terça-feira, 17 de maio de 2011

fala-se da alma


Guy Bourdin

quando se diz que não acaba fala-se da alma
a alma eterna que vence o humano
a alma sensação que desaba irremediável
nos abismos da chama
sem corpo
essência perfeita no ar de uma existência
máxima e transparente, a alma -

a alma é forte, a alma invade os tectos e ilude as distâncias;
a alma a alma a alma a alma a alma -

a alma sangra mas permanece
na improbabilidade positiva dos teus gestos -

José Ferreira 16 Maio 2011

segunda-feira, 16 de maio de 2011

R I O E M D E S E S P E R O

Corre rio, corre,
corre desenfreado,
a brutal enxurrada descaracterizou-te,
embruteceu-te!
Levas vidas que afogas
diabolicamente,
porque tudo inundas
além do teu leito que te não basta!

Fustigas-nos a alma
submissa e impotente,
enquanto olhamos a TV
visualizando dramáticos confrontos
entre a morte e a vida
de seres vivos despojados,
trucidados,
mas sobretudo inocentes!

Dás crédito à revolta da natureza,
à força incomensurável
dum Planeta bom
que nos acolheu,
mas hoje tristemente abandonado à sua sorte
por culpa de humanos indígnos,
tresloucados,
não merecedores da coabitação!

Corre rio, corre,
corre desesperado,
porque em teu feroz seio
também levas os gritos e lágrimas
dum Planeta que chora
inexoravelmente a sua desdita!...

(Antonio Luíz, 20-01-2011, in " Poesia pragmática: poemas de Vidas" -
a publicar em Junho/Julho-2011).

domingo, 15 de maio de 2011

TERMINAL DE DESILUSÃO

Afundo-me na tristeza,
sem as lágrimas convulsivas de outrora,
mas compulsivamente irascível;
- nada mais vale a pena,
não interessa sequer avaliar
porque se demoliu o amôr
ou porque se esfumou a paixão!?

O fulgor do sol também se esvai,
e o vento ora sopra de rompante,
outras vezes porém tão meigo é,
apaziguador e tão refrescante!
........................
Hoje, o dilúvio assassino
perturba a doce paz da foz
do meu rio de encantos!

( Antonio Luíz, 23-01-2011,
in "Poesia pragmática: Poemas de vidas", a publicar em Junho/Julho-2011)

A luz do sol entra pela floresta


Salvador Dali

A luz do sol entra pela floresta,
Uma sombra de vento passa e esquece
E o filósofo mudo a encosta desce
Do ensombrado monte
Ora a luz toca-o, como a uma fonte
Ora a folhagem fecha o horizonte.

Paz que há nos campos, soergue a folha verde
Comoção imprecisa que se perde
E não teve razão,
Como ante vós a angústia se ergue em medos
E falece no peito o coração!


In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006

sábado, 14 de maio de 2011

um poema para Penélope


Imagem retirada da internet

houve há muito tempo Ítaca, a ilha
a viagem e o retorno
depois da longa espera
e da partida.

ouve, digo-te, não tem que ser assim
se não houve despedida.

um homem citando o filósofo disse:
“que o homem se vê a si próprio
como ‘o eixo à volta do qual gira o mundo’ “.

mas não tem que ser assim, digo-te.
um homem e uma mulher existem por vezes unos
e em uníssono
mas sem despedida, no intervalo breve de frio
podem escolher o silêncio
a pausa de uma seara - o labirinto
o rosto branco de um nuvem - o infinito
a escrita de um artigo científico - de x e y.

e sem as lágrimas da despedida
tudo pode voltar ao azul das aves
- à asa fechada e à asa estendida.
e tudo pode ser
num outro espaço, num outro tempo
o deslize suave de almas unidas
na forma antiga -

como em Ítaca
mas sem violência e mais breve ainda -

José Ferreira 14 Maio 2011

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo


Giorgio di Chirico

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —

Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde"

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Ítaca

Quando começares a tua viagem para Ítaca,
reza para que o caminho seja longo,
cheio de aventura e de conhecimento.
Não temas monstros como os Ciclopes ou o zangado Poseidon:
Nunca os encontrarás no teu caminho
enquanto mantiveres o teu espírito elevado,
enquanto uma rara excitação agitar o teu espírito e o teu corpo.
Nunca encontrarás os Ciclopes ou outros monstros
a não ser que os tragas contigo dentro da tua alma,
a não ser que a tua alma os crie em frente a ti.

Deseja que o caminho seja bem longo
para que haja muitas manhãs de verão em que,
com quanto prazer, com tanta alegria,
entres em portos que vês pela primeira vez;
Para que possas parar em postos de comércio fenícios
para comprar coisas finas, madrepérola, coral e âmbar,
e perfumes sensuais de todos os tipos -
tantos quantos puderes encontrar;
e para que possas visitar muitas cidades egípcias
e aprender e continuar sempre a aprender com os seus escolares.

Tem sempre Ítaca na tua mente.
Chegar lá é o teu destino.
Mas não te apresses absolutamente nada na tua viagem.
Será melhor que ela dure muitos anos
para que sejas velho quando chegares à ilha,
rico com tudo o que encontraste no caminho,
sem esperares que Ítaca te traga riquezas.

Ítaca deu-te a tua bela viagem.
Sem ela não terias sequer partido.
Não tem mais nada a dar-te.
E, sábio como te terás tornado,
tão cheio de sabedoria e experiência,
já terás percebido, à chegada, o que significa uma Ítaca.

Konstantinos Kaváfis (trad. Jorge de Sena)

Clarice Lispector



Amanhã na Livraria Lello às 18h30.

Frderico Garcia Loca




no feminino com
RESTAURANTE/CAFÉ
LIVRARIA & PEÇAS DE AUTOR
Praça Carlos Alberto, 89
4050–158 Porto
T 22 201 66 18
geral@nofemininocom.pt



Quinta- feira, dia 12/05, ao jantar

Federico García Lorca, o homem, a vida …o poeta


ROMANCE SONÁMBULO

A Gloria Giner
y a Fernando de los Ríos

Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Con la sombra en la cintura
ella sueña en su baranda,
verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas le están mirando
y ella no puede mirarlas.

(…)

Federico García Lorca


“Federico Garcia Lorca, nasceu em Fuentevaqueros (Granada) em 5 de junho de 1898 e morreu assassinado em Viznar (Granada), uma das primeiras vítimas da Guerra Civil Espanhola, em 19 de agosto de 1936. Foi dotado de uma personalidade extraordinariamente voltada para a arte. Além de ser um grande poeta, teve também alguns pendores musicais, tendo feito, ainda, alguns desenhos. É Garcia Lorca, com certeza, o poeta espanhol mais conhecido universalmente, só perdendo para Cervantes no número de edições e traduções de suas obras.”


Apresentação, leitura de poemas e exibição de imagens por José Carlos Tinoco


(Um jantar tertúlia que terá lugar às 20h sujeito a marcação, passando a sessão a ser aberta ao público a partir das 22h.)

terça-feira, 10 de maio de 2011

Fragmentos VII - O inconhecível


Bill Brandt

Estou envolvido nesta contradição: por um lado, creio conhecer o outro melhor do que ninguém e afirmo-lhe isso triunfalmente (“Conheço-te bem. Só eu te conheço bem!”); e, por outro lado, sou muitas vezes assaltado por esta evidência: o outro é impenetrável, irreconhecível,intratável; não posso abri-lo, chegar à sua origem, desfazer o enigma. De onde vem? Quem é? Esgoto-me, nunca o saberei.
..............
"Não consigo conhecer-te", quer dizer:"Nunca saberei o que verdadeiramente pensas de mim". Não posso decifrar-te, pois não sei como tu me decifras.



Roland Barthes "Fragmentos de um discurso amoroso" ed. 70

domingo, 8 de maio de 2011

espaço de intimidades


Saul Leiter

os óculos esconderam os olhos,
a claridade verde clara. os óculos
esconderam uma parte da cara, largos -
os óculos que não eram claros -
os óculos sabiam proteger esse espaço
de intimidades, de íris -
que se iluminava -

aceitaste os cravos vermelhos -
sorriste -
de alma escondida
por debaixo do guarda-chuva lilás
e por um caminho
de lousas escorregadias -


José Ferreira 8 Maio 2011

Felicidade Clandestina




Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim um tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E, completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança de alegria: eu não vivia, nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam. No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono da livraria era tranqüilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte.

Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo. E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra. Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo.

E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser.” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre ia ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

Clarice Lispector

sábado, 7 de maio de 2011

Retábulo de noções primordiais



São as noções que fazemos um do outro que se despem, nós não. Nós apenas observamos com desespero, poética de espelho e malícia o corpo nu das noções, as suas inúmeras vilosidades e axilas friccionadas. E a forma como elas se confrontam na ofensa que o desejo fixa, na noite do olhar mais árido. Nós somos só os convidados das nossas noções, os escravos vestidos ironicamente de convidados das nossas noções, e por vezes até nem isso, nada mais do que a pretensão opaca da indumentária.
É como que se tivéssemos levado as noções que ambos fazíamos um do outro a uma festa com piscina, troca de casais, alguma esperança de certa forma atlética na sua convicção de derrocada e o rasto de drogas finas e tentaculares. É como Marte, essa nudez aplicada ao outro com uma sede de esboços retrospectivos e escaparates, ponte móvel de si para si, para deixarmos passar o navio

sem sentido


sobre o mar de nada.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Visão de Clarice




Clarice,
veio de um mistério, partiu para outro.

Ficamos sem saber a essência do mistério.
Ou o mistério não era essencial,
era Clarice viajando nele.

Era Clarice bulindo no fundo mais fundo,
onde a palavra parece encontrar
sua razão de ser, e retratar o homem.

O que Clarice disse, o que Clarice
viveu por nós em forma de história
em forma de sonho de história
em forma de sonho de sonho de história
(no meio havia uma barata
ou um anjo?)
não sabemos repetir nem inventar.
São coisas, são jóias particulares de Clarice
que usamos de empréstimo, ela dona de tudo.

Clarice não foi um lugar-comum,
carteira de identidade, retrato.
De Chirico a pintou? Pois sim.

O mais puro retrato de Clarice
só se pode encontrá-lo atrás da nuvem
que o avião cortou, não se percebe mais.

De Clarice guardamos gestos. Gestos,
tentativas de Clarice sair de Clarice
para ser igual a nós todos
em cortesia, cuidados, providências.
Clarice não saiu, mesmo sorrindo.
Dentro dela
o que havia de salões, escadarias,
tetos fosforescentes, longas estepes,
zimbórios, pontes do Recife em bruma envoltas,
formava um país, o país onde Clarice
vivia, só e ardente, construindo fábulas.

Não podíamos reter Clarice em nosso chão
salpicado de compromissos. Os papéis,
os cumprimentos falavam em agora,
edições, possíveis coquetéis
à beira do abismo.
Levitando acima do abismo Clarice riscava
um sulco rubro e cinza no ar e fascinava.

Fascinava-nos, apenas.
Deixamos para compreendê-la mais tarde.
Mais tarde, um dia... saberemos amar Clarice.



Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 4 de maio de 2011

e nada mais disse


David Hockney



descreveu o início do dia:
o abrir de pálpebras dormentes,
o pousar do braço sobre as notícias,
o apagar do rádio e um pouco de silêncio;
o retorno a um embalo escuro - alguns minutos.

descreveu o momento seguinte:
a perna lenta sobre o tapete,
a dificuldade das agulhas e a luz aberta;
uma linha branca que conduzia os passos,
descalços, em direcção ao dia -

e nada mais disse -

José Ferreira 4 Maio 2011