quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A cabeça em ambulância


Miguel Bagur "Eva"

Há feridas cíclicas há violentos voos
dentro de câmaras de ar curvas
feridas que se pensam de noite
e rebentam pela manhã

ou que de noite se abrem
e pela amanhã são pensadas
com todos os pensamentos
que os órgãos são hábeis
em inventar como pensos

ligaduras capacetes
sacramentos
com que se prende a cabeça
quando ela se nos afasta

quando ela nos pressente
em síncope ou desnudamento
ou num erro mais espaçoso
ou numa letra mais muda
ou na sala de tortura
na sala escura,de infância



Luiza Neto Jorge "Poesia" Assírio & Alvim

Pensarás no homem dos teus sonhos

Continuo a pensar que não sei se é mau ou bom conhecermo-nos tão pouco. A verdade é que não sabemos nada um do outro. Por um lado é agradável porque assim não se rompe o mistério e continuamos a ser aqueles dois desconhecidos que se encontraram em Vila Praia de Âncora, no verão em que aprendemos que nada é mais poético do que o segredo de um olhar cúmplice e silencioso; por outro lado não podemos ignorar o que os dois de antemão sabemos. Se nos tivéssemos conhecido melhor talvez eu não fosse aquela menina tímida e displicentemente ingénua, nem tu o cavalheiro perfeito e encantador que eu vi pela primeira vez numa praia atlântica. Quem sabe se não será melhor continuar tudo assim, na distância, ainda que em dias melancólicos pareça que me sinto a calcar o mesmo areal límpido e fresco, como se a praia da pequena vila corresse pelo mundo fora e estendesse as pedrinhas mais brilhantes (aquelas que procuravas com as mãos quando da tua boca não saiam palavras), até a porta de tua casa.

Não sei se haverá um dia de todos os que teremos no qual nos possamos encontrar novamente. Também aqui é melhor as coisas ficarem como estão. Gosto de saber que este é o maior sonho da minha vida, ver o teu rosto, abraçar-te, saber de ti. Gosto de imaginar que este sonho condiz comigo por ser simples e grande, por se bastar a si mesmo e ter como sonho um caminho a percorrer.

Não te podia dizer nunca que és o homem da minha vida. Sou avessa a esse tipo de conclusões, como se quando um coração despertasse o fechassem logo, para sempre, numa caixa de sapatos. Mas tenho a lembrança dos contos de fadas que outrora me sossegavam, da menina que fui, dos passeios de pés descalços, dos presentes que abri e guardei, do que era o mar até um dia e noutro dia passar a ser outra coisa. Tenho a memória. E nela o medo de ter guardado na caixa de sapatos sem nunca abrir, o que trouxeste no dia que descobri que no fundo do mar não vivem só peixes e plâncton. E se da caixa de sapatos já nada teu pode sair, sou eu que tenho que entrar e fechar-me nela para resgatar os passos na praia, as ondas do mar, as pedras salgadas que distraidamente escolhias como uma criança solene. O teu amigo dizia que era um género de cerimónia de chá e que tu estavas convencido que arrancavas ervas invisíveis coladas às pedras. Lembras-te? E ríamos todos quando os rapazes encenavam a espera do auge da maré alta, momento no qual fervia o reflexo do sol no oceano, hora fidedigna para preparar o chá e contemplar o entardecer acompanhado de vagas promessas.

Hoje, um sentimento estranho advém dentro da caixa, e eu, descalça, penso nos teus pés a massajar a areia nua da praia de Âncora, como se soubesses que algo de incompreensível e natural em mim estivesse enterrado no campo das areias finas. E o teu antigo silêncio a recolher pequeníssimas pedras fizesse parte de um projecto de uma magnífica sepultura para o amor, que ainda hoje prossegues a edificar em minha honra, na altura do dia que o sol vai alto e desconhece as sombras. Por isso, mesmo depois de arrumar habilmente a caixa de sapatos, concedo a um comportamento não habitual em mim - confirmo levemente com a nuca quando ouço a cigana que me diz que és o homem dos meus sonhos mesmo conhecendo-te tão pouco. Então entendo o poeta que falou de almas insepultas. Entendo a força com que o mar recolhe em cada alvorada o monumento que me leva a pensar em ti como se de um mandamento íntimo se tratasse.


[A. Roma in "cartas de um jovem amoroso"]

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

sento-me


Bettmann 1920


esta noite, um pouco absorto, sento-me.
no canto menos direito da tua cama. aquele
onde assoma um pé estreito de número pequeno.
sento-me na dobra mais presa. lá mais no fundo.
observo os óculos de aro preto como lupas
que recolhem as letras, ali, tão infinitas
no mar anónimo de prosas e poemas, os livros;
a grande rima de sentidos, uma dádiva de espíritos
almas que por ali voam, escritas.
sento-me. vestido de silêncios. sento-me.
e as folhas, soltas, sublinhadas, reflectidas
soltam-se, e abrem asas de horizonte
na leitura dos meus medos, como focos
profundos, estudiosos, macios
como remos nas sedas do Olimpo
ou mais rudes, nas areias, nos rios escuros
que por vezes se iluminam, tristes.
sento-me. sento-me e sentes
cada um dos meus dedos
um pedaço de vento
invisível, transparente -

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Retrato do poeta quando jovem


Manuel Moral 1977


Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.

Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.


(In OS POEMAS POSSÍVEIS, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981. 3ª edição)

no lençol de areias helena sobrevoa


Mario Sironi 1933

no lençol de areias Helena sobrevoa
em asas leves atravessadas de azul
como névoa fluida e breve.

no plano fixo das gaivotas, hesita
reflexiva, no entretanto de uma rocha;
uma vez alta, outra encoberta
de passagem, como uma cabeça sem forma
um chapéu amarrotado, a ponta de um icebergue
e as lapas e os limos e as ameijoas
de olhares abertos.

rude rocha, um pedaço de praia, um destroço
das altas ameias de uma Tróia destruída
onde o fumo e fogo dos exércitos em revolta
e o ruído beligerante, simbolicamente -

e o mar de muitas ondas
em canto de desassossego, murmureja
consequências de luas brancas
enquanto Helena -

domingo, 14 de novembro de 2010

Difícil poema de amor


Henry Rousseau 1897

Separo-me de ti nos solstícios de verão, diante da mesa
do juiz supremo dos amantes. Para que os juízes
me possam julgar, conhecerão primeiro o amor desonesto infinito feito de marés ambulantes
de espinhos nas pálpebras onde as ruas são os pontos únicos
do furor erótico e onde todos os pontos únicos do amor
são ruas estreitíssimas velocíssimas que se percorrem como um fio de prumo sem oscilação.

Ontem antes de ontem antes de amanhã antes de hoje antes deste
número-tempo deste número-espaço uma boca feita de lábios alheios beijou.
Precipício aberto: ele nada revela que tu já não saibas.
Porque este contágio de precipícios foste tu que mo comunicaste
maléfico
como um pássaro sem bico.

Num silêncio breve vestiu-se a cidade. Muito bom-dia querido moribundo. Sozinho declaraste a terceira grande paz mundial quando abrindo os olhos me deste de comer cronometricamente às mil e tantas horas da manhã de hoje.

Deito-me cedo contigo o meu sono é leve para a liberdade acordas-
me só de pensares nela. As casas e os bichos apoiam-se em ti. Não fujas não
te mexas: vou fixar-te para sempre nessa posição.

Que há? Abrem-se fendas no ar que respiro vejo-lhe o fundo. Tens os
olhos vasados. Qual de nós os dois "quero-Te" gritou?

Bebe-me espaçadamente encostada aos muros. Se és poeta que fazes tu?
Comes crianças jogas ases sentado és uma estátua de pé a cauda de um cometa.

Mães entretanto vão parindo. Os filhos morrerão ainda? Entregas-te a
cálculos. Amas-me demais.
Confesso: não sei se sou amada por ti.

Virás
quando houver uma fala indestrutível devolvida à boca dos mais vivos. Então
virás
vivo também. Sempre esperei ver-te ressuscitado. Desiludiste-me.

E iremos com o plural de nós nos leitos menores onde o riso, onde o
leito do rio é um filho entre os dois. Que farei de teus braços de meus cabelos
benignos que faremos?

Nasci-te da minha pele com algumas fêmeas te deitei por vezes.
Conheces-me. Não me tens amor

Grave esta corda cortada agudo seixo me ataste aos olhos para me
afundar.

Só por grande angústia me condenas à morte se de mim te veio a cidade
e os minúsculos objectos que já amaste ou que irás amar um dia espero.
Ah a cratera o abismo eléctrico!

Por isso o teu novo amor será comigo mais perigoso que este imaculado
com mais visco de amor cópula mortal.

Calo-me.
Reparei de repente que não estavas aqui. Pus-me a falar a falar. Coisas
de mulher desabitada. Sei que um dia desviarei sem ti os passeios rectos
esvaziarei os gordos manequins falantes. A razão é uma chapa de ferro
ao rubro: se acredito na tua morte começo o suicídio.

Enquanto penetrantemente te espero a luz coalhou. Os pássaros
coalharam enquanto te espero. O leite enquanto te espero coalhou. Haverá
outro verbo?
Submersa, muito distante de qualquer inferno de um paraíso qualquer existo
eu. Existirão tais palavras?

É a altura de escrever sobre a espera. A espera tem unhas de fome, bico
calado, pernas para que as quer. Senta-se de frente e de lado em qualquer
assento. Descai com o sono a cabeça de animal exótico enquanto os olhos se
fixam sobre a ponta do meu pé e principiam um movimento de rotação em
volta de mim em volta de mim de ti.

Nunca te conheci - assim explico o teu desaparecimento. Ou antes:
separei-me de ti no solstício de um verão ultrapassado. As mulheres viajavam
pela cidade completamente nuas de corpo e espírito. Os homens mordiam-
-se com cio. Imperturbável pertenceste-me. Assim nos separámos.

Não calhasse morrer um de nós primeiro que o outro porque ambos ao
mesmo tempo será impossível enquanto não houver relógios que meçam
este tempo e as horas fielmente se adiantarem e atrasarem.

Alguma vez pretendi dizer-te o que quer que fosse? Falava por paixão
por tibieza por desgosto por claridade por frio por cansaço

nunca por pretender dizer o que quer que fosse.

Não me desculpo. Se já me cai o cabelo se já não sinto os ombros é
porque o amor é difícil ou a minha cabeça uma pedra escura que carrego
sobre o corpo a horas e desoras ostentando-a como objecto público sagrado
purulento. O odor que as pedras têm quando corpos. O apocalipse de tudo
quando amamos. O nosso sangue em pó tornado entornado.

O teu amor espreita o meu corpo de longe. De longe por gestos
lhe respondo. Tenho raízes nos vulcões ternuras íntimas medos reclu-
-sos beijos nos dentes.

A pobreza surge dentro de nós embora cautelosos deitados de manhã e
de tarde ou simplesmente de noite despertos. Ambos meu amigo estamos
sentados neste momento perfeitamente incautos já. Contemplamos um país
e sentamo-nos e vestimo-nos e comemos e admiramos os monumentos e
morremos.

Inventei a nossa morte em toda a impossível extensão das palavras.
Aterrorizei-me segundos a fio enquanto em corpo nu ouvindo-me ador-
-mecias devagar.

Com a precaução de quem tem flores fechadas no peito passeei de noite
pela casa. Um fantasma forçou uma porta atrás de mim. Gemendo como um
animal estrangulado acordei-te.

Enterro o meu terror como um alfange na terra. Porque é preciso ter
medo bastante para correr bastante toda a casa celebrar bastantes missas negras
atravessar bastante todas as ruas com demónios privados nas esquinas.

Só o amor tem uma voz e um gesto mesmo no rosto da ideia que me
impus da morte.
És tu tão único como a noite é um astro.

Sobre a poeira que te cobre o peito deixo o meu cartão de visita o meu
nome profissão morada telefone.

Disse-te: Eis-me.
E decepei-te a cabeça de um só golpe.

Não queria matar-te. Choro. Eis-me! Eis-me!



Luiza Neto Jorge "Poesia" Assírio & Alvim, Lisboa, 2ª edição, 2001

sábado, 13 de novembro de 2010

A grande inteligência é sobreviver


Angel Charris 1998

A grande Inteligência é sobreviver.
As tartarugas portanto não são teimosas nem lentas, dominam;
SIM, a ciência.
Toda a tecnologia é quase inútil e estúpida,
porque a artesanal tartaruga,
a espontânea TARTARUGA,
permanece sobre a terra mais anos que o homem.
Portanto,
como a grande inteligência é sobreviver,
a tartaruga é Filósofa e Laboratório,
e o Homem que já foi Rei da criação
não passa, afinal, de um crustáceo FALSO,
um lavagante pedante;
um animal de cabeça dura. Ponto.

Gonçalo M. Tavares, in "Investigações. Novalis"

Foste Impreciso

Reparaste por me aproximar, precisei
do desvanecer de teu receio, que fosse
sereno e doce onde
não conhecias quase ninguém.
Não sabia que dei um passo, até me dares
a garantia de não atracar ao largo.
Aceitei não haver horizonte, e depois
como não recear seres um ilusionista, mesmo
ao segurares minha mão.
Se estivesse eu longe, que não estou, e
me dissesses o que esperar, para não apenas
lembrar como pousam os teus olhos sincronizados
com sorriso tão aberto.
Assim não sei se descanso.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Esta gente


Miguel Rivara Bagur

Esta gente cujo rosto
Por vezes luminoso
Por vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome

É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Pisada e calcada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e pisada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo.

Sophia do Mello Breyner Andresen

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

não sei como falar-te nos dias intermédios


Alfred Sisquella "Ao levantar-se" 1942


não sei como falar-te nos dias intermédios.
sobre um leito de nuvens, o sol, amarelo, deitado.
sobre a rua a luz branca e o movimento
a cidade cinzenta, e no entanto a ameaça
de um fogo incidente, que não se vê
que não sucede, que não se mexe
permanece no silêncio, como um espírito
que se sente e não diz quando.

não sei como falar-te na voz dos pássaros
aqueles trinados de folha em folha, de ramo em ramo
como naquela tarde mais segura, vinda de dentro
qual marioneta sem saberes de pensamento
seguindo uma mão de sol, um braço sem relento
um rosto onde os cantos dos lábios
bem sabes, como a lua, um berço crescente
balouçando o mar ao som de uma ária ;
uma harpa, um violoncelo, um piano -

não sei como de novo falar-te, prometer
um rio de ouro em grito lancinante, sem medo
um gomo húmido e tangente, 50 000 estrelas
uma nuvem sem tempo, sem pressa, sem ausência -

tudo depende desse lugar que sempre mostra
sem possibilidade de ordem, a fantasia e a pedra
a filosofia e a fome,o icebergue e o fogo
o Id sem ego -


não sei como falar-te, não sei como dizer-te
apenas sei que nos dias intermédios, me lembro
e não sei se me conheço -

Desde a orla do mar


Antínoo Atenas Templo de Delphos


Desde a orla do mar
Onde tudo começou intacto no primeiro dia de mim
Desde a orla do mar
Onde vi na areia as pegadas triangulares das gaivotas
Enquanto o céu cego de luz bebia o ângulo do seu voo
Onde amei com êxtase a cor o peso e a forma necessária das conchas
Onde vi desabar ininterruptamente a arquitectura das ondas
E nadei de olhos abertos na transparência das águas
Para reconhecer a anémona a rocha o búzio a medusa
Para fundar no sal e na pedra o eixo recto
Da construção possível

Desde a sombra do bosque
Onde se ergueu o espanto e o não-nome da primeira noite
E onde aceitei em meu ser o eco e a dança da consciência múltipla

Desde a sombra do bosque desde a orla do mar

Caminhei para Delphos
Porque acreditei que o mundo era sagrado
E tinha um centro
Que duas águias definem no bronze de um voo imóvel e pesado
Porém quando cheguei o palácio jazia disperso e destruído
As águias tinham-se ocultado no lugar da sombra mais antiga
A língua torceu-se na boca de Sibila
A água que primeiro eu escutei já não se ouvia

Só Antínoos mostrou o seu corpo assombrado
Seu nocturno meio-dia

Sophia do Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Já não lembrava ter encontrado este poema num blog, nem mesmo ter deixado o improvisado comentário. E agora, também por aqui fica. Deixo também um abraço para cada um dos residentes.


apenas a areia

e as rochas

não fazem parte

do grande conclave do mundo


Ana Peluso


Comentário:

Grande? Os grandes
O conclave do mundo? Mundano
que sei eu
faz-me pensar poder dizer apenas
apenas areia? A areia
e as rochas? É eterna a areia
Tudo se transforma
na areia a memória da rocha
enquanto não é rocha, outra
lentidão certa
tudo o que faz parte
a água que não apenas contorna
sensata, natural a defesa
a terra que a aceita
a água que ignora conclaves
e invenções
A água baila sempre
até onde bate e quando se vai no ar
não ignora o frio nem o sol
nem o mais pequeno grão de areia
também aí está
e faz parte da descoberta

Anabela Couto Brasinha

o quadro abstracto


Gerhard Richter Abstracto 1995


Diogo esperava na companhia do folheado de impressões, ideias de futuros projectos de pinturas capazes de lançar confusão na mente mais aberta; traços negros em quadrículas de tinta da china, quase sem objectivos. Abraços, encontrões, ricochetes, cruzadismo sem palavras, charada de acasos. Diogo gostava de classificar a sua forma de abordar a arte como um agricultor na rega; deixar a água entrar, chegar ao fim da leira, fechar, e abrir a nova entrada à água/inspiração. Sempre atento, sempre alerta na descoberta de um efeito novo.
Em casa, os blocos pareciam acomodar-se nos sítios mais invulgares, acenando aos visitantes: -Olá! Eu sou o bloco nº1, não desista, procure, numa prateleira perto de si, na frincha do sofá, em cima do frigorífico, junto ao comando da televisão, pode encontrar os meus irmãos, nº2,nº3, ….,etc.! Funcionava como distracção para os amigos mais próximos, habituados à rotina, durante o café, no intervalo de um filme. Não sentiam a necessidade de solicitar autorização, invadiam a intimidade do artista, arejando as folhas de gramagem acima da média, movimentando o bloco em baralho de cartas, procurando a animação no ondulado das linhas. Algumas eram preenchidas com espaços a cor, aguarelas que acrescentava. A valorização dos amigos não o seduzia, classificava-os como filhos da casa, peças da sua própria engrenagem, críticos de máximos, em bajulação ou feroz oposição.
Utilizava técnicas mistas, por vezes desconcertantes no seu objectivo de pintura abstracta, valorizando a pureza do olhar.
Certo dia a pedido do irmão foi buscar a sobrinha ao infantário. Chegou carregado com seis telas de 40x60 cm, embaladas em papel castanho. Sob o olhar divertido dos educadores, improvisou uma exposição entre gritos e saltos, palmas, risos dos pequenos circunstantes. A cada um deu pincéis nº 2,4 e 6, e ali perante a animação geral, improvisou o concurso, a votação, o quadro eleito pelo jardim escola “Girassol”.
Convidou nessa noite os seus amigos para um café e amena cavaqueira. Sem aviso, num jeito de vamos dar início ao espectáculo, anunciou votação de um a cinco com os dedos no ar e por fim alinhou os quadros por pontos. Conclusão alarmante ou nem por isso, entre algumas divagações filosóficas de arqueólogo de pinturas rupestres, confirmou o total desacordo com a análise e selecção dos seus convivas. Naturalmente no rame rame alargado das profissões tradicionais, não estavam preparados para a análise pura das crianças, que decalcam mãos cobertas de gouache, que se deliciam atrás de libelinhas sem sacos de rede, que saltam de pés para o lado e franzem narizes arrebitados, que esticam os olhos e deitam línguas de fora sem medo do ridículo.
- A minha escolha!- dizia Diogo, orgulhoso do resultado - é a delas!
Aquelas pequenas aventuras passavam mas eram respeitadas pelo artista que ainda guardava o quadro de nome “O Girassol”, em exposição permanente, acima do fogão de sala com título a letras manuscritas na parede, onde sempre que podia colocava uma caixa forrada de colagens, oferta da sobrinha, em missão de jarra, com um girassol. Acrescentava que o quadro em acrílico de tons azul suave, ligava muito bem com o girassol.
Quem não conhecia a história, gostava, e queria muitas vezes comprar o quadro, a suposta jarra, o girassol, oferecendo para o efeito quantias avultadas. No diluir do tempo, a resposta, em movimento pendular do rosto de Diogo para o quadro, para o comprador,de forma repetida,para o quadro, para o comprador, surgia com um sorriso e um seguro:
- Não seria capaz! Este quadro representa muito para mim! Teria que pintar de novo a parede! Está no lugar certo!

Vislumbre


Miguel Rivera Bagur 1989

A horas flébeis, outonais -
Por magoados fins de dia -
A minha Alma é água fria
Em ânforas d'Ouro... entre cristais...

Mário de Sá-Carneiro, in 'Indícios de Oiro'

terça-feira, 9 de novembro de 2010

entretanto o vento

durante qualquer coisa
que possa ser tomada como
medida de tempo –
uma vida, uma soluço, tanto faz –
abandonei-me das dúvidas e acreditei

acreditei nos milagres, nas mentiras, na possibilidade
de todos os impossíveis e de todos os infinitos.
acreditei por vontade de esperança.
para fugir ao cinismo e ao tédio. acreditei por desespero

agora sofro as dores de estarem moribundas
as expectativas. sangra-me a vontade
e, em breve, uma lividez inerte limpará os vestígios
de quaisquer boas vontades pensadas ou cometidas

serei incólume.
entregue a nada. crente em nada. pela rendição
aos absurdos, parte integrante de algo indiferente. em
repouso e à espera, sem tecto e sem relento, que
entretanto, o vento
raquel patriarca
nove.novembro.doismiledez