sábado, 5 de junho de 2010

o amante de marguerite



não são secos mas silentes e húmidos
os lábios que percorrem as reticências contínuas
--------------------------------------------do teu corpo.

a forma única como caem as roupas. brancas.
consequentes com a luz forte que se perde na sombra
de costas para a janela, tão de frente de------------- de nós
--------------------------------------------------dos nossos olhos
abertos, presos como borboletas presas num desejo
de dois, de dois-------------------------------------------de dois
dois pássaros breves nos bosques verdes do Gerês.
dois navegantes imersos nas águas azuis de um Mar Egeu.

dois passageiros de almadia num pequeno rio estreito e afluente
de um grande Zambeze, um grande Mississipi, um grande Nilo
porque um amor grande procura -----------o pequeno espaço
procura pequeno espaço--------------------------------------de dois
desatento a brisas graves e persistentes
ansiosas de ventos norte, ventos frios
a quererem ser importantes perante o estio;

e o mesmo é dizer que o amor é distraído. não fecha a porta
porque exagerado, máximo e indiferente a todos os perigos.

pecado? pecado? --------------------------------pecado?
o momento raro como caem silentes e húmidos
os lábios de um, os lábios de dois, os lábios múltiplos?

-------------------------------------------------o pecado
abriu uma via que se tornou indivisível ---------de dois
tão única como os címbalos que escutámos em criança
nas diferentes aldeias junto às fronteiras do Minho;
passeavas de vestido fino enrolado de rendas
arrolavas um chapéu largo e sapatos de fivela
as meias em meia altura sem chegar ao joelho.
corrias como uma gazela nos caminhos junto ao rio
o rio de Caminha, os barcos, as matas do Camarido.

o que pode fazer um livro. um livro. palavras escritas
num mar de tantas palavras. tantas palavras.

o reencontro foi uma montra.
uma montra cheia de livros de uma livraria
e um nome. nome que não digo.
escrito de letras pequenas para o título.
título que não digo. mas grande. tamanho trinta
como um de Marguerite. tamanho trinta.
e as palavras. grandes palavras do livro.

a quem? mas não é possível?

o autógrafo na letra tremida. o sorriso desabrido.
um canto de papel. de flores. de embrulho. liga-me!

agora a luz e as sombras silentes que oscilam
e os lábios como sinos, os braços como sinos
os corpos apertados como sinos
e os sexos que se juntam e apagam.
apagam de uma só vez as reticências contínuas
--------------acendem a auréola, brilhante chama .

------------a brilhante chama de pecado? não . não.
de um novo livro que porventura será escrito.
de muitas palavras. muitas essências e flores
prímulas, magnólias, margaridas, estrelícias
antúrios, brincos de princesa, orquídeas.

mãos flutuantes e penas macias-

mãos como penas macias a deslizar de rolas
sobre os ninhos, no pinheiro e na casa junto ao rio -

1 comentário:

Anabela Brasinha disse...

Olá José,
Gostei do que traz o poema,
e diz, de embrulho,

a prenda
presente
oferta
existe
hoje
não só
na urgência

um abraço