Um silêncio de prata e velas acesas
na data festiva.
Olhos grandes ruminam a presença de Reis
andrajos de púrpura, coroas sujas de areias
outrora cegas de luz. As orelhas altas de
asno, o sopro quente, os dentes largos
os invisíveis laços a elevar braços, mãos
e o sorriso do Menino junto a sua Mãe:
manto azul, debrum de pelo, rosto terno
de sentir as ideias concebidas sem... o
pecado de vaidades e sinos dos publicitos
paraísos; reais lugares de tudo querer.
A estrela sem fio de balão a fugir
e o medo do Inverno, do frio,
dos falsos mimos na época festiva.
O Pai, homem de tábuas, aplaina a árvore
torna macia a natureza rugosa da casca
alisa o fuso e a roca, entalha o encaixe,
a cruz de pau que ampara o leito-berço
de calor seguro nas palhas deitado. Agora
usa o cajado de posição elevada, controla
perigo, o imprevisto susto de pés de cabra
nos raios de ouro, incenso, mirra e o fumo
do turíbulo, o hino, o murmúrio a ladainha.
Só não se assusta o Menino, palmas exaustas
dedos de sina, rosto aberto, lábios de menina
e os restos de um trinado e um sorriso que
abre e fecha, enleia e não termina.
Sendo assim esta certeza - a do Menino
também devo acreditar, ser capaz, ser maior
do que a barreira, perna longa de desertos.
Ser mais oásis e miragem de bossas cheias
nos hiatos de remorsos na passagem.
Ser mais macio que choro de nuvem de gotas
desesperadas, desamparadas no chão ao cair
e mais ricas nas misturas do ventre mãe
nas fissuras dos magmas interiores onde
se espraia a lava e se expande a fogueira
fluída de um vulcão.
Sendo, sempre sendo mais
que pó amorfo nas bocas secas do vento.
No manto céu
uma miríade de estrelas, a constelação
(pontas de alfinete no veludo azul)
e os pirilampos faróis alumiam
o barco à deriva.
As ondas divinas guiam
ao colo seguro das baías
nos dias do Menino
na data festiva!
quarta-feira, 17 de dezembro de 2008
Jantar-convívio de Natal
Muitos comem, bebem, outros dançam alegremente;
...há ruídos absurdos?
- Não, são de festa e de exorcisação,
de absoluta libertação das canseiras
e dos monstros quotidianos,
também da vergonhosa submissão aos ditames do trabalho
e das incertezas da própria existência!...
Alguns comem, outros bebem,
outros demais saltam e riem desaforadamente;
...há ruídos estranhos? Porventura ignóbis?
- Não, são de alegria e de escárnio,
pelo caminho que traçamos sem rumo, ou sem rede,
imbuídos da febre de conquista
dos nossos sonhos e excessivas ambições
que teimamos sem escrúpulos atingir,
mesmo que estrangulados ou dilacerados
antes do clímax final!...
.......................................................................................
E enquanto a noite passa turbulenta,
uns tagarelam, raros bebem, muitos dançam,
outros ao longe fumam num canto, inconsequentemente;
...haverá nesta amálgama quem ouça silêncios
acolhedores, vitais, reconfortantes?
- Sim, há quem veja ali amor,
aromas de rosas sem espinhos,
animais selvagens por eles próprios domados,
espalhando a paz, e convívio em felicidade!
- Sim, há quem sinta sem temor,
que um dia ambicionaremos só carinhos,
e deste frenesim seremos escoltados
até aos campos da concórdia e da equidade!
(Antonio Pinto Oliveira - 07.Dezembro.2008)
...há ruídos absurdos?
- Não, são de festa e de exorcisação,
de absoluta libertação das canseiras
e dos monstros quotidianos,
também da vergonhosa submissão aos ditames do trabalho
e das incertezas da própria existência!...
Alguns comem, outros bebem,
outros demais saltam e riem desaforadamente;
...há ruídos estranhos? Porventura ignóbis?
- Não, são de alegria e de escárnio,
pelo caminho que traçamos sem rumo, ou sem rede,
imbuídos da febre de conquista
dos nossos sonhos e excessivas ambições
que teimamos sem escrúpulos atingir,
mesmo que estrangulados ou dilacerados
antes do clímax final!...
.......................................................................................
E enquanto a noite passa turbulenta,
uns tagarelam, raros bebem, muitos dançam,
outros ao longe fumam num canto, inconsequentemente;
...haverá nesta amálgama quem ouça silêncios
acolhedores, vitais, reconfortantes?
- Sim, há quem veja ali amor,
aromas de rosas sem espinhos,
animais selvagens por eles próprios domados,
espalhando a paz, e convívio em felicidade!
- Sim, há quem sinta sem temor,
que um dia ambicionaremos só carinhos,
e deste frenesim seremos escoltados
até aos campos da concórdia e da equidade!
(Antonio Pinto Oliveira - 07.Dezembro.2008)
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Madrugada
-----------------------------------------------------------Que farei quando tudo arde?
-----------------------------------------------------------Sá de Miranda
-----------------------------------------------------------Sá de Miranda
Era festa, julgaram
que os balões eram livres
e subiam, não viram,
não viram
que uma corrente quente
descia e cobria,
devagar
murchavam de madrugada,
fim de Abril , já ardiam
e arderam.
que os balões eram livres
e subiam, não viram,
não viram
que uma corrente quente
descia e cobria,
devagar
murchavam de madrugada,
fim de Abril , já ardiam
e arderam.
segunda-feira, 15 de dezembro de 2008
Não se esqueça de mim!
Embora não sendo poesia, há poesia e muita emoção neste texto, nesta memória, que partilho convosco.
«Quando eu morrer não se esqueça de mim». A memória esvai-se. Quero-me lembrar da expressão, do sorriso límpido, de uma beleza despovoada como o deserto. Da tua juventude. Não tinhas vinte anos, isso é seguro. «Não se esqueça de mim!» Lembro-me da combina: «Só quero durar até ao Natal». Porquê o Natal, Deus meu? Tu que irias ter com os anjos todos os dias, e contar coisas da Terra e dos homens, tu que fazes já parte do paraíso e sempre fizeste. «Até ao Natal, doutor», depois pare as torneirinhas que regam as minhas veias, tentando manter o verde da vida, das plantas com viço que no meu jardim, à míngua de seiva, soluçam em tons de castanho. «Não se esqueça de mim». Não me esqueço de ti meu menino Jesus feito menina. Tu só querias viver até ao dia em que nasceu aquele que dá sentido às coisas. Porquê meu Deus? Cumpri a minha parte e tu cumpriste a tua. Não mais quimioterapia depois do Natal, só a tranquilidade dos que têm fé e sobem, devagarinho, perante nós. «Não se esqueça de mim». Como te posso esquecer? És só uma voz, uma esperança, um fio de coragem, coisa pequena, apenas regato. E no entanto, amo-te como a uma visão, uma miragem que deixasse uma marca de privilégio por ter tocado a tua mão. Tenho a memória exacta do cancro. Começava no pescoço. Devagarinho subia através da nuca, silencioso, determinado como fera no capim. Penetrava o osso, abria o embrulho que esconde e protege a tua alma, e em tons de branco e cinzento, devagarinho, corroía o cérebro. Primeiro encostou-se, depois embuste, como erva daninha, começou a alimentar-se do teu sangue, sorveu a tua vida, entrou sem pedir licença. Conheci-te porque ao tocar o teu íntimo, a doença, calcula, fazia-te ver estrelas. Pequeninas, brilhantes e fugazes. Estranhas, contudo, porque surgiam durante o dia. «Doutor, não se esqueça de mim». Não me esqueço, nem do remorso pela pirueta de artista amestrado que se enche de orgulho pelo diagnóstico certeiro, ainda que seja o de uma flecha implacável que marca o destino. As estrelas que vê, minha querida, não habitam o céu, são fogo de artifício da doença que a consome. Coisa estranha a epilepsia. O cérebro invadido cria por momentos a ilusão de um firmamento. Eu vou tratá-la, quero dizer, trazer as estrelas à terra e apagá-las com um sopro. Como velas em dia de anos. Ao mesmo tempo, minha querida, apagar a ilusão. Eu próprio baterei palmas ao golpe de mágica que faz desaparecer as estrelas como te afastasse, te adiasse o Céu que no fundo desejavas. «Até ao Natal, doutor, e depois, não se esqueça de mim».Agora, onde estiveres, de certeza que há Mar. Brincas com o Menino Jesus que querias conhecer, a cuja festa de anos não querias faltar, menina que espera o nascimento do irmão. Escavam na areia crateras que a maré enche. Ouvem o adeus das ondas e sentem o abraço do seu retorno. De certeza que discorrem sobre coisas de somenos importância, quem sabe disputam pás e ancinhos, clamando pela Nossa Senhora que ponha ordem naquela disputa. Estou certo que levaste a melhor, e o menino Jesus, a cujos anos não querias faltar, faz carranca e beicinho. Nossa Senhora irá decerto lembrar a generosidade que é necessário te: com quem se convida para os anos.» Deixa a menina brincar». «Só até ao Natal, doutor, e não se esqueça de mim». Não te esqueças tu de mim. Onde estás lembra-te de que cumpri a minha parte, lutei contra a besta que te consumia e de mim te apartava, apaguei as luzes que pareciam estrelas e criei a ilusão de adiar a eternidade. Como se fosse possível, meu Deus, haver vida para além do Natal.
Nuno Lobo Antunes, in Sinto Muito
«Quando eu morrer não se esqueça de mim». A memória esvai-se. Quero-me lembrar da expressão, do sorriso límpido, de uma beleza despovoada como o deserto. Da tua juventude. Não tinhas vinte anos, isso é seguro. «Não se esqueça de mim!» Lembro-me da combina: «Só quero durar até ao Natal». Porquê o Natal, Deus meu? Tu que irias ter com os anjos todos os dias, e contar coisas da Terra e dos homens, tu que fazes já parte do paraíso e sempre fizeste. «Até ao Natal, doutor», depois pare as torneirinhas que regam as minhas veias, tentando manter o verde da vida, das plantas com viço que no meu jardim, à míngua de seiva, soluçam em tons de castanho. «Não se esqueça de mim». Não me esqueço de ti meu menino Jesus feito menina. Tu só querias viver até ao dia em que nasceu aquele que dá sentido às coisas. Porquê meu Deus? Cumpri a minha parte e tu cumpriste a tua. Não mais quimioterapia depois do Natal, só a tranquilidade dos que têm fé e sobem, devagarinho, perante nós. «Não se esqueça de mim». Como te posso esquecer? És só uma voz, uma esperança, um fio de coragem, coisa pequena, apenas regato. E no entanto, amo-te como a uma visão, uma miragem que deixasse uma marca de privilégio por ter tocado a tua mão. Tenho a memória exacta do cancro. Começava no pescoço. Devagarinho subia através da nuca, silencioso, determinado como fera no capim. Penetrava o osso, abria o embrulho que esconde e protege a tua alma, e em tons de branco e cinzento, devagarinho, corroía o cérebro. Primeiro encostou-se, depois embuste, como erva daninha, começou a alimentar-se do teu sangue, sorveu a tua vida, entrou sem pedir licença. Conheci-te porque ao tocar o teu íntimo, a doença, calcula, fazia-te ver estrelas. Pequeninas, brilhantes e fugazes. Estranhas, contudo, porque surgiam durante o dia. «Doutor, não se esqueça de mim». Não me esqueço, nem do remorso pela pirueta de artista amestrado que se enche de orgulho pelo diagnóstico certeiro, ainda que seja o de uma flecha implacável que marca o destino. As estrelas que vê, minha querida, não habitam o céu, são fogo de artifício da doença que a consome. Coisa estranha a epilepsia. O cérebro invadido cria por momentos a ilusão de um firmamento. Eu vou tratá-la, quero dizer, trazer as estrelas à terra e apagá-las com um sopro. Como velas em dia de anos. Ao mesmo tempo, minha querida, apagar a ilusão. Eu próprio baterei palmas ao golpe de mágica que faz desaparecer as estrelas como te afastasse, te adiasse o Céu que no fundo desejavas. «Até ao Natal, doutor, e depois, não se esqueça de mim».Agora, onde estiveres, de certeza que há Mar. Brincas com o Menino Jesus que querias conhecer, a cuja festa de anos não querias faltar, menina que espera o nascimento do irmão. Escavam na areia crateras que a maré enche. Ouvem o adeus das ondas e sentem o abraço do seu retorno. De certeza que discorrem sobre coisas de somenos importância, quem sabe disputam pás e ancinhos, clamando pela Nossa Senhora que ponha ordem naquela disputa. Estou certo que levaste a melhor, e o menino Jesus, a cujos anos não querias faltar, faz carranca e beicinho. Nossa Senhora irá decerto lembrar a generosidade que é necessário te: com quem se convida para os anos.» Deixa a menina brincar». «Só até ao Natal, doutor, e não se esqueça de mim». Não te esqueças tu de mim. Onde estás lembra-te de que cumpri a minha parte, lutei contra a besta que te consumia e de mim te apartava, apaguei as luzes que pareciam estrelas e criei a ilusão de adiar a eternidade. Como se fosse possível, meu Deus, haver vida para além do Natal.
Nuno Lobo Antunes, in Sinto Muito
Al di la

Al di la
Para além das luzes do pinheiro de Natal
Para além dos fios das cabeleiras de prata
Para além da chama que sobe no castiçal
E do brilho dos cristais das bolas em cascata
Para além do aroma dos sonhos e doçuras
Para além da melodia que entoa o disco antigo
Para além das renas sobrevoando nas gravuras
E do esquecimento e do gesto a um amigo
Para além da esperança deslizando no telhado
Para além do segredo do presente embrulhado
Magia, recordação, noite sem igual
Para além da saudade etérea e infinita
Para além da carta que deixaste escrita
Que seja hoje e sempre Natal
Pi
Para além das luzes do pinheiro de Natal
Para além dos fios das cabeleiras de prata
Para além da chama que sobe no castiçal
E do brilho dos cristais das bolas em cascata
Para além do aroma dos sonhos e doçuras
Para além da melodia que entoa o disco antigo
Para além das renas sobrevoando nas gravuras
E do esquecimento e do gesto a um amigo
Para além da esperança deslizando no telhado
Para além do segredo do presente embrulhado
Magia, recordação, noite sem igual
Para além da saudade etérea e infinita
Para além da carta que deixaste escrita
Que seja hoje e sempre Natal
Pi
Natal, e não Dezembro
Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.
Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.
David Mourão-Ferreira (Lisboa, 1927-1996)
Cancioneiro de Natal
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.
Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.
David Mourão-Ferreira (Lisboa, 1927-1996)
Cancioneiro de Natal
Natal
Leio o teu nome
Na página da noite:
Menino Deus...
E fico a meditar
No milagre dobrado
De ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
Meninos pobres em currais de gado.
Crianças que são ânsias alargadas
De horizontes pequenos.
Humanas alvoradas...
A divindade é o menos.
Miguel Torga (S. Martinho de Anta, Vila Real, 1907 - Coimbra, 1995)
S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1966
Na página da noite:
Menino Deus...
E fico a meditar
No milagre dobrado
De ser Deus e menino.
Em Deus não acredito.
Mas de ti como posso duvidar?
Todos os dias nascem
Meninos pobres em currais de gado.
Crianças que são ânsias alargadas
De horizontes pequenos.
Humanas alvoradas...
A divindade é o menos.
Miguel Torga (S. Martinho de Anta, Vila Real, 1907 - Coimbra, 1995)
S. Martinho de Anta, 24 de Dezembro de 1966
domingo, 14 de dezembro de 2008
SOBRE O TEMA : Nascer ( Contexto do Natal )
P e q u e n o p o e m a
Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu
nem houve Estrelas a mais...
Sòmente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...
P'ra que o dia fosse enorme
bastava toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe.
( Sebastião da Gama, Serra-Mãe )
Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu
nem houve Estrelas a mais...
Sòmente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...
P'ra que o dia fosse enorme
bastava toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe.
( Sebastião da Gama, Serra-Mãe )
O poema morreu e não é notícia
O poema morreu e não é notícia.
Mas, porque quis a história que o poema morresse hoje,
mesmo sem ser notícia, fomos sentar-nos os dois muito quietos,
os corações lado a lado, o olhar a direito.
Tu falaste primeiro: Morto o poema,
é preciso contar ao mundo o caso dos versos agora órfãos.
Vieste depressa, há coisas que ainda dormem. Vês? Deixámos um
longo segundo para trás. O pé no travão, o travão a parar o tempo, o
tempo do som - o do outro que sem ser som vibra a desfazer
silêncios - o corpo já quieto, o fim da saia ainda
em movimento.
Sentámo-nos os dois tão quietos. Os corações lado a lado em
memória de um poema morto.
Não devias ter vindo tão cedo - disse-te. Principalmente num
encontro destes, em vulgar banco de jardim.
Mais um pouco, ter-me-ías acordado. E há questões mais pertinentes:
Morto o poema, em que língua vou falar
o sítio das coisas?
Minês Castanheira (Porto, 1983-) in Inter-cidades (2008)
Mas, porque quis a história que o poema morresse hoje,
mesmo sem ser notícia, fomos sentar-nos os dois muito quietos,
os corações lado a lado, o olhar a direito.
Tu falaste primeiro: Morto o poema,
é preciso contar ao mundo o caso dos versos agora órfãos.
Vieste depressa, há coisas que ainda dormem. Vês? Deixámos um
longo segundo para trás. O pé no travão, o travão a parar o tempo, o
tempo do som - o do outro que sem ser som vibra a desfazer
silêncios - o corpo já quieto, o fim da saia ainda
em movimento.
Sentámo-nos os dois tão quietos. Os corações lado a lado em
memória de um poema morto.
Não devias ter vindo tão cedo - disse-te. Principalmente num
encontro destes, em vulgar banco de jardim.
Mais um pouco, ter-me-ías acordado. E há questões mais pertinentes:
Morto o poema, em que língua vou falar
o sítio das coisas?
Minês Castanheira (Porto, 1983-) in Inter-cidades (2008)
sábado, 13 de dezembro de 2008
Inefável instante obtuso
Não estava perto nem longe do lugar;
cinzelado na figura alta de Rodin.
Nem tão pouco entendia se a distância
trazia o olhar de Camille nos ínvios
caminhos onde obra e arte no conjunto
resplandecia o caminho das estrelas
no céu astral.
Não havia outra razão de procurar
no intermédio se coisa alguma afinal
teria o dom de iluminar esse dia
homem de dias mortais, a noite
o infinito de claridade que redefine
histórias do filme gasto, irracional.
Inefável instante obtuso, suspenso
em névoas de outros sonhos, células
divisas na leveza do ser, asas ténues
delicadas, suaves borboletas de antenas
nascente de aneis circulares, casulos
meditação.
Planalto de incerto limbo
nem perto nem longe do vale
nos braços do vento Leste,
do vento Norte, do Suão: Nós e
o fio aço, o fio ferro, o fio brasa
no mesmo nada, à vez resistindo
à corrosão, crescendo de rugas
nos castanhos óxidos, sugando
fogueiras de calor e brilho,
cada um nas suas cordas bambas
segurando o coração de salto
brusco no equilibrio "Rambo"
da alma.
Não estava perto nem longe de tudo
perto nem longe de nada
naquele lugar.
cinzelado na figura alta de Rodin.
Nem tão pouco entendia se a distância
trazia o olhar de Camille nos ínvios
caminhos onde obra e arte no conjunto
resplandecia o caminho das estrelas
no céu astral.
Não havia outra razão de procurar
no intermédio se coisa alguma afinal
teria o dom de iluminar esse dia
homem de dias mortais, a noite
o infinito de claridade que redefine
histórias do filme gasto, irracional.
Inefável instante obtuso, suspenso
em névoas de outros sonhos, células
divisas na leveza do ser, asas ténues
delicadas, suaves borboletas de antenas
nascente de aneis circulares, casulos
meditação.
Planalto de incerto limbo
nem perto nem longe do vale
nos braços do vento Leste,
do vento Norte, do Suão: Nós e
o fio aço, o fio ferro, o fio brasa
no mesmo nada, à vez resistindo
à corrosão, crescendo de rugas
nos castanhos óxidos, sugando
fogueiras de calor e brilho,
cada um nas suas cordas bambas
segurando o coração de salto
brusco no equilibrio "Rambo"
da alma.
Não estava perto nem longe de tudo
perto nem longe de nada
naquele lugar.
Um poema do David
Na outra noite,de um lado ela
mesmo em frente todos nós
cada um junto dela
ela dentro de nós.
Maria Teresa Horta
Falou-nos sem o peso dos minutos numa auréola encantada de muitas histórias, da tal dimensão que só alguns atingem. Todas as palavras eram leves e sem esforço, naturais, tão claras de sentido, tão deslumbrantes de evidências como se tivessemos sede e de copo ao lado não conseguissemos usar as mãos. Aprendemos a serenidade a tranquilidade de uma mente superior que nunca usou de presunção em momento algum. Fez-nos acreditar que vale a pena lutar pelos nossos sonhos.
Deu-nos asas!
Também falou dos seus amigos, daqueles que lhe rondam a casa na esperança do convite, da partilha dos seus cozinhados. De muitos que são e de outros que já eram.
Dos que já eram destaco outra mulher de força Natália (Correia), ainda o José (Cardoso Pires) e o David (Mourão Ferreira), a quem tratava pelo primeiro nome, como se ainda ali estivessem vindos de uma animada tertúlia trauteando poemas e melodias, enlevados nas teclas de um piano, de um bar muito conhecido, chamado de Botekim,ali à Graça, no bairro da capital.
Há dias deixei um poema simples do David que para mim não deixa de ser bonito (devo dizer que saiu no teste do 8º Ano do meu filho... no exame nacional do último ano... e portanto é bom sabermos que ainda se dá na escola...)
Hoje deixo outro:
INTERIOR
É bom ouvir de noite uma trompa de caça
Despir muito depressa a túnica da Lua
E descobrir o amor no forro de uma casa
onde apenas vibrava a memória de chuva
Depois de arrebatar o corpo da amada
ao ritmo infernal de um batuque de guerra
é bom permanecer na mesa de montagem
misturando Anfião Vivaldi Apollinaire
É bom lançar ao fogo um velho dicionário
É bom o crepitar das palavras antigas
Adivinhar quais são as que por fim renascem
e que sabem voar ao sair ds cinzas
É bom pedir perdão ao som de uma sonata
Segredar num soneto a ária de um remorso
É bom recomeçar com música de Jazz
Vestir sem ninguém ver a túnica de Apolo
mesmo em frente todos nós
cada um junto dela
ela dentro de nós.
Maria Teresa Horta
Falou-nos sem o peso dos minutos numa auréola encantada de muitas histórias, da tal dimensão que só alguns atingem. Todas as palavras eram leves e sem esforço, naturais, tão claras de sentido, tão deslumbrantes de evidências como se tivessemos sede e de copo ao lado não conseguissemos usar as mãos. Aprendemos a serenidade a tranquilidade de uma mente superior que nunca usou de presunção em momento algum. Fez-nos acreditar que vale a pena lutar pelos nossos sonhos.
Deu-nos asas!
Também falou dos seus amigos, daqueles que lhe rondam a casa na esperança do convite, da partilha dos seus cozinhados. De muitos que são e de outros que já eram.
Dos que já eram destaco outra mulher de força Natália (Correia), ainda o José (Cardoso Pires) e o David (Mourão Ferreira), a quem tratava pelo primeiro nome, como se ainda ali estivessem vindos de uma animada tertúlia trauteando poemas e melodias, enlevados nas teclas de um piano, de um bar muito conhecido, chamado de Botekim,ali à Graça, no bairro da capital.
Há dias deixei um poema simples do David que para mim não deixa de ser bonito (devo dizer que saiu no teste do 8º Ano do meu filho... no exame nacional do último ano... e portanto é bom sabermos que ainda se dá na escola...)
Hoje deixo outro:
INTERIOR
É bom ouvir de noite uma trompa de caça
Despir muito depressa a túnica da Lua
E descobrir o amor no forro de uma casa
onde apenas vibrava a memória de chuva
Depois de arrebatar o corpo da amada
ao ritmo infernal de um batuque de guerra
é bom permanecer na mesa de montagem
misturando Anfião Vivaldi Apollinaire
É bom lançar ao fogo um velho dicionário
É bom o crepitar das palavras antigas
Adivinhar quais são as que por fim renascem
e que sabem voar ao sair ds cinzas
É bom pedir perdão ao som de uma sonata
Segredar num soneto a ária de um remorso
É bom recomeçar com música de Jazz
Vestir sem ninguém ver a túnica de Apolo
David Mourão Ferreira
El indepentista aburrido
Cerca de un ecepticismo exaservado y más que propenso a un ataque de ira que de catatonía existencial,
ofrezco mi mirada de elefante espantado por un ratoncito,
mi zarpaso felino a una bola de hilo,
mi hululular fantasmágorico una noche de halloween,
mi pasito duranguense y un trago de tquila,
A todos esos que creen en los “ismos”
Lo sé, no me he manifestado en a favor del desarme,
Y eso es belicismo
Ni contra el calentamiento global,
y eso no es ambientalismo
Porque he hablado inocuamente de las dictaduras,
Y eso es comunismo
Me he me he declarado abiertamente ateo
Y eso no es cristianismo.
Finalmente porque aún creo en la revolución
Y eso es terrorismo.
Para que no se diga que en nada he colaborado,
que solo he puesto mi cara indecente,
de pedófilo frente al crepúsculo,
de simbárita ante el hambre,
Porque he barrido el suelo por un par de nalgas con forma de maniqui en búsqueda de labios ansiosos de esperma
por ser un suicida,
sin pólvora,
sin filos,
sin alturas,
sin cuerdas,
sin ventanas abiertas,
En suma, por tener tan pocas ganas de abrir los ojos,
y colgar mis sueños a lo largo del dia,
recogerlos,
para tirarlos a la basura.
Sí, soy culpable de detestar las ambigüedades de solución fasista.
De declararme,
Moralmente incapasitado,
para poder destiniguir al PC de la Pc,
la OTAN del PATAN,
Los EU de la UE
Yo me digo, que prefiero ser un agujero por donde no pasa hilo
una cerradura oxidada
un catalejo de lentes borrosos,
un anuncio de pasta de dientes sin sonrisas,
un cero a lado de un -1
Al final,
tan sexy como un labio lepurino
desconsertante como la mirada estrabista
inrresistible como una coca-cola
a veces incomprensible como una película de David Lynch
Por último; Y porque nunca dije: tomen mi opinión y vendala, o toménla en cuanta, o aqui estoy, quiero que me escuchen Solo es que quizé parecer frío, morbido, calculador, analista, un maldito estratega, un estúpido filosofo-cientista, un marica escribiendo cartas, una ofinista cogiendo con su jefe,un escritor limpiando baños porque no quiere vivir de contar patrañas y mas, siempre se esta masturbando la cabeza,
La verdad nunca dije que no fuera:
-un secuestrador-violador de estrellas de cine que al oído les dice; es tú mejor filme, disfruta porque esta es la más inolvidable de tus actuaciones...
Siento por supuesto que levanto un poco de humo, cuando digo que jamás he llegado a explicar algo hasta el absurdo de preguntarle a mi interlocutor: tienes alguna otra pregunta acerca del tema?
-De eso, no soy culpable...
Roberto Diaz, 2008
ofrezco mi mirada de elefante espantado por un ratoncito,
mi zarpaso felino a una bola de hilo,
mi hululular fantasmágorico una noche de halloween,
mi pasito duranguense y un trago de tquila,
A todos esos que creen en los “ismos”
Lo sé, no me he manifestado en a favor del desarme,
Y eso es belicismo
Ni contra el calentamiento global,
y eso no es ambientalismo
Porque he hablado inocuamente de las dictaduras,
Y eso es comunismo
Me he me he declarado abiertamente ateo
Y eso no es cristianismo.
Finalmente porque aún creo en la revolución
Y eso es terrorismo.
Para que no se diga que en nada he colaborado,
que solo he puesto mi cara indecente,
de pedófilo frente al crepúsculo,
de simbárita ante el hambre,
Porque he barrido el suelo por un par de nalgas con forma de maniqui en búsqueda de labios ansiosos de esperma
por ser un suicida,
sin pólvora,
sin filos,
sin alturas,
sin cuerdas,
sin ventanas abiertas,
En suma, por tener tan pocas ganas de abrir los ojos,
y colgar mis sueños a lo largo del dia,
recogerlos,
para tirarlos a la basura.
Sí, soy culpable de detestar las ambigüedades de solución fasista.
De declararme,
Moralmente incapasitado,
para poder destiniguir al PC de la Pc,
la OTAN del PATAN,
Los EU de la UE
Yo me digo, que prefiero ser un agujero por donde no pasa hilo
una cerradura oxidada
un catalejo de lentes borrosos,
un anuncio de pasta de dientes sin sonrisas,
un cero a lado de un -1
Al final,
tan sexy como un labio lepurino
desconsertante como la mirada estrabista
inrresistible como una coca-cola
a veces incomprensible como una película de David Lynch
Por último; Y porque nunca dije: tomen mi opinión y vendala, o toménla en cuanta, o aqui estoy, quiero que me escuchen Solo es que quizé parecer frío, morbido, calculador, analista, un maldito estratega, un estúpido filosofo-cientista, un marica escribiendo cartas, una ofinista cogiendo con su jefe,un escritor limpiando baños porque no quiere vivir de contar patrañas y mas, siempre se esta masturbando la cabeza,
La verdad nunca dije que no fuera:
-un secuestrador-violador de estrellas de cine que al oído les dice; es tú mejor filme, disfruta porque esta es la más inolvidable de tus actuaciones...
Siento por supuesto que levanto un poco de humo, cuando digo que jamás he llegado a explicar algo hasta el absurdo de preguntarle a mi interlocutor: tienes alguna otra pregunta acerca del tema?
-De eso, no soy culpable...
Roberto Diaz, 2008
Gambeto
Tenderte,
sí,
desdoblarte,
como si fueras un mapa
al que solo acudo a buscar reflejos,
ecos de ubicaciones prefabricadas,
espejos caleginosos
donde perder el camino sea más fácil;
Supongo
que lo que quiero es extrañarte,
alejándome del punto vacío
por donde nuestras despedidas se cruzaron
como crucigramas
que encerraban miradas
y gestos mullidos,
Tuvimos que callarnos...?
Para decir:
Tal vez sea,
que te encuentreen el infierno,
olvidada de las lineas de mano pútrida,
descompuesta, apestando a estiércol,
que ahí anhelará tocarte
esfúmandose en un latido
como perro horrorizado,
como un guate ajeno corrído a la sombra
por el fuego semejante a una tumba,
meditando
que el futuro
es solo su desaparición,
en rastros
de sudores inahalados
de pistolas no empuãnadas
ydejos acuosos
de lágrimas o
sáliva evaporada.
Pudimos decir:
No te veré más:
Mañana me saco los ojos,
con un abrelatas desepcionado
que esperaba
nenúfares de mi alma
y solo recibió limazas coprofágas
caracoles descabezados,
un par de testiculos emplazados
a producir más esperma para callar cualquier ansia
Roberto Diaz, 2008
sí,
desdoblarte,
como si fueras un mapa
al que solo acudo a buscar reflejos,
ecos de ubicaciones prefabricadas,
espejos caleginosos
donde perder el camino sea más fácil;
Supongo
que lo que quiero es extrañarte,
alejándome del punto vacío
por donde nuestras despedidas se cruzaron
como crucigramas
que encerraban miradas
y gestos mullidos,
Tuvimos que callarnos...?
Para decir:
Tal vez sea,
que te encuentreen el infierno,
olvidada de las lineas de mano pútrida,
descompuesta, apestando a estiércol,
que ahí anhelará tocarte
esfúmandose en un latido
como perro horrorizado,
como un guate ajeno corrído a la sombra
por el fuego semejante a una tumba,
meditando
que el futuro
es solo su desaparición,
en rastros
de sudores inahalados
de pistolas no empuãnadas
ydejos acuosos
de lágrimas o
sáliva evaporada.
Pudimos decir:
No te veré más:
Mañana me saco los ojos,
con un abrelatas desepcionado
que esperaba
nenúfares de mi alma
y solo recibió limazas coprofágas
caracoles descabezados,
un par de testiculos emplazados
a producir más esperma para callar cualquier ansia
Roberto Diaz, 2008
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
CUMPRIR LIMITES, NÃO CUMPRINDO AS REGRAS:
CUMPRIR LIMITES, NÃO CUMPRINDO AS REGRAS:
O EXCESSO NA POESIA DE MARIA TERESA HORTA
Ana Luísa Amaral
Recensão ao livro de Maria Teresa Horta, Antologia pessoal, 100 poemas, (Lisboa, Gótica, 2003), in Relâmpago, nº 14, Abril, 2004, pp. 131-133
O EXCESSO NA POESIA DE MARIA TERESA HORTA
Ana Luísa Amaral
Recensão ao livro de Maria Teresa Horta, Antologia pessoal, 100 poemas, (Lisboa, Gótica, 2003), in Relâmpago, nº 14, Abril, 2004, pp. 131-133
The Road of Excess leads to the Palace of Wisdom.
William Blake
William Blake
Não pretendo mais do que o limite,
que para além do limite
já se entrega
eu cumpro os meus
limites
não cumprindo as regras
Maria Teresa Horta
“Tacteio à minha / volta / e é só fulgor … // Para a minha sede / nenhuma água chega”. São estas a primeira e última estrofes do poema que figura na contracapa da colectânea de poemas de Maria Teresa Horta, agora dada à estampa pela Gótica. O poema, intitulado justamente “Fulgor”, pode ser pretexto para começar a falar desta poesia como uma poesia de excesso, um aspecto que atravessa todos os livros publicados por Maria Teresa Horta e continua presente nesta selecção, que reúne poemas publicados entre 1960 (Espelho Inicial) e 1999 (Só de Amor) — ressalve-se que, a fechar o livro, se encontram ainda textos inseridos no volume Vozes e Olhares no Feminino, de 2001.
Estamos, então, perante uma antologia pessoal, de cem poemas escolhidos. Sublinho escolhidos, porque a selecção não poderia, a meu ver, ter sido mais feliz. Se se mantém nesta antologia o elemento de excesso, característico, como disse já, da escrita de Maria Teresa Horta, e se continuamos a detectar aqui dois grandes vectores estruturantes, que são o corpo sexual e erotizado e o corpo do texto, erotizado também, o que é certo é que a exclusão de muitos poemas veio transformar este volume num livro novo e diferente, que permite, mais do que revisitar, redescobrir e admirar esta poesia, tão injustamente negligenciada ou mal ajuizada. Seleccionar cem poemas de entre centenas, distribuídos por quinze livros, significa uma enorme capacidade de auto-crítica, mas significa também um gesto de abdicação e contenção, que, aparentemente, colide com a dimensão excessiva de que falei acima. Só aparentemente, todavia, já que esta contenção acaba por tornar ainda mais evidente a presença do excesso, sendo excesso entendido aqui não só como o que se afasta da norma (nesse sentido, o excesso será a diferença), mas ainda como aquilo que a ultrapassa em demasia. É esse demasiado, ou ilimitado, esse lugar de ruptura-para-lá-da-ruptura, que é difícil isolar e definir. Mas, porque o limite se encontra além da norma, num espaço onde a questão da infracção deixa de contar, transgressão, subversão e limite não são elementos alternativos, mas momentos tangentes. Por isso se pode dizer, no poema de que me servi como epígrafe, e que é um dos três únicos poemas do livro que não tem título, que é possível “cumprir … limites, / não cumprindo as regras” (p. 111).
Encontramo-nos, assim, perante uma poesia (e uma poética) servida por dois processos de ruptura com a norma: a transgressão e a subversão. Se a transgressão não destrói o sistema, visto criar um sistema paralelo, a subversão, por seu lado, porque parte de dentro do próprio sistema, efectua sobre ele um efeito de corrosão, que o abala. Os dois processos estão presentes nesta poesia. E ambos resultam numa grande novidade.
Penso que a subversão na poesia de Maria Teresa Horta reside num inteligente aproveitamento da tradição poética ocidental, para, a partir dela, se criar uma versão outra (uma sub-versão): é assim que, a partir da éducation sentimentale de Fréderic, se inventa uma nova Educação Sentimental (1975), onde a mulher pode agora dizer “do [seu] corpo / o uso dos [s]eus dias”, ou da “alegria / do corpo sem disfarce” (p. 95), ou despudoradamente falar da aprendizagem “[d]o vagar da arte” do amor e do erotismo, onde cabem “dedos”, “mãos”, “braços”, e também “suco”, “pénis”, “seios”, “a seda da pele / das virilhas” (pp. 96-7); é assim também que o medieval “minha senhor”, forma de tratamento dado pelo homem à mulher no amor cortês, será re-elaborado, através da reivindicação de um espaço de mulher autónomo e livre, e transformado em “minha senhora de mim” (título para poema e para um dos mais célebres livros de Maria Teresa Horta, publicado em 1971 e retirado pela censura), onde é até permitido ao sujeito feminino “desaver-se” consigo própria (p. 67).
Por outro lado, ou em simultâneo, assiste-se a um processo de transgressão que é notório desde os primeiros livros, aqui epitomizados no “Poema de Insubordinação” (p. 8), evoluindo ao longo dos outros livros. Poderíamos, nesse sentido, isolar inúmeros textos desta antologia, em que são desafiadas as convenções da poesia lírica amorosa, ao instituir-se o sujeito feminino como enunciador e encenador do desejo e elemento de domínio da relação, ou ao proceder-se à re-distribuição, mais do que à inversão, de papéis sexuais tradicionalmente instituídos. São disto exemplos o poema “Segredo” (p. 72), do livro Minha Senhora de Mim (1972): “Não contes do meu / vestido / que tiro pela cabeça // Nem que corro os / cortinados / para uma sombra mais espessa (…) Não contes do meu / novelo / nem da roca de fiar // nem o que faço / com eles / a fim de te ouvir gritar”); ou o poema “Docemente” (p. 89), do livro Educação Sentimental (1975): “Docemente / disponho dos teus braços // dos peixes que navegam / docemente”); ou o poema, intitulado precisamente “Do Excesso” (pp. 121-2), do livro Destino (1997), em que, a dado momento, se pode ler: “Tu escusas o escusado / e só no excesso / me encontrarás a beijar-te o corpo louco // Sou eu que ponho aquilo / que tu vestes / e disponho daquilo que tu escondes” (p. 122); ou, finalmente, o poema “Foz” (p. 138), do livro Só de Amor (1999), em que o sujeito poético, claramente identificado como feminino, se auto-define como “espada”.
Estamos, pois, perante um conjunto de poemas criteriosamente seleccionados e arrumados, o que torna muito mais evidente e fácil detectar estes processos, bem como neles verificar a preocupação constante com o corpo e o corpo do texto. Por isso, ao “dizer do corpo / o corpo da poesia // Os ombros / os seios / o ventre” é “pensar” e “escrever / do corpo / o corpo da poesia” (pp. 125-6), acompanhado pelos “silêncios da fala”, o “silêncio que posto / em cima do silêncio”, como um corpo sobre outro corpo, “usurpa do silêncio o seu magro labor” (p. 162), o sujeito de enunciação reconhece-se como “a voz / onde invent[a] o nada” (p. 138). Nessa invenção (ou reinvenção), é possível à mulher poeta reivindicar o estatuto de “bruxa da palavra” (p. 104), ocupando-se, num gesto novo, subversivo da relevância das musas, de uma maternidade para os poetas — “Quem são as mães / dos poetas? As fadas das serras altas? / As bruxas da floresta?” (p. 123) —, ao mesmo tempo que definindo-os (e definindo-se) como “alquimistas do futuro” (p. 124).
É ainda interessante verificar as diferentes ocorrências de negativas nos poemas que aqui se apresentam, pelo sentido que contêm de afirmativa autonomia: “Não sou escrava / de lamento … // não quero anéis / de aceite / para enfeitar os meus olhos” (p. 69); “Não ergas / meu cavalo / as crinas da memória” (p. 82); “A bota não faz / a espora … // Desterro não faz domínio” (p. 60). “«No» is the wildest Word we consign to Language”, escrevia Emily Dickinson. Na poesia de Maria Teresa Horta exercita-se também um gesto semelhante de força e energia, e tantas vezes violência, porque ser-se “senhora do [s]eu silêncio / com tantos quartos fechados” (p. 68) equivale a instaurar uma espécie de desordem ordenada, em que se pode ser “raivosamente instável” (p. 119).
Maria Teresa Horta elegeu, para encerrar esta antologia (que aproveita dos livros Verão Coincidente (1962), Candelabro (1964), Minha Senhora de Mim (1971), Os Anjos (1983) e Destino (1997), os poemas que antes os estruturavam e lhes davam título), o poema “Os silêncios da fala”, já aqui referido, esse poema que fala do silêncio que “usurpa do silêncio o seu magro labor” — o da poesia. O poema que o antecede intitula-se “Português” (pp. 160-1) e é dos melhores exemplos da fusão entre corpo e corpo textual — ambos erotizados e transgressores ambos. Nesse poema, de 2001, retoma-se a imagética do desejo, retomam-se as redes de oposições e contrastes, tal como se retoma a subversão de espaços tradicionalmente femininos, a que pertencem “a roca e o bordado”, para a seguir se diluírem as dimensões literal e simbólica de corpo. “Se a língua ganha / a dimensão da escrita / E a escrita ganha / a dimensão do mundo” (p. 160) — assim começa o poema. E, da hipótese proposta, que se detém no corpo da palavra e nas suas infinitas possibilidades, conclui-se que “[d]escer é preciso até ao fundo / na busca das raízes da saliva / que na boca vão misturar tudo” (id.). Este processo de fusão entre corpo e corpo textual, entre língua e linguagem, culmina nos versos “O tempo a confundir qualquer abraço / entre o visto e o escrito” (p. 161). E assim se confundem e se fundem o palpável e tangível corpo com o impalpável e intangível texto. Ambos capazes de exercitar a liberdade de “subir a pulso / o mundo” (id.).
“Subir a pulso o mundo” — julgo que não haverá melhor expressão para caracterizar esta escolha rigorosa e feliz, a marcar, em cem poemas, quarenta anos de uma poesia nova.
Estamos, então, perante uma antologia pessoal, de cem poemas escolhidos. Sublinho escolhidos, porque a selecção não poderia, a meu ver, ter sido mais feliz. Se se mantém nesta antologia o elemento de excesso, característico, como disse já, da escrita de Maria Teresa Horta, e se continuamos a detectar aqui dois grandes vectores estruturantes, que são o corpo sexual e erotizado e o corpo do texto, erotizado também, o que é certo é que a exclusão de muitos poemas veio transformar este volume num livro novo e diferente, que permite, mais do que revisitar, redescobrir e admirar esta poesia, tão injustamente negligenciada ou mal ajuizada. Seleccionar cem poemas de entre centenas, distribuídos por quinze livros, significa uma enorme capacidade de auto-crítica, mas significa também um gesto de abdicação e contenção, que, aparentemente, colide com a dimensão excessiva de que falei acima. Só aparentemente, todavia, já que esta contenção acaba por tornar ainda mais evidente a presença do excesso, sendo excesso entendido aqui não só como o que se afasta da norma (nesse sentido, o excesso será a diferença), mas ainda como aquilo que a ultrapassa em demasia. É esse demasiado, ou ilimitado, esse lugar de ruptura-para-lá-da-ruptura, que é difícil isolar e definir. Mas, porque o limite se encontra além da norma, num espaço onde a questão da infracção deixa de contar, transgressão, subversão e limite não são elementos alternativos, mas momentos tangentes. Por isso se pode dizer, no poema de que me servi como epígrafe, e que é um dos três únicos poemas do livro que não tem título, que é possível “cumprir … limites, / não cumprindo as regras” (p. 111).
Encontramo-nos, assim, perante uma poesia (e uma poética) servida por dois processos de ruptura com a norma: a transgressão e a subversão. Se a transgressão não destrói o sistema, visto criar um sistema paralelo, a subversão, por seu lado, porque parte de dentro do próprio sistema, efectua sobre ele um efeito de corrosão, que o abala. Os dois processos estão presentes nesta poesia. E ambos resultam numa grande novidade.
Penso que a subversão na poesia de Maria Teresa Horta reside num inteligente aproveitamento da tradição poética ocidental, para, a partir dela, se criar uma versão outra (uma sub-versão): é assim que, a partir da éducation sentimentale de Fréderic, se inventa uma nova Educação Sentimental (1975), onde a mulher pode agora dizer “do [seu] corpo / o uso dos [s]eus dias”, ou da “alegria / do corpo sem disfarce” (p. 95), ou despudoradamente falar da aprendizagem “[d]o vagar da arte” do amor e do erotismo, onde cabem “dedos”, “mãos”, “braços”, e também “suco”, “pénis”, “seios”, “a seda da pele / das virilhas” (pp. 96-7); é assim também que o medieval “minha senhor”, forma de tratamento dado pelo homem à mulher no amor cortês, será re-elaborado, através da reivindicação de um espaço de mulher autónomo e livre, e transformado em “minha senhora de mim” (título para poema e para um dos mais célebres livros de Maria Teresa Horta, publicado em 1971 e retirado pela censura), onde é até permitido ao sujeito feminino “desaver-se” consigo própria (p. 67).
Por outro lado, ou em simultâneo, assiste-se a um processo de transgressão que é notório desde os primeiros livros, aqui epitomizados no “Poema de Insubordinação” (p. 8), evoluindo ao longo dos outros livros. Poderíamos, nesse sentido, isolar inúmeros textos desta antologia, em que são desafiadas as convenções da poesia lírica amorosa, ao instituir-se o sujeito feminino como enunciador e encenador do desejo e elemento de domínio da relação, ou ao proceder-se à re-distribuição, mais do que à inversão, de papéis sexuais tradicionalmente instituídos. São disto exemplos o poema “Segredo” (p. 72), do livro Minha Senhora de Mim (1972): “Não contes do meu / vestido / que tiro pela cabeça // Nem que corro os / cortinados / para uma sombra mais espessa (…) Não contes do meu / novelo / nem da roca de fiar // nem o que faço / com eles / a fim de te ouvir gritar”); ou o poema “Docemente” (p. 89), do livro Educação Sentimental (1975): “Docemente / disponho dos teus braços // dos peixes que navegam / docemente”); ou o poema, intitulado precisamente “Do Excesso” (pp. 121-2), do livro Destino (1997), em que, a dado momento, se pode ler: “Tu escusas o escusado / e só no excesso / me encontrarás a beijar-te o corpo louco // Sou eu que ponho aquilo / que tu vestes / e disponho daquilo que tu escondes” (p. 122); ou, finalmente, o poema “Foz” (p. 138), do livro Só de Amor (1999), em que o sujeito poético, claramente identificado como feminino, se auto-define como “espada”.
Estamos, pois, perante um conjunto de poemas criteriosamente seleccionados e arrumados, o que torna muito mais evidente e fácil detectar estes processos, bem como neles verificar a preocupação constante com o corpo e o corpo do texto. Por isso, ao “dizer do corpo / o corpo da poesia // Os ombros / os seios / o ventre” é “pensar” e “escrever / do corpo / o corpo da poesia” (pp. 125-6), acompanhado pelos “silêncios da fala”, o “silêncio que posto / em cima do silêncio”, como um corpo sobre outro corpo, “usurpa do silêncio o seu magro labor” (p. 162), o sujeito de enunciação reconhece-se como “a voz / onde invent[a] o nada” (p. 138). Nessa invenção (ou reinvenção), é possível à mulher poeta reivindicar o estatuto de “bruxa da palavra” (p. 104), ocupando-se, num gesto novo, subversivo da relevância das musas, de uma maternidade para os poetas — “Quem são as mães / dos poetas? As fadas das serras altas? / As bruxas da floresta?” (p. 123) —, ao mesmo tempo que definindo-os (e definindo-se) como “alquimistas do futuro” (p. 124).
É ainda interessante verificar as diferentes ocorrências de negativas nos poemas que aqui se apresentam, pelo sentido que contêm de afirmativa autonomia: “Não sou escrava / de lamento … // não quero anéis / de aceite / para enfeitar os meus olhos” (p. 69); “Não ergas / meu cavalo / as crinas da memória” (p. 82); “A bota não faz / a espora … // Desterro não faz domínio” (p. 60). “«No» is the wildest Word we consign to Language”, escrevia Emily Dickinson. Na poesia de Maria Teresa Horta exercita-se também um gesto semelhante de força e energia, e tantas vezes violência, porque ser-se “senhora do [s]eu silêncio / com tantos quartos fechados” (p. 68) equivale a instaurar uma espécie de desordem ordenada, em que se pode ser “raivosamente instável” (p. 119).
Maria Teresa Horta elegeu, para encerrar esta antologia (que aproveita dos livros Verão Coincidente (1962), Candelabro (1964), Minha Senhora de Mim (1971), Os Anjos (1983) e Destino (1997), os poemas que antes os estruturavam e lhes davam título), o poema “Os silêncios da fala”, já aqui referido, esse poema que fala do silêncio que “usurpa do silêncio o seu magro labor” — o da poesia. O poema que o antecede intitula-se “Português” (pp. 160-1) e é dos melhores exemplos da fusão entre corpo e corpo textual — ambos erotizados e transgressores ambos. Nesse poema, de 2001, retoma-se a imagética do desejo, retomam-se as redes de oposições e contrastes, tal como se retoma a subversão de espaços tradicionalmente femininos, a que pertencem “a roca e o bordado”, para a seguir se diluírem as dimensões literal e simbólica de corpo. “Se a língua ganha / a dimensão da escrita / E a escrita ganha / a dimensão do mundo” (p. 160) — assim começa o poema. E, da hipótese proposta, que se detém no corpo da palavra e nas suas infinitas possibilidades, conclui-se que “[d]escer é preciso até ao fundo / na busca das raízes da saliva / que na boca vão misturar tudo” (id.). Este processo de fusão entre corpo e corpo textual, entre língua e linguagem, culmina nos versos “O tempo a confundir qualquer abraço / entre o visto e o escrito” (p. 161). E assim se confundem e se fundem o palpável e tangível corpo com o impalpável e intangível texto. Ambos capazes de exercitar a liberdade de “subir a pulso / o mundo” (id.).
“Subir a pulso o mundo” — julgo que não haverá melhor expressão para caracterizar esta escolha rigorosa e feliz, a marcar, em cem poemas, quarenta anos de uma poesia nova.
Subscrever:
Mensagens (Atom)