quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

as metáforas sensíveis




apenas uma frase anotada numa página branca
perseguindo o uníssono dos dias
como um símbolo como um símbolo -


apenas uma frase na folha em branco
de tinta sem a continuidade de um texto
versos ou estudo analítico de células
de artérias como rios de sangue e ser vivo
como agulhas muito finas agulhas de trigo
ondulantes ondulantes como os dias -

apenas uma frase na folha em branco
por concluir irresoluta e indeterminada
sob as leis dos números as convenções humanas
não reportando para identidades definidas
tautologias círculos arbitários de signos
actos de homem como se rígidos
explicados na miopia de óculos de meia lua
na ponta do nariz óculos de cientista

a frase isolada e única na página em branco
um símbolo um símbolo
uma fita partida de um cinematógrafo antigo
em pausa um corte ultrapassável e substituível
a acertar a relevância de ter sido escrita
e ter a griffe de um dia
no mês das flores mais bonitas

a frase na página branca não não se explica
e reporta a uma realidade em fragmentos escondida
na irreversibilidade das fotografias a sua vida
o reconhecimento do preto do branco
naquele e naqueles dias -

a frase na página branca é um liame sensível
que liga o agora com o indeterminante de um tempo
sem saber quando
um símbolo um símbolo perseguindo perseguindo
o uníssono dos dias -

José Ferreira 23 Fev 2011

Correntes D'Escrita 2011

de sítio


em sítio de película
ligeiramente ao lado do desenho
por onde passam casas com sede
a bocejar cores às marés de cana verde
um fumo muito antigo
dentro dos olhos de toda a gente
e circos a desfilar
transformados em orla do mar
à marcha à venda
o milho verde em mãos abertas
e a outra história pirata
e crianças sem saia
de carne de coco
ao chorinho mais verde
da estrada
fumos calados
e paredes que suspiram (Deus é Fiel)
quando as varandas incham ao mar
a regressar
(a quem) a orla é uma rede de brisa a balançar devagar
entre um mar verde velho
e um chão ainda mimado
ainda esverdeado

antes que tudo amadureça

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

se não existisse a noção de cinza



se não existisse a noção de cinza
a ardência completa a fogueira acesa
não encontraríamos nunca o azul
o paradigma
mesmo que incompleto
de atingir o paraíso -

José Ferreira 22 Fev 2011

Amor


David Hamilton

o teu rosto à minha espera, o teu rosto
a sorrir para os meus olhos, existe um
trovão de céu sobre a montanha.

as tuas mãos são finas e claras, vês-me
sorrir, brisas incendeiam o mundo,
respiro a luz sobre as folhas da olaia.

entro nos corredores de outubro para
encontrar um abraço nos teus olhos,
este dia será sempre hoje na memória.

hoje compreendo os rios. a idade das
rochas diz-me palavras profundas,
hoje tenho o teu rosto dentro de mim.

José Luís Peixoto "A Casa, A Escuridão"

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Emily 657


David Hamilton


657

I dwell in Possibility—
A fairer House than Prose—
More numerous of Windows—
Superior—for Doors—

Of Chambers as the Cedars—
Impregnable of Eye—
And for an Everlasting Roof
The Gambrels of the Sky—

Of Visitors—the fairest—
For Occupation—This—
The spreading wide of narrow Hands
To gather Paradise—

Emily Dickinson


Habito na possibilidade -
Uma Casa mais bela do que a Prosa -
Em Janelas mais numerosa -
Em Portas - superior -

De Quartos como Cedros -
Impregnáveis ao Olhar -
E por Telhado Duradouro
Os Telhados do Céu -

De Visitantes - a mais bela -
Isto - para a Ocupar -
O abrir largo as minhas Mãos estreitas -
Para colher o Paraíso -

"Cem Poemas" Trad. Ana Luísa Amaral Relógio D'Água 2010

domingo, 20 de fevereiro de 2011

a luz branca


Richard Avedon 1987


supuz um vidro escuro inquebrável que chegava à lua
que dividia as estrelas que impedia a mistura do céu -

pura ilusão
quanto mais observo
a transparência subtil das cortinas
os desenhos de luz branca
delineando o corpo
na forma de não-distância
melhor compreendo
que o vidro nunca aconteceu -

e o quadro mudou
reacendeu de calor o pleno inverno
na paisagem magnífica de um alto monte
onde as mãos insinuantes sobre as rendas
onde a brisa
e onde suavemente
se ouve o deslizar da melodia
dedos que caminham
nas cordas de um violino -

José Ferreira 20 Fev. 2011

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

música e poesia


Richard Avedon


habitualmente a música empresta-nos os braços
e dança sozinha como as borboletas.
perante a exigência de um universo azul
de um universo rosa de um universo multicolorido
sublima os dias como um livro aberto
uma janela pousada no presente do destino
um lugar sentado nas cadeiras de orquestra do cérebro
descobrindo os signos as letras despidas
e os sons que dançam por vezes
no negro das avenidas
nos prados mais verdes
nos bosques mais escondidos.

habitualmente a música empresta-nos o lugar das fitas
num cinematógrafo sobre paredes brancas e vazias
desenrolando cenas implícitas, explícitas sobre os desígnios
e a subjectividade do sentir
revelando por vezes os vestidos secretos
de uma invasão de prímulas ou quadros múltiplos
reinterpretando a ausente realidade dos artistas.

e a música dança sozinha como as borboletas
sem braços nas pautas dos dias
na sua cor clara
nas suas asas de graffiti
a colorir espaços depois do éter
circulando intensamente na elegância dos desvios
nos loopings como se objectos invisíveis.

e a música empresta-nos os braços como linhas
em palavras rectas como setas ou enroladas como pétalas
nas quais por vezes se endoidece
sem lhes dizer dos medos e dos desafios
quando alteram as desordens infinitas
como árvores ladeando azinhagas longínquas
fronteiras de salgueiros margens indefinidas.

e a música coloca os dedos e encerra os olhos
e dança dança sozinha como as borboletas

e a música pode ser uma poesia
que não desafina nem se explica
apenas levita numa dança de brilhos
e decompõe o silêncio em fragmentos
fragmentos e harmonias -

José Ferreira 18 Fevereiro 2011

Talvez um dia se atinja a redução do pensamento


Oskar Schlemmer "Bauhaus Stairway

Talvez um dia se atinja a redução do pensamento
pela mediação do vento
E será essa a mais preciosa economia
O osso vibrará em consonância com o músculo
O joelho e o ombro serão um só adágio

Bastará a mão na página
para que uma ave branca siga a linha azul
As incertezas terão o frémito das folhas
A obscuridade será um oboé saindo do lodo
Um gafanhoto sobre a mesa restabelecerá o estatuto do universo

A melancolia do ouvido a estranheza da visão
em entrelaçadas estrelas líquidas
beberão a alma da solidão como uma linfa branca
e os fulvos frutos da terra estarão unidos
num indivisível acorde



António Ramos Rosa "Deambulações Oblíquas" Quetzal Editores

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

os aromas das flores noctívagas


Magritte "o vestido de noite"

como responder de forma lisa e suave
senão falando de flores e aromas;
as magnólias de seda branca
definíveis no plano despido dos ramos
como sinos inaudíveis e invertidos
e quanto aos aromas
vagueando na sedução dos jasmins
nas suas volúpias de doces caprichos
flores pequenas e destemidas
e ao mesmo tempo delicadas e subtis
suspensas sobre o tronco e sobre o tanque
onde de vez em quando descansam as sombras
e flutuam as camélias mais maduras.

como responder de forma lisa e suave
senão falando de flores e aromas;
lembro agora o vermelho e branco das buganvílias
em vasos de barro altas e as cabelos laranja das estrelícias
e lembro aquela planta de tronco verde e flores noctívagas
lançando perfumes estonteantes
continuadamente intensos na distância.

desculpa desculpa divago divago desculpa desculpa

Imagino o teu olhar severo a teoria da crítica
que simples e tão poucas as metáforas
versos de criança talvez ternos talvez puros
talvez leves talvez insignificantes

mas compreende que sem ser ingénuo
nem completamente destituído de juízo
pratico o equilíbrio
o equilíbrio mais difícil de pontas
num bailado exigente
por onde brilham lagos e se espelham estrelas
nem sempre alegres nem sempre tristes
e por onde em noites mais cheias
passeiam cisnes -

José Ferreira 17 Fev 2011

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

bolo de milho


gosto de bolo de milho
e nada é mais simples
a minha varanda vai aumentando todos os dias para o mar
não sei quantas outras varandas com velas cá chegaram
sei que as espero como um Índio de pernas cruzadas
que aceita trocar


posso entender olhos em caras muito longe
e na dúvida sei dobrar
as sobrancelhas à volta da terra
é que está tudo tão quieto aqui
depois de guerras se comerem sozinhas
pedras arderem no espaço
e células codificarem operações militares
que não me cabe a mim perguntar
só deixar o colapso acontecer
no que muito bem lhe apetecer
como este bolo de milho
tão simples de gostar

Não tenhas medo do amor




Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só Inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.

Maria do Rosário Pedreira

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

o encontro inefável no dia dos namorados





não era já tarde…..nem altas horas da madrugada
era a hora da coincidência pelas calçadas da cidade;
o encontro, o cruzar de olhos, o sorriso largo
a direcção dos braços, a impossibilidade de não ser barco
e não navegar, não navegar na linha contínua dos afectos
namorava……………………………..namorava -

não era já tarde………………nem altas horas da madrugada
era a hora até aí improvável da continuidade
(nunca mais disseste nada……….eu devia ter falado)

pensava na voz fechada à luz de um encontro inefável
(quero-te…………………………………….quero-te)
e lembrava-se de um poema escrito há muito tempo
guardado no meio de um livro, no segredo da biblioteca
de uma casa junto ao mar………………..quero-te
assim se chamava assim se chamava:

“quero-te da mesma forma que me quero na mais pura realidade
sem a presunção de aliviar todas as chuvas e tempestades
pousar os trovões como folhas navegáveis no espelho prateado
quero-te e quero-te na síntese forte do poema
o grão de ouro a película mágica imune a toda a realidade

porque a realidade dói como uma lança
enche-nos de medo torna as almas pesadas
provoca dos mares a revolta causa naufrágios.

bem sei a realidade é um farol decapitado
do qual nunca se desiste ao imaginar o cais
e as memórias são letras de páginas encostadas
na grande biblioteca das surpresas
descobertas descobertas
como quando na praia roubamos as areias
a escoar por entre os dedos a escoar por entre os dedos
e entre as levas aquela mais larga mais única
mais branca mais raiada que nos prende
reassumindo a importância
ali à nossa frente apesar de tão gasta
a memória do passado
uma imagem, uma imagem que fala
tremendo tremendo em traços unidos e ruídos desfocados
uma imagem uma imagem que fala
mas que não existe e já não é realidade -“

pensava pensava
escrito há muito tempo naquela casa naquela casa
escoando memórias como areias
lentamente lentamente há muito tempo
antes da hora da coincidência naquela rua da cidade
escrito há muito tempo
junto ao mar -

e permanecia na circunstância
de ter vozes caladas...............vozes caladas
repetidas………… repetidas…………….......... repetidas
dentro da cabeça…………………..dentro da cabeça
repetidas…………………………………..repetidas
(quero-te………………………………........quero-te)
(quero-te da mesma forma que me quero
na mais pura realidade -)

e ainda as outras vozes de um coro grego
dentro da cabeça.......dentro da cabeça:

“é pouco provável só a chuva de maná
e não há só universos plácidos
a realidade é feita de acertos e reticências
nos passos definitivos que são e acontecem
caminhos caminhos
os mesmos caminhos em que o cérebro cresce
aumenta a sinapse e se torna ágil -


toda a realidade é um tempo adiado
de uma outra realidade - “

não era já tarde..........nem altas horas da madrugada
caminhava caminhava caminhava




José Ferreira 15 Fev 2011

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Uma carta no dia dos namorados


(imagem em www.irisquilts.com)


Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação ;
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

Nuno Júdice “Poesia Reunida”

domingo, 13 de fevereiro de 2011

sabes


Marc Chagall

sabes ………….lembro-me desde a primeira hora
o lugar enorme dos olhos, as similitudes da alma
muito caladas dentro da cabeça……..dentro…..dentro
as vozes de um e do outro lado
gémeas, gémeas gemas de circunstâncias, limbos abertos
pétalas azuis de aromas incertos
no silêncio dos lábios..........de um e do outro lado
de um e de outro lado -

José Ferreira 13 Fev 2011