quarta-feira, 16 de junho de 2010

lógica





a lógica não comanda a emoção
como lúcida engrenagem no encaixe de incidentes.
não conforma o esqueleto na posição correcta
para melhor mexer os lábios de frases certas.
é previsível como um quadrado ter quatro lados;
normas desactuais de possibilidades.
a negação da surpresa. um paradoxo filosófico.

a lógica é uma defesa e a noção geométrica do medo.

terça-feira, 15 de junho de 2010

A taça de chá


retirado da internet

O luar desmaiava mais ainda uma máscara caida nas esteiras bordadas. E os bambus ao vento e os crysanthemos nos jardins e as garças no tanque, gemiam com ele a adivinharem-lhe o fim. Em roda tombavam-se adormecidos os idolos coloridos e os dragões alados. E a gueisha, porcelana transparente como a casca de um ovo da Ibis, enrodilhou-se num labyrinto que nem os dragões dos deuses em dias de lagrymas. E os seus olhos rasgados, pérolas de Nankim a desmaiar-se em água, confundiam-se cintilantes no luzidio das porcelanas.

Ele, num gesto último, fechou-lhe os lábios co'as pontas dos dedos, e disse a finar-se:--Chorar não é remédio; só te peço que não me atraiçoes emquanto o meu corpo fôr quente. Deitou a cabeça nas esteiras e ficou. E Ela, num grito de garça, ergueu alto os braços a pedir o Ceu para Ele, e a saltitar foi pelos jardíns a sacudir as mãos, que todos os que passavam olharam para Ela.

Pela manhã vinham os vizinhos em bicos dos pés espreitar por entre os bambus, e todos viram acocorada a gueisha abanando o morto com um leque de marfim.

A estampa do pires é igual.

Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu nº1'

cartas de presença - o pecado de uma ausência


Azul do Egipto (silicato de cobre)


descobre o cobre de cor azul
dentro de um frasco de pharmacia
elemento alquimista de um céu límpido
sem os brancos dançarinos – gotas de água.

descobre o sol saliente que levanta o algodão
quase pena branca de escrita lenta
num início de lençol de linho traçando a perna nua
uma onda que acentua a seda e a luz de saída;
colina alva de pele, energia positiva.

abre dois ramos, dois remos de ar, dois braços
acima. acima. estica o espírito, de gestos
gestos tensos, espasmos, arrepios,
pequenas pontas de alfinetes
subindo os degraus firmes a um lago adormecido
a um rolo de cabelo apanhado como um ovo
solta o pescoço e os olhos abertos
ou fechados, ao ritmo certo.

descobre o pequeno almoço, as torradas
como cartas de presença e o sumo de laranja
reinvenção de um néctar consistente
doce e fresco que se entrega;
cálice de veludo e permanência.

descobre como são únicas as migalhas
grãos de praia sobre o leito qual toalha
sobre o dia que se estende, quente
numa risca incidente na parte mais larga da coxa;
um sinal de desejo .


descobre que saí de madrugada
consternado na ausência já vizinha
como um gelo de Kiev, uma ventania invencível
que solta o corpo em partes divididas na estrada
qual fim de mundo de grau zero, de grau nada
pedra pesada na água que se afunda
depois do sonho, depois do sono tão profundo ;
e os dedos, os teus dedos, dedos leves de almofada
nos dois lados cara.

descobre que as horas não demoram
que o mar mediterrâneo pousa e espera.
que as algas presas e o nadar de costas moram
nas melhores ilhas, as desertas, sem procurar caravelas
a construir num pedaço de selva, um dossel
de lianas e ruídos e brilhos de folhas verdes,
restos de magnólias e cachos violetas.

descobre o cobre que me cobre de tinturas
separando cicatrizes, ternuras incompletas
as despedidas, as descobertas,as partidas equilibristas
os sons de lua e as estrelas das arestas.

descobre a lisura fácil dos poemas
nos estames das orquídeas, das prímulas
na esguia silhueta das sombras dos ciprestes
nas mandrágoras dos mandrakes
cobre-me de magia e paraísos;
homem água, homem fogo, homem tudo
a elevar planetas.

descobre o presente junto ao cravo
junto ao frasco de pharmacia mogno escuro
onde o cobre não se descobre mas azul
azul do Egipto, de Babilónias.

adivinho a inclinação do umbigo e a forma como ergues
o desenho simples, quase um esquiço
e um sorriso. adivinho a leitura de algumas linhas.
os lábios finos. adivinho.

descansa um pouco antes de continuares o livro.
liga o Cd pelo comando. sem o saber. descansa.

ainda cedo deitei comida ao peixe
enquanto preparava um pouco de geleia.
os gatos serenos sumiram na sombra das plantas.
as tartarugas esticaram as cabeças para olhar a glicínia
depois esconderam-se na telha portuguesa.


o Rui e a Luísa falaram no último projecto de um teatro
sobre modernidade e revolução, ao som da marselhesa.
reinscrição daquelas ideias que nunca completam
hibernam e voltam plenas de entusiasmo e emoção.

volto. volto cedo. muito cedo.
a tempo de colher as framboesas -

segunda-feira, 14 de junho de 2010

a chave dos sonhos



Magritte " A chave dos sonhos" 1930


um sonho pode ser uma acácia perto do cais
um barco, um mar
um farol na forma de uma vela acesa
um fumo ténue que sobe sobre o ar.

um sonho pode ser não haver deserto
nem um martelo de aço que bate
sincopado em ritmo de oráculo, igual.

um sonho pode ser encontrar o tempo certo
sem a neve formal de um chapéu de coco
ou a filosofia mais antiga de um primeiro:
o ovo ou a galinha?

um sonho pode ser uma chave na tempestade
o princípio, quando quase a permanente ausência
uma viagem sem distância de forma intensa
a emoção de um grande descobrimento.

um sonho pode ser sempre -

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Sem outro intuito


De Chirico "Hector e Andromache" 1917

Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

caminho florentino




a torre inclinada era no lugar imaginado.
o mercúrio de prata sobe acima dos trinta.
o comboio de janela aberta oscila, antigo
escorrega as linhas, afasta-se de Pisa
procura a flor florentina.

cortinas azuis de muitas quadrículas
percorrem o vento na carruagem
fora e dentro
dobradas e loucas em movimento
fora e dentro.

as estações sem fumo nem gente, de ar amarelo.
os campos vagos e ausentes, alguns de cor seca.
podia ser um qualquer lugar de Agosto
nas margens paradas do rio Coa
há muito tempo nas férias de muitos meses.

fora de linhas os rolos enrolados de cereais
uma imagem quieta de uma corrida
em pistas douradas de espigas.
de fronteira, árvores, onde se reconhecem
as vestes de flores vermelhas da romazeira
e as torres de losangos metálicos, altos
onde no alentejo fazem os ninhos
aves de bicos grandes;
curioso vê-las voar de fraldas atadas
responsáveis por todos os nascimentos.

a caminho de Florença as cortinas
voam leves no vento. fora e dentro.
fora e dentro.

num pequeno intervalo enquanto o calor
se estende de deslizantes gotas
surgiu a vontade de colocar as letras
nas costas largas de um bilhete.

poucas, poucas letras porque a caneta
rebolou numa tinta lenta e redonda
cansada transpirou, caiu para o lado
como se macio o banco da carruagem
ou o plástico cinza empolado e fraco
que escondia o chão.
caiu para o lado e adormeceu.

quando acordou de um sonho imaginado o rio Arno brilhava
e as margens mostravam muitos verdes de folhas pequenas;
reconheceu os amieiros de mãos estendidas e troncos finos.
inclinados. inclinados no equilíbrio difícil.

Florença é bonita -

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Gestos a evitar



Recupero da febre das princesas de mármore.
Vou tornar-me num homem necessariamente melhor
mas sem flores para dar.
A partir de agora, levarei apenas o meu corpo frágil
ao baile
e ao teu pescoço as minhas mãos
desiguais.
Viajarei sozinho para as ruínas de amanhã
capital do novo âmago.
Levarei a minha face à face da estrada
estupefacta, e serei eu próprio quem irá escrever
a notícia dos meus passos directos ao acidente
e ao oriente da idade, e de tudo o mais
que nos embaraça
de rugas e teatros exaustos
entre tantos gestos a evitar.

domingo, 6 de junho de 2010

Elogio da imperfeição




A maior avenida não é a da liberdade.
Há lugares que só na proibição se acendem.
Por exemplo: uma mulher quis ser uma sereia
célebre e ofereceu metade do seu corpo
à ictiologia e à natação.
Mandou vir a mudança radical pela internet.
Como se esquecera de especificar o animal
marinho, trouxeram-lhe um fato de cefalópode
sem possibilidade de troca ou reembolso
de esperanças.
No entanto, a mulher que queria ser uma sereia
célebre não desesperou. Vestiu o fato
e comprou um microfone para cada tentáculo
e foi para a avenida da liberdade cantar.

sábado, 5 de junho de 2010

I AM LOVE (Io sono l'amore 2009)

Obrigatório Ver! Uma obra de arte!


o amante de marguerite



não são secos mas silentes e húmidos
os lábios que percorrem as reticências contínuas
--------------------------------------------do teu corpo.

a forma única como caem as roupas. brancas.
consequentes com a luz forte que se perde na sombra
de costas para a janela, tão de frente de------------- de nós
--------------------------------------------------dos nossos olhos
abertos, presos como borboletas presas num desejo
de dois, de dois-------------------------------------------de dois
dois pássaros breves nos bosques verdes do Gerês.
dois navegantes imersos nas águas azuis de um Mar Egeu.

dois passageiros de almadia num pequeno rio estreito e afluente
de um grande Zambeze, um grande Mississipi, um grande Nilo
porque um amor grande procura -----------o pequeno espaço
procura pequeno espaço--------------------------------------de dois
desatento a brisas graves e persistentes
ansiosas de ventos norte, ventos frios
a quererem ser importantes perante o estio;

e o mesmo é dizer que o amor é distraído. não fecha a porta
porque exagerado, máximo e indiferente a todos os perigos.

pecado? pecado? --------------------------------pecado?
o momento raro como caem silentes e húmidos
os lábios de um, os lábios de dois, os lábios múltiplos?

-------------------------------------------------o pecado
abriu uma via que se tornou indivisível ---------de dois
tão única como os címbalos que escutámos em criança
nas diferentes aldeias junto às fronteiras do Minho;
passeavas de vestido fino enrolado de rendas
arrolavas um chapéu largo e sapatos de fivela
as meias em meia altura sem chegar ao joelho.
corrias como uma gazela nos caminhos junto ao rio
o rio de Caminha, os barcos, as matas do Camarido.

o que pode fazer um livro. um livro. palavras escritas
num mar de tantas palavras. tantas palavras.

o reencontro foi uma montra.
uma montra cheia de livros de uma livraria
e um nome. nome que não digo.
escrito de letras pequenas para o título.
título que não digo. mas grande. tamanho trinta
como um de Marguerite. tamanho trinta.
e as palavras. grandes palavras do livro.

a quem? mas não é possível?

o autógrafo na letra tremida. o sorriso desabrido.
um canto de papel. de flores. de embrulho. liga-me!

agora a luz e as sombras silentes que oscilam
e os lábios como sinos, os braços como sinos
os corpos apertados como sinos
e os sexos que se juntam e apagam.
apagam de uma só vez as reticências contínuas
--------------acendem a auréola, brilhante chama .

------------a brilhante chama de pecado? não . não.
de um novo livro que porventura será escrito.
de muitas palavras. muitas essências e flores
prímulas, magnólias, margaridas, estrelícias
antúrios, brincos de princesa, orquídeas.

mãos flutuantes e penas macias-

mãos como penas macias a deslizar de rolas
sobre os ninhos, no pinheiro e na casa junto ao rio -

sexta-feira, 4 de junho de 2010

indeterminação


Fotografia de Kiran

não sei porquê este pensamento se ainda há pouco
fomos sempre - minutos e minutos tão serenos
não sei porquê se ainda há pouco
fomos tudo - senti-me tão seguro

quinta-feira, 3 de junho de 2010

A lenda do Homem-algo





Parte de mim está vestida a rigor para o diálogo
e leva rosas na lapela e supernovas no epitélio
lingual e chocolates na mansidão para a sua amada.
A outra parte recebe estes presentes todos
ao pormenor no conforto de sua casa.
Depois escreve uma carta que a primeira parte
não pode nem ousa decifrar.
A primeira parte de mim parte-se em bocados e chora,
e o choro mancha-lhe a elegância, murcha-lhe as rosas,
apaga-lhe as supernovas e desmancha os chocolates.
Uma vez nua e consternada, a minha primeira parte
resolve mais uma vez contra-atacar
e usar a sua nudez e a sua consternação
a favor do bem comum e da lógica indivisa das galáxias
mas a minha outra parte e o seu universo continuam
em contracção e eu, aproveitando o intervalo
e o debate aceso entre o governo e a oposição,
tomo o partido do que está a mais
e um comprimido da classe dos inevitáveis
e vou-me deitar.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

sabor a chocolate


retirado da internet

uma mão sobre o teu seio – acalma
o beijo numa pálpebra – acalma
um sopro nas brasas a chama alta – acalma
o suspenso lugar de um tempo que aguarda – acalma
uma folha fresca de palmeira numa praia – acalma
o corpo pele de seda na ternura de um embalo – acalma

e calmo sobressai o desejo
que cai açucarado
e sabe sabe
no sabor íntimo a chocolate-

de ombros subidos


Salvador Dali "cão dormindo na sombra do mar" 1950

no amanhecer de sol farto
ganha raízes a mágoa.
cobre a alma
soçobra breve na resistência de muralha.

por sobre a língua prova-se a pimenta
o picante externo e azedo de ervas
algumas ditas de aromáticas.

em alguma manhã brisa e um mar
leve, de leve para não acordar, de leve
para cintar a mágoa num búzio de chumbo
cinzento e inerte reboando tudo
dentro, dentro de uma mensagem presa.

o sol marca a pele nua, morena
não enchuva nem enmolha
permanece no silêncio do corpo e da voz.
não incomoda enquanto o mar cobre
cobre de altura os pés nos dedos de água
e areias sobre, sobre os dedos
por sob os dedos, repartindo o brilho
de ondas, leves ondas livres pintadas de branco.

de ombros subidos, subidos do meio do chão
os olhos num saco de raios, pousados
nos verdes limos das rochas escorridas
a condicionar as algas de serem grossas e carnudas
nas voltas dos tornozelos
de terem borbulhas nos alvéolos de génese
de outras folhas, macias e húmidas.

o sol é bravio, insistente, forte, de olhos quentes
e as algas seguem os passos sem mágoa
a mágoa presa no búzio de metal
búzio de metal, de chumbo –

brisa. a brisa de alguma manhã segue os ombros
e os cabelos agora curtos que desnudam a coluna
- a brisa sopra, fresca arrepia, causa uma hirta melodia
intermezzo de piano em saliências visíveis.

o viajante caminha, sonha e sobrevive-