sábado, 9 de julho de 2011

pela noite que se adensa




pela noite que se adensa e me reentra dentro, penso
como seria diferente
se soubesse voar, nocturno, acima das luzes
aos milhares
contá-las
uma a uma, como segundos que se gastam
descendo a encosta esquálida
de olhos no mar, até à reentrância azul
- foz natural, recepção oceânica -
onde estás
rodeada de círculos, por vezes laminar
no bico das arestas, no gume molhado das faces
quando centrípeto, divago
de centímetros cinza no caminho lasso
- período fraco de metamorfose -
como ilha no espaço.

abres e abres-me
a existência imaginária
desordenada
a viagem, na vertigem branca
a lua, que se alimenta
nos largos lábios de sal;
nas margens emplumadas
nas flores de prata;
oferenda submersa e vasta
na lisa lousa das palavras -

José Ferreira 9 Julho 2011

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Um poema de Eluard a Pablo Picasso- Palavras Pintadas


Pablo Picasso


Para tudo compreender
Tudo
A árvore adorada dos cipós e lagartos
Para compreender o fogo
Para compreender o cego

Para reunir a asa e orvalho
Coração e nuvem dia e noite

Para abolir
A careta do zero
Que amanhã rolará sobre o ouro

Para talhar
As pequenas maneira
Dos gigantes que se alimentam de si mesmos

Para ver todos os olhos reflectidos
Por todos os olhos

Paul Eluard "Algumas das palavras" Antologia organizada por António Ramos Rosa, Dom Quixote, 1977

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Partes de um poema de Keats - Ode a um Rouxinol


Édouard Boubat

......
Como eu queria partir para longe, voar para ti
não sobre o carro de Baco e os seus leopardos,
mas com as asas invisíveis da poesia
embora, vagaroso, o pensamento ainda hesite e se demore.
Assim apareço, subitamente, ao teu lado! A noite está calma
e, como uma rainha, a lua talvez permaneça no seu trono
cercada por todas as suas fadas, as estrelas;
mas aqui, onde fiquei, nenhuma luz pode brilhar
a não ser a que chega pelo céu com a brisa
através das sombras verdes e dos sinuosos caminhos
cobertos pelo musgo.

Não posso reconhecer as flores debaixo dos meus pés,
nem que suave incenso flutua sobre os ramos,
mas, pela noite perfumada, adivinho cada aroma
que este mês propício veio entregar aos bosques,
à relva, aos frutos das árvores silvestres,
ao espinheiro branco e à rosa brava dos prados,
às últimas violetas escondidas por entre as folhas
e à filha primogénita de Maio, a rosa almiscarada
e entreaberta, cheia de um vinho orvalhado,
asilo, nas tardes de Verão, dos insectos rumorosos.

.....

Não nasceste para morrer, tu, ave imortal!
Nenhuma geração impaciente pode apagar o teu vestígio,
e o canto que escuto nesta noite fugitiva
também foi ouvido, outrora, por reis e aldeãos;
talvez esta seja a mesma harmonia que atravessou
o espírito triste de Ruth, quando recordava o seu lar
e chorava diante das searas dum país estrangeiro;
a mesma que veio encantar tantas vezes as janelas
mágicas que se abriram sobre a espuma
dum mar ameaçador, em lendárias terras esquecidas.

.....

Jonh Keats "Poesia Romântica Inglesa" (Byron, Shelley, Keats) Trad. FFernando Guimarães, Relógio D'água, 1992

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O silêncio de uns


Almada Negreiros

Não se classificam os versos alheios escritos no pó dos anos
Como pensamentos dos nossos olhos; curiosidade apenas
O deslumbre de diferentes formas de ordenar as letras.
Não se reduzem a cinzas as chamas luminosas de platina
Mesmo que a noite se pinte no mais escuro e renove a lua.
Não se esquece nunca as mitologias, os ventos diáfanos
As pinturas coloridas que atrasam os dilúvios
E revelam na cor de prata, o novo mundo -

O silêncio de uns, pode ser ruído -

José Ferreira 6 Julho 2011

terça-feira, 5 de julho de 2011

Um poema de Edgar Allan Poe - Soneto-Silêncio


Almada Negreiros


Há certas qualidades...tais compósitos
Com uma dupla vida, a que assiste
Uma entidade gémea que consiste
Em luz e em matéria, sombra e sólido.
Cindido é o Silêncio: mar e cais,
Corpo e Alma. Um vive solitário
Em campo raso, e faz-se temerário
Mercê de humanos ecos, rituais
E indulgências...seu nome "Nunca mais".
Tal Silêncio tem corpo: não temais!
Pois por si só não pode fazer mal;
Mas se vos lança o Fado inexorável,
De encontro à sua sombra (elfo inefável
Que assola os ermos onde outrem jamais
Pisou)...vos guarde Deus então a alma!

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Fragmento XI - Quando o meu dedo por inadvertência





Por inadvertência, o dedo de Werther toca no dedo de Carlota; os pés sob a mesa, encontram-se. Werther poderia abstrair-se do sentido destes acasos; poderia concentrar-se corporalmente nestas fracas zonas de contacto e gozar este pedaço de dedo ou de pé inerte de modo fetichista,sem se inquietar com a resposta. Mas: Werther não é perverso, é um apaixonado: sempre e em toda a parte, Werther dá sentido a um nada e é o sentido que o faz estremecer: está no ardor do sentido. Todo o contacto, para o apaixonado, levanta a questão de resposta: pediu-se à pele que responda.

Roland Barthes " Fragmentos de um discurso amoroso" ed. 70

intervalos de palavras e lábios fechados





Na manhã embuçada de branco calam-se os passos certos,
de meio metro, junto ao mar;
falam os búzios grandes -

Na curta distância do azul , o manto húmido da neblina;
um limite ao ruído das águas, o oceano cíclico
onde ondas imaginárias se enrolam, urgentes,
e se estendem molhadas nos desertos resistentes -

No areal não é o tempo de barracas, apenas um guarda-sol, deitado,
listas brancas, listas fixas e quatro pés que se cruzam
na percepção permitida da sombrinha, vista de cima
e em suposição de outros formatos, abraços, lábios
intervalos de palavras e olhos abertos -

duas pombas pousadas não usam as asas e assinam as areias
contornam as rochas como soldados nos domínios de vigilância
mas o local tem marcas de uma outra época, sem semelhança
quando o sol brilhava e os dias eram de Agosto;
brasas acesas, um forno de poemas, palavras bravias
palavras doces, marcas de dentes no pescoço
filamentos de cabelos caídos, por entre os dedos -

nas malhas deste novo tempo, este dia
há milhares de minutos perdidos
quando os medos nos prendem os sentidos
e é bem verdade que nas páginas de filosofia
há um excesso de incerteza e a inconstância
na divagação estéril sobre antigos pensamentos
Sócrates, Schopenauer, Nietzsche;
a tentativa inóspita e absoluta do conhecimento
e o esquecimento do simples;
mesmo na poesia, na essência que se pretende pura
não se explica o voo das abelhas:
se andam doentes e não polinizam as flores;
um perigo para o planeta -

e as flores são únicas e breves
nas pétalas, no pólen, indizíveis, inconhecíveis na totalidade
como a pele das mulheres quando exigem os remos dos lábios
na travessia arrojada de um silêncio de margens -

José ferreira 3 de Julho de 2011

domingo, 3 de julho de 2011

Os Cavalos de Danaan





"A primeira obra que Ellen lhe desvendou seria uma tela a óleo, de grande formato, representando "Os Cavalos de Danaan". Era um tropel violento de fogosos animais, composto por chamas que se entrelaçavam, providos de arreios de ouro e ferraduras de prata, e com um diamante incrustado na fronte. Montavam-nos raparigas de cabelos loiros, e mantos ao vento, brandindo cada uma a sua lança, e galopando em direcção a um abismo entre duas escarpas de espinhos e pedregulhos.....
Decorridos longos minutos porém, subitamente desinteressada da apresentação da sua arte, a qual ia arrumando sem esmero particular, Ellen pediria ao nosso poeta que lhe falasse em português. Tomou-a nos braços, e foi-lhe segredando ao ouvido esta lengalenga, emergida de um passado que não conseguia fixar no tempo. "Pedro primeiro monarca/do mar de cá e de lá..."

Mário Cláudio " Tiago Veiga - Uma Biografia" D. Quixote 2011

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Metade do Mundo


David Hamilton



Todas as noites ela vinha ter comigo
Eu cozinhava para ela, servia-lhe chá
Ela tinha trinta e tal naquela altura
conseguira fazer algum dinheiro, vivera com homens
Deitávamo-nos para dar e receber
debaixo do mosquiteiro branco
E uma vez que nenhuma contagem começara
vivíamos mil anos num só
As velas ardiam, a lua descia
a colina polida, a cidade leitosa
transparente, sem peso, luminosa,
destapando-nos aos dois
naquele chão fundamental,
onde o amor é fortuito, desatado, desencarcerado
e do mundo perfeito se acha metade

Leonard Cohen " O Livro do Desejo" Quasi 2008

Fragmento X - A espera


Matthias Schriefl - © by: ACT / Gerhard Richter

"...o acto I; está cheio de suposições: e se tivesse havido um mal-entendido quanto à hora ou lugar? Tento recordar-me do momento em que se combinou o encontro, dos pormenores que foram acordados. Que fazer (angústia de acção)? Mudar de café? Telefonar? E se o outro chegar durante estas ausências? Não me vendo, pode partir de novo, etc. O acto II é o da cólera; dirijo violentas censuras ao ausente: " Apesar de tudo, ele(ela) bem teria podido..." "Ele (ela) bem sabe..." Ah! se ela (ele) ali estivesse, para poder censurá-lo de ali não estar! No acto III, atinjo (obtenho?) a angústia pura: a do abandono; acabo de passar, num segundo, da ausência à morte; o outro está como morto: explosão de luto: estou interiormente lívido. Assim é a peça; pode ser encurtada pela chegada do outro; se chega durante o acto II, temos uma "cena"; se chega durante o acto III, é o reconhecimento, a acção de graças: respiro profundamente, qual Pelléas a sair do subterrâneo, reencontrando a vida, o perfume das rosas.

( A angústia da espera não é continuamente violenta; tem os seus momentos mornos; espero e tudo o que rodeia a minha espera está salpicado de irrealidade: no café, vejo os outros que entram, cavaqueiam, gracejam, lêem tranquilamente: esses não esperam)

A espera é um encantamento: recebi a ordem de não me mexer."


Roland Barthes " Fragmentos de um discurso amoroso " Ed. 70

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Um poema de Miguel - À Beleza




Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Nem te curvas no jogo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,
Nem o tempo te rói.
És a essência dos anos,
O que vem e o que foi.

És a carne dos deuses, o sorriso das pedras
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.
És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.

És o verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.
És a beleza, enfim! És o teu nome!
Um milagre, uma luz , uma harmonia,
Uma linha sem traço…
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço!


Miguel Torga "Odes" 4ªed. 1977

se alguém disser que morri, avança até à varanda do céu


Tamara Lempicka

se alguém disser que morri, avança até à varanda do céu,
escuta a noite e recolhe o meu corpo da espuma dos planetas.
não deixes que o meu rosto se dissolva nas tuas mãos,
insiste no meu nome até que o mar ascenda à tua boca.
e de luar em luar celebra o coração que fiz teu, mudamente,
como se o amor fosse sobreviver às veias paradas de sangue.

Vasco Gato "Um mover de mão" Assírio & Alvim

terça-feira, 28 de junho de 2011

Um poema de Emily - Vou dizer-te como nasceu o Sol


Annie Leibovitz

Vou dizer-te como nasceu o Sol -
Uma Fita de cada vez -
Os Campanários nadando em Ametista -
As Notícias corriam, como Esquilos -
Os Montes desatavam os Chapéus -
As tristes-Pias - começavam a cantar -
E eu disse baixinho, para mim -
"Há-de ter sido o Sol!"
Mas como ele se pôs - isso não sei -
Parecia ser escada carmesim
Que meninos e meninas de Amarelo
Estivessem a subir e a subir -
Até que chegando do outro lado,
Um Pastor todo vestido de Cinzento -
Erguesse suave as Trancas da noitinha -
E levasse consigo o seu rebanho -

Emily Dickinson "Cem Poemas" Relógio D'água Trad. Ana Luísa Amaral

segunda-feira, 27 de junho de 2011

a carta, Brahms e um quadro



escutava as quatro baladas de Brahms
enquanto colocava um pouco mais de cor
na tela incompleta em frente da janela.

as mãos lentas mas precisas no rigor minucioso das linhas
preenchiam as quadrículas pré-estabelecidas,
fruto de um impulso indefinido e interior
talvez ditado por Atena ou uma outra deusa que desconhecia;
construía uma rainha vestida de ganga
de olhar penetrante e sapatilhas laranja.

três meses de distância -
naturalmente as chuvas permaneciam assim como a melancolia;
a carta, a carta a meio que havia escrito um destes dias -
procurava sossegar as dúvidas, construir o refúgio -
uma pintura -
e os dedos de Ashkenazi colados na música -

colocou mais azul e um pouco de branco;
um não excesso de céu porque sem nuvens só o deserto
um chapéu de palha, largo,gasto
uma trança de lado, índia, e um laço
percorrendo o ombro; esquerdo ou direito?
pensou um pouco -

nada de prédios, um lugar fora do tempo, diferente
um campo feito de silvas, arbustos , árvores -

o sol percorreu a esquina do telhado
tornou-se forte em frente da janela e deixou a sombra
primeiro no piano e depois ao longo do gato branco;
sentia-se cansado como se tivesse lavrado um campo
cavado um poço ou erguido em pequenas pedras de granito, um muro -
puxou uma cadeira, sentou-se pesado como um tronco
um braço sobre a mesa -

uma luz, uma pequena luz, oscilava lenta
como se do quadro um pêndulo
um, dois , um , dois, a hipnose -

uma aragem percorria os fios unidos do cabelo
e invadia no quarto os cantos da parede -

na intimidade do quadro as árvores tinham copas vermelhas
as folhas eram amarelas e as flores verdes -
as mãos, as mãos eram brancas -
o brilho nos olhos, flamejante -
os lábios falavam -

a carta, estava muito cansado, a carta -
a carta, Brahms, o quadro -

José ferreira 26 Junho 2011

Puma Bartolomeu Júpiter



Puma Bartolomeu Júpiter acaba de receber, summa cum laude, a maior ovação da sua vida. É uma torrente eléctrica de mãos na intermitência histérica e sublime dos aplausos, uma plateia antiga que ergue do nada um exército de rostos convencidíssimos e cauterizados, entre o rigor atrófico, a inveja fúnebre e a transpiração, e, como se isso não bastasse, o estertor das palmas das mãos de quem, finalmente, compreende, sofre um verdadeiro ataque de compreensão e fornece, por isso, ao escândalo protocolar, uma dose extra de cinismo e elegante mal-estar.
A tese de Júpiter é aparentemente muito simples: Júpiter provou que o amor dissolve-se no sexo, antes mesmo de lhe tocar. Partiu primeiro e até por intermédio das analogias da ingenuidade do composto fictício de Asimov, a “thiotiomoline”, composto este que se dissolveria em água antes mesmo de lhe tocar, e transferiu as propriedades da “thiotiomoline” para o amor e as da água para o sexo.
À forçosa semelhança de Asimov, Júpiter acreditava que o amor (100% solúvel no sexo) antecipava materialmente a sua solubilidade, porque, é ele que escreve, “há no composto raro do amor um registo espacio-temporal cindido, onde o átomo de carbono cria ligações químicas apaixonadamente reactivas à estabilidade física geral”.
O mundo não teria mudado sem esta tese de Júpiter. A sua invenção foi de tal forma sobrevalorizada, o nome de Júpiter foi tão ouvido e citado, dentro e fora da academia, que tudo se tornou previamente solúvel em tudo, tudo com o seu átomo de carbono instável, tudo com a sua face dupla e miserável, tudo com a sua insurreição temporal.
“Há um momento – pensa Júpiter, esmagado pelos aplausos – há um momento em que alguma coisa me leva a descrer profundamente na espécie humana. É como que se eu não fosse inteiramente solúvel nela e nos seus e nos meus argumentos armados viesse à tona o cadáver louco da sua antecipação.”