quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Atrasada mental


16 e 48 - já não apanho o comboio
45 segundos, 46 passos de passada larga ou um desatar a correr depois do café na subida
e chegava

18 e 33 - o comboio descarrilou
45 segundos, 46 passos de passada larga ou um desatar a correr depois do café na subida
e partia


Fui até ao café antes da subida beber um chá
Pedi verde
Serviu preto
E eu fiquei a pensar num título para um poema

a três tempos

1.
o tempo não existe. é um engano. uma mentira. uma necessidade
compulsiva de controlar o incontrolável. uma convenção
que se pretende universal mas não absoluta.
a sua pseudo existência acompanha a intemporalidade do espírito
humano.
o tempo, serve para eu saber quem sou, de onde venho e o que quero
ser no futuro próximo e longínquo. serve para encadear
tudo o que existe no plano físico, de uma forma metafisicamente
difícil de compreender.


o Alberto disse-me uma ocasião que o tempo -
como coisa quantificável e científica - serve
para que os acontecimentos não aconteçam todos de uma só vez.
eu nunca duvidei do que me diz o Alberto mas às vezes,
de longe a longe, quer-me parecer que o tempo -
como conceito abstracto e iniludível da vida -
serve para atrapalhar cada um dos pequenos segmentos
quânticos em que é possível espartilhar a existência.
a minha ou qualquer outra.
epidemicamente.


2.
e eu, pequena criatura, menos que as areias do pó que pousa
ao de leve nas nuvens do pensamento de Cronos,
danço desassossegado com um enigma que ele inventou.
sei-me incapaz de lhe fugir,
ignorar as regras ou pisar as fronteiras;
e sei-me sempre sem ele,
sem equilíbrio e sem controlo,
a correr atrás da minha própria rotina –
atrasada e descompassadamente -
desesperado de a apanhar, tão alheia de mim que agora é.


tamanha auto consciência seria de louvar, não fora a enormidade
de tudo o que não sei e a inutilidade do pouco que vou intuindo.
pergunto-me se com Alberto terá sido assim.
claro, no campo da problematização teórica e científica, ninguém
foi mais longe. estou até convencido que se houve alguém perto
de dar um estalo na testa altiva e emproada de Cronos,
esse alguém foi o Alberto. digo no correr normal dos dias.
no dobrar das peúgas e no ser-se cidadão
e no tentar não envergonhar os pais. pergunto-me se
ao Alberto também faltava tempo.
quero dizer: se lhe faltava, como a mim.


o facto é que não tenho tempo.
tenho-o
porque o sinto em mim a embolorecer os ossos
e a alegria. a dobrar rugas nas expectativas.
a esboroar espaços vazios onde vem morar o vento
dos outonos que vão passando.


tenho-o
porque o reconheço quando estamos só os dois. sem mais ninguém.
então, descubro que me falta iniciativa. que entretanto
me desabitou toda a família da vontade como um inquilino descontente
que se mudasse para onde o sol seja mais quente e as pessoas
sorriam mais pela manhã. e deixo-o fugir outra e outra vez,
existo, simplesmente, e ele fica, durante um bocado a fazer-me
festas na cabeça e a encanecer-me os cabelos.
figurativamente.


depois desaparece subsumido entre o aprumo das
lombadas e a linearidade dos festos e dos mil e muitos
gestos que se gastam todos os dias.
em coisa nenhuma.
desgovernadamente.


3.
estou velho, Alberto. o que não compreendi ou aprendi
ainda, já não é meu para aprender ou atingir. se outrora
me foi cara a ideia de cada acontecimento
acontecer na sua vez, estou agora tão desimportado
que já nem perco tempo a pensar em tal coisa.


estou cansado, Alberto. talvez encontre ainda
vontade para não querer escoar
o tempo que me resta a reflectir contigo – que já não existes
cronologicamente - sobre as incongruências dele – que afinal
é eterno. tu baralhas-me. e o que me baralha é infalível
que acabe por me irritar, e eu estou velho demais para me irritar
com a competência e presença de espírito que me merece a memória
que tenho de mim próprio.


suponho que também a memória - como o tempo - 
me vá mentindo aos poucos todos os dias.
que aquilo que me lembro de ter vivido, tão real
como eu estar aqui, tenha afinal uma existência
tão irreal como aquela que um dia atribuí
ao próprio tempo.


talvez nada do que me lembro tenha de facto acontecido. talvez
tudo não passe de amontoados de imagens descoloridas
que eu próprio inventei, juntando - sem atenção às quantidades –
os meus incumprimentos e o passar tempo.


tanto faz, Alberto. porque o que o tempo me deixou
é tudo o que me resta.
agora, uma realidade relativa.
absolutamente.
raquel patriarca
vinteeoito.outubro.doismiledez

nós aqui

.
entre nós, tanto tempo.
vidas oferecidas num verso
de papel velho e um abraço.
entre nós, tanto tempo. nenhum espaço.

raquel patriarca
vinteeoito.outubro.doismiledez
.

o fumo embarca em espiral e sobe pelo quarto


( fotografia retirada da internet autor desconhecido)


o fumo embarca em espiral e sobe pelo quarto
incondicional e vago no distúrbio de um silêncio.
um relógio marca o tempo
no pêndulo suspenso de uma casa suíça
e a ausência de cuco. som nenhum –

o fumo choca no paradigma e esvai-se como uma estação aliviada
depois de uma partida, aguardando
o preenchimento de um banco onde algum, alguma
pouse uma mochila, abra um sumo e reduza uma sande
a um ponto final, um dedo esticado no resto da maionese.

o fumo sobe e desaparece. cai a cinza.
e uma outra vez arrefece enquanto sobe e ganha notoriedade.
depois desaparece
até que o filtro, o pouco cigarro, consumido , esmagado .

permanece uma grande dor de cabeça
e um remédio de pastilha que coloca um véu branco
um dossel semi-opaco como cortina de um teatro

do outro lado

sobressaem algumas manchas de morango
uma casca de banana, um aroma de canela
e passos breves, pontuados de intervalos
que reflectem a sombra -

os trechos das peças de Shakespeare são longos
exigem a energia da água, rios indomáveis
o dramático, a exigência de uma cena, um quadro –

pelas paredes do quarto
os lábios subitamente secos, o silêncio
as cinzas e um estalido de fósforo sobre a lixa
um relâmpago que dispara, a chama
que de novo acende –

o relógio parado, o cuco doente –

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Os três pablos de setenta e três


Pablo Picasso "Bailarina sentada"






Me gustas cuando callas porque estás como ausente,

y me oyes desde lejos, y mi voz no te toca.

Parece que los ojos se te hubieran volado

y parece que un beso te cerrara la boca.

Como todas las cosas están llenas de mi alma

emerges de las cosas, llena del alma mía.

Mariposa de sueño, te pareces a mi alma,

y te pareces a la palabra melancolía.

Me gustas cuando callas y estás como distante.

Y estás como quejándote, mariposa en arrullo.

Y me oyes desde lejos, y mi voz no te alcanza:

déjame que me calle con el silencio tuyo.

Déjame que te hable también con tu silencio

claro como una lámpara, simple como un anillo.

Eres como la noche, callada y constelada.

Tu silencio es de estrella, tan lejano y sencillo.

Me gustas cuando callas porque estás como ausente.

Distante y dolorosa como si hubieras muerto.

Una palabra entonces, una sonrisa bastan.

Y estoy alegre, alegre de que no sea cierto.

Pablo Neruda

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Prece



Imagino o país da página em branco.
E, ao lado, mesmo ao lado,
o país da página preenchida.
No primeiro, a tentação de existir.
No segundo, a existência da tentação,
segundo Santo André, o solícito,
como se a tentação fosse também exprimível
em tentáculos da existência e tentativas de tentativas,
assim a existência fosse uma medusa ao espelho,
com os seus cabelos geologicamente perturbados de signos
suicidas,
mas à qual devêssemos pelo menos um olhar, uma sílaba,
qualquer forma arcaica de insistir
na conveniência de não ter nascido,
como qualquer homem,
que não é de ferro.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

a cesura do pássaro e um voo inacabado


Gerhard Richter


um pássaro distraído cravou o afiado bico
como punhal sonoro no insuflável, balão que voava
muito acima de Lisboa - minúscula a torre eiffel
o london eye, a catedral de Bruxelas, o Prado d’El Greco
o porto de Calais –

imenso o ar –

a descida não é uma pedra no charco,
uma exibição rude de falcoaria
a idade média de flechas e ameias, súbitas e mortais.

a descida prossegue sem loopings nem curvas arriscadas
desviada pelo vento das cidades.

cai o que resta do antigo balão luzidio
não mais do que um pouco apressado
no cimo de um monte calvo.

um silvo final, o balão desfaz-se, ganha a forma
de um grande oleado, a grande mancha encarnada
um despropósito na paisagem de um fim de mundo.

não são os raios de sol em linhas oblíquas
nem as estrelas encerradas de branco
que condicionam a alma e instauram a nomenclatura do medo
no único náufrago de um manto de céu

e neva, neva dentro da fatia gasta do ventrículo direito
aquele que nunca fala do simétrico, no espelho -

no cimo da montanha
perdura a dor que a memória não perdoa
e a hipotenusa de futuro que completa o triângulo;
rasga a direcção, o sentido, como um vulcão ao inverso
que estica o relevo e aplana a superfície -

na imensa planície há sempre um caminho -

Dizia-se em Oachaca

Dizia-se em Oachaca



Falava-se em Oachaca da tua sede e de uma menina que injectou petróleo no peito – Cristalizou da sua boca um líquido em fogo a formar-se no canto do lábio em ponto de açúcar, em ponto de sol e fuga e conjunto de limões e conjunto de homens que acedem os faróis: e descia da sua boca, pela casa, pelo chão, descendo as escadas, descendo o passeio, descendo a montanha, e pela montanha abaixo descia um sol líquido adocicado pela memória de todos – toda a memória do mundo a descer como um degelo solar pela montanha abaixo, todas as montanhas abaixo: À beira do mar pensava-se que o Vesúvio tinha irrompido; Todos saíam para os seus trabalhos e acendiam todos os faróis vermelhos que anunciam a nova era e os faroleiros entravam com uma mensagem nova, e as mulheres dos faroleiros iam aos faróis levarem um tuparware com sopa e trazer a roupa suja para levar, e sacavam a roupa suja e voltavam a levar a roupa suja. E faziam amor com eles no cimo de todos os faróis. E da montanha descia a memória em direcção ao mar, em ponto de sol, em ponto de fuga adocicada: Fizemos um pacto com a vida e com tudo quanto flui. A santa injectou petróleo e cristalizou da sua boca um fio que caía ardente – Todo o sol, carregado de sal e doçura a entrar na veia de cada heroinómano, de todos os amantes… Iam para perto dos faróis: às seis e trinta: por baixo da ponte da Arrábida um carro estacionado com dois amantes, os vidros embaciados. Depois ele abre o vidro e acende um cigarro de haxixe, o vento do mar entra-lhe no carro e bate fresco e quente ao mesmo tempo na cara dos dois. Ela baixa-se, encosta-se contra o peito dele. Sente-lhe o coração. Leve e seguro. Ele passa-lhe suavemente as mãos pelos cabelos. Beija-lhe as orelhas. A menina em directo para a CNN a injectar leite condensado no peito para afastar todas as nuvens que são rios inteiros em forma de vapor a flutuarem. Não era o quê? Dizia-se o quê? Em Oachaca. Falava-se de febre e limões, de beijos na boca que podem não acabar, de línguas entrelaçadas, de mãos dadas, de mergulhos no mar. Falava-se de Pedro Abellardo e Heloísa, de Mariana Alcoforado e de Alejandra Pizarnik.
Diziam as raparigas de cabelo curto, com a boca cheia de cerejas negras, que o sol podia um dia não vir. Os Atlantas esperam-no, fazem um pacto com ele, nós com a vida. Créme de la creme pela montanha abaixo. O padre de Hiroshima a apanhar o sol no fundo da montanha. O padre de Hiroshima a meter um bocado na boca. A beber o degelo: a apanhar as sombras do chão. A prendê-las com molas no estendal - E o padre de Hiroshima, como a mulher dos faroleiros e dos cortadores de carne,, a estender também a sombra dos cogumelos e dos prédios que derreteram para o chão e a sombra dos lírios e dos corvos e a pegar fogo com o seu isqueiro, às sombras das girafas, de todos os homens, animais, plantas e coisas: Adora, como todos a palavra “húmido”e o seu deus não é palavra e não se escreve por palavras e não sabe ler nem escrever. E ler nem escrever ajuda a encontrá-lo e ler e escrever não é nenhum deus: Dizia-se em Oachaca que o sol viria sempre e isso chegava aos homens que levavam os seus burros pela manhã nos caminhos de Oachaca. Passava um carro, um camião, os dois amantes por baixo da ponte Arrábida. Vão à bomba de gasolina comprar tabaco e cerveja em lata. Voltam para o carro abraçados. Dizia-se em Oachaca que o sol lhes ia entrar no peito: Dizia-se em Oachaca que nós somos todos os outros. Uma roleta russa de mel, para diabéticos enquanto descem flocos de neve para dentro das bocas negras. Um nevão que cobre África. Falava-se em Oachaca da minha vontade de te abraçar. Falava-se de um derrame, na artéria do coração, um derrame de petróleo doce e branco como o leite condensado ou o leite gordo das baleias. Um petróleo injectável: Falava-se disso em Oachaca enquanto todos os carros passavam para o trabalho. Falava-se com febre e as mãos a tremer, outras vezes com calma e com a ajuda do mezcal e tequilla. A sombra dos lírios violava a sombra dos homens. E a febre dos homens entrava nas mulheres: Dizia-se tudo isso em métrica sáfica e escrevia-se nas paredes dos cafés, das casas, das escolas e de todos os edifícios públicos, o quanto te Adoro. O Padre de Oachaca ouvia e secava as sombras e secava os rios e esvaziava os mares com o seu balde de plástico: um trabalho como o de Sisifo. De cada vez que se contém o choro os rios sobem mais um pouco. Falava-se em Oachaca da febre dos búzios, de pernas entrelaçadas, de braços entrelaçados, de estrelas entrelaçadas. As mulheres dos pasteleiros acordavam a meio da noite, com as suas meias de lã grossa, para virem abrir a porta à estrela que com todas as suas pontas batia em cada porta, e entrava dentro das casas: Uma estrela feita de solidariedade, que cresce quando as pessoas se abraçam, que é só febre, sensação e calor. Contavam-se histórias da estrela, de todos nós, novelos inteiros, falava-se de cristais líquidos, do sonho das gémeas siamesas, da febre que causa o degelo: de tudo isso se falava em Oachaca.

Ode que ferve

Ode que ferve
…………………………………………………………………………………………

Vários comboios se descarrilam dentro do meu peito, várzea
à noite com muitos pirilampos acesos:
fervem e cruzam-se todas as linhas -
uma pirâmide de olhares cruzados em fogo,
muitas rotundas, auto-estradas, viadutos,
linhas de metro, passa estridente um comboio a alta velocidade, bebo toda a cidade
e caio rotundo para o chão -
sinto o suor de todos, o doce espasmo de uma jovem etrusca e todo o
Sol a incendiar-te o sorriso: fizemos um pacto com ele, com a vida com o futuro (Comboio estranho que derrete) fizemos um pacto com tudo que fluí, as linhas entrelaçaram-se, sinto a tua pulsação no meu peito e beijo-te os pulsos, a ansiedade nervosa da cidade, o doce espasmo das borboletas e a
Contracção de cada recém-nascido que parte –
A febre recheia a cidade –
O peito cheio de praças e cidades inteiras por dentro, viadutos túneis, contigo em cada esquina, dentro de cada café – com o pôr-do-sol dentro dos pulsos – a injectar o sol líquido no peito, não há mais caminho para trás – tenho a tua sede de futuro, são seis e vinte da manhã e a cidade acorda e adormece ao mesmo tempo – Sinto o calor de todos os que aquecem – A cidade a subir-me pela espinha dorsal, como uma nuvem branca, quando te abraço faço um pacto com a Vida
A cidade chama por nós e faz nós dentro de nós, tudo flui a uma velocidade frenética e todos os poetas futuristas, italianos, russos, franceses, portugueses, espanhóis levantam a cortina pesada da noite à velocidade do dia – enchem os teus olhos de sol – bebo por eles toda a cidade, todos eles sabem quanto te amo (cidade industrial, ceroulas, pastor alemão, civilização assustada, seringas e preservativos no chão, cave com vários fundos húmidos) a boca cheia de vidros – lambo-te o peito, os pulsos, os dentes, a língua (uma abelha na auto-estrada) o relógio de sol funciona à noite – se formos rápidos e seguirmos o dia – quando se patina sobre gelo fino a velocidade é a única salvação – e aqui cito todos os que não disseram a frase porque a sabem e sabem que o tempo corre – Sinto todo o desconforto dos cães à toa antes de serem atropelados
estou nas mãos dos fabricantes de carros que atropelam os cães, nas mãos dos operários, nos muros contra os quais urinam, os operários com as suas mãos – com a linha da vida a arder até ao pulso, e no fim do dia as mesmas mãos com a linha da vida a arder, ou várias linhas que se cruzam, a segurar o pulso da mulher, a acordá-la, a segurar o pulso de todas as mulheres dos operários – preciso tanto de calor – sou a sede, a raiva, o medo, a Vontade líquida de estar dentro de ti, sou líquido e fervo por ti dentro, amo os teus olhos a tua boca os teus dentes os teus pulsos os teus medos as tuas inseguranças as tuas dúvidas, os teus tornozelos, a tua saliva, a tua língua, os teus olhos, a tua boca, os teus dentes, amo os teus braços, as tuas mãos, braços, pernas, pés, e atravesso a peito a tua nuca quente, o teu peito a nado, sou líquido – vejo pelos teus olhos – todos – beijo-te os tornozelos, se penso em escrever um poema sobre o fogo lembro-me da bombeira voluntária de vinte e um anos que morreu a combater os fogos deste Verão – continuamos a subir – são 6:35 da manhã e a cidade acorda por ti adentro
Vejo por trás de ti
Por trás de nós
Por dentro de nós,
a cidade acorda: o sol dos teus olhos a injectar-me no peito uma Vontade Nova – Em tudo Nova – Amo tudo o que ferve
a noite láctea que te atravessa o peito de Calor
Ode que ferve e liga pelo skype,
nado por ti adentro

domingo, 24 de outubro de 2010

you are welcome to elsinore


Cesariny " linha de água"


Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mão e as paredes de Elsinore

E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

Mário Cesariny " Pena Capital "

Pepe e Luena - um encontro no deserto


Hughie Lee-Smith 1987



- Pepe, há dois anos que não te visito. Vejo-te dentro deste teu mundo, rodeado de muito pouco e de mim nada sabes. Deixei crescer a barba. As calças de ganga são muito justas, apertam-me e causam o incómodo calor. Tenho sede. Gosto da tua camisa garrida, podia descrever-te as cores como figuras que se movimentam na névoa quente por entre pós minúsculos, sobrevoando. No entanto, só me lembra o forte cheiro do mar, uma maresia de lapas, mexilhões e limos verdes. Estando tu aqui no meio do deserto, neste horizonte de nadas, como me sentes, quem sou eu para ti?
- Amigo, como te enganas. Vejo-te bem. Não és o mesmo. A voz cansada. Vejo-te nos intervalos da aragem que te desenha, que me traz sussurros de alma, os contornos do corpo. Distingo o aroma lavanda que te envolve, o escorrer lento de gotas que se esgotam do alto da testa às fissuras da trama do tecido, vaporizando de novo, separando sais! Sinto-me e sentes-me. A energia que transmites é a dádiva natural do Sol durante o dia, das estrelas ao chegar a noite.
- Pepe, tu afinal vês para além da luz! Sinto-te calmo, seguro. Essas tuas botas altas, couro gasto, não serão pesadas, desconfortáveis? Esta casa também ela, como há muito tempo não via, de tábuas pregadas em inclinações de acasos, assimétricas, neste lugar tão isolado, longe de tudo, não será imprópria, despropositada?
- Amigo. é apenas um ponto, uma pequena parcela isolada do universo, a minha gota do grande oceano que ao contrário do teu está por cima. Seremos sempre irmãos porque esse mundo que vês como teu e esse mundo que é o meu, ambos se formaram do mesmo nada, a intriga permanente de dualidades, corpo e espírito, energia e massa. Neste momento, do mesmo modo, habitamos o mesmo céu.

Encontrava-me de costas, mas pude perceber Luena, em passos lentos aproximava-se. Sabia da sua existência, sabia que estava para breve a sua união, admirava-lhe a coragem, com um cego no deserto. Pressenti o esvoaçar leve do vestido que agora ao virar afagava a pele morena acima do joelho, na lentidão contínua dos passos.
O baton era excessivo, na miragem ardente surgiam as curvas de um cartaz de Moulin Rouge, muito longe dali.
Os lábios permaneciam fechados embora dentro de mim, um ruído de vozes de outras mulheres, de outras histórias, uma viagem de sonho, avivando em surpresa memórias esquecidas.
Quando a nós chegou, abriu o sorriso luminoso, estendeu a cada um o fruto da árvore do pecado original, lustroso, brilhante, improvável num cenário feito de silêncios, numa poesia de gestos.
Na primeira dentada, minha, dele, os sucos refrescantes do néctar, em uníssono acariciaram os segredos da alma, saciaram a sede de forma doce, mas não tanto, quanto a voz de Luena num eco cristalino:
- Estas maçãs são uma delícia!

sábado, 23 de outubro de 2010

a importância da chave do mundo é relativa


Michael Maier



geralmente é no laranjal que sobrevoam os aromas
onde não desesperam as flores inamovíveis
nem as pequenas aves de olhos circulares
em saltos esplendorosos sobre a relva.

a importância da chave do mundo é relativa
quando a porta abre no corredor vago
e o arco do céu é na seguinte.
interessante é o lugar onde serpenteiam borboletas
em prolongamentos de desenhos animados;
círculos de cores, manchas de tinta
movimentos de escrita, palavras.

a realidade verde dos passos, no laranjal, olha em frente
e nunca pisa as flores. decorou na inclinação do sol
qual a sombra e o benefício dos pontos cardeais.

as flores exigem tanto e são muito delicadas
há que admirá-las, senti-las como um fogo na garganta
abrir por vezes um lago de silêncio e dar espaço -

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Trago-te ao espaço da janela




Trago-te ao espaço da janela.
De novo surgiram deste lado da rua.
Em voz baixa disse «uma alucinação». A
única resposta foi entrar em casa
subir ao quarto mudar de roupa
ser jovem com quem soube bem ser jovem
sábio com quem quiseste ser sábio
velho com os velhos.
Trago-te para perto da janela
o rio vê-se daqui.
A cor da terra circula.

«Talvez seja a morte» «não»
«se for a morte o coração baterá mais ou menos forte».
O corpo
não tem grande lugar.

João Miguel Fernandes Jorge, in "Meridional"

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Je pense à toi ( poèmes à Lou)


Salvador Dali " Cabeça de nuvens" Dali 1936



Je pense à toi mon Lou ton cœur est ma caserne
Mes sens sont tes chevaux ton souvenir est ma luzerne

Le ciel est plein ce soir de sabres d'éperons
Les canonniers s'en vont dans l'ombre lourds et prompts

Mais près de toi je vois sans cesse ton image
Ta bouche est la blessure ardente du courage

Nos fanfares éclatent dans la nuit comme ta voix
Quand je suis à cheval tu trottes près de moi

Nos 75 sont gracieux comme ton corps
Et tes cheveux sont fauves comme le feu d'un obus
qui éclate au nord




Penso em ti minha Lou teu coração é a minha caserna
Meus sentidos são teus cavalos tua memória é minha luzerna

O céu está cheio esta noite de sabres de esporas
Os artilheiros partem na sombra carregados e prontos

Mas a meu lado vejo constantemente a tua imagem
Tua boca é a ferida ardente da coragem

Nossas fanfarras eclodem na noite como a tua voz
Quando vou só a cavalo trotas a meu lado

Nossos 75 são graciosos como o teu corpo
E teus cabelos são fulvos como o fogo de um obus
que rebenta a norte.

Guillaume Apollinaire, IV, Poèmes à Lou

ápice


Man Ray " O violino d'Ingrés" 1924


revela-se uma unidade de destinos;
folhas pousadas no chão no seu último registo
como as dos plátanos , tão coloridas
e passos por cima naquele olhar angular e dirigido –

libertam-se os fumos dissonantes, subjectivos, a divagação das pinhas
quando ainda próximas de chuvas e vento, não à muito tempo
na presença alta dos pinheiros, enquanto
enquanto não se assume a intenção e o segredo;
a chave de miríades sensitivas, a essencial filosofia
a imponderável e permanente chama;
silêncios e paralelismo –

as águas da nascente foram titubeantes
quase presas, de poucos avanços, sem ganhar terras
sem descer montes, sem ganhar leitos, sem ver as pontes –

as águas da nascente são longas, largas e fluídas.
as margens ? de árvores tatuadas
inscritas de símbolos, marcas íntimas –

os pássaros planam planos por sobre
as curvas insinuantes e rumorosas do agora rio.
as rochas arredondam-se e despem-se sem frio.
separam-se as ausências e cessa o grito
a voz rouca do céu , do relâmpago, tão bravio –

destino uníssono
múltiplos dias de melopeia
linhas do mesmo linho
cordas de um piano
teclas agudas de um violino
ápice desvelado sem neblina –

passou pouco tempo. bem sei.
mas o que é o tempo?
o que vale o tempo?
senão o recíproco ?
quando recebemos e somos dádiva
no signo, na alma, na transparência

como quando se chora de alegria –