segunda-feira, 14 de junho de 2010

a chave dos sonhos



Magritte " A chave dos sonhos" 1930


um sonho pode ser uma acácia perto do cais
um barco, um mar
um farol na forma de uma vela acesa
um fumo ténue que sobe sobre o ar.

um sonho pode ser não haver deserto
nem um martelo de aço que bate
sincopado em ritmo de oráculo, igual.

um sonho pode ser encontrar o tempo certo
sem a neve formal de um chapéu de coco
ou a filosofia mais antiga de um primeiro:
o ovo ou a galinha?

um sonho pode ser uma chave na tempestade
o princípio, quando quase a permanente ausência
uma viagem sem distância de forma intensa
a emoção de um grande descobrimento.

um sonho pode ser sempre -

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Sem outro intuito


De Chirico "Hector e Andromache" 1917

Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

caminho florentino




a torre inclinada era no lugar imaginado.
o mercúrio de prata sobe acima dos trinta.
o comboio de janela aberta oscila, antigo
escorrega as linhas, afasta-se de Pisa
procura a flor florentina.

cortinas azuis de muitas quadrículas
percorrem o vento na carruagem
fora e dentro
dobradas e loucas em movimento
fora e dentro.

as estações sem fumo nem gente, de ar amarelo.
os campos vagos e ausentes, alguns de cor seca.
podia ser um qualquer lugar de Agosto
nas margens paradas do rio Coa
há muito tempo nas férias de muitos meses.

fora de linhas os rolos enrolados de cereais
uma imagem quieta de uma corrida
em pistas douradas de espigas.
de fronteira, árvores, onde se reconhecem
as vestes de flores vermelhas da romazeira
e as torres de losangos metálicos, altos
onde no alentejo fazem os ninhos
aves de bicos grandes;
curioso vê-las voar de fraldas atadas
responsáveis por todos os nascimentos.

a caminho de Florença as cortinas
voam leves no vento. fora e dentro.
fora e dentro.

num pequeno intervalo enquanto o calor
se estende de deslizantes gotas
surgiu a vontade de colocar as letras
nas costas largas de um bilhete.

poucas, poucas letras porque a caneta
rebolou numa tinta lenta e redonda
cansada transpirou, caiu para o lado
como se macio o banco da carruagem
ou o plástico cinza empolado e fraco
que escondia o chão.
caiu para o lado e adormeceu.

quando acordou de um sonho imaginado o rio Arno brilhava
e as margens mostravam muitos verdes de folhas pequenas;
reconheceu os amieiros de mãos estendidas e troncos finos.
inclinados. inclinados no equilíbrio difícil.

Florença é bonita -

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Gestos a evitar



Recupero da febre das princesas de mármore.
Vou tornar-me num homem necessariamente melhor
mas sem flores para dar.
A partir de agora, levarei apenas o meu corpo frágil
ao baile
e ao teu pescoço as minhas mãos
desiguais.
Viajarei sozinho para as ruínas de amanhã
capital do novo âmago.
Levarei a minha face à face da estrada
estupefacta, e serei eu próprio quem irá escrever
a notícia dos meus passos directos ao acidente
e ao oriente da idade, e de tudo o mais
que nos embaraça
de rugas e teatros exaustos
entre tantos gestos a evitar.

domingo, 6 de junho de 2010

Elogio da imperfeição




A maior avenida não é a da liberdade.
Há lugares que só na proibição se acendem.
Por exemplo: uma mulher quis ser uma sereia
célebre e ofereceu metade do seu corpo
à ictiologia e à natação.
Mandou vir a mudança radical pela internet.
Como se esquecera de especificar o animal
marinho, trouxeram-lhe um fato de cefalópode
sem possibilidade de troca ou reembolso
de esperanças.
No entanto, a mulher que queria ser uma sereia
célebre não desesperou. Vestiu o fato
e comprou um microfone para cada tentáculo
e foi para a avenida da liberdade cantar.

sábado, 5 de junho de 2010

I AM LOVE (Io sono l'amore 2009)

Obrigatório Ver! Uma obra de arte!


o amante de marguerite



não são secos mas silentes e húmidos
os lábios que percorrem as reticências contínuas
--------------------------------------------do teu corpo.

a forma única como caem as roupas. brancas.
consequentes com a luz forte que se perde na sombra
de costas para a janela, tão de frente de------------- de nós
--------------------------------------------------dos nossos olhos
abertos, presos como borboletas presas num desejo
de dois, de dois-------------------------------------------de dois
dois pássaros breves nos bosques verdes do Gerês.
dois navegantes imersos nas águas azuis de um Mar Egeu.

dois passageiros de almadia num pequeno rio estreito e afluente
de um grande Zambeze, um grande Mississipi, um grande Nilo
porque um amor grande procura -----------o pequeno espaço
procura pequeno espaço--------------------------------------de dois
desatento a brisas graves e persistentes
ansiosas de ventos norte, ventos frios
a quererem ser importantes perante o estio;

e o mesmo é dizer que o amor é distraído. não fecha a porta
porque exagerado, máximo e indiferente a todos os perigos.

pecado? pecado? --------------------------------pecado?
o momento raro como caem silentes e húmidos
os lábios de um, os lábios de dois, os lábios múltiplos?

-------------------------------------------------o pecado
abriu uma via que se tornou indivisível ---------de dois
tão única como os címbalos que escutámos em criança
nas diferentes aldeias junto às fronteiras do Minho;
passeavas de vestido fino enrolado de rendas
arrolavas um chapéu largo e sapatos de fivela
as meias em meia altura sem chegar ao joelho.
corrias como uma gazela nos caminhos junto ao rio
o rio de Caminha, os barcos, as matas do Camarido.

o que pode fazer um livro. um livro. palavras escritas
num mar de tantas palavras. tantas palavras.

o reencontro foi uma montra.
uma montra cheia de livros de uma livraria
e um nome. nome que não digo.
escrito de letras pequenas para o título.
título que não digo. mas grande. tamanho trinta
como um de Marguerite. tamanho trinta.
e as palavras. grandes palavras do livro.

a quem? mas não é possível?

o autógrafo na letra tremida. o sorriso desabrido.
um canto de papel. de flores. de embrulho. liga-me!

agora a luz e as sombras silentes que oscilam
e os lábios como sinos, os braços como sinos
os corpos apertados como sinos
e os sexos que se juntam e apagam.
apagam de uma só vez as reticências contínuas
--------------acendem a auréola, brilhante chama .

------------a brilhante chama de pecado? não . não.
de um novo livro que porventura será escrito.
de muitas palavras. muitas essências e flores
prímulas, magnólias, margaridas, estrelícias
antúrios, brincos de princesa, orquídeas.

mãos flutuantes e penas macias-

mãos como penas macias a deslizar de rolas
sobre os ninhos, no pinheiro e na casa junto ao rio -

sexta-feira, 4 de junho de 2010

indeterminação


Fotografia de Kiran

não sei porquê este pensamento se ainda há pouco
fomos sempre - minutos e minutos tão serenos
não sei porquê se ainda há pouco
fomos tudo - senti-me tão seguro

quinta-feira, 3 de junho de 2010

A lenda do Homem-algo





Parte de mim está vestida a rigor para o diálogo
e leva rosas na lapela e supernovas no epitélio
lingual e chocolates na mansidão para a sua amada.
A outra parte recebe estes presentes todos
ao pormenor no conforto de sua casa.
Depois escreve uma carta que a primeira parte
não pode nem ousa decifrar.
A primeira parte de mim parte-se em bocados e chora,
e o choro mancha-lhe a elegância, murcha-lhe as rosas,
apaga-lhe as supernovas e desmancha os chocolates.
Uma vez nua e consternada, a minha primeira parte
resolve mais uma vez contra-atacar
e usar a sua nudez e a sua consternação
a favor do bem comum e da lógica indivisa das galáxias
mas a minha outra parte e o seu universo continuam
em contracção e eu, aproveitando o intervalo
e o debate aceso entre o governo e a oposição,
tomo o partido do que está a mais
e um comprimido da classe dos inevitáveis
e vou-me deitar.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

sabor a chocolate


retirado da internet

uma mão sobre o teu seio – acalma
o beijo numa pálpebra – acalma
um sopro nas brasas a chama alta – acalma
o suspenso lugar de um tempo que aguarda – acalma
uma folha fresca de palmeira numa praia – acalma
o corpo pele de seda na ternura de um embalo – acalma

e calmo sobressai o desejo
que cai açucarado
e sabe sabe
no sabor íntimo a chocolate-

de ombros subidos


Salvador Dali "cão dormindo na sombra do mar" 1950

no amanhecer de sol farto
ganha raízes a mágoa.
cobre a alma
soçobra breve na resistência de muralha.

por sobre a língua prova-se a pimenta
o picante externo e azedo de ervas
algumas ditas de aromáticas.

em alguma manhã brisa e um mar
leve, de leve para não acordar, de leve
para cintar a mágoa num búzio de chumbo
cinzento e inerte reboando tudo
dentro, dentro de uma mensagem presa.

o sol marca a pele nua, morena
não enchuva nem enmolha
permanece no silêncio do corpo e da voz.
não incomoda enquanto o mar cobre
cobre de altura os pés nos dedos de água
e areias sobre, sobre os dedos
por sob os dedos, repartindo o brilho
de ondas, leves ondas livres pintadas de branco.

de ombros subidos, subidos do meio do chão
os olhos num saco de raios, pousados
nos verdes limos das rochas escorridas
a condicionar as algas de serem grossas e carnudas
nas voltas dos tornozelos
de terem borbulhas nos alvéolos de génese
de outras folhas, macias e húmidas.

o sol é bravio, insistente, forte, de olhos quentes
e as algas seguem os passos sem mágoa
a mágoa presa no búzio de metal
búzio de metal, de chumbo –

brisa. a brisa de alguma manhã segue os ombros
e os cabelos agora curtos que desnudam a coluna
- a brisa sopra, fresca arrepia, causa uma hirta melodia
intermezzo de piano em saliências visíveis.

o viajante caminha, sonha e sobrevive-

Still Life




Há um momento em que, de facto, se faz justiça.
Quando o silêncio demove as coisas do seu suporte terrestre.
E as coisas continuam pousadas no peso de serem assim,
tanto quanto o destino,
deixando contudo à sua volta uma mancha de hipocrisia
(ainda não há fraldas para a incontinência das coisas
que sabem que voam, mas fingem o repouso
a preços baixíssimos.)

terça-feira, 1 de junho de 2010

permanência


fotografia retirada da internet

um segundo no intervalo de cada segundo
um minuto depois de cada minuto
meia hora em hora a meio;
metade de um tempo cheio

inflamas em flâmula a chama indefesa
permanência e desejo -

segunda-feira, 31 de maio de 2010

caem berlindes pela calçada


fotografia de Joana Campos retirada do site "Olhares"


caem berlindes pela calçada.

nada se sente de natural. não passam carros.
um silêncio de avestruz em intervalos de ruído.
de berlindes. multiplicados de vários sons.
sons de vidro. vidros. transparentes. de berlindes.

caem berlindes pela calçada.

no céu um motor em chamas. chamas. amarelas.
a fuselagem de cartão separa-se. um ovo descosido.
passageiros revisitam interiores humanos. histórias.
acertam as dízimas de costas direitas.
alguns falam mais alto.
as asas partem como capas de açúcar de jesuítas.
em mil bocados. há rezas de bíblia sagrada.

caem berlindes pela calçada.

o comboio partiu às dezanove de Berlim
a escarpa cedeu de muitas águas. caíram pedras
a leste da linha federal.
a garganta metálica dos carris esfuma o trinco
fecha as rodas. rotações paradas. os murmúrios.
passageiros escutam, esperam, murmuram
a ausência de um estrondo. alguns falam mais alto.
não rebenta o balão de oxigénio. os pulmões
cheios de ar que estanca. pára a pesada lata.
um susto. apenas um susto. aguarda-se.
aguarda-se de costas apertadas nos bancos.
bancos de napa. bancos verdes de napa.
faz-se escuro. o gerador acende luzes
e é noite. noite escura. depois a madrugada.

caem berlindes pela calçada.

não há só desertos no Iraque.
poços de petróleo insonorizados.
em tempos houve bunkers como retábulos
retábulos de uma ira. uma ira atómica.
o bunker dos fracassos cala a voz das ruinas.
a voz dos antepassados. voz de mortos.
à voz dos mortos juntam-se ainda mais mortos
de mercados , escolas, hospícios – os inocentes
de mãos quedas e corpos ainda moles
nos artifícios do fogo. fogo que sai de dentro.
na glória do espírito. do sacrifício. do sacrifício
santo e inútil. injusto e energúmeno.
um golfo de golfadas. golfadas de rios. intifada.

caem berlindes pela calçada.

não é natural o estado branco.
no interior próximo de uma casa de vidros duplos
estabelece-se um código de tempo parado.
o descanso. batem as portas e as portadas
que encerram a luz por dentro. folheia-se livros.
algumas páginas. apenas. apenas algumas páginas.
não se descobre a invasão branca. de fumo.
de fumo no silêncio de pratas e cristais reluzentes.
o estado branco envolve. retira a cor das casas.
expande e invade. sem carros como um corpo grande.
grande de branco. sem nada. para além dos ruídos.
ruídos de vidro. berlindes. que caem. caem.
longe. cada vez mais longe. em intervalos. pela calçada.
um ruído cego. mais longe. mais longe.
a rua inclinada –

caem berlindes pela calçada.

pecados espalham-se de muitas células.
a humanidade perde-se até ao mar.
há crianças de rosto pequeno no tamanho grande
de olhos. olhos que falam. imploram. a fome.
a indiferente insanidade de tantos. de tantos.
muitos discursos de abjectos oráculos.
o egoísmo auto-abençoado. reza-se por milagres.
o incómodo de ninguém acreditar. histórias.
mente-se demais. morre-se demais. tanto.
a atmosfera branca cresce numa névoa de inquérito.
multiplica-se. multiplica-se. um espectáculo de fantasmas.
cresce na imunidade de glóbulos. como um exército
um exército que trata. que quer tratar. invade.
é noite. espalham-se berlindes. por todo o lado.
o sono é um sonho acordado. a lua está acordada.
funde-se na nuvem branca. o globo engloba.
é preciso obstruir a indignidade –

caem berlindes pela calçada -