terça-feira, 8 de setembro de 2009

A Hora Mais Exacta





Imagens
que voltavam devagar,
se encostavam a ela sem pudor.
E no silêncio, a esfinge impenetrável,
sabendo-lhe de cor o coração:
desistente dos barcos,
depondo pelo chão de outros palácios
as armas mais preciosas.
“Não posso”, acrescentara
sentindo aproximar-se a hora
exacta.

ANA LUÍSA AMARAL, Imagens, Campo das Letras, 2000: 47

O constante diálogo


Camille Pissarro "Young women and child at the Well" 1889

Há tantos diálogos

Diálogo com o ser amado
o semelhante
o diferente
o indiferente
o oposto
o adversário
o surdo-mudo
o possesso
o irracional
o vegetal
o mineral
o inominado

Diálogo consigo mesmo
com a noite
os astros
os mortos
as ideias
o sonho
o passado
o mais que futuro

Escolhe teu diálogo
e
tua melhor palavra
ou
teu melhor silêncio.
Mesmo no silêncio e com o silêncio
dialogamos.

Carlos Drummond de Andrade, in 'Discurso da Primavera'

domingo, 6 de setembro de 2009

Uma voz incompleta


Robert Doisneau "O beijo no Hotel de Ville" 1950

Um sabor de "Straciatella" sobre uvas
e morango na cor certa do desejo.
Um sábado de céu despido veste um mar
de linhas brancas.
Sinto sinais de uma ternura imensa
a mistura salgada que embala
numa escrita de penas, impermeável
aos mares da China;
sonetos salvos no desassossego
de um sentimento maior:
"Amor é fogo que arde sem se ver"
Escrevo as frases alinhadas
nas folhas de um bloco adolescente:
quadrados, nuvens, um quarto de lua
a cor rosa.
Inclino a cabeça um farol de espelhos
e recomeço o texto de franja descaída
nas dunas de uma ganga macia.
Gravo como artesão ourives
o ouro encoberto de almas indeléveis
belas como cálices de fontes puras
céus de mistérios
filamentos de um dossel bordado
reflexos de deusas na minha inquietude.
Há um trilho de lábios no meu diário
uma subida de muitas escadas
sem descanso no meu berço-
continuo os dias e mesmo
quando adormeço sonho a noite
e desfio sem ruído
uma voz incompleta

sábado, 5 de setembro de 2009

espaços quentinhos no Porto

Caros colegas,

serve este post para vos falar de dois espaços muito simpáticos na cidade onde podem assistir a sessões de poesia:

- O Gato Vadio, na rua do Rosário nº 281;

- O renovado Labirintho, na rua Nossa Senhora de Fátima nº 334, que todas as quintas feiras dedica a noite à poesia. Em cada sessão os livros dos poetas lidos sofrem um desconto de 20%.


Amanhã, dia 6 de Setembro, vou a uma sessão no Gato, às 22h. Apareçam! Era um prazer rever-nos. Abraço

Disciplina


Georges Braque "Porto na Normandia" 1909

O trabalho começa ao romper do dia. Mas nós começamos,
um pouco antes do romper do dia, a reconhecer-nos
nas pessoas que passam na rua. Ao descobrir os raros
transeuntes, cada um sabe que está sozinho
e que tem sono — perdido no seu próprio sonho,
cada um sabe no entanto que com o dia abrirá os olhos.
Quando a manhã chega, encontra-nos estupefactos
a fixar o trabalho que agora começa.
Mas já não estamos sozinhos e ninguém mais tem sono
e pensamos com calma os pensamentos do dia
até que o sorriso vem. Com o regresso do sol
estamos todos convencidos. Mas às vezes um pensamento
menos claro — um esgar — surpreende-nos inesperadamente
e voltamos a olhar para tudo como antes do amanhecer.
A cidade clara assiste aos trabalhos e aos esgares.
Nada pode turvar a manhã. Tudo pode
acontecer e basta levantar a cabeça
do trabalho e olhar. Rapazes que se escaparam
e que ainda não fazem nada passam na rua
e alguns até correm. As árvores das avenidas
dão muita sombra e só falta a erva
entre as casas que assistem imóveis. São tantos
os que à beira-rio se despem ao sol.
A cidade permite-nos levantar a cabeça
para pensar estas coisas, e sabe bem que em seguida a baixamos.

Cesare Pavese, in 'Trabalhar Cansa'
Tradução de Carlos Leite

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Magnólia




Um banco quadrado de tranças loiras
na sombra interior da magnólia
árvore branca.
Sento-me e sinto-me de inconformidade
nos braços esguios de um pensamento;
viagem virtual e singular

cesse a luz translúcida e ausente
quero apagar as partes más
as que esfarrapam
não por fora
dentro
as rugas de um tempo
de copo vazio
néctar de vida
perdido

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Quotidiano (Reflexão)



Malevitch "De manhã depois da tormenta na aldeia" 1912

Por exemplo, as coisas que faltam neste lugar:
uma enxada para que as mãos não toquem na terra,
um ninho de pardais no canto da relha,
para que um ruído de asas se possa abrigar,
um pedaço de verde no monte que ainda vejo,
por detrás dos prédios que invadem tudo.


Mas se estas coisas estivessem aqui,
também faria falta um copo de água para ver,
através do vidro, um horizonte desfocado;
e ainda os restos de madeira com que,
no inverno, é costume atiçar o fogo
e a imaginação que ele consome.

Como se tudo estivesse no lugar,
pronto para ser usado na data prevista,
sento-me à janela, e fixo a única coisa
que não se move:
o gato, hipnotizado por um olhar
que só ele pressente.

Nuno Júdice, in "Meditação sobre Ruínas"

Menino


Henri Cartier Bresson

Onde estão os sinos
a procissão
as solenes manhãs de Domingo
na prece, na devoção?

Quero ser de novo menino
de calção
meia branca
e o missal de capa preta
na mão!

Não quero crescer!
Não!

terça-feira, 1 de setembro de 2009

A MINHA ESPERANÇA NUM NOVO AMANHÃ

Que seria de mim, de nós,
se perpetuássemos a convicção da espera eterna,
se perdêssemos a esperança num Futuro
de vermos transformado em presente
um 30 de Fevereiro!

Ambição sublime, para nós realidade,
comunhão bendita à luz do nosso eu
ou de um qualquer Deus...

Só por isso
eu devo sorrir quando triste,
eu não sofro demasiado vendo jovens enlaçados
seguindo seus caminhos mesmo sem rumo!

Só por isso
eu consigo um frágil equilíbrio,
que uma tristeza-revolta me não aniquile,
que uma grande angústia se dissipe,
enquanto espero por te reencontrar!

Só por isso
eu consigo fugir de mim mesmo,
deixando para trás todo um sentir,
tão belo e tão humano que nos uniu,
e que será, por certo, amanhã em nós
vivência constante como outrora,
meu sublime e inacabado amôr!

( António Luíz, Porto -1990; in " EU e O SILÊNCIO",
1994 - 1ª edição / 2008 - Edições Ecopy )

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Imagem minha



fotografia de Martin Munkacsi 1939

Ficas a ler comprazida diante das rosas
silhueta que vislumbrei compus e reanimei.
Tinhas o perfil marcado cruamente pela luz,
as mãos claras no colo, os cabelos despojados
do brilho das cabeleiras soltas, mas juvenis
e sacudidos no início da tarde com alegria.
As páginas balouçavam do mesmo modo que as rosas
porque ao começar a tarde nos dias de Verão
brisas e vapores estendem-se desde o mar
até às margens floridas. No teu banco
adornado por festões de rosas trepadeiras
afastas os olhos do livro não absorta
mas para sempre atraída por inúmeras imagens.

Fiama Hasse Pais Brandão, in "Três Rostos - Poemas Revistos"

domingo, 30 de agosto de 2009

O balão aquecido


Giorgio di Chirico "Mistério e melancolia de uma rua"


Estranho a tarde de Agosto nos passeios sós
a geometria do cimento de inúmeras placas
quase tectónicas, quase erodidas, quase ruínas
de um calor forte, contido magma.
Um Centro de Saúde em casa rasa anuncia entradas
desiguais, para um estado febril de gripe "A" deserta
e muitos outros mortais de quedas imprevistas
tonturas de Estio, sedes ocultas em fomes insaciadas
as finas cintas, ou ares alugados de muitos doces
mesmos medos, sinais contrários, doença (de)mente

a bulimia de muitos hinos sopra.
o Eu profundo influi no nariz agora liso
num olhar de pólo Norte atmosférico
respirando as furnas , as quentes pedras.
os braços ensinam os dedos no artesanato
entrelaçado de uma cesta de vimes levíssima
acima da qual desperta o fogo feito
no balão aquecido de sonhos e cinzas
que enleva mais perto os telhados de vidro
o céu entoado de segredos que tudo vê
e nada conta na distância dos silêncios.

subo...subo...subo...na estranha forma
o nosso mundo é apenas um ponto único;
a lágrima azul
o infinito
fico...fico...fico...
longe...longe...longe...

Ventilação do Poema

Pássaros que passam
e navios perdidos
que permanecem,
ou ficam em ninhos
ou soam em apitos

ventilação de vazios
pontos de fuga do poema
os pássaros e os navios

sábado, 29 de agosto de 2009

Coisas, pequenas coisas





Fazer das coisas fracas um poema.

Uma árvore está quieta,
murcha, desprezada.
Mas se o poeta a levanta pelos cabelos
e lhe sopra os dedos,
ela volta a empertigar-se, renovada.
E tu, que não sabias o segredo,
perdes a vaidade.
Fora de ti há o mundo
e nele há tudo
que em ti não cabe.

Homem, até o barro tem poesia!
Olha as coisas com humildade.

Fernando Namora, in "Mar de Sargaços"

Are you going?



O vento buliçoso de bom dia
maré viva de bandeira rubra
sinal de perigo
condição objectiva de largar areias
as águas frias
e subir acima à pequena catarata
roda larga de madeira
velha azenha.

Subsistia límpida a transparência
um cardume roçando a pele
de tamanho pequeno.

O ruído constante de pedras lavadas
as águas correntes de um rio.

Bandos de natureza amiga como brisas
no vento de borboletas
nos bichos barcos de quatro patas
às dezenas subindo junto às margens.

O sabor doce de figos brancos
após o banho o encontro dos trevos
entre pinheiros e odores frescos
de eucaliptos abrindo narinas
os sentidos nas sombras verdes
o deitar pleno nas toalhas dos arbustos
nos braços dos acordes mi menor e sol maior
de uma pergunta de estrofes antigas:

"Are you going to Scarborough fair
Parsley, sage, rosemary and thyme...".

A melodia sussurrou o silêncio das seivas
a leveza do ar por mais de uma hora;
a guitarra de olhos fechados pousada
e as árvores como cordas
tangiam os corpos como pautas
entre os dedos e os lábios roxos -