segunda-feira, 17 de maio de 2010

o canto dos pássaros no mar


òleo de Marynete Martins retirado da internet "Prímulas numa tarde de domingo"

no horto da avenida respira-se um sossego de aurora.
nove horas e a névoa de uma certa nostalgia fixa as rosas
cor de rosa de santa teresinha junto a dois vasos de prímulas;
estas pétalas tão pequenas de pequenos aromas chamam
com uma certa alegria os momentos bons ; comovem
e tocam o rumo da alma como barco de águas calmas.
um rumor de mar, de onda, de onda no mar. adormecem
adormeço as pálpebras como dobras de um lenço
fino de transparência e os olhos, os olhos castanhos
como ramos de uma árvore que flutua e anda
em águas sólidas, em pés de raízes levando o canto
o canto dos pássaros em direcções de horizonte.

adormecem e adormeço num outro mundo –

e o horto é só miragem e as plantas saltam
em crinas de algas junto das árvores, dos ramos
dos olhos castanhos e povoam o oceano
de um novo êxodo onde ninguém se afoga.
e as águas são calçadas cheias de passos verdes
que tornam verdes os mares;
milhares de folhas que tocam o ar de musgo
no céu ainda branco -

adormeço e adormecem
as rosas pequenas e dois vasos de prímulas -

domingo, 16 de maio de 2010

estado liquido do som

há bichos na rua
de pulsar azul

o pulso
entra pelos olhos
e pendura-os pela nuca

concentrados
pousam o centro no chão
e contam pedras
com os dedos dos pés

em cuidada vertical

pilhas de pedras
por baixo dos dedos
para aliviar a nuca

sopram canudos de pulsos
quase oblíquos
com canetas demasiado estreitas

não chegam
não sabem do pulsar

mas há entre eles
um liquido azul
muito próximo ao pulsar
que adivinham pelos ouvidos

o liquido é horizontal
e quando os enrola por dentro
entre pulsos e pedras

há bichos a dançar

sábado, 15 de maio de 2010

Créme de la Creme

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O mar é aquela coisa bela,
Azul e profunda onde os homens se afogam

Anónimo Português século XXI


Não sou o tempo que demoram as ametistas a chegar ao fundo do mar,
Sou só uma pessoa que quer mergulhar em todos os olhos e não sair, uma ametista
Ansiosa que as pessoas se abracem; e ser também esse abraço para que as estrelas se venham, e que os olhos tristes da minha amiga nevem
Ando pelas ruas à espera que dois olhos me violem o metaplasma, Acendam a espinha;
Adoro lamber lágrimas e caras inteiras, as pequenas estrias e nódoas negras que Bernini esculpiu nos tornozelos da estátua A Verdade, são iguais às dos teus tornozelos, estrias, veias finas e azuladas, nódoas negras, hematonas, nas pernas / na pedra / bem torneados de um veio de mármore um pouco mais azulado
O amor é como carne
sabe a mar e a limão, a parte de trás das orelhas – disseste
Que as estrelas-do-mar são virtualmente eternas, porque são só pontas e sensação,
e quando uma ponta é cortada dá origem a uma estrela nova, e isso pode demorar séculos, inquisições, guerras mundiais, guerras nucleares, holocaustos africanos, eclipses totais do sol,
As estrelas-do-mar são virtualmente eternas
se me pedem para escrever um texto de cariz social, lembro-me da imagem do Rodas, a ingerir os pacotes de coca e heroína, poucos segundos antes da polícia aparecer no início da rua e de alguém lhe assobiar, vinte minutos depois de ser revistado a ir à banca beber água quente e azeite, e meter os dedos dentro da boca para vomitar - Tudo antes que os sacos rebentem: Na esquadra, diz-me o Rodas, levam alguns que não têm produto nos bolsos, ou enfiado nas meias para o hospital,
E no hospital metem-nos o caga-rápido, e descobrem as embalagens – Já esteve preso seis meses, mas as coisas correm bem, mesmo com duas noites seguidas que passou na esquadra, e depois olha-me febril, a dizer que tem de sair da cidade, no dia anterior à visita do Papa, noite em que não é seguro vender, porque anda muita polícia na rua, e pensa sair, ir para o sul onde tem família. E lembro-me do discurso sobre a dignidade do homem de Giovanni Pico della Mirandola, e da responsabilidade total do homem de Jean Paul Sartre, e isso dá-me vontade de rir, e de ser abraçado pelo Sol, e dar Vida, nos braços, de um beco escuro ao lado da rua Mouzinho, dois injectam o sol líquido nos braços e tombam para a frente, e o sol aparece mais acima carregado de um esperma, gerado em chamas pela vitalidade e loucura dos homens: que lhe permite brilhar, num cio de estrela dependente de emoções

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atravesso a nado os teus braços, as tuas pernas, a tua nuca, a parte de trás das orelhas sujas de café, de uma lambidela suja: por ti, (e vemos de todos os olhos) – O que foi visto e se há-de ver: abraço-te a mim, num corpo único que há- de rebentar recheado de sol, sinto o teu corpo pelas minhas mãos, pelos teus olhos vejo entrarem todos os mares, e acenderem¬-te de desejo e resignação, como se uma orquestra que tocasse Mahler fosse enviada para Neptuno, os músicos unidos por fios dourados, coisas que ligam – pessoas a pessoas – tudo se acende à minha volta, assobiam do fundo da rua, o Rodas corre. A travesti canta para nós. A orquestra faz o planeta vir-se, e uma chuva de néon cai sobre a terra, da Eurásia à Austrália. Atiramo-nos para uma piscina, e no fundo, descobrimos uma galeria subaquática, que se bifurcava por baixo do solo: saíamos na região do medo, como se saíssemos na estação de Montparnasse


Mostrou-me um livro – Eu escrevi um livro sobre a droga – Corrigiu: Eu ditei para um escritor a minha experiência com a droga, Rodas! Rodas! – O Rodas chegou do quarto – Sabes onde está o livro sobre a droga que ajudei o escritor a escrever? – Está aí naquela gaveta – O Rodas foi à gaveta e tirou de lá um livro com a capa de um cor-de-laranja muito carregado e mostrou-me:
O título era “Como evitar a droga?” – A capa estava geometricamente cortada em cima, faltava um bom bocado – O Rodas disse que tinha sido para fazer uns filtros – Abri ao acaso e surgiu-me uma página marcada com uma prata queimada na página 120, não decorei a que capítulo pertencia. O Rodas ligou a aparelhagem e acendeu um cigarro.

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Continuámos pelas galerias que a piscina nos oferecia, encontramos Cronos de calções, dois semideuses sem os dentes da frente nadavam em sentido contrário como Neptunos. Mais à frente descia o nível das águas, e passámos a caminhar no lodo, apareceu um guia da América central com um microfone preso ao pescoço, guiou-nos pelo Inferno com a sua voz de sopinha de massas – Em que círculo estamos? – Perguntei ao meu amigo, que era uma puma, e outras vezes uma mulher – Não estamos em nenhum círculo – Estamos por baixo da casa onde mora o Rodas: E mais à frente ali os ratos – Não são ratos, são homens que desceram na condição social – Disse o guia – A pirâmide, está a ver, aqui vemos pirâmides, pensamos em triângulos, vemo-los por todos os lados, ainda não somos capazes de assumir a natureza humana, sem hierarquias verticais – Mas o planeta é uma linha horizontal da qual o homem se aproxima na sua subida. Assim, não são ratos, são homens: Vivem como ratos mas são homens. Pedi um cigarro ao meu guia e ele falou-me de um homem sábio.

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Qualquer rato tem a sua mãe, e as mães dos ratos vão visitá-los à prisão e as namoradas dos ratos vão à prisão e fazem sexo com os ratos, e levam os filhos mais tarde para que os ratos vejam os seus filhos – E os ratos olham-se ao espelho – ansiosos por descobrir os mais Fundos Limites humanos e não vêm o espelho, vêm só um homem que são eles, obrigados a ter dignidade.

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O homem sábio era David Foster Wallace, disse-me o guia, que como qualquer homem é sábio: E isto deu-me vontade de rir, e não sei porquê imaginei os músicos ainda ligados por fios dourados em Neptuno a tocarem agora Bethoven – e lembrei-me da palavra “húmido” como adoro a palavra “húmido” como adoro tudo o que está húmido no corpo humano – como amo – tal como Milton – Tudo quanto fluí – e senti-me escorregar pelas galerias sem rumo e sem escolha do caminho entrando por umas saindo por outras auxiliado pela música:
A forma mais evoluída de literatura – David Foster Wallace escreveu em “raparigas de cabelos estranhos” uma pequena história sobre um grupo de amigos que vão assistir a um concerto de jazz, na segunda parte do espectáculo, dois deles saem (um deles é a personagem principal do conto) E o outro rapaz que tinha tomado LSD antes do concerto diz à personagem principal: De onde advém a tua felicidade natural? --- Se me explicares de onde advêm a tua felicidade natural deixo-te esporrar para cima de mim e da minha namorada – No conto a personagem principal sente-se embaraçada com a pergunta mas começa a responder, são cinco páginas completas a resposta dele, uma resposta insegura que não convence o outro que lhe diz – Falas-te muito, mas não me disseste de onde provêm a tua felicidade natural. A personagem principal sente-se derrotado na capacidade de diálogo, mas tenta uma última tentativa: Se eu te der 1000 dólares deixas-me ir com a tua namorada? – O amigo aceita. O conto acaba pouco depois, ficando em aberto essa hipótese que o fim da narrativa não permite saber se se concretiza.

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As estrelas do mar são virtualmente eternas
As medusas são virtualmente eternas
(Porque não têm sistema central, não pensam, sobretudo não reflectem, são só nervos e sensação, ponta e electricidade)

A capa estava geometricamente cortada em cima, faltava um bom bocado – O Rodas disse que tinha sido para fazer uns filtros – Abri ao acaso e surgiu-me uma página marcada com uma prata queimada na página 120, não decorei a que capítulo pertencia. O Rodas ligou a aparelhagem.


Nuno Brito

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Chelsea


Gerhard Richter "fuga"

------------------------------------- I don’t mean to suggest
------------------------------------ that I loved you the best
-------------------------------------------------Leonard Cohen

eram tuas essas gotas caindo no rosto branco
o gesto meu de frente como um espelho
pousou as suas dentro de um copo de bolso às riscas;
a camisa azul, a preferida.

as fontes que brotaram frente a frente
conheceram outros dias, primaveras
corridas pelos prados verdes das nossas ilhas
kiss e kisses enroscados nas águas mornas de um rio
tardes quentes nas frescas ondas de linho.

o receio é demasia, determina. seja.
embora se diga que nada se perde
quando e se há sentido
a intensidade do vulcão jaz adormecida
a tal metade de frio que aplaina o desejo
que se reconstrói sem despedida.

guardam-se as cartas
de palavras indescritas e faz-se a noite
de muitas luas, de manchas escuras
de crateras abertas, ausências adormecidas.

não se lembra o tempo, a distância
desde aquele primeiro instante
em que se fez a concordância
a urgência de lábios géminos, mistos
mãos de veias, desvairadas no alívio.

quando? quando e porquê
a desistência de corpo e chama
que nos torna mais pequenos?


quando? quando
o reconhecimento de que nunca fomos crescidos?
não são as fotografias mas sim os olhos que guardam
a importância das imagens , interiormente
na outra intensidade, máxima e mínima.

as cordas ressoam no círculo rígido, cds
discos de espiral na força de melodias;
os quartos, os quartos fechados de Id
aonde vais? aonde ides baladas
inscritas de sede e sumo de mangas descosidas
em milhares de artérias e labirintos
na velocidade ultrarápida de ruídos?

aonde ides ? até que param no silêncio.
os silêncios de uma cabana feita de musgo e sombra
de paredes brancas imperativas. corridas de tectos
as campânulas. as campânulas. o deserto.
os desertos que se tornam divididos.

um dia as diferenças líquidas são dois mundos
partes sem íman, derretidas, dois rios.
nas margens cortam-se as árvores
e plantam-se eucaliptos;
o esquecimento de um poder de raízes
que trabalham escondidas, invisíveis
secam as grandes planícies.

ecos e ecos nos ouvidos
a insubmissão dos búzios
os ecos reflectidos no Id que divide
mas resiste a lamparina não se extingue

não se sente a fúria.
é certo que o desgaste roeu o alicerce
mas o inferno não é mau
quase um imperfeito paraíso, um intervalo
a necessidade de um repouso inconsciente

não se apaga o profícuo, o bom
há uma lei que contesta a total dissolução
a desordem , a total desordem
a presença de um maior perigo - a anarquia

a descoberta da gravidade, o equilíbrio
que respira, inspira, expira e permanece
de pés no chão como plátanos de troncos largos
cobertos de manchas verdes, verdes claras
e ouriços lá em cima em torturas de vento.

penso e pensas logo somos. não há posse
possessiva, estrangulada e triste.
é preciso compreender a natureza
empresta-nos uma vida.

nada nunca termina quando faz sentido;
recordamos as ruas largas como Santa Catarina
os cafés mais distintos como o Majestic
as praias de pequenos nichos
pequenos mariscos na Boa Nova de Siza.
recorda-se os passeios nas aldeias
e as asas que desejámos por cima das montanhas
as areias, as mãos dadas, as águas
as setas escondidas em canas ocas e sibilantes
das sereias de neptuno, as ondas, as ondas
que subiam e subíamos mantendo níveis
de altos risos pelo risco picotado de adrenalina.

a ciência dos afectos quantifica
e conserva grandes massas de pérolas
dentro de um baú de peles castanhas
lustradas de brilhos como se e sempre vivas;
os poros respiram. a vida existe. nada termina -

será sonho, irrealidade em tudo isto?
apenas ilusão e fuga?
Id, Id
nada termina -

VII Encontro de Poetas em Coimbra

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Ana Luísa Amaral

Aquilo em que me posso tornar (assim, de repente)





Posso tornar-me num homem santo:
basta tomar regularmente os comprimidos.
Mas eu desconfio da santidade pálida, pública,
impávida dos comprimidos e detesto as soluções
da ciência quando é a fé que me pede
que desconfie de si mesma e me ensina
a desconfiar de mim mesmo e depois
da ciência, da santidade acelerada
dos compridos para descomprimir.

Posso tornar-me num homem rigorosamente honesto,
medíocre, de tão honesto,
e novamente honesto, de tão medíocre
mas para isso é preciso que a nudez, toda a nudez,
qualquer tipo de nudez, seja abolida
que acabem de vez com as ruas íngremes e desertas,
que a poesia morra na poeira
protestante das prateleiras
das livrarias
que amanhã nasça órfão
de uma mulher ébria
como Maeve
que foi a mulher mais livre
da História
da Irlanda
(e a Irlanda,
neste contexto,
é apenas aquilo que eu sinto
por ti)
só se essa mulher voltar a ser maltratada
pela inveja que é impotência dirigida
só assim – a lista estende-se,
mas não é entendível – só assim
eu posso ser honesto
daquela honestidade
que não interessa a ninguém
nem mesmo às raparigas.

Posso tornar-me num homem tornado
qualquer coisa que não lhe concerne.
Posso provar o obséquio de uma só e sólida
aspirina, mas a dor de cabeça há-de prosseguir:
as suas raízes surpreendem a farmacologia
moderna orientada apenas para pesadelos,
apesar de tudo, permissíveis.
Há uma voz miserável
dentro delas que cospe a aspirina.
Receio que a ciência e a fé não sejam suficientes
para me curar e iludir. Porque curar é iludir
a doença de existir de tal forma que a doença
desista.
Talvez ligue para a polícia e pergunte sucintamente
onde posso eu achar paz às duas e meia de uma manhã
que finge dormir à luz de substâncias irreveladas
na dormência, totalmente ilícita
apenas com o lençol das suas contingências
a destacar um orgulho que não é seu
deitada na cama comovente da despedida.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

a lente do cérebro




a lente sem razão de um cérebro incómodo
revela uma lava que desce e solda os pés
num campo onde só searas sentem companhia.
não possui a leveza, a resiliência, a inclinação
as campânulas que seguram o vento .

rolhas de cortiça selam os ruídos
impedem os rumos de circulação
no céu passam as cinzas e uma chuva fina.
o retículo de redes que apanham borboletas
são macios fios de um espaço parado
um rio seguro na muralha da barragem
ganhando a torrente, a força larga de margem
a catadupa de energia fulminante, a faísca.


o corpo é um barco fraco de pescador
a tinta separa e clareia um castanho beige
infiltrado de humidade. sobressaem
as mãos, os remos inertes e lassos
e um mar em ressaltos de ondas
imenso e aberto
imenso e aberto
imenso e aberto -

A Primavera




A primavera é um efeito de pirotecnia.
Uma performance de pássaros
às portas da ressurgência.
O súbito entusiasmo das flores
do mal pela dor adormecida
dos dias mais longos e mais benevolentes.
Suor vendido como água termal
em garrafinhas de oxigénio
para usar à superfície
todos os dias
e uma rara toxina
completamente apaixonada
pelo sistema nervoso central
da sua melhor tarefa:

paralisar-te, no exacto momento
em que a minha boca já não me obedece
quando as pistolas de pólen fazem pontaria
ao solstício do texto

e disparam sobre as duas personagens
uma branca eterna
e crescem os primeiros cabelos
de novos papeis

terça-feira, 11 de maio de 2010

Ana Luísa Amaral



Hoje às 18h30 na Biblioteca Almeida Garrett ao Palácio de Cristal sessão poética com apresentação de Livro "Inversos" e leitura de poemas.

A casa de Beethoven



A casa onde nasceu Beethoven
Tem quatro pisos
Mas é pequena e triste:
Em 1999
Está cansada.

O soalho range perigosamente
Quando passam os turistas
Que caminham lentos
Um tanto receosos.

A um canto
Dois pianos da época
Encostam as suas caudas
Timidamente
Temerosos de algum
Não desejado contacto.

Em todos os andares
Nas paredes
Há velhos retratos
E em vitrines
Algumas velhas partituras
Jazem sonolentas.

Fazendo pendant
Com os aparelhos de ouvir
Estão as lunetas embaciadas
Do Mestre.

A casa está vazia
Porque o Mestre
Não está.
Só no jardim
Paira ainda
No leve murmúrio da folhagem
Uma inaudível voz
Um som longínquo
Que ressoa dentro


Ana Hatherly

segunda-feira, 10 de maio de 2010

come a papa joana come a
papa
joana
come a papa

um, dois, três,

uma colher
de cada vez

quatro, cinco, seis,

era uma história
de reis

e uma colher de

papa
come a
papa

sete, oito, nove,
ainda nada

se resolve

dez, onze, doze,

à espera
que a mosca pouse

e uma colher de
papa
come a
papa

treze, catorze e meia,

a coisa
não está tão feia
dezesseis, dezassete

mais um pingo
no babete

e uma colher de papa
come a
papa


letra de
barata
moura
(canção infantil)

domingo, 9 de maio de 2010

a realidade de um enigma


Joana Vasconcelos "top model" 2005


publica-se a mágoa

aços e lâminas pelos ares - acidentes
liminares nas cores de esparta e atenas - litigantes
feridas não mortais - sólidas
estranhas no modo estranho.

o preconceito na existência de paradigma
a realidade como um enigma
na fuga caída dos sentidos

uma voz esquiva no horizonte
uma luz de dínamos - íntima
luz de muralhas – um caminho
no cimo de uma falésia - o equilíbrio

publica-se a mágoa e o pressentimento
de querer tudo ser nada
e nada querer não ser diferente

como seria o fim do vento frio ?
reduzir a inexistência do medo
no estado incompleto da euforia ?

há momentos próximos e distantes
a luz variada dos semáforos e a conclusão
de que os diamantes vivem para sempre
e na máxima dureza se esconde o brilho -

Metal pesado




Outro poeta espanhol da segunda metade do século XX, que me faz acreditar que há vida para além da vida de todos os dias, ainda que a crítica o situe na chamada Poesía de la Experiencia, geração de poetas onde o quotidiano é rei e as vivências pessoais são tratadas com a mesma deferência de uma ilusão perdida.


Igual que sucedía, siendo niños,
con las mágicas gotas de mercurio,
que se multiplicaban imposibles
en una perturbada geometría,
al romperse el termómetro, y daban a la fiebre
una pátina más de irrealidad,
el clima incomprensible de los relojes blandos.
Algo de ese fenómeno concierne a nuestra alma.
En un sentido estricto, cada cual
es obra de un sinfín de multiplicaciones,
de errores de la especie, de conquistas
contra la oscuridad. Un individuo
es en su anonimato una obra de arte,
un atávico mapa del tesoro
tatuado en la piel de las genealogías
y que lleva hasta él mismo a sangre y fuego.
No hay nada que no hayamos recibido
ni nada que no demos en herencia
Existe una razón para sentir orgullo
en mitad de esta fiebre que no acaba.
Somos custodios de un metal pesado,
lujosas gotas de mercurio amante.

De "Metales Pesados" 2001

Sobre o Transplante da Humanidade




Aos poucos, as técnicas de transplante
irão ocupar uma área maior
do que sensatamente lhes corresponde.

Depressa, a identidade ganhará músculos
gigantes na estratégia
que a partir de agora servirá para a definir
para sempre pior.

Os tempos mudam as vontades
e as vontades mudam o dobro.
O mercado, sempre sedento
por novos rostos e corpos belos
e redutores, fará de tudo para comprar
a melhor equipa de cirurgiões, psiquiatras,
patentes, máquinas e computadores,
salas de espera com piscina e anestésicos
com sabor a autonomia relativa, circo negro
e peppermint.

Aos poucos, haverá clientes do mundo inteiro à espera
que lhe transplantem o corpo todo, milímetro a milímetro,
depois um pouco mais.

O mercado exagerará nos preços e no mistério
ao início, mas rapidamente dará sinais de pornografia,
com aliás sempre acontece,
quando um produto é procurado melhor
com uma pistola na mão do que com duas a voar.

Os olhos azuis, por exemplo,
sairão de moda com a brevidade
de um herbívoro adormecido,
a menos de três metros de um leão
extensível a todas as heterodoxias
com que a sua fome é educada
desde pequena.

As acções vão disparar
à medida que as necessidades
de transplante atinjam o despropósito
e as linhas travessas com que se cose a compulsão
suportem o último comboio com destino ao disparate
(que nunca será transplantado com êxito
por uma nova ponderação
porque as ponderações serão sempre rejeitadas
pelo senso comum
e pela falta de imunosupressores
e compressas ontológicas
nas farmácias.)

O mercado sairá de cena também a qualquer momento,
como um ditador que se escondesse num suicídio temporário
e, sob pseudónimo, publicasse ainda um livro
sobre o transplante da humanidade.