quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Próspero morreu (II) - um novo livro de Ana Luísa Amaral




"Em Próspero morreu, aquele que é o seu primeiro texto em forma dramática, Ana Luísa Amaral convoca vozes vindas de tempos diferentes e tradições diversas, que falam do amor, do poder, da ambição – e da magia. “Próspero morreu” e, com ele, uma ordem chegou também ao fim. “Sem liberdade é o poder um monstro / de braços bifurcados e língua bifurcada / onde se alojam leis sem pensamento / e se torna viscoso o coração” – o aviso é de Ariel, “ser vindo do caos e do abismo”, cuja voz anuncia a chegada à ilha de gentes de paragens várias. Será na ilha que se entrecruzam os vários fios que dão lugar às histórias de Penélope, de Teseu e Ariadne, de Barbara (a escrava) e Luiz, e também a história de amor entre Ariadne e Caliban." retirado do blog Graphias

Foi esta a história do labirinto,
as ilhas, e além.
E eu, que a contei, ou eu, coro de nós,
irei ficar em história.
Escrava dos tempos, mas do tempo livre.
Que mais a desejar, senão memória?
Caiu a noite. E sopra um vento fino.
E não é já assombro
assombro tal?

Ana Luísa Amaral

terça-feira, 6 de dezembro de 2011


era uma mulher escrita há muito tempo
ou talvez fosse uma mulher sentada numa cadeira
com a hipótese de cair lá dentro
a sala à volta era suficiente
mas ela interessou-se pelo espaço quieto dentro da madeira
na quase divergência que era ver-se
com um infinito por dentro
a ser ultrapassada devagar
era a cadeira o mais apetecível
o importante equilíbrio da matéria sem vontade
será o não saber do problema da velocidade das coisas
que a debruçava para dentro
porque havia espaços mais quietos ali
espaços onde certamente os espaços dela podiam ser atrasados
não a forma e o nome de esperar
teriam ali dentro ficado debruçados de outros
e acima de tudo o que não podia entender era que de entre as duas
a que ficasse não devolvesse ali quieta
a história de movimentos lancinantes
de demandas a moinhos bem explicados
da velocidade ridícula a que se gastam as coisas vivas

tinha um século aquela cadeira
à medida de a assustar
e não lhe devolvia quase nada
a não ser que lhe fora escrita por um infinito
para outro que lhe iria nascer e sentar-se
na mesma cadeira
que a ultrapassou devagar

as planícies indizíveis


Lilla Cabot Perry

há músicas que nos invadem os ouvidos
e descem pelas cordas da alma
como as ondas do mar,
em milhares de gotas, brancas como a lua -
uma miríade, leve, pura, húmida,
um olhar suave e triste de mil versos, dez mil palavras –
nas mãos cansadas coloco as linhas dobradas da mente,
os quadros sem a negritude do ressentimento,
o voar dos pressentimentos, as histórias das cidades
as espumas que procuram asas, na amplitude de voarem
como os pássaros –
escuto, deitado, a longitude do som nas latitudes do corpo,
a intersecção do oblíquo e de um ritmo síncrono,
o reencontro dos sonhos, as sintonias das ilhas -

porque há dias marcados e claridades sem labirintos,
onde teias completas de bordados
tecem o improviso, o unir de dedos, o fechar de braços,
o unir de lábios, por planícies indizíveis -

josé ferreira 6 dezembro 2011

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

a lua no chão


Billy Brandt


seja assim a lua
escondida no manto escuro.
nada que não previsto antes
pela natureza, pelo destino,
por um deus desconhecido -

às noites sucedem claridades
aos dias as fervuras de veludo
e tudo pode ser sígnico no imediato
como o branco ser branco para que o preto magoe.

um Eco dizia que o homem é um animal simbólico
e assim sou, como as folhas de Outono ou como as abelhas
no pólen da primavera, sempre azul,
por vezes melancólico como as teclas de um piano
estendendo a cabeleira, fechando os olhos, interiormente,
ou então um Papageno soltando alegrias
desnudo e sensível, dirigível a Pamina
como um barco que descobre o rumo -

quando vestia calções e couros cor de mel nas sandálias largas
percorria caminhos de terra, respirava o pó ou os aromas molhados
afagava o pêlo dos animais e pensava no sol de uma outra forma.

como bem determinaste o coração cresceu,
guarda portas fechadas e ainda mais espaço;
uma sala onde há livros espalhados,
uma montanha mágica
e um barco de Ulisses sempre em viagem -

não sei se é fraqueza ou excesso de querer essa força que dispara.
as setas enganam, duplas, simultâneas, atingindo os dois lados.
e não é uma questão de perdoar, é entendimento de lugares;
a dinâmica, não o imobilismo das faces, não a falta de intencionalidade,
é tudo ao contrário.

se estiveres de costas para o céu
e sentires o ruído de asas metálicas, poderás dizer: é um avião
e poderás sentir uma imensa vontade de voar, de visitar Londres ou Paris
abrir uma janela no boulevard, ou perto do British Museum,
abrir os dedos de uma mão e juntá-los como lava numa outra mão
e podes abrir um imenso sorriso, perder sete vezes a gravidade
mesmo sem sair do chão.
podes sorrir, sentir o afecto, a pertença
a realização, um sonho, de costas para a cidade no cimo das costas do céu
e pode ser bom -

não é determinismo, nem sequer ironia fraca ou cepticismo permanente,
é o respirar sempre, habitar as metades de tudo procurando a melhor direcção
porque há uma estrela de norte e um brilho de oriente.

não pretendo desvendar todos os véus subtis, o indelével que seduz.
há margens, estradas de poeiras, as vias lácteas perto da lua.
mas prossigo.
essa é a grande música que cresce dentro dos ouvidos -

josé ferreira 5 Dezembro 2011

domingo, 4 de dezembro de 2011

sexta-feira: é totalmente certo o pressentimento


David Hamilton

tenho pressa, procuro a porta aberta, do café.
sobra ainda meia hora nos ruídos da cidade.
os rostos transfiguram-se em sorrisos frágeis
sabendo de cor o último dia antes de sábado -
só se reconhece o natural nas corridas das crianças,
de mochilas soltas. há sombras por todo o lado.
sentado nesta mesa leio as tuas palavras, uma lava, pura,
do fundo da alma, enquanto abro mais olhos
depois de ter roubado as células vivas na cafeína.
os versos de sexta-feira costumam cair como nevoeiros
um afirmar de opacidades, suficientemente redondas
para esconder as arestas, as saliências.
e é totalmente certo o pressentimento, existes e existo.
talvez continuemos o voo indefinido dos ventos?
o particular subir aos céus como mártires de juízo?
e seremos com certeza a raça diferente,
sempre preocupada com os outros
perdendo o pouco tempo das existências
porque demasiado exigentes no sentir profundo do corpo e da mente.
escutamos todos os dias os sabores urbanos;
as alegrias, os espectáculos e os momentos reticentes;
houve greves de metro, greves de autocarros, greves de gente.
pessoas sofrem no patamar mais baixo, a segurança,
a fisiologia dos inocentes, de gritos silenciosos
em permanência, sempre, impotentes,
e isso magoa tanto, causa imensa revolta e queremos
abrir os punhos, acusar os impunes, os novos abutres
que não rejeitam as reformas falsas
bebendo copos de vermute –

e é totalmente certo o pressentimento, existes e existo.
somos dois filhos de luas brancas, e quando sonhamos
somos o fogo dos puritanos, erguendo as leves asas do vento
subliminares aos oceanos, a segunda pele –

não sei porque de vez em quando perdes o leme
e misturas cenas sonâmbulas, sem vermelho,
a preto muito preto, na distância –
por vezes não te reconheço, difusa e breve.
sobe o arrepio, o frio e o medo
enquanto os teus fragmentos se esfumam
num continuum viajar de sombras, só nocturna
escondendo as terminações dos dedos,
as cintilações dos poemas, os olhos sobre os joelhos
depois de serem belos, muito belos
e únicos, e belos, muito belos, como os dias de céu -

josé ferreira

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

PENSAMENTO

Um poema é uma espécie de critério de desempate entre o eu físico e a sua condição mais metafísica.

Sylvia Beirute

poema em letra pequena sobre a irreprodutibilidade


Lilla Cabot Perry



imprevisível,
como os astros que existem por detrás de galáxias.
de encantos distantes, inconcebidos e misteriosos.
um quadro de Dali surgiu como âncora.
falaram ininterruptamente enquanto segurava um vaso de prata
de olhar fixo nos outros rostos que passavam , não tão leves
não tão feitos de intangíveis transparentes, outras densidades.
laços invisíveis ataram os pés e suspenderam os corpos
no alto, sem gravidades.
não se tocaram e continuaram a trocar diversidades.
agora era Klimt que seduzia no ouro esfumado de figuras sofisticadas.
surgia, mais à frente, Picasso
e depois Magritte com chapéus et une pipe, intrigante, inconfessável.
fumaram um cigarro, soluçaram um pouco de fumo e fizeram um arco que rodou e rodava
até perder alguma nitidez, e desaparecer numa dança sem voz, no ar, diminuído
até ao diminuto de um átomo.
disse que gostava de Pessoa, de ser pessoa, de ser algo mais que o intermédio.
lançou dúvidas sobre os oráculos que dizem ultrapassar todas as barreiras
sem nunca falar de morte nem de dores que caminham lado a lado,
a mesma verdade que acompanha os oásis e a ardência das chamas, quando significam
mais do que fogo e mais do que um estado sólido e físico do corpo.
concordaram na alegoria, na semelhança, na simetria reflexa,
e na consequência de estarem por demais absortos nas evidências bruxuleantes.
os laços que se encontravam ainda mais ligados, apertaram . os arcos de fumo
ganharam permanência e rotina, aproximaram -
surgiram depois os óleos mais clássicos, alguns olhares de deuses, de ágoras, as praças gregas
seduzindo de razões e notoriedade, um simbolismo do atingível que perseguia as horas
e colocava túnicas de vidro, brisas de passado em lugares mágicos.
falaram do mar
da imponderabilidade das espumas, do sal.
e as lógicas secaram as nuvens e recriaram azuis de Rubens,
fluidos, imemoriáveis, inumanos, na irreprodutibilidade, filhos da aura,
como flores totalmente únicas, ricas em pólen
e aromas
e láudano -

josé ferreira 1 de dezembro 2011

terça-feira, 29 de novembro de 2011

C de cem - um poema de Pablo Neruda


Richard Avedon

No meio da terra afastarei
as esmeraldas para te ver
e tu estarás copiando as espigas
com uma pluma de água mensageira.

Que mundo! Que profunda salsa!
Que navio navegando na doçura!
E tu talvez e eu talvez topázio!
E não haverá separação nos sinos.

E haverá apenas o ar livre,
as maçãs levadas pelo vento,
o suculento livro na ramada,

lá onde os cravos respiram
criaremos uma roupagem que resista
à eternidade de um beijo vitorioso.

Pablo Neruda "Cem sonetos de amor", Campo de Letras, 2004

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Soneto XXXV - um poema de Pablo Neruda


Thomas Cooper Gotch

Tu mano fue volando de mis ojos al día.
Entró la luz como un rosal abierto.
Arena y cielo palpitaban como una
culminante colmena cortada en las turquesas.

Tu mano tocó sílabas que tintineaban, copas,
alcuzas con aceites amarillos,
corolas, manantiales y, sobre todo, amor,
amor: tu mano pura preservó las cucharas.

La tarde fue. La noche deslizó sigilosa
sobre el sueño del hombre su cápsula celeste.
Un triste olor salvaje soltó la madreselva.

Y tu mano volvió de su vuelo volando
a cerrar su plumaje que yo creí perdido
sobre mis ojos devorados por la sombra.

Pablo Neruda Cem Sonetos de Amor

A rua fragmentada


David Hockney

Os passeios são fragmentos de vidro, sensíveis.
O verde invade a moldura, corre uma brisa.
Não há o movimento brusco da rua, quase uma fotografia
Ou fotografias de pequenos espaços que se autonomizam,
Se atomizam na diferença.
Voltamos sempre a este ponto de partida, como o ovo.
A casca que não pode ser cramelizada em demasia.
A auscultação dentro, de batimentos, enche cada espaço escondido
E as manhãs de domingo são por vezes frias –
Estou calmo, tranquilo, não há redes nem teias no caminho
Aqueles ramos de palavras reanimaram a suavidade.
Não há fúria, desengano, desistência ou desertos de destino.
Não se levantam as fogueiras fátuas de esconderijos.
O imponderável de um segredo pode ser o lugar mais próximo.
Há uma meditação sobre a ausência e o silêncio.
Os ramos de palavras foram bálsamo,
A posologia intangível para o renovar das brisas.
Agradeço-te esse fragmento que alimenta a manhã,
O seu tamanho original de pele e braço físico, material
Por detrás da janela
Na rua fragmentada e vazia -

Sinto-te, invisível -


José ferreira 28 novembro 2011

domingo, 27 de novembro de 2011

mensagens mal compreendidas


David Hockney


não vou falar nada,
conheces palmo a palmo a minha altura,
dedo a dedo a minha face
e os olhos estão cansados de noites falsas.
não vou falar nada -

o mar nunca repete os ruídos e ando descalço
de pés limpos, brancos e macios
junto às fontes dos conventos, lugares sem desígnio.
não vou falar nada -

os braços são tábuas náufragas, metáforas repetidas
na persistente invasão dos oceanos,
tempestades e navios.
não vou falar nada, nem mais, nem nunca
porque fico com lágrimas
sempre que te iludes e me confundes -

lembro-me bem das loucas viagens, foram belas e sensíveis
construindo pedaços de natureza como se fossem duas,
as setas, vindas de um longínquo oriente
onde nascem sedas sibilantes, purpurinas -
não vou falar nada -

calo-me então no infinito dos tempos laminados
pelas metades impossíveis.
não vou falar nada -

tens o lugar de inesquecível
e as madrugadas serão sempre grandes;
lábios de segredos, palavras invisíveis,
varandas abertas, do lado de lá do escuro,
células robustas, desenvoltas, desmultiplicadas
de girassóis e margaridas
por jardins insuspeitos de deslizes -
não vou falar nada.

não vou falar nada, disse
mas sabes que não é verdade
e quanto ao nunca, é sempre
um qualquer dia -


josé ferreira 26 novembro 2011

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

feitos de lava - 8 poemas de Ana Luísa Amaral




1.


Há-de ter sido assim:
o princípio do mundo
– antes de os grandes sáurios
invadirem o chão
e os céus

Muito antes
da súbita explosão
que lhes pôs fim

Há-de ter sido assim:
um caldo borbulhante
e os veios roxos,
entre azul e lilás,
a rocha
negra negra negra

– e cor
de fogo
2.

Ou nessas veias:
via sacra de espanto
informe,
a promessa das formas
mais perfeitas

Ou ali antes:
a quase perfeição?

Uma forma de fala
entre o quase trovão
e o ressoar,

o tempo que parou,
sem voz –
3.

Depois,
a lava fria,
lagos da lava fria

– e a perder-se
o olhar,
cratera quase igual
a gelo e lua,
quase sem luz,
o tempo a repetir:

o fim do mundo,
quem sabe
o seu romper

4.

Não tem conforto
o corpo
ao lado da cratera

sabe-lhe a cinza,
sente-lhe o vazio

e a implosão
das veias
e do sangue
5.

Esta paisagem
não tem a cor de areia,
mas é cor de vulcão
a sua carne

e de repente,
como em flanco,
o verde em vários
lumes

E o horizonte:
tão liso,
como se fosse
orientado
a régua
6.

Mas nulos são
os pontos cardeais

Onde quer que o olhar,
navegam as estradas,
e o mar sobeja

– sempre o mar –

sobrando,
campos bordados
a rosa e a lilás,
demais, demais
as flores

Não há voz
que resista,

nem coração
que fale
7.

A enseada
de repente
invadiu-se de barcos

pequenos,
coloridas as bandeiras,
quase
uma via sacra

Ou o conforto humano
em luta contra o sal
a lutar contra o frio
do nevoeiro

a lutar contra
o sol
8.

Faltava só
o nevoeiro
aqui

E vinha já de cima,
de antes dos grandes sáurios,
dos veios roxos,
do caldo borbulhante

De lá chegara já,
embora omisso
em letra

Nesta letra
que tanto se esforçou
em fogo
e lava,

faltava
ver-se
nula

E o princípio
de tudo
é como um quadro
negro

E é lógico
que a apague
em número:

desenhado
arremedo
de
infinito

Ana Luísa Amaral, Açores 2009 lido aqui

Se perguntarem: das artes do mundo? - um poema de Herberto Helder


Robert Doisneau "Picasso e Françoise Gilot"

Se perguntarem: das artes do mundo?
Das artes do mundo escolho a de ver cometas
despenharem-se
nas grandes massas de água: depois, as brasas pelos recantos,
charcos entre elas.
Quero na escuridão revolvida pelas luzes
ganhar baptismo, ofício.
Queimado nas orlas de fogo das poças.
O meu nome é esse.
E os dias atravessam as noites até aos outros dias, as noites
caem dentro dos dias - e eu estudo
astros desmoronados, mananciais, o segredo.

Herberto Helder

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

da leveza



Margarida Cepêda "leves são os pássaros" 1999

naturalmente é da leveza de que falo.
o equilíbrio inseguro e afastado de quem lê o mar
da praia ou do alto da amurada.

o simétrico das águas reflecte-se no céu
da mesma forma que os espelhos cruzam vidros e pratas
numa soldadura química que voa
como pássaros -

há uma dança clara de silêncio, de ausências
que revela o ser diferente, na multidão e nas massas.
há um batimento e ritmo de campos no meio dos carros,
no meio das cidades
por onde deslizam rios e flores, tecidos de urzes e cardos
ou um soprar de odores, emergido, pelo meio das searas.
e há um sentido, sem ser único nem determinado,
um fluxo indisciplinado de procurar o mundo, um outro mundo
irreverente e irrevelado -

é da beleza de que falo, não na forma imediata
não do postal, fotografia ou anúncio mediado
mas sim de um sentir de metáforas que seguram espadas
e cortam os ventos quando são de fuligem e se propagam,
invadindo o rosto, procurando a alma -

é da beleza de que falo; do campo, do mar e da leveza-
um cântico supremo perto dos pássaros -

José ferreira 24 Novembro 2011