domingo, 28 de novembro de 2010

Foz do Tejo, um país


Pollock "Blue" 1943

O rio não dialoga senão pela alma
de quem o olha e embebeu a sua alma
de olhares ribeirinhos no passado
ou à flor do pensamento no futuro.

É um país que fala dentro da fronte,
olhando as naus, navios, barcos pesqueiros
e o trilho das famintas aves pintoras
de riscos negros, que perseguem o odor
das redes cheias, as outrossim poéticas
familiares gaivotas. É uma costa inteira
de imagens de gaivotas dentro dos olhos.
São bocas a pensar razões da vida,
gargantas já caladas pela nascença e morte,
quando entre si se vêem ou juntas olham
o mar dos seus próprios dias. São cabeças
velhas de labutar, entre dentes cerrados,
as palavras mudas de um ofício no mar,
antigas de silêncio, como se no esófago
guardassem há muito a sabedoria de ir
enfrentar o mar, transpor o mar, estar.

Tal como um rio o mar só quer falar
pela dor e alegria de alma com que o chama,
há séculos na orla, um povo mudo,
com as palavras presas, guturais sem fôlego,
dentro de si, tão firmes no palato, articuladas
na língua interior. E o mar é quieto ou bravo,
e a alma tensa de uma paixão secreta,
escondida atrás da boca, e sempre aberta,
tal como as pálpebras diante desta água.

Só a alma sabe falar com o mar,
depois de chamar a si o Rio, no imo
de cada um, recordações, de todos
os que cumprem na linha da costa o seu destino.
O de crianças, berços nascidos à beira-mar,
aleitadas por água marinha bebida por rebanhos,
alimentadas por frutos regados pela bruma.
Mesmo quando petroleiros, se olharmos o mar,
passam sem som na glote, para nós mesmos dizemos
que o tempo já findou das caravelas outrora
e dentro do nosso sangue passa o tempo de agora.

Também as vacinas, fenícias áfonas no poema
que as canta, sabem as formas, pelo olhar,
de serem mulheres com peixes à cabeça.
E os pregões que eu calo, revendo-as, eram outra
língua do mar, os nomes com que nos chamam
para o seu modo de levar entre as casas o mar.
Mas as dores não as ecoa o mar, nem mesmo
as de poetas, só as pancadas das palavras
no encéfalo parecem ser voz do mar.

É uma nação única de memórias do mar,
que não responde senão em nós. Glórias, misérias,
que guardámos por detrás do olhar lírico
e da língua, a silabar dentro da boca.
Nunca chamámos o mar nem ele nos chama
mas está-nos no palato como estigma.

FIAMA HASSE PAIS BRANDÃO

sábado, 27 de novembro de 2010

Theatrum Anatomicum




Feliz nunca é bem o termo.
Nada nunca é bem o termo, é certo,
mas feliz, menos ainda.

E é por isso que eu tenho a certeza
que o mais pequeno país do mundo
é não ser feliz
- e querer ser feliz, ainda,

é a grande moda deste Inverno,
assim como as flores que nascem
um pouco loucas na boca do pugilista,
fruto das suas gengivas sensíveis
e da face menos visível do escudo
onde está gravado o brasão
da sua falta de reservas

porque mesmo que as nossas raízes
pesem o dobro dos advérbios

é preciso pintar o mundo com clorofórmio verde
e assistir, sem hesitação, da tribuna
à autópsia de um desequilíbrio.

recusaste todas as pétalas


Alexandre Solar "Axende en curvas mi flama hasta el sol" 1922

recusaste todas as pétalas
todas as telas pintadas no bico das aves.
mas devo dizer-te, que apesar do uso habitual do silêncio
hoje não há força que segure os lábios. não há lei alguma.
acredito em todos os deuses e deusas com a pele à mostra
que nos habitam a alma
que nos colocam do outro lado do espelho
em profundo espanto pela barba mal cortada e uma pinga de sangue
uma gargalhada, pelos cabelos demasiado curtos, demasiado longos.
há aqueles que nos magoam, mas não são indiferentes
importam-se, porque o tempo voa -

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

a morte do homem

o corpo foi encontrado pouco depois do nascer do sol. mal coberto pela folhagem, costas no chão, braços estendidos ao longo do tronco, mãos voltadas para cima em abandono. não havia no rosto sinais de sofrimento e os olhos estavam fechados. o exame preliminar apontava para um suicídio por desistência mas alguém deu conta que faltava um sapato. o mesmo alguém que, passados minutos, fez rodar o cadáver e encontrou, junto à nuca da vítima, o microscópico orifício por onde lhe haviam retirado a humanidade.

.
r.
quinze.outubro.doismiledez
.

o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias


Di Chirico " A luva vermelha" 1958

o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto.
era a tua pele. antes de te conhecer, existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.

José Luís Peixoto

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

o poeta é uma construção aglomerada


Alejandro Solar "Almas de Egipto" 1923


um a um e em cada casa, o tijolo faz parte
de uma construção aglomerada: trabalho, cimento e ferro.
o poeta não esquece a casa, o pó material
as chuvas rotineiras, as linhas tortas da realidade.
o poeta não é nenhum astronauta na abóbada umbilical.

os poetas são “obscuros” e são “claros”
porque não acreditam em tudo e muitas das vezes
não acreditam em nada
esvaziam a campânula até à extremidade
um vazio quântico, até ao big-bang.
colocam os joelhos como cotovelos dos olhos
as pernas como bengalas e sobem estradas, encostas pesadas
de sombras vagas, oblíquas , indomáveis.

os poetas precisam atentar, não se trata de procurar ilhas
inferir de certezas, habitar em Marte.
na lógica dos poetas, as cidades podem ser campos
e os campos ter prédios altos. estranhos personagens.
conversam também com os lagos, as árvores e os pássaros
e são famosas as análises com as pedras interessadas.

mas, os poetas, recusam o ecrã da dupla realidade:
um perante o outro, outro perante a alma.
desta forma, cortam-se em pedaços
tentam da maneira mais áspera, a transcendência;
conhecimento e conhecer-se, na árdua tarefa
de ser apenas legível, a pequena percentagem.

o poeta é aglomerado, como arma usa a metáfora.
a metáfora é um olhar com fome -

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A casa e o mundo


Portal da casa de Osíris 1250 a.c. (Museu Britânico)

Aquilo que às vezes parece
um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.

Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.

Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirinéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.

Luzindo cheguei à porta.
Interrompo os objetos de família, atiro-lhes
a porta.
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.

Um espelho verde de face oval
é que parece uma lata de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago
no fígado, nos rins, nos tecidos sanguíneos.

É a casa do mundo:
desaparece em seguida.


Luiza Neto Jorge ""O seu a seu tempo" Assírio & Alvim 2001

quando o heterónimo fala ergue-se a grande muralha


Gwen John 1909

quando o heterónimo fala ergue-se a grande muralha.
em Londres o relógio ensurdecedor
enlouquece o tempo das palavras.
tontas caem como pedaços de tábuas
restos de um naufrágio, flutuando pelas margens.
do cimo da Tower Bridge, com muito cuidado
reúnem-se de uma outra forma, as palavras
mais lavadas, mais seguras, melhor orientadas
pelos raios do sol, por Hiparco e o astrolábio

e de novo unidas nas cordas dos braços
renascem as metáforas e a viagem da jangada -

terça-feira, 23 de novembro de 2010

os meus pés eram bonitos



fotografia retirada da internet

os meus pés eram bonitos
apeteceu-me saltar-lhe
para os braços, mas
em vez disso, observei-a
não sem admiração
desconhecia que havia tantas
limas para a mesma ocasião
no fim, recusei pagar-lhe pois
o que ela havia dito
não tinha preço
falando, tirou-me uns calos que
há séculos me atormentavam


(aliás, as palavras são de graça
quanto mais beleza
a ninguém pertencem
a ninguém cabe vendê-las)

Bénédicte Houart "Aluimentos" Ed. Cotovia

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

um poema escrito no céu


Paul Klee




não sossega a luz de cor rubra. escurece.
surge a névoa. uma toalha sobre a mesa
quando a noite, escondida, é das estrelas;
lugar azul de mãos abertas .
anjos de lua abrem linhas nítidas
em vidros de gelatina, ombros divinos
lábios sobre as brumas
leis subidas de poesia -

perdem-se os medos por esses dedos siderais
reflexos de astros, espelhos de veludo
almas de mercúrio
flectindo em ondas célebres de chama
os ventos sibilantes, ínvios, ínvios
ínvios e marginais -

domingo, 21 de novembro de 2010

Arquipélago dos Falsários




A tentação banha os falsários. São três da manhã, uma hora suficientemente desonesta, mas às portas de tudo aquilo que nos é propício. Há sempre tempo, muito mais tempo às três da manhã (do que às duas, à uma, à meia-noite, etc.) num lugar onde a insignificância é posta à prova pela profissão intransigente e ofegante da vertigem: um quarto, por exemplo, barca inesgotável e multímoda, pira de detractores e omissos, sempre a primeira edição de um exemplar da História Universal da cobiça, com todas as suas páginas amareladas pelo vício, janelas e símbolos abertos para a cidade mortal.

Três horas antes precisamente, num bar, a vertigem apresentou-se ao piano como vendedora de destinos postiços, com serpentes como efeitos indomáveis nos cabelos molhados da chuva que já caía há dias e a indisciplina como um sal imaturo e munido de expectativas e castiçais; a origem aparecia-lhes em sonhos, a origem e a sua triste e louca dentição que iluminava a ofensa com o foco na oferta de uma noite diferente, divertida, numa grande cidade, onde a única coisa que fazemos bem (e às vezes nem isso) é cair e, por vezes, até por isso, equipar a ausência com um sistema de navegação oscular.

Suponhamos que se trata de um arquipélago (duas ilhas),
o arquipélago dos falsários, banhado pela tentação
(um excelente hermafrodita),
que capital servirá a república insular dos falsários?
onde ficará a assembeia provisória dos indecisos?
Perguntas pertinentes e a última, mesmo, voraz. Ligo o computador e visito a página da embaixada do Amor no Arquipélago dos Falsários, concorro a um anúncio para tradutor da embaixada e fico imediatamente nos quadros da empresa. Sorte ou Benefício?
Acham que eu falo e escrevo e domino muito bem,
quer o idioma de Amor, quer o de Falsários.
Pediram-me apenas que fizesse uma radiografia ao meu destino
e análises ao sangue da intuição.

Eu respondi-lhes que um beijo é sempre bilingue.
Não há anjos 100 % íngremes,
pássaros com uma só asa,
valores ciclópicos
como um poema
ou uma erecção.

sábado, 20 de novembro de 2010

Canção do charme


Ricanor Piñole "Alegoria das artes" 1929

Querida vem junto de mim
Esta noite quero cantar
Uma canção para ti

Uma canção sem lágrimas
Uma canção ligeira
Uma canção de charme

O charme das manhãs
Envolvidas em bruma
Em que valsam coelhos

O charme dos pântanos
Onde alegres crianças louras
Pescam crocodilos

O charme dos prados
Que se ceifam no Verão
Para podermos rebolar-nos

O charme das colheres
Que rapam os pratos
E a sopa de olhos claros

O charme do ovo cozido
Que permitiu a Colombo
O truque mais luzido

O charme das virtudes
Que dão ao pecado
O gosto do proibido

Podia ter-te cantado
Uma canção de carvalho
De ulmeiro ou de choupo

Uma canção de plátano
Uma canção de teca
De rimas mais duráveis

Mas sem ruído nem alarme
Preferi experimentar
Esta canção de charme

Charme do velho notário
Que no estúdio austero
Denuncia o falsário

Ou o charme da chuva
Escorrendo gotas de ouro
Sobre o cobre do leito

Charme do teu coração
Que vejo junto ao meu
Quando penso no bem-estar

Ou o charme dos sóis
Que giram sempre em volta
De horizontes vermelhos

E o charme dos dias
Apagados da nossa vida
Pela goma das noites

Boris Vian, in "Canções e Poemas"

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A um jovem poeta



Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.

Manuel António Pina, in "Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança"

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A cabeça em ambulância


Miguel Bagur "Eva"

Há feridas cíclicas há violentos voos
dentro de câmaras de ar curvas
feridas que se pensam de noite
e rebentam pela manhã

ou que de noite se abrem
e pela amanhã são pensadas
com todos os pensamentos
que os órgãos são hábeis
em inventar como pensos

ligaduras capacetes
sacramentos
com que se prende a cabeça
quando ela se nos afasta

quando ela nos pressente
em síncope ou desnudamento
ou num erro mais espaçoso
ou numa letra mais muda
ou na sala de tortura
na sala escura,de infância



Luiza Neto Jorge "Poesia" Assírio & Alvim

Pensarás no homem dos teus sonhos

Continuo a pensar que não sei se é mau ou bom conhecermo-nos tão pouco. A verdade é que não sabemos nada um do outro. Por um lado é agradável porque assim não se rompe o mistério e continuamos a ser aqueles dois desconhecidos que se encontraram em Vila Praia de Âncora, no verão em que aprendemos que nada é mais poético do que o segredo de um olhar cúmplice e silencioso; por outro lado não podemos ignorar o que os dois de antemão sabemos. Se nos tivéssemos conhecido melhor talvez eu não fosse aquela menina tímida e displicentemente ingénua, nem tu o cavalheiro perfeito e encantador que eu vi pela primeira vez numa praia atlântica. Quem sabe se não será melhor continuar tudo assim, na distância, ainda que em dias melancólicos pareça que me sinto a calcar o mesmo areal límpido e fresco, como se a praia da pequena vila corresse pelo mundo fora e estendesse as pedrinhas mais brilhantes (aquelas que procuravas com as mãos quando da tua boca não saiam palavras), até a porta de tua casa.

Não sei se haverá um dia de todos os que teremos no qual nos possamos encontrar novamente. Também aqui é melhor as coisas ficarem como estão. Gosto de saber que este é o maior sonho da minha vida, ver o teu rosto, abraçar-te, saber de ti. Gosto de imaginar que este sonho condiz comigo por ser simples e grande, por se bastar a si mesmo e ter como sonho um caminho a percorrer.

Não te podia dizer nunca que és o homem da minha vida. Sou avessa a esse tipo de conclusões, como se quando um coração despertasse o fechassem logo, para sempre, numa caixa de sapatos. Mas tenho a lembrança dos contos de fadas que outrora me sossegavam, da menina que fui, dos passeios de pés descalços, dos presentes que abri e guardei, do que era o mar até um dia e noutro dia passar a ser outra coisa. Tenho a memória. E nela o medo de ter guardado na caixa de sapatos sem nunca abrir, o que trouxeste no dia que descobri que no fundo do mar não vivem só peixes e plâncton. E se da caixa de sapatos já nada teu pode sair, sou eu que tenho que entrar e fechar-me nela para resgatar os passos na praia, as ondas do mar, as pedras salgadas que distraidamente escolhias como uma criança solene. O teu amigo dizia que era um género de cerimónia de chá e que tu estavas convencido que arrancavas ervas invisíveis coladas às pedras. Lembras-te? E ríamos todos quando os rapazes encenavam a espera do auge da maré alta, momento no qual fervia o reflexo do sol no oceano, hora fidedigna para preparar o chá e contemplar o entardecer acompanhado de vagas promessas.

Hoje, um sentimento estranho advém dentro da caixa, e eu, descalça, penso nos teus pés a massajar a areia nua da praia de Âncora, como se soubesses que algo de incompreensível e natural em mim estivesse enterrado no campo das areias finas. E o teu antigo silêncio a recolher pequeníssimas pedras fizesse parte de um projecto de uma magnífica sepultura para o amor, que ainda hoje prossegues a edificar em minha honra, na altura do dia que o sol vai alto e desconhece as sombras. Por isso, mesmo depois de arrumar habilmente a caixa de sapatos, concedo a um comportamento não habitual em mim - confirmo levemente com a nuca quando ouço a cigana que me diz que és o homem dos meus sonhos mesmo conhecendo-te tão pouco. Então entendo o poeta que falou de almas insepultas. Entendo a força com que o mar recolhe em cada alvorada o monumento que me leva a pensar em ti como se de um mandamento íntimo se tratasse.


[A. Roma in "cartas de um jovem amoroso"]