CANÇÃO DO SEMEADOR
Na terra negra da vida,
Pousio do desespero,
É que o Poeta semeia
Poemas de confiança.
O Poeta é uma criança
Que devaneia.
Mas todo o semeador
Semeia contra o presente.
Semeia como vidente
A seara do futuro,
Sem saber se o chão é duro
E lhe recebe a semente.
Miguel Torga
terça-feira, 26 de maio de 2009
Paradoxo 41
De tanto querer
Esquecer a dor que trouxeste
Não lembro agora a dor
Não lembro há muito mais
O amor inteiro que me deste.
É tanto o arrependimento
De pisar no esquecimento
A desilusão que já não és
Que hoje quase volto atrás
Procurando as feridas
Rebobinando o drama
Para amar-te,
Para que possa lembrar
O amor inteiro que me deste.
Esquecer a dor que trouxeste
Não lembro agora a dor
Não lembro há muito mais
O amor inteiro que me deste.
É tanto o arrependimento
De pisar no esquecimento
A desilusão que já não és
Que hoje quase volto atrás
Procurando as feridas
Rebobinando o drama
Para amar-te,
Para que possa lembrar
O amor inteiro que me deste.
Teatro da boneca
A menina tinha os cabelos louros.
A boneca também.
A menina tinha os olhos castanhos.
Os da boneca eram azuis.
A menina gostava loucamente da boneca.
A boneca ninguém sabe se gostava da menina.
Mas a menina morreu.
A boneca ficou.
Agora também já ninguém sabe se a menina gosta da boneca.
E a boneca não cabe em nenhuma gaveta.
A boneca abre as tampas de todas as malas.
A boneca arromba as portas de todos os armários.
A boneca é maior que a presença de todas as coisas.
A boneca está em toda a parte.
A boneca enche a casa toda.
É preciso esconder a boneca.
É preciso que a boneca desapareça para sempre.
É preciso matar, é preciso enterrar a boneca.
A boneca.
A boneca.
(in Litoral nº1)
A boneca também.
A menina tinha os olhos castanhos.
Os da boneca eram azuis.
A menina gostava loucamente da boneca.
A boneca ninguém sabe se gostava da menina.
Mas a menina morreu.
A boneca ficou.
Agora também já ninguém sabe se a menina gosta da boneca.
E a boneca não cabe em nenhuma gaveta.
A boneca abre as tampas de todas as malas.
A boneca arromba as portas de todos os armários.
A boneca é maior que a presença de todas as coisas.
A boneca está em toda a parte.
A boneca enche a casa toda.
É preciso esconder a boneca.
É preciso que a boneca desapareça para sempre.
É preciso matar, é preciso enterrar a boneca.
A boneca.
A boneca.
(in Litoral nº1)
Regresso...
Caros amigos/as poetas,
certamente ninguém se lembrará de mim porque eu fui aquele que vocês viram apenas na primeira aula, já muito e muito distante, da primeiríssima sessão, em Setembro. Percalços, imprevistos, enfim, toda uma núvem de coisas e mais coisas que me desviaram desse vosso caminho e das vossas invejadas aventuras poéticas!
Pois bem, agora estou de volta - e para o ano lá estarei, regressarei à poesia convosco! Como o título de um livro que ando a ler, estou 'perdido de volta', e às vezes, às vezes é preciso perdermo-nos para nos sabermos encontrar no sítio certo de novo!
Por isso, as minhas sinceras desculpas pelo desaparecimento.
Fica uma nova página recente: circodesombras.blogspot.com, para quem quiser saber 'mas quem é ele afinal...'.
De resto, nada mais a acrescentar. Vou ficando.
David Campos Correia
certamente ninguém se lembrará de mim porque eu fui aquele que vocês viram apenas na primeira aula, já muito e muito distante, da primeiríssima sessão, em Setembro. Percalços, imprevistos, enfim, toda uma núvem de coisas e mais coisas que me desviaram desse vosso caminho e das vossas invejadas aventuras poéticas!
Pois bem, agora estou de volta - e para o ano lá estarei, regressarei à poesia convosco! Como o título de um livro que ando a ler, estou 'perdido de volta', e às vezes, às vezes é preciso perdermo-nos para nos sabermos encontrar no sítio certo de novo!
Por isso, as minhas sinceras desculpas pelo desaparecimento.
Fica uma nova página recente: circodesombras.blogspot.com, para quem quiser saber 'mas quem é ele afinal...'.
De resto, nada mais a acrescentar. Vou ficando.
David Campos Correia
segunda-feira, 25 de maio de 2009
TEMPO DE EPITÁFIOS
I -
Aqui jaz alguém
num exílio infindável,
um espaço de paz incomensurável,
lugar do Tempo de todos os tempos,
onde apenas floresce
a Memória dos ditosos momentos.
II -
Aqui jaz alguém
em exílio absurdo por tempo incerto,
campo de batalhas sempre deserto,
lugar do Tempo de todos os tempos,
onde apenas cresce
a Memória dos vazios opulentos.
III -
Aqui jaz alguém
em pacato exílio por benquista vontade,
mar imenso sem guerreiros, liberdade,
lugar do Tempo de todos os tempos,
onde apenas se enaltece
a Memória dos actos belos, não nevoentos.
(António Luíz ; VNGaia, 21-05-2009 )
Aqui jaz alguém
num exílio infindável,
um espaço de paz incomensurável,
lugar do Tempo de todos os tempos,
onde apenas floresce
a Memória dos ditosos momentos.
II -
Aqui jaz alguém
em exílio absurdo por tempo incerto,
campo de batalhas sempre deserto,
lugar do Tempo de todos os tempos,
onde apenas cresce
a Memória dos vazios opulentos.
III -
Aqui jaz alguém
em pacato exílio por benquista vontade,
mar imenso sem guerreiros, liberdade,
lugar do Tempo de todos os tempos,
onde apenas se enaltece
a Memória dos actos belos, não nevoentos.
(António Luíz ; VNGaia, 21-05-2009 )
sábado, 23 de maio de 2009
Cidade cebola
Cidade em cebola
que pontos sem cruz
te foram bordados
que finas camadas
enrolam a aldeia
que buscas e segues
nas lágrimas falsas
daquele teu fado
segue, segue-a
mas pela estrada
que pontos sem cruz
te foram bordados
que finas camadas
enrolam a aldeia
que buscas e segues
nas lágrimas falsas
daquele teu fado
segue, segue-a
mas pela estrada
Improvável arritemia
Ponta
atravessa-me,
leva-me àquela fenda
quero amassar o magma,
dobra-me,
polvilha-me
em milhares de intenções daninhas
embrulha-me em papel de rascunho
ou castra-me
em túneis escuros de manhã,
ao léu, pode ser
mas não ao de leve,
a deslizar é que não!
atravessa-me,
leva-me àquela fenda
quero amassar o magma,
dobra-me,
polvilha-me
em milhares de intenções daninhas
embrulha-me em papel de rascunho
ou castra-me
em túneis escuros de manhã,
ao léu, pode ser
mas não ao de leve,
a deslizar é que não!
improvável antologia poética
AMOR COMO EM CASA
Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
Manuel António Pina
Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.
Manuel António Pina
Take this Waltz
En Viena hay diez muchachas,
un hombro donde solloza la muerte
y un bosque de palomas disecadas.
Hay un fragmento de la mañana
en el museo de la escarcha.
Hay un salón con mil ventanas.
¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals con la boca cerrada.
Este vals, este vals, este vals, este vals,
de sí, de muerte y de coñac
que moja su cola en el mar.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Vivo
Está vivo e dele se espera algo mais
ímpar sem alinhos de prumo
ímpeto de touro embravecido
nas escritas fortes em caligrafia
caudalosa de gritos e arrepios
vivo até ao último dia
sem medo da cicatriz diagonal
do esquerdo lugar da frente
ao sinal mais longo na virilha
vivo e absoluto em qualquer cruz
como o surdo que compunha sinfonias
como um cego entre as bombas de Hiroshima
como os cascos do cavalo nos infernos de Guernica
vivo e sanguíneo
rasgando o ventre dos bosques
as raízes invasivas de rotinas
vivo e resistente
nas tempestades brutas
nas marés vivas das razias
vivo e revolto
como a raiva das águas
que destrói as rochas teimosas
altivas duras
na força de espumas brancas
às ínfimas partículas
areias miméticas de vazios
vivo e dele se espera algo mais
os espirros a gripe
o catarro
a doença benigna
a pandemia das ideias
nos mastros contemplativos.
ímpar sem alinhos de prumo
ímpeto de touro embravecido
nas escritas fortes em caligrafia
caudalosa de gritos e arrepios
vivo até ao último dia
sem medo da cicatriz diagonal
do esquerdo lugar da frente
ao sinal mais longo na virilha
vivo e absoluto em qualquer cruz
como o surdo que compunha sinfonias
como um cego entre as bombas de Hiroshima
como os cascos do cavalo nos infernos de Guernica
vivo e sanguíneo
rasgando o ventre dos bosques
as raízes invasivas de rotinas
vivo e resistente
nas tempestades brutas
nas marés vivas das razias
vivo e revolto
como a raiva das águas
que destrói as rochas teimosas
altivas duras
na força de espumas brancas
às ínfimas partículas
areias miméticas de vazios
vivo e dele se espera algo mais
os espirros a gripe
o catarro
a doença benigna
a pandemia das ideias
nos mastros contemplativos.
quinta-feira, 21 de maio de 2009
quarta-feira, 20 de maio de 2009
A Cachoeira de Paulo Affonso
O BAILE NA FLOR
Que bellas as margens do rio possante,
Que ao largo espumante campêa sem par!...
Ali das bromelias nas flores douradas
Ha sylphos e fadas, que fazem seu lar...
E em lindos cardumes
Subtis vagalumes
Accendem os lumes
P'ra o baile na flor.
E então nas arcadas
Das pet'las douradas
Os grilos em festa
Começam na orchestra
Febris a tocar...
E as breves
Phalenas
Vão leves,
Serenas,
Em bando
Gyrando,
Walsando
Voando
No ar!...
Poema original brasileiro de Castro Alves publicado em 1902 no rio de Janeiro.
Como curiosidade o editor era de Paris H.Garnier - Rue de Saints-Péres, 6
e tinha delegação no Rio de Janeiro na Rua do Ouvidor, 71-73(escrevi as palavras como vêem publicadas na edição que referi)
Que bellas as margens do rio possante,
Que ao largo espumante campêa sem par!...
Ali das bromelias nas flores douradas
Ha sylphos e fadas, que fazem seu lar...
E em lindos cardumes
Subtis vagalumes
Accendem os lumes
P'ra o baile na flor.
E então nas arcadas
Das pet'las douradas
Os grilos em festa
Começam na orchestra
Febris a tocar...
E as breves
Phalenas
Vão leves,
Serenas,
Em bando
Gyrando,
Walsando
Voando
No ar!...
Poema original brasileiro de Castro Alves publicado em 1902 no rio de Janeiro.
Como curiosidade o editor era de Paris H.Garnier - Rue de Saints-Péres, 6
e tinha delegação no Rio de Janeiro na Rua do Ouvidor, 71-73(escrevi as palavras como vêem publicadas na edição que referi)
A QUEM SE INSCREVEU NA 3ª EDIÇÃO DO CURSO DE ESCRITA CRIATIVA
Bom dia, meus colegas e minhas colegas da arte de escrita!
Queria só dizer que, com grande pena minha, se vai adiar esta edição para o inicio do ano. Só há 5 pessoas inscritas e isso é muito pouco para a dinâmica a que estamos habituados nas nossas sessões.
Um grande abraço para todas e para todos,
ana luísa
Queria só dizer que, com grande pena minha, se vai adiar esta edição para o inicio do ano. Só há 5 pessoas inscritas e isso é muito pouco para a dinâmica a que estamos habituados nas nossas sessões.
Um grande abraço para todas e para todos,
ana luísa
Lembras-te como era
O tracejado branco na subida
escasso movimento na hora do almoço
pouco azul muita nuvem esparsas aves
curiosamente um corvo negro quedo
no campo próxímo de seara
centeio verde a cento e vinte
à hora A25 tarde de Domingo.
Nada de sinos. As estações fugidias
de ondas hertzianas frequência modulada
cassetes impróprias para consumo
mp3 impopular de AC/DC metálicos
permanece o silêncio e a memória.
A paisagem segue indiferente.
Distracção nas curvas de linha contínua
de novo a faixa, rectas de moldura
nas bermas de extensos tufos amarelos
arbustos lilás de lavanda e rosmaninho.
No caminho da autoestrada a Natureza não fala
sussurra íntima devagarinho por trás da nuca
desfaz as ceras do ouvido contorna o queixo
murmura e solta aromas de outras vidas.
Nos antigos dias de Verão
lembro voos de estorninho
o guloso melro das bêberas
os figos de mel maduro
os pardais e as caturras
de penas negras e alguns
brancos manchas de lixívia.
Recordo o movimento lento
das semanas tardes de sesta
e fugas pelas janelas.
Era pequeno entre o milho macio
de barbas finas e valente
nos cortes de melões e melancias
abóboras maciças.
Sigo a subida da estrada rolam as árvores
no rodopio de encostas a nitidez
de um pressentimento
retorno a uma Natureza que de hoje
é a mesma de outros tempos:
"Lembras-te? Lembras-te como era?
Vê como crescemos!"
Naqueles tempos circulava leite fresco
de mamilos em latas de asas e alumínio
ao fim do dia
passavam rebanhos de cajado e campainhas
ao fim do dia
e ceava-se de mãos postas e Avé-Marias
no mês de Maio
ao fim do dia.
Quando todos dormiam o eu noctívago
fugia sem dizer nada
pela noitinha
ao fim do dia.
Os amigos
contavam em cada um de cada um
a sua história algumas da apanha de amêndoa
da vindima outras de colégios internos
de cidades mais libertas menos sofridas
em grupos de dez doze menos meninas
havia sempre namorados
olhares de estrelas
o brilho escasso dos pirilampos
e ouço ainda a permanente melodia
o cantar único dos grilos.
Cento e vinte à hora tarde de Domingo
quando chego chego perto
no tracejado branco das descidas
sinto-me criança menino
encosto o carro na sombra
sento-me no tronco de oliveira
e observo as primeiras pintas
nas cerejas
e as "Maias" fulgurantes
companheiras de cores explosivas
na côr de lírios.
escasso movimento na hora do almoço
pouco azul muita nuvem esparsas aves
curiosamente um corvo negro quedo
no campo próxímo de seara
centeio verde a cento e vinte
à hora A25 tarde de Domingo.
Nada de sinos. As estações fugidias
de ondas hertzianas frequência modulada
cassetes impróprias para consumo
mp3 impopular de AC/DC metálicos
permanece o silêncio e a memória.
A paisagem segue indiferente.
Distracção nas curvas de linha contínua
de novo a faixa, rectas de moldura
nas bermas de extensos tufos amarelos
arbustos lilás de lavanda e rosmaninho.
No caminho da autoestrada a Natureza não fala
sussurra íntima devagarinho por trás da nuca
desfaz as ceras do ouvido contorna o queixo
murmura e solta aromas de outras vidas.
Nos antigos dias de Verão
lembro voos de estorninho
o guloso melro das bêberas
os figos de mel maduro
os pardais e as caturras
de penas negras e alguns
brancos manchas de lixívia.
Recordo o movimento lento
das semanas tardes de sesta
e fugas pelas janelas.
Era pequeno entre o milho macio
de barbas finas e valente
nos cortes de melões e melancias
abóboras maciças.
Sigo a subida da estrada rolam as árvores
no rodopio de encostas a nitidez
de um pressentimento
retorno a uma Natureza que de hoje
é a mesma de outros tempos:
"Lembras-te? Lembras-te como era?
Vê como crescemos!"
Naqueles tempos circulava leite fresco
de mamilos em latas de asas e alumínio
ao fim do dia
passavam rebanhos de cajado e campainhas
ao fim do dia
e ceava-se de mãos postas e Avé-Marias
no mês de Maio
ao fim do dia.
Quando todos dormiam o eu noctívago
fugia sem dizer nada
pela noitinha
ao fim do dia.
Os amigos
contavam em cada um de cada um
a sua história algumas da apanha de amêndoa
da vindima outras de colégios internos
de cidades mais libertas menos sofridas
em grupos de dez doze menos meninas
havia sempre namorados
olhares de estrelas
o brilho escasso dos pirilampos
e ouço ainda a permanente melodia
o cantar único dos grilos.
Cento e vinte à hora tarde de Domingo
quando chego chego perto
no tracejado branco das descidas
sinto-me criança menino
encosto o carro na sombra
sento-me no tronco de oliveira
e observo as primeiras pintas
nas cerejas
e as "Maias" fulgurantes
companheiras de cores explosivas
na côr de lírios.
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