quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Diagnóstico pouco seguro de um deus côr de laranja - partes 8 e 11

• 8


O velho usa a energia nuclear para tosquiar ovelhas,
Tosquia-as com uma paciência infinita
Às vezes o reactor está avariado
Outras vezes pega no seu pente atómico e vai pentear macacos
Penteia-os muito bem, risco ao meio, um bocado de gel…

Gel atómico
Todos janotas, dispostos em fila!
Já estão prontos para assistir à conferência sobre a força do átomo

Uma vez em Hiroshima queriam tosquiar ovelhas
Mas falhou qualquer coisa
Houve um grande erro
As causas ainda estão por apurar
Morreram bastantes pessoas
Ficaram sombras especadas no chão
Sem corpo
Só sombras



• 11


O faraó passava as tardes a jogar tétris...
Os escravos empurravam as peças de acordo com um sistema de cordas,
As peças desciam à medida que os escravos iam soltando a corda dos rolamentos,
De acordo com as decisões do faraó os escravos tinham que rodar e encaixar as peças umas nas outras. Em baixo alguns escravos retiravam as que já não eram necessárias. O contramestre sentado num balcão dourado, decidia quais as próximas peças a sair. Acorriam espectadores do alto e do baixo Egipto e também vinham estrangeiros que estacionavam os seus camelos em frente ao grande templo de jogo para ver o faraó a jogar. Os escravos a serem chicoteados pelos capatazes, a rodarem as peças, a encaixá-las. Cada linha era celebrada pelo país inteiro. Os deuses estavam presentes no jogo, Eram invocados. O cheiro a incenso era fortíssimo…


Nuno Brito, 2007

Abismo à portuguesa

Para Vitor Teves




Tenho medo que Jesus não me esporre hoje na boca
não me esporre hoje na boca senhor jesus!
Senhor jesus senhor jesus senhor Jesus
“Escrever é corrigir a vida”*
E o esperma que escorre dos lábios de Maria
há de gerar um Semi-Deus Forte
feito para desenhar uma anunciação a tinta dourada

Trezentas mil ovelhas caminham rumo a um “abismo à portuguesa”
O decifrador de sinais vê nesta frase uma absurda falta de simbologia,
Ele sabe que eu adoro de uma forma bem primitiva um hitler recém nascido
Com as suas cuequitas apertadas e o rugido do mundo que clama por um Mão de Ferro

Deliro só de imaginar o seu doce esperma quentinho na minha boca
De Mona a Lisa
De Lenine

Ontem dei a mão a virgílio, Ele guiou-me pela tua boca,
Conduziu-me à máxima experiência humana,
O estremecimento de um holocausto digital
Bem fundo nos teus olhos
A Anunciação


* Enrique Vila-Matas

Nuno Brito, 2009

domingo, 4 de janeiro de 2009

Um poema de que gosto

Também merece estar neste blogue esta poetisa contemporânea
de que gosto particularmente.
Este poema foi retirado do livro "O canto do vento nos ciprestes"




Vieste como um barco de vento abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me;e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto às margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso vou para casa
e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.

1 2 3 experiência - 4 pára

.................................................."Estoy buscando una palavra,
....................................................en el umbral de tu mistério"

Amor
o poema não fala
o próximo por fim falará
.....o da estratosfera de um marajá
.....o da rua do ouro certificado de louvor
.....o da tua dor - carimbada espera
.....o da escada de emergência para o plágio da lua
Falará
não te percas neste
que persegue o de amanha
.....o do poema redondo
.....o do dom original
.....o do ovo do Colombo
.....o da canção capital
Amanha
o poema inspirado
o fado falado na lenda
.....o dos dedos prometidos
.....o dos medos falidos
.....o das emendas impossíveis
A lenda
a seguir terás a prenda
um vida como nunca antes nem nos mares
o poema seguinte ensinará
os outros contarão nos lares aos outros que estão por vir
o amor que viverás amanha
quando leres o sucessor do verso que falará por fim
.........o que os outros versos contados por outros de mim nunca

.................prontos para
.........tal
.........nunca contaram nada comparado com o de amanha cantado

.................para ti
0 poema
que não fala
o próximo o que será?
ser ou não ser
.....o de amanha.



ADENDA DO DIA 1
Odeio a ideia da ode
triunfal de um amor conservado em formol para a eternidade.
Mas tu és tão bonita.
Como és bonita!
Bonita não só de ser linda. Bonita em 365 sentidos. Em 360 (de)graus.
Comer, beber, dormir e dizer a razão do dia de seres bonita,
subir na noite as escadas até ao concreto amanha dos teus olhos.
De certo, não é nada bonito, insistentemente escrever - "és tão bonita".
Quase que é mais poético escrever que bonito é atum em espanhol.
Só que, explicar todos os dias porque o atum é bonito conserva apenas o tédio.

ADENDA DO DIA 2
Os passarinhos mesmo que não me deixem dormir nas manhas preguiçosas,
os passarinhos cantam com urgência e eu sei que
há um gosto para as coisas,
uma preguiça tambem,
e uma música que contem o gosto e a indolência,
e a minha prima vera que não diz nada e faz-se tarde para amanha.
Com este trânsito de dúvidas chegaremos tarde à cerimónia.
ADENDA DO DIA 3
...............................................................................................................
...............................................................................................................
...............................................................................................................
...mesmo assim, sabendo que nunca esteve tão perto, de algo mais que não só a adenda do dia 4.

um outro olhar...(10)










“quero acreditar…”



ao contrário do que dizem, eu continuo aqui nesta cruz e daqui nunca saí

todos fugiram,

todos me abandonaram,

todos decidiram ir atrás do meu exemplo

mas deixaram-me aqui sozinho,

tristemente sozinho


dois mil anos passaram, tão pouco para tanta mudança, tanta evolução e descoberta

agora, pergunto eu daqui do meu canto –

o que é que não terá mudado nestes dois mil anos que passaram tão depressa?

mudaram os homens, certamente; mudou o clima, concerteza

mudaram os povos, os países e as línguas; mudou tanta coisa

mas terá mudado o essencial?


com tantos saberes acumulados, com tantas experiências vividas

com tantas inteligências evoluídas

terão acabado as guerras, os ódios e as invejas?

usarão os homens melhor o tempo?

haverá mais felicidade e bem-estar no mundo?

aqui deste meu canto, onde fui deixado por todos, quero acreditar que sim


quero acreditar que não me deixaram aqui sozinho em vão

quero acreditar que a minha vida, e de tantos como eu, valeu a pena

quero acreditar em todos os que continuam a seguir a minha imagem e o meu exemplo

quero acreditar que o mundo não vai voltar a ser um espaço como este em que me encontro

árido, duro, solitário

quero acreditar


Estrelas

A lua hoje está só e cheia
As estrelas cobrem a lua de dor e cor
Eu sou só pó
Eu estou só e cheia
A lua é uma ideia minha
Daquelas grandes ideias que surgem à tardinha
Eu sou só lua e estrelas
Tu és uma ideia minha
Que surge sempre à tardinha
As estrelas não me dizem por onde ir
Na minha ambição de me perder
Nas tuas estrelas
As estrelas cobrem a lua de cor e dor
Eu estou cheia e só de ti
Terra em vaso de estrelas
Tu a flor que sobe em ar
Com um esguio abraço
Tocas a lua cheia e só

Diz Vélasquez às Meninas

Espelho meu
Espelho meu
Há algum quadro mais belo do que o meu?

O espelho em 5 tempos

Cena Um
Palco cheio.
O pintor hesita junto à luz
Olha para trás
Talvez para nós.

Cena Dois
Palco vazio.
O pintor olha a sua obra
Olha em frente.
Talvez para nós.

Cena três
Centro do palco
A menina posa e é a luz
Olha o espelho
Talvez para nós.

Cena quatro
Primeiro plano.
O cão olha para baixo.
Talvez para nós.

Cena cinco
Palco duplo
Eu olho para o quadro
Talvez para mim.

sábado, 3 de janeiro de 2009

A pepita de uma brasa

Não me fales do Jivago das estepes
nem dos gumes afiados dos palácios
do teu gelo

Sei onde estão
quando findos lumes são destino
e os desejos desvario.

Estende-te aqui comigo no tapete de lã
merino, ao comprido, na sala do piano
onde ardentes as brasas são recinto
circunscrito circo de cenas
arena dos barulhos de silêncios.

Porque te cintas num anel Nibelungo
nos acesos comentários de Weimar
construindo razões débeis de atenção
nesse íman fraco de plástico
estático suporte de encantos supostos
que o não são.

Elimina a pose, solta a lágrima
abre a cratera desnuda da fúria
avalanche de esfera e sem arestas
agiganta o que te digo sempre - sublima!

Há o brilho na bola de sabão - azul e frágil
no amarelo-metal - encantador
no cinza frio - prata ou alumínio
e no teu sorriso - que arrepia o dorso
amolece a face, humedece a nascente
do meu rosto - sublinha
as palavras que não disse
não tive tempo.

Embora sinta cada um como cúpula
cada polpa do seu dedo na sala dividida
e um vidro plano duplo ao meio cinda
a linha fronteira das marquesas
estonteando as frases de ecos distantes
(chaves partidas de cofres errados),
nas diversas chaminés sobem fumos quentes
arrastam fuligem refractária
adensam a sina que adivinha
sucedidas terapias, unos sentidos.

Somos agora
olhos de lado ligados
longe dos
siderados hipnóticos mortais dos
falsos tectos de focos halogéneos
das falsas paredes cegas de luzes
extintas

Reassumindo o estaladiço crepitar
a pepita de uma brasa
que estilhaça o vidro glacial

Tudo termina numa frase:
"Este Inverno no jardim
pequenas violetas no canteiro
e mais à frente ali à esquerda
junto ao limoeiro
quatro lírios roxos
raiados de lábios amarelos;
não costuma ser assim
em Janeiro a natureza"

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Rosto velho versus Ano novo

Cai o dia, estende-se a noite,
quase a findar mais um ano;
eu olho-me ao espelho,
envolto em fadigas, canseiras,
de tantas e absurdas frustrações;
não vislumbro sinais de olheiras,
pois só vejo sombras, as velhas desilusões.

Acreditava não ver ali ninguém,
ou talvez quisesse não ter alguém
do outro lado do meu espelho...

Mas quem vejo eu ?
Alguém que me perscruta,
de rosto tão perplexo,
mas assaz sério, sisudo;
pálpebras lisas, fontes sem rugas,
aquelas erguidas em contemplação
sobre uns olhos esbugalhados,
espantados e muito incrédulos!

E que vê este rosto de infante,
configurado por certo em Ano Novo?

Do lado de cá do meu espelho
acredito que veja a resignação,
mas acima de tudo o combate e a esperança;
porventura a visão do Ano Velho
porque apenas termina mais um ano,
de soberba luta pela igualdade,
e pela premente difusão do amor e da justiça,
mantendo-se na vanguarda
para um dia atingir seus sonhos de Criança!

( António Luíz , 31-Dezembro-2008)

Apesar da fadiga no momento da confecção deste pequeno poema,
espero que gostem. Aproveito esta oportunidade para desejar as maiores Venturas
e óptima Saúde para 2009.
Saudações poéticas .

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

A partir de As Meninas de Velásquez

As rendas e os tules tendem a entediar
Por isso vou até ao fundo, à porta aberta onde reluzem escadas
Que não sei onde vão dar
Trazem luz e um homem de bigode que periclita entre degraus
Por que é que o cão não ladra ou morde a anã?
Por que é que o pintor não deixa cair a paleta no veludo do vestido?
Ver num instante tudo em alvoroço, ah –
Braços a gesticular, pernas no ar, cabeças a rodar entre mãos e pés,
O espelho malogradamente partido
uma anã gigante em cima da mesa
que a roda das saias esconde
E os tapetes? Telas de Pollock.
Mas o mais espaventoso era o pintor pegar na tela
com a ajuda dos criados ou sem ela e especá-la à frente das meninas,
do cão, do espelho, da anã, da porta que dá para as escadas
de tudo. E… nada…
de repente, o esplendor –
um cavalete e a estrutura de madeira que sustenta a tela comprida e larga
Um Velásquez às avessas
Vazio e de costas ao léu

A confissão de Velásquez

A confissão de Velásquez

Jan van Eyck[1] pensava todos os dias em Picasso
Pensava tanto, tanto, tanto
Que eu tive de nascer para pintar as meninas.
Então van Eyck pôde adormecer e Picasso[2] ter meninas no seu museu.


[1] Os esponsais dos Arnolfini, 1434 – toma-se como certo que Velásquez conhecia este quadro e que se inspirou no motivo do espelho que reflecte pessoas que não pertencem à composição para pintar As Meninas.
[2] As Meninas – segundo Velásquez (Pablo Picasso, Barcelona, Museu Picasso)

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Palavras Minhas

Palavras Minhas


Por vezes passeio os dedos nas lombadas de espelhos finos
livros de poemas nas livrarias. Reconheço sinais
aromas de pradarias. Solto-me de vento aos versos
de poetas e sonho nas palavras deles inventar
palavras minhas.




Vem este poema curto que vos deixo na sequência de ter encontrado um poema Francês que me parece o mais indicado para antecipar o Ano Bom de 2009 que se aproxima:

Vai ser assim um mês atrás de outro:


Janvier nous prive de feuillage;
Février fait glisser nos pas;
Mars a des cheveux de lilas;

Mai permet les robes champêtres;
Juin ressuscite les rosiers;
Juillet met l´échelle aux fenêtres,
Août, l´échelle aux cerisiers.

Septembre, qui divague en peux,
pour danser sur du raisin bleu
S´amuse à retarder l´aurore;

Octobre à peur; Novembre a froid;
Décembre éteint les fleurs; et, moi
L´année entiére je t´adore!

Rosemond Gérard
Les pipeaux

O tigre no castelo de Kafka

O Tigre no castelo de Kafka

“Caminante no hay camino, el camino se hace caminando”
António Machado


Uma estrada de prata
Onde se perdem os suicidas,
que leva ao centro da alma,
Borges perde-se num caminho bifurcado
que leva a um castelo
encontra um tigre a olhar para o grande espelho
o seu olhar manso e distraído
a quem os corvos chuparam a vida


no interior do castelo:
quero escrever como uma possessa
até o diabo vir com as suas mãos de cereja
tocar-me no ombro e dizer que o venci…
Sarah Kane a subir a estrada
A estrada da vida é a estrada da vida
Demoramos dois séculos a ligar o forno
Sylvia Plath a beijar Dante -


Kafka sabe que é perigoso escrever…
O interior do castelo está cheio de morcegos,
de corvos e caracóis - para escritores tristes


O tigre espia numa estrada que leva a Chernobill Celeste
imaginada por Sarah kane num diálogo eterno com Papini
as almas gémeas fundem-se

As mãos derretem por cima da serradura,
O que interessa é o processo


ele foi escrito / encontrado por Sarah Kane
No meio de um holocausto digital
Os anjos esquecem enquanto sobem
uma estrada que leva a um castelo – Por onde Kafka sobe
um tigre com consciência do ridículo Sonha África
Percorre as ruas de Praga com um passo Seguro e Forte
Para se escrever a si próprio numa língua que há de vir


Chegaram à Chernobill Eterna
a subir os anjos esquecem….


Nuno Brito 2008

sábado, 27 de dezembro de 2008

- Casa-se a Menina!

- Casa-se a Menina!


O padre na corda do sino
batina em rodopio de cortina
o vale desperto , o monte papagaio
de ecos repetidos, o alvoroço de ramos
o piado aflito dos bicos pequenos.

As velas reduzem os últimos grãos
sacudidos no saco de orelhas
criando barriga nos assentos
de vazios; nuvens brancas de farinha.

Fim de dia, festa, o sino, o padre e a batina:

Dobra a fivela o eixo do calcamhar
destapa a unha negra do maldito
salpico do turíbolo, pesado bronze
do desiquilíbrio na quina do granito
agora marcado, partido.

Hora especial de missa vespertina:
-Casa-se a Menina!

Filha mais nova de Ti Maria
por sua vez sobrinha do padre Valdevez
pai de três, todas de batina,
à sua vez da Laurinda, Catarina
e da Alzira; crente e bela
mas de outra freguesia.

Entoam-se cânticos
e ninguém diz, ninguém fala
dos anjos de uma só asa.

Outros ecos e a ladainha:
- Casa-se a Menina!

Grita mais alto a hóstia
a sagração do dia
a oração benzida
na hora da eucaristia:
"Corpo de Cristo!" "Ámen!"

- Casa-se a Menina!