terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Alexandre Bloom



Alexandre Bloom é um grande coleccionador de despedidas. Começou por sentir um prazer rasante, porém incerto, perto da palavra adeus no dia 23 de Outubro de 1955, enquanto se despedia do senhor da loja de ferragens epónima – Augusto Kunh –, onde costumava entrar regularmente, apenas para pousar os cotovelos no balcão de madeira e sentir, com os dedos polegar e indicador unidos, aquilo que ele acreditava ser o idioma débil do serrim.
Nesse dia, contudo, ao despedir-se tranquilamente do senhor Augusto Kunh como de costume, Alexandre Bloom sentiu o tal formigueiro nas imediações da palavra adeus mal a proferiu, como se de dentro da palavra adeus chegassem agora aos seus ouvidos os ruídos abafados de uma festa semi-clandestina, como se as portas blindadas da palavra adeus não fossem suficientes para insonorizar o barulho ensurdecedor dessa festa, para a qual – propôs Bloom – todos os convidados deveriam atender ao dress code e levar vestido alguma peça de roupa trágica e imaterial.
Apesar de todos os esforços para entrar na festa que se prolongou durante toda a noite de 23 para 24 de Outubro de 1955 na palavra adeus, Alexandre Bloom nunca conseguiu distinguir muito bem de onde é que vinha o tal barulho e acabou por não encontrar a entrada de emergência da festa, embora tivesse ao longe ouvido os distúrbios causados pela música alta dentro do seu desejo de a possuir.
No dia seguinte, Bloom voltou à loja de ferragens de Kunh só para poder despedir-se dele (“Olá, Senhor Kuhn; adeus, Senhor Kuhn”) e, com isso, accionar a festa (para a qual nunca resgatou nenhuma possibilidade de convite), e deixou definitivamente de lado a história do serrim.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

HOMEM NO ARAME - POEMA - SYLVIA BEIRUTE

















HOMEM NO ARAME

O essencial é delinear movimentos no céu. Movimentos
tão silenciosos que não deixem traço. O mais importante é a simplicidade.
É por isso que o longo caminho para a perfeição é horizontal.
..............Philippe Petit

e ele tenta incomodar a inexistência.
o nada lá em baixo. o ninguém de tempo
solto e explicações ofídicas.
a pessoa certa está por cima das nuvens.
como se se pusesse longe.
como se escondesse o medo.
como se se escondesse do medo.
e o arame da voz nos pés. o arame da voz
é agora cada coisa, cada janela aberta para
um sono de letras que desorbita
o queixo do mundo. o queixo
na forma de uma desforma do mundo
que lê marx e leminski, conhece
antíteses terapêuticas, predomínios
estranhos no desejo de um corpo de lugares.
e ele continua connosco. philippe
petit entre as torres gémeas, incomodando
a inexistência, sorrindo sobre a saudação
do coro, escamas de palavras que o orgulham
e cegam.

Sylvia Beirute
publicado no blogue "uma casa em beirute"
.

microgramas de azul sobre o frio - um poema de natal


Fotografia retirada da internet


o oceano azul e o céu azul.
procuro olhar a definição da cor que dizem fria
a cor que não tem tempo para a boca dos humanos
os que inventaram a escrita

procuro olhar a cor máxima de infinitos
o plâncton dos mares as nuvens na planície
a cor calma e pacífica
apesar da guerra dor e fome
e como mata a fome e como corta a fome
sem privilégios de natal todos os dias

procuro olhar o azul do burburinho
as canções que ressuscitam Lennon
e a anarquia dos sentidos
os coros angelinos nas vestes brancas
as iluminadas ruas da crise
procuro olhar todos os olhos
que apesar de alegres, tristes

procuro olhar o azul, a cor preferida
o lugar magnífico da utopia

e não interessa, não interessa mesmo
se é de anjo ou de bandido
a mão que traz o pão
que tira a fome
que tira a dor
que tira o céu escuro
no segundo mais importante do alívio

ética, demagogia, democracia
uma fila ordenada de filosofias
palavras, apenas palavras para um estômago vazio
sem a estrela iluminada, sem os reis magos
migalhas mínimas, um pó de sonhos

e algumas microgramas sobre o frio
no futuro dos dias -

domingo, 19 de dezembro de 2010

Miguel Torga - Um conto de natal


Hiro Yamagata "A fogueira na neve" 1983


De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis para se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe de mais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser – e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam... Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções são que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim... Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.

E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse de outra maneira. Muito embora trouxesse dez reis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe na cabeça consoar à manjedoira nativa... E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza.

Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra de um borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura... Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta passava das quatro. E, como anoitecia cedo não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo... Areias, queriam dizer. Importava-se lá.

E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa...

Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!

Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.

Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento, ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.

Vá lá! Do mal, o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.

Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois de um clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos é que não.

Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.

Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao céu por aquela ajuda, olhou o altar.

Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe. Boas festas! — desejou-lhe então, a sorrir também. Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.

Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?

Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda. É servida?

A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.

E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.

— Consoamos aqui os três — disse, com a pureza e a ironia de um patriarca. — A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.

Miguel Torga

sábado, 18 de dezembro de 2010

a asa o anjo um remo sem barco - um poema de natal


Henri Cartier-Bresson


sabes, não posso esquecer os anjos
suaves, como os céus desconhecidos
onde planam límpidos -

eram cinco horas da tarde e a sombra acinzentava
a claridade dos basaltos.
muitas eram , muitos eram e em muitos passos
na feira de utilidades.
usava aqueles óculos de tartaruga de muitos anos
de lentes castanhas e passeava sozinho
com a calma de ser sábado.

muitos ombros, muitos olhares
entre os foles das máquinas, as canetas de aparo
os livros já antigos, e até um cachimbo
na sua pose sentada de um remo sem barco.

um intervalo, sim um intervalo, porque fruto do acaso
apenas passava da mesma forma que um certo vento
e a luz de uma sirene azul, à frente
naquele lugar, que se tornava livre e convidava
a um intervalo, um intervalo por acaso
como aquela asa por acaso
uma simples asa de barro, frágil, sem o esmaltado.

ainda perguntei, mas ninguém… limitavam o passo
e mesmo sem compreender, avançavam
avançavam como relógios cronometrados.

a asa branca com aqueles redondos de um lado
na forma de boomerang, a asa.
perdi-me no instante poético de um sinal
um símbolo, a época especial
uma asa, uma asa de um anjo
de lá de cima.

comovi-me com a imagem, um anjo no ar suspenso
deixando cair espírito para se tornar no pequeno barro
e sabes, se naquele momento por ali passasses
colocaria uma mão aberta sobre o teu rosto
e com o outro braço em forma de asa
assim de repente, abraçava-te -

depois passeava os dedos pelos teus cabelos
assim abertos, assim separados
e voltava ao rosto suave com a palma
e sem mais nada, mesmo sem palavras
abraçava-te, abraçava-te -

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Nota 4



Marc Chagall "Promenade"

Se tu amas por causa da beleza, então não me ames!
Ama o Sol que tem cabelos doirados!

Se tu amas por causa da juventude, então não me ames!
Ama a Primavera que fica nova todos os anos!

Se tu amas por causa dos tesouros, então não me ames!
Ama a Mulher do Mar: ela tem muitas pérolas claras!

Se tu amas por causa da inteligência, então não me
ames!
Ama Isaac Newton: ele escreveu os Princípios Matemáticos da Filosofia Natural!

Mas se tu amas por causa do amor, então sim, ama-me!
Ama-me sempre: amo-te para sempre!

Adília Lopes

sabes


Renée Magritte


sabes, não pretendo ser chato
nem bordar todos os dias as malhas gasosas
a filosofia, aquela procura infinita
a realidade de nada ser e uma possibilidade de
um dia, algum dia, fazer parte de uma alínea
de um tratado de fórmulas científicas
se y igual a n e x variável dentro de z .

mas sabes, não pretendo ser chato
andar de roda de um círculo
e dizer que, tudo de novo, nada é
daquilo que podia ter sido
e sendo assim, será diferente, do mesmo
do mesmo de outro dia.

sabes, não pretendo ser chato
portanto, pouso os versos no prato
tempero, corto, recorto, e acrescento
depois aprecio o aspecto de um instante
deixo arrefecer, de quentes vapores
e protejo, com película aderente -

ah, não pretendo ser chato
mas, como sabes, os versos, são setas
impacientes, e sinto a dúvida se depois de frios
o efeito, mesmo o sentido… ponho-me a pensar…
e cai-me em cima o Platão, de vestes brancas
e a caverna, a luz, o perigo das sombras
a alegoria -

e lá volta de novo a filosofia -

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A Perenidade das vírgula - JLP e Saramago


Fotografia retirada da internet


Procuro o que aprendi entre o que sei.

Conheci José Saramago em Outubro de 2001 no instante em que recebi o prémio com o seu nome. Ele era um homem mais alto do que imaginava. Eu tinha comprado um fato e uma gravata para a ocasião e, no mês anterior, tinha feito vinte e sete anos. Tirámos fotografias juntos, jantámos. As imagens que guardo desse dia misturam-se umas com as outras, confundo-me ao recordar esse dia. Sei que, mais tarde, à noite, ainda de fato, fiquei sentado no meu carro a tentar organizar na cabeça o que me tinha acontecido. Dois dias depois, estava na Feira do Livro de Frankfurt.

Ao longo destes nove anos, tive muita oportunidade de conversar com José Saramago. Encontrámo-nos em vários lugares do mundo, onde ele era sempre seguido por multidões, e encontrámo-nos em Portugal, em momentos escolhidos por ele. Em 2003, num programa de televisão em que estivemos juntos, para toda a gente ouvir, disse muito daquilo que, então, me dizia. No dia em que foram assinados os papéis da Fundação José Saramago, na sua casa de Lisboa, em 2007, só para eu ouvir, chamou-me à parte e disse-me palavras que não esqueço sobre aquilo que escrevia. Creio que fui capaz de, à minha maneira, aprender essas palavras.

Em Dezembro de 2008, recebi um convite para participar numa celebração do décimo aniversário do seu Prémio Nobel. Pediram-me que lesse um excerto da obra de Soeiro Pereira Gomes. Eu, numa homenagem ao José Saramago, a ler Soeiro Pereira Gomes, como poderia recusar? Escolhi uma parte do final de Esteiros. Depois, quando encontrámos tempo para conversar, disse-lhe: havemos de estar aqui, daqui a dez anos, a celebrar o vigésimo aniversário do Nobel. Ele, que tinha ultrapassado problemas graves de saúde, sorriu-me.

Para além destes encontros mais formais, os fatos que eu usava às vezes e que ele usava quase sempre, guardo outros. São meus. Os nossos encontros eram salpicados no tempo e, como vírgulas, pontuavam qualquer coisa. Passaram dez anos sobre a data em que publiquei o meu primeiro livro e agora, neste momento, parece-me que esses encontros com José Saramago foram pilares invisíveis desse tempo. Há os livros, os deles e os meus. Não falo nem de uns nem de outros porque esses não se perderam, continuam onde sempre estiveram. O que se perdeu foi um homem que respirava pensamentos. O que não se perdeu e não se perde é o que fomos capazes de aprender com ele, o que continuamos a saber.

José Luís Peixoto
(Publicado na revista Ler, em Julho de 2010)

Garras dos sentidos - a ironia e o desafio de Agustina


Fotografia retirada da internet


Não quero cantar amores,
Amores são passos perdidos.
São frios raios solares,
Verdes garras dos sentidos.

São cavalos corredores
Com asas de ferro e chumbo,
Caídos nas águas fundas.
Não quero cantar amores.

paraísos proibidos,
contentamentos injustos,
Feliz adversidade,
Amores são passos perdidos.

São demência dos olhares,
Alegre festa de pranto,
São furor obediente,
São frios raios solares.

Da má sorte defendidos
Os homens de bom juízo
Têm nas mãos prodigiosas
Verdes garras dos sentidos.

Não quero cantar amores
Nem falar dos seus motivos.

Agustina Bessa-Luís

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

o sol de inverno


Edward Hooper "Gente ao sol" 1960


os raios brotam como ramos doces, objectivos.
de poucas folhas sobre o rosto
abrem o momento esperado de um calor
um abraço indirecto, um xaile transparente
que anima o quadro de uma rua em movimento.
suave e invisível afecto, por sobre a testa
dedos de ar sobre os ombros, um puxar de orelhas risonho
um círculo quente na roda de uma maçã ascendente
à volta do queixo branco e de pontos minúsculos
cinzentos -

o sol de inverno tem o não lugar, a existência sem ser vida
assim como aquela montra tem revistas
aquela porta é alta e azul, e a igreja está fechada -

o sol de inverno é absoluto no paradigma, de transcendência.
em cada mícron do segundo tem, em todos e ao mesmo tempo
o grão puro do espírito que atravessa o espaço e domina o mundo

o sol de inverno passeia pela rua e não comunica
nem precisa -

Reportagem


Egon Schiele " A pequena cidade" 1916

Aborrecido, passeio
Pelas ruas da cidade.
Deixei agora o Rossio
E atravesso o Borratém.
Deu meia-noite pausada
No Carmo. Um amigo meu
Passa e tira-me o chapéu.
Paro a uma esquina. Esmoreço
Numa saudade que surge
Dentro de mim não sei como:
Uma saudade infinita,
Misto de choro e revolta.
Alguém me chama no escuro:
Volto a cabeça. A uma porta
Um vulto mexe. - Sou eu!,
Não fuja, sou eu... - Mas quem?
Retrocedo, não conheço
A mulher que me chamou.
Na verdade ninguém ouve,
Ninguém distingue o apelo
Do amor que anda perdido
No mistério de mentir:
Deixo-a ficar onde estava;
Dou-lhe um cigarro e um sorriso
Dizendo que vou dormir.
Atira-me boa-noite
Num frio olhar de ofendida.
Meto à rua do Amparo
A perguntar se esta vida
Não terá finalidade
Menos sórdida e banal?
Atafonas. Uma Igreja.
Mais acima o Hospital.
Um marinheiro propõe
A esta que atravessou
A rua do Benformoso
Irem tomar qualquer coisa
Na Leitaria da Guia.
Ela pára. É uma catraia
Que talvez não tenha ainda
Dezasseis anos. Bonita.
Devagar vou-me chegando
Xaile, uma blusa, uma saia...
E oiço a fala dos dois.
Ele parece uma onda,
Impetuoso, alagante.
Ela é um breve bandó
Num corpito provocante.
E seguem... Ele, encostado,
Muito encostado e aquecido
Lá vai como se encontrasse
Um objecto perdido
Que foi milagre encontrá-lo...
Cortaram além!... E param?
Oiço o rebate de um estalo
E um grito subtil de prece
Amedrontada na fuga...
Desço ao Marquês do Alegrete.
Um candeeiro sinistro
Numa casa que se aluga...
Vejo um polícia. Arrefece.
Um grupo de três sujeitos
Discute o vinho de Torres.
Varrem as ruas. Um gato
Bebe água numa sarjeta;
Uma carroça parou
Carregada de hortaliça
Junto à Praça da Figueira.
Corto a rua dos Fanqueiros
Já um pouco estropiado...
Acendo um cigarro. A noite
Lembra um fantasma assustado...
Chego ao Terreiro do Paço.
O arco da rua Augusta
Parece mais imponente
Na minha desolação...
Vou até ao cais. Em baixo
O rio bate sem reacção...
A maré vasa. No céu,
Vão-se apagando as estrelas.
Um guarda-fiscal dormita
Na guarita, mas de pé.
Um velhote com um cesto
E uma lata vem dizer-me
Se eu quero beber café.
Num banco de pedra. Cismo.
E ali me fico a cismar
Em coisa nenhuma... O dia
Principia a querer ser
Mais um passo na incerteza
Das nossas aspirações...
As águas do rio a escutar
Parecem adormecidas...
E o dia nasce! Vem triste,
Nublado, fosco, cinzento,
Enquanto pela cidade
A vida acorda e desata
O matinal movimento

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

de que forma se pode lançar uma semente


Robert Doisneau


de que forma se pode lançar uma semente
para que cresça, sem a intempérie do tempo?

pelo amanhecer longínquo colhi um ramo de pinheiro
manso, de pequenas agulhas, verdes de um rosto
brancas no outro. O aroma era imenso
não doce nem sidra de acidulada fruta
mas uma permanência suave de uma floresta
distante e escondida.

pelo amanhecer longínquo colhi um ramo de eucalipto
não o de folhas compridas e largas fazendo lembrar espadas
mas um outro, de redondas e pequenas, simples círculos.
também o aroma era pleno, mais ácido e penetrante;
os pulmões frescos subiam a âncora, desciam o rio
na impulsão inquestionável do perigo, a rugosidade
áspera no leito liso, tão difícil de descobrir.

pelo amanhecer longínquo, julgo que foi em Abril
subi a encosta íngreme para encontrar a proximidade do azul
o lugar para lá das nuvens onde dormiam as palavras aves
lançadas ainda mal acordadas sobre o abismo
onde o ar era muito
e sendo assim, talvez abrindo as asas
no inato, nos genes adquiridos, sobreviventes
vivas como os cronómetros infinitos.

pelo amanhecer longínquo acordei numa praia
como um sonho inacabado, de chinelos e pijama às riscas
lembrando tudo, o pinheiro manso, as folhas de eucalipto
o barco deslizante, a montanha
as palavras aves sobrevoando indefinidas -

e um mar, um mar na sua constância de sal
qual mistura ácida na substância alcalina
perguntando sempre, à leveza das ondas
à sua dimensão mais branca, de que forma?

de que forma se pode lançar uma semente
para que cresça, sem a intempérie do tempo?

Quero definir-te o que é este sentimento


Charles Dermuth "Love" 1928


Quero definir-te o que é este sentimento:
o que pertence à esfera daquilo que a razão
não domina, ou simplesmente nasce da noite,
e de tudo o que a envolve. Falo de uma
íntima relação entre os seres, de emoções
que se transmitem para além de palavras e
conceitos, de um encontro de corpos na
esfera do segredo. Dir-me-ás: "Para que
precisas de uma explicação para o amor?"
Mas é a sua inutilidade que me interessa;
a dádiva, o simples dizer que as coisas são
assim porque são, e para além disso tudo
se complica. Podes, então, rir do que te
digo; ou simplesmente dizer-me que as
palavras nada substituem, e que tudo o que
elas nos dão está a mais. Mas o amor
pertence-nos. Não o podemos deitar fora;
nem fingir que não existe, como não existe
o infinito, a transcendência, a abstracção
divina, para quem só crê no concreto. É
verdade que o amor não se vê: o que vejo
são os teus olhos, a ternura súbita das
suas pálpebras, e o que elas abrem e
escondem numa hesitação de luz. Eis, então,
o que define este sentimento: um intervalo,
uma distracção do tempo, a divina abstracção
do infinito na transcendência do real.



Nuno Júdice

domingo, 12 de dezembro de 2010

Sabina Fields



Não é fácil falar de Sabina Fields. Ela apareceu numa manhã de Inverno de 1997. E a partir desse dia não mais descansou. Sabina é, de facto, um fantasma muito influente, talvez mesmo um dos meus melhores fantasmas, se exceptuarmos todos aqueles que se instituíram.
Lembro-me perfeitamente da noite desta fotografia: era uma noite varrida pelas intermitências da chuva fina que caia diante de uma luz mesquinha e incongruente, uma noite onde o nevoeiro tinha descido mais cedo sobre a cidade parcialmente abduzida, como se o tempo tivesse sido contratado por amantes ou assassinos, que ofuscassem a ordem com as costas das mãos da sua lei. A lua tinha o perfume das antevésperas e a tua pele cantava o seu retrato contíguo. Sabina sabia que vestia um vestido preto, muito curto, e que o vestido se afeiçoava aos seus contornos como ninguém, e que os seus contornos mordiam os meus olhos como serpentes sem paz nem domicílio, e que o seu corpo branco e indigno era como a mais bela nação inimiga de sempre, e que a sua ágil rendição de leite vulcânico, luvas negras e boquilha longínqua, não tinha tradução na minha língua tradicional, veiculados já os sinais exteriores de infecção e riqueza, como que para perturbar todos os emblemas terrestres, dir-se-ia mesmo para desmembrar todas as antigas rotinas e feitorias, na sua mais tenra espessura trágica e experiente.
A fotografia marca um momento em que, logo depois de descalça e levemente meditativa, Sabina acende um cigarro na ponta longínqua da sua boquilha e olha com a obliquidade máxima dos seus olhos para mim, que a pretendo convencer para a eternidade do meu erro. Tínhamos feito amor pela primeira vez, depois de termos seguido todas as pistas que nos obrigaram até ali: e ali era o seu quarto confortável e descortês, as suas próprias pistas, restos de preservativos que falharam por segundos ou milímetros ou mistério, elementos básicos de cenografia, curiosidades, pequenos detritos, e a pose mimética do gato Azahar, que parecia actuar mais como uma peça do mobiliário ambíguo do que como uma fonte fechada de perspicácia moderna.
Tinha 22 anos. E o vírus de Sabina Fields.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Liu Xiaobo - Não tenho inimigos



NÃO TENHO INIMIGOS: A MINHA ÚLTIMA DECLARAÇÃO
(EXCERTO)

cumpro a minha sentença numa prisão tangível, enquanto tu esperas na prisão intangível do coração. o teu amor é a luz do sol que salta os altos muros e penetra as barras de ferro da janela da minha prisão, golpeando cada milímetro da minha pele, aquecendo todas as células do meu corpo, permitindo-me sempre manter a paz, a franqueza, o brilho no coração, e encher de significado cada minuto do meu tempo. o meu amor por ti, por outro lado, é tão cheio de remorsos e lamentos que me fez cambalear perante o seu peso. eu sou uma pedra insensata no deserto, chicoteada pelo vento violento e chuva torrencial tão fria que ninguém se atreve a tocar-me. mas o meu amor é sólido e afiado, capaz de perfurar qualquer obstáculo. e mesmo que eu fosse esmagado e me tornasse pó, eu ainda usaria as minhas cinzas para te abraçar.
.
Liu Xiaobo
tradução de Pedro Calouste

Retirei este excerto do blog da Sylvia Beirute (http://sylviabeirute.blogspot.com/2010/12/liu-xiaobo-poemas-poesia-analise.html#comment-form)no qual se pode também ler, um magnífico artigo e vários poemas do actual Prémio Nobel da Paz.