vidro, pelo caminho –
entrego-te o sussurro nocturno das flores
o seu aroma de meses preferidos, um maio colorido
o primeiro mês das praias quando não há barracas às listas
e as marés silenciosas invadem de mãos juntas o areal vazio –

impossível negar a lua, o seu nascimento branco
a circunstância infinita da rotação do mundo
o insustentável no imprevisível humano, o súbito
a seta aguda –

pela noite das estrelas
desejo-te o bom relâmpago, um sono sem temor
o reconforto e o sossego
na mesma forma como me sinto
uma árvore tranquila com uma lua dentro -

sábado, 7 de abril de 2012

Hoje fiz tranças longas

Soluço palavras que não se podem dizer
Versos entrevados e proibidos
As linhas incertas onde se escondem as sombras
O não dito escreve em segredo livros da lua
(há ausências nas paredes etéreas da pele)
Onde dorme o medo agora que a luz branca se estende?
(fogem as formigas, partem sem adeus)
É tempo ora curto ora longo nas pestanas
Um Cronos tão inquieto que desassossega as nuvens
(os escrivãos escondidos anotam os estados emocionais)
Vã tormenta
(Eros chora o ontem e jejua)
Ninguém encontra o sereno rosto das sereias
Noite inquieta
Estranhos segredos escondem os deuses
(trovões)
Ergue-se a estrela mais alta e explode
Nada serena, tudo muda
Nascem poemas nas varandas
As flores sorriem presas nos cabelos longos
São tranças de mudança
Longas, com DNA helicoidal gravado em madeixas.

a carta que te escrevo ( II )




escrevo-te esta carta para que a guardes
sempre,quando juntar cinquenta, escrevo um livro.
vou-te contar, começa assim:

nasceu a manhã uniforme pelos cantos da casa
um dia de feriado, um dia apressado de quem parte
um dia diferente para alguém que faz anos –

a pressão do vento é a mesma, aproxima o sangue
faz deslizar o rio vermelho, aquele que ambos conhecemos
aquele que não oprime os cavalos porque não se domam as ondas
nem o mar –

não vou dirigir as palavras para as águas paradas, para hexágonos de cristal
para que solidifiquem como sal e parem, para que se tornem rotina, iguais
a diferença é ser diferente, cuidar dos teus medos
compreender o espelho dos segredos;
uma viagem interminável, disse –

pergunto-me do que fazes na manhã fria, na noite distante
se te estendes sobre um livro de versos ou prosa de muitas folhas
se encostas os ouvidos nas claves que voam de colunas
não gregas, mas transparentes de ideias mais planas e leves
como penas de ganso numa almofada branca.
será que me ouves quando te deitas na cama ? –

pergunto-me da tua mão, onde pousa , por onde adormece
pergunto-me se roda incessante sobre um taça de creme
ou uma massa de bolo, doce antes de entrar no forno
nesta época de festas –

pergunto-me de um moleiro e de um moinho
de uma lança louca sobre a miragem de Cervantes
moendo farinhas, misturando as nuvens, as imprecisões dos dias
para que se transformem na delicadeza da língua
no tecido de algodão egípcio, o mais fino–

pergunto-me da tua roupa
de um pijama largo rodando sobre as janelas e as portas abertas
rodando na envolvência dos braços numa música redonda
que circula nas artérias e cria o sonho -

pergunto-me de um cão, um gato, um rouxinol abrindo o bico
um papagaio de papel, um areal de praia, as linhas escritas –

pergunto-me do meu juízo e do teu abrigo
de tudo junto como uma cabana na praia, no meio de um autocarro
no centro da cidade, por cima das palmas de um espectáculo –

não seremos o exclusivo do mundo, mas sem recusar raízes
e ramos e folhas de todas as idades, podemos ser um só
ao unir em uníssono os sentidos, um lugar no paraíso –

pergunto-me do teu diário e das palavras que me dizes
se porventura falas comigo como eu falo dos destinos
e lembro a longínqua canção que ouvia, repetida
“how can I tell you”
percorrendo o amor em palavras límpidas, lavadas
unindo o desunível “like the shoreline and the sea”, dizia -

escrevo-te esta carta para que a guardes
como a cronologia de uma harpa, cordas cingidas
derrubando as colinas, a imprevisibilidade dos caminhos
a distância húmida dos anos –


canso-te, sempre me acontece e não quero que te canses
desculpa-me
descansa os musgos e as pestanas pela noite inteira
descansa, adormece em sossego pela planície do silêncio
como se fosse um sonho que se irmana, que se divide
e que se sente de um e de outro lado da semente -

ouço um pêndulo, o tempo avança -

A ponte e a mudança

Há uma aurora boreal nos meus olhos
Enquanto arrumo as estrelas apertadas na mala
(para caberem muitas)
O manto quente transparente que nos cobre
Camada de pele invisível e nua
A que protege as partículas leves do sorriso
Cheias de pequenos espaços vazios
Como nas folhas clorofila com beijos do sol.

Guardo duas ou três nuvens cinzentas e grandes
(afinal chorar é preciso)
Lavar a terra para novas sementes brotarem enfim
Anular o pó invisível do desencanto
Um raio de luz espreita na frincha da mala cheia
(é a luz das estrelas)
O sol disfarçado atrás da lua bem no fundo
(como nas noites cheias e redondas)
A gravidez do globo terrestre redonda e azul
A solidez das árvores a acompanhar a viagem
Ramos nus como um esqueleto a fitar o céu
A raiz profunda a tocar o centro da terra
Do mundo interno do ser em rotação sobre si
A linha paralela até ao universo de luz
Onde cabe o tempo, o espaço e a minha mala cheia de estrelas.
Uma nova viagem começa.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

a tinta no humano


Salvador Dali


há um forte frio na noite repentina
que não apaga chamas nem espalha cinzas.
um pequeno intervalo
como um peppermint num dia de verão
a envolver o calor vermelho, as brasas laranja
insucedido perante a permanência das rosas
a certeza de uma bússola que aponta o norte
que orienta os passos no limite –

não desistas perante as lanças do acaso
as vozes do latifúndio, o mundo de Descartes
que não tremam nem as pernas nem os braços
que não tremam nunca
que não trema no teu regaço o milagre
que não trema a pálpebra
que não trema nenhum dos teus lábios
que não haja lágrimas –


acredita nas estrelas como manto
acredita nessa lua dividida
acredita na substância do sorriso
esquece as fisgas dirigidas, a insubstituível razão
não imagines a profundidade dos abismos –

nem sempre se compreendem as palavras
as palavras são um espelho deformado dos sentidos
não reflectem a seda dos dias, a aura dos veludos
por cada uma que é transparente e parece dizer tudo
há dúzias que afirmam de forma mais cristalina
e há algumas que guardamos, escondidas –

ainda não é domingo e é tão complexa a tinta no humano
até onde nos leva? um espaço aberto, acredito –

a tinta no humano
e quantas vezes a imagino na forma antiga;
o almofariz, a minúcia dos pós, a mistura, a essência que fluidifica –

a tinta no humano
uma tinta que se espalha num quadro, num quarto
que acrescenta a cor, a linha, a forma, a surpresa na subcamada
uma cobertura de óleo que altera e modifica
uma nova aurora, um céu mais claro
a surpresa na cortina –