quinta-feira, 15 de março de 2012

sobre o fumo que une e separa


Man Ray

às vezes pergunto se a minha cabeça não é uma casa pequena e incompleta
com uma chaminé gigante, soltando fumos e fumos de uma fogueira a arder –

e para onde irá o fumo quando a fogueira apagar?
verdadeiramente não sei e pergunto, pergunto e pergunto-me
para onde irá o fumo quando a fogueira apagar?
um dia, um dia impertinente e indeterminado
pode chegar, na forma de um pássaro, assobiando a marcha imprópria
e uma tesoura de silêncio pode cortar a continuidade -

mas não é suposto o fumo parar –

estou preocupado com a origem e o fim. o fumo.

a fogueira arde intensamente
e interroga-me dos lugares que não conheço
das nuvens e do universo
da súbita afirmação e do perigo da subtracção
a perda de nitidez, o desvanecimento do fumo como corpo
sem prejudicar a fotossíntese
porque é um fumo de espírito, de agricultor;
plantas certas ou aromáticas tornadas imortais; fotografias de tempo
naquele fumo que sai e se espalha pelo ar
como uma alma reapreendida, intersubjectiva, diferente, seminal
de uma consistência renovada de outras almas que se encontram e se misturam
como alquimia, uma nova obra no meio das mãos de ventos originais
a nova forma, reinventando o tempo
uma nova aura
que se estende para sempre -

mesmo quando as outra almas se separam
sem a possibilidade de um novo olhar –


josé ferreira 14 de Março 2012

quarta-feira, 14 de março de 2012

Começávamos o dia por baixo - um poema de Catarina Nunes Almeida


Henri Matisse

Começávamos o dia por baixo
pelo tempo da pedra. A escarpa muscular
onde ia gastando os teus sapatos.
Manhãs compridas que chegavam ao mar.
Trazíamos as letras inclinadas trazíamos
na ponta da língua o nome dos naufrágios
e estávamos à mesa como um corpo de baile.
Uma subsistência sonora era esse
o estado da arte: éramos as claves do sul
de lábios estendidos à medida das máscaras.
Eu ia de rastilho, de árvore acesa. Ia iluminando a mão
com que batias no fundo. Traçava as águas
juntava as pernas para as covas do teu dente.
Passavam orlas e orlas e nós naquela descoberta
naquela terra toda à vista brincando ao verão
aos redemoinhos na chávena.

Catarina Nunes Almeida lido aqui

terça-feira, 13 de março de 2012

a não interpretação dos sonhos




tenho que te confessar um segredo
hoje nasceu um sol indomável pela manhã
um sonho ou uma realidade da qual duvido
talvez uma invasão sobrenatural –

de repente, muito de repente
imobilizou-me como se não fosse gente
e à volta, a matéria inanimada, ganhou movimento:
as telas e os poemas ficaram cobertos de fumos
e sofreram o toque mágico de uma fluida existência;
os poemas cheios de problemas numa grande confusão
e as telas descoladas das paredes
a libertarem impossibilidades:
figuras cresceram, soltaram-se deixaram as telas brancas
também libertas mas com pernas, andando como se fossem cartas
vazias de letras, sem paus nem espadas–

as mulheres que eram mulheres, nas telas
sentavam-se nas cadeiras do quarto
e o espanto era grande
as cores mais improváveis, uma maçã azul
atravessava-se de realidade
e silvavam setas pelo ar que me atravessavam por todos os lados
mas sem qualquer dor, como se fosse de ar ou uma nuvem
ou um pedaço de vento num corpo sem visibilidade –

uma figura pequena, nua, voava e ria-se com gargalhadas grandes
ia contra as paredes, subia pelo candeeiro
e ria-se com gargalhadas grandes.
pisava com os pés pequenos todos os poemas
e ria-se com gargalhadas grandes.
e falava-me com palavras estranhas, imperceptíveis
como quando as águas se despenham nas gargantas de cataratas
ou como quando o silêncio dos lagos nos colocam a agarrar a lua –

aquela figura pequena e endiabrada
falava-me na tal língua como se me contasse um segredo
um nome, um lugar, um barco, um rio ou uma cidade, imperceptível
e girava na secretária, no dedo grande, como se tivesse aulas de dança
por cima das letras mais escondidas, mais incompletas
mais encerradas de fumo ou submergidas por algas e limos –

aquela figura pequena e endiabrada, de asas brancas
erguia-se de arco nos dedos como as borboletas
e atirava setas e mais setas, setas e mais setas
e ria-se com gargalhadas grandes
de tal forma
que todas as mulheres que eram mulheres
sentadas nas cadeiras
levantavam as mãos e tapavam a boca
batiam com os pés no chão
e pareciam compreender tudo
como se eu não estivesse mudo
e os braços chegassem realmente ao céu
para abraçar a lua –


josé ferreira 13 março 2012

domingo, 11 de março de 2012

Painted Love



na tessitura líquida de um fogo prometido
ardem-me os olhos no dia monumental-
ao longe dentro dos meus quartos vazios
um vestido oscila a nudez explícita ;
uma tontura do sol –

segredos apertam a alma
dedos desenham alças que se soltam
linhas imprecisas, difusas formas
insinuando-se na duplicidade dos sentidos –

o real, o irreal, a dinâmica dos espaços vazios
mesmo que multidões atravessem as ruas
que apitem milhares de carros
um sonho para além da vida
para além das cores, dos óleos que se misturam nos quadros –


braços oblíquos, pés rodeados de limos
uma luz estonteante, íntima, fluida
desvanecendo, subindo escadas, inatingível
como uma estrela do Norte acendendo o escuro
cintilando a noite no veludo que a cobre –

se fosse numa praia vazia onde as areias são também milhares
as espumas parariam junto dos teus pés
abrindo as portas do mar.
ao longe a tua pele poderia brilhar e deslizar
entrando com suavidade no infindável horizonte;
as gotas cobrindo o corpo, unindo-o em sons de água –

um arco incompleto em ogiva. as mãos estendidas
na descontinuidade simples
talvez de um uníssono impossível
talvez possível
no interior das palavras, no interior de um quadro
numa porta que se abre –

josé ferreira 11 Março 2012

sexta-feira, 9 de março de 2012

Amor é olhar total - um poema de Fiamma Pais Hasse Brandão


Anna Karina (de um filme de Godard)

Amor é olhar total, que nunca pode
ser cantado nos poemas ou na música,
porque é tão-só próprio e bastante,
em si mesmo absoluto táctil,
que me cega, como a chuva cai
na minha cara, de faces nuas,
oferecidas sempre apenas à água.




Fiamma Hasse Pais Brandão "Elegíacos"

um sonho de Guillaume Apollinaire


Guillaume Apollinaire


um dia claro como as águas de um riacho de Coimbra
pela quinta sem lágrimas, pelos lugares secretos dos limbos
onde serás sempre ninfa –
a ilusão é uma pedra de cristal, faces que se multiplicam
brilhos, uma pequena mancha de um incêndio de sol
nos cantos do caderno e as linhas longas –
as palavras substância e os néctares de Mercúrio
o deus das asas, o mensageiro de um rio
que se lança sobre os espelhos das árvores
pelo chapéu das margens onde se sentam os pássaros
e os ramos tocam em cordas grandes, liras gigantes –

de que poderei falar agora quando cessa a luz e surge a lua branca?
talvez de Guillaume depois de Baudelaire
talvez dos poemas mais permanentes de Paul Eluard
talvez de uma filosofia de razão para equilibrar
talvez de músicas roucas e pensamentos profundos
talvez de carumas antigas e sandes nas costas dos pinheiros
talvez do mar, sim, talvez do mar –

mas são apenas fumos, aromas de ópios, incensos
olhares de lado, o soçobrar do desejo
a tarefa impossível de segurar as águas e separar o sal –

quando depois de um dia longo surge a lua branca
fechamos as janelas devagar, percorremos as garças
os rolos de linhas nas cortinas de renda
e todas as portas estão fechadas –

fazemos de conta que vamos descansar;
os pijamas e as escovas de dentes
os passos elevados na leveza dos chinelos
um resto de páginas, uma marca
a mão três vezes na abertura da boca
e depois, puxamos a roupa,
puxamos a roupa como um peso de chumbo
um peso de chumbo sobre o cansaço dos ombros
e adormecemos, adormecemos –

adormecemos os sentidos mais visíveis, os mais recentes
porque dentro do sonho há pó de caminhos
corridas, olhos, braços, crinas selvagens
o corpo, o rosto e um chapéu de abas largas
Caminha, Espinho, Vigo, Santiago, terras de França
e uma tenda de campismo sempre junto de um riacho
sempre junto de um riacho

ouvem-se as palavras –

8 de Março 2012

quinta-feira, 8 de março de 2012

As Novas Cartas Portuguesas



Livro polémico e simbólico, publicado pela primeira vez em 1973, sobre a libertação feminina pelo qual Maria Teresa Horta haveria de ser agredida e insultada em plena via pública da cidade de Lisboa. ler mais sobre o livro e as autoras "As três Marias" aqui

As três marias - um poema para o dia da mulher



Chiara Rizzolo
Titolo: Virginia
Tecnica: digital art & photography
Dimensione: 50x50 cm

"Era uma Primavera irregular. O tempo em constante mudança punha nuvens azuis e purpúreas a voar sobre a Terra. No interior, agricultores olhavam, apreensivos, para os campos. Em Londres os guarda-chuvas eram abertos e depois fechados por pessoas que olhavam para o céu. Mas em Abril era de esperar um tempo assim."

Virginia Woolf "Os Anos"



1ªMARIA

Jovem Maria

Deslizo ainda junto de ti
encolhida nessa asa
onde a pele morena
de mão maior
me espaça os dedos
em ondas soltas
distendidas
na entrega louca-

Este Sol exterior no brilho ofusca
mas na redoma ainda sinto
o morno sopro de beijos
os sussurros e arrepios
num afagar de pomba
de bico escondido
onde me aninho -

Nesta rua não sou eu...
desprovida de sombras;
sete vezes mais leve
em cada passo levito...

Mas não te vendo
em cada minuto que passa
no desejo, na saudade,
sou a personagem aflita
no filme tremido,
na nitidez certa
de te querer
uma outra vez
à minha espera-

Maria Levita



2ª MARIA

Faz-se tarde Maria


Não gosto do olhar cinzento
quando me abraças ao fim do dia.
Procuro o sorriso distante
de fugidas de jardins
entre frases aos molhos,
gotas de orvalho frescas,
melodias de silêncios
entre copas e arbustos,
às escondidas curiosas
dos chapéus vigilantes -

Soltavas beijos em qualquer hora,
perseguias os aromas,
destruías rotinas no desafio
dos sentidos...
e agora onde páras, onde estás
meu amor das Primaveras-

Quero de novo os papéis queimados
de ornadas fantasias de poemas...
ser a musa, a deusa, a louca...
Onde estás?

Tenho a pressa e o desejo
de amores-perfeitos,
margaridas, dos jacintos
colhidos nos passeios
de Domingos,
entre raios de brilho,
relâmpagos de mar -

Porque não me vens de novo,
vestido de orquídeas, de sapatinhos verdes,
de rosas brancas, vermelhas, laranjas...
(antes que venha a noite),
visitar?

Não te quero assim -

Onde estás?... Onde estás?


Maria da Esperança



3ª MARIA

Memórias de Maria


Fecho o cesto de verga,
o vime da memória da tua ausência.
Não era p'ra ser assim
"Primeiro eu, só depois tu"
Mas dizias, afagando rugas:
"...espero por ti sentado
na manta de lã, quadrados azuis,
xadrez,
num relvado, junto a uma cesta
de flores... lá...
espero por ti
a meu lado..."

Saíste de mim neste mundo
Mas sei onde estás...
no outro lado do berço,
num baloiço, num embalo,
adormecido...
no Paraíso -

Guardo alegrias, consolos,
a companhia nos colos que
partilhámos...
Aqui...ainda és meu...
Ainda estás -

Não choro mais!

Maria do Céu



josé ferreira Outubro de 2008

quarta-feira, 7 de março de 2012

A partir de "O Regresso dos Caçadores"




No Inverno o rio transbordava, a chuva
e o sangue dos matadouros traziam-no
abundante desde a nascente. Não um rio
– disseram-me depois – um pequeno afluente
contido entre os muros das casas, vagando
a face impura dos campos e dos pátios, as artes
liquefeitas no clamor da intempérie
e os homens (essa voz
nidificada em cozinhas e colheitas, em papel
de paredes fechada, e apenas vagamente
familiar) abrindo caminho entre as águas
numa irmandade de súbito criada
à distância desamparada
de um eco

Como os séculos, os rios decorrem
sem culpa, com a estase do corvo pairando
O desastre nem sempre é distinto
dos vultos que brincam no gelo
e convergem, cúmplices, na inumana
paisagem

À revelia das mães, as crianças
desciam à rua para ver
o rio transbordar. O barro sem Deus
das bestas, a fluida forma
da morte tingia-lhes o calcanhar
e voltavam para casa
como os caçadores de Bruegel, o magro cadáver
da raposa ilustrando a culpa
doravante inscrita
em todos os postais de Natal

águas de março



caíram três pedras de chuva sobre as folhas da mesa .
preocupa-me o teu olhar sobre a inconsistência
a minha a tua a de sempre.
preocupa-me a tristeza de portas fechadas
as que sentem –
tenho escrito menos palavras sossegadas
menos poemas de natureza
aqueles que se debruçam sobre jarras transparentes;
um ramo de tulipas amarelas, grandes, belas, ainda presas
nos seus corpos pendentes, como sol e sobremesas
brilhantes, luminosas, belas, grandes, amarelas, ainda presas
recolhidas num campo imaginário, um lugar de simbolismos
embora adquiridas num fim de tarde
entre a compra de quatro iogurtes e um vinho rouge
na loja útil de um supermercado -

caíram três pedras de chuva sobre as folhas dispersas
criando borbulhas de celulose, brancas
que se levantam e deformam as letras, armando-as de sal
amando-as, um pouco antes de serem de novo planas
de novo exactas e exaustas, na solidez do tampo –

caíram três pedras de chuva sobre as folhas agora âmbar.
há um oceano de silêncio e em nenhum bar soam músicas de blues
teclas de trompetes, vozes roucas de Armstrong , pianos de Casablanca –

e é março, e as águas murmuram nomes –

josé ferreira 6 de Março 2012

terça-feira, 6 de março de 2012

Já alguém sentiu a loucura vestir de repente o nosso corpo - um poema de Almada Negreiros


Almada Negreiros "Figura de Mulher com pandeireta" 1938 daqui

Já alguém sentiu a loucura
vestir de repente o nosso corpo?
Já.
E tomar a forma dos objectos?
Sim.
E acender relâmpagos no pensamento?
Também.
E às vezes parece ser o fim?
Exactamente.
Como o cavalo do soneto de Ângelo de Lima?
Tal e qual.
E depois mostrar-nos o que há-de vir
muito melhor do que está?
E dar-nos a cheirar uma cor
que nos faz seguir viagem
sem paragem
nem resignação?
E sentirmo-nos empurrados pelos rins
na aula de descer abismos
e fazer dos abismos descidas de recreio
e covas de encher novidade?
E de uns fazer gigantes
e de outros alienados?
E fazer frente ao impossível
atrevidamente
e ganhar-lhe, e ganhar-lhe
ao ponto do impossível ficar possível?
E quando tudo parece perfeito
poder-se ir ainda mais além?
E isto de desencantar vidas
aos que julgam que a vida é só uma?
E isto de haver sempre ainda mais uma maneira pra tudo?

Tu só, loucura, és capaz de transformar
o mundo tantas vezes quantas sejam as necessárias para olhos individuais.
Só tu és capaz de fazer que tenham razão
tantas razões que hão-de viver juntas.
Tudo, excepto tu, é rotina peganhenta.
Só tu tens asas para dar
a quem tas vier buscar.

Almada Negreiros

domingo, 4 de março de 2012

Nesta cadeira pálida


Fotografia retirada do The Guardian

Nesta cadeira pálida, livros cheios de folhas e um ruído de vento na janela;
Punhos de força, invisíveis, baques surdos -

Descreves os maus momentos e as repetições incessantes;
A obsessão das árvores, da lua, dos pássaros
Mas não atormentes os silêncios, os momentos parados sobre as asas da alma
Não será essa a faca nem a espada que corta os enigmas
De um castelo de torres agudas de onde saem morcegos
E pousam corvos nas noites mais escuras.
Não apoquentes os sonhos que estão mortos
E ergue a voz apenas pelos mais delinquentes
Aqueles que hão-de ser vivos

Os de raízes frágeis para serem grandes –

josé ferreira 4 Março 2012

A clara noite de verão - um poema de Fernando Pessoa




A clara noite de verão


Com penugem nos sentidos
De leve pousa e afaga, e não
Dorme mais

Novos, nos ensiraram a emoção,
Crescidos, aprendemos a verdade

Resultou

Débeis de mais para buscar o verdadeiro,
Frios de mais para encaixar o sentimento.

Fernando Pessoa
In Poesia 1918-1930 , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2005

sexta-feira, 2 de março de 2012

Afogo no teu ombro - um poema de David Mourão Ferreira


Gabriel Rosseti 1880

Afogo no teu ombro
tudo o que não te digo
o pânico do sonho
o resplendor do risco

É de ti que me escondo
Em ti é que me afirmo
Antes de já ser ontem
sentir que estamos vivos


David Mourão Ferreira In O corpo iluminado

quando se sente a lua como um espaço aberto


Zhu Yiyong


quando se sente a lua como um espaço aberto
dentro das costelas flutuantes
sente-se a impropriedade do tempo –

as árvores estão sossegadas no passeio claro da luz de néon
afirmam linhas profundas , perpendiculares e cruzadas
onde se reunem os nossos pensamentos
como uma valsa de fevereiro de um modo diferente
que adia a chegada de um ombro
que adia o desejo de calar o nevoeiro –

o sorriso que guardo e as emoções dos violinos abrem o incêndio.
é seguro que ardo, uma ardência intensa, junto de uma janela muda
junto com os pés congelados
junto com os corpos resguardados –

um homem pensa e uma mulher pensa –

as extremidades de um soalho não são raízes na indisciplina das células
a ciência não explica a química humana quando se desconstrói a matéria
a metafísica envolve-se de uma leveza de vento e rodeia as células pré-rafaelitas
nómadas gigantes de sensibilidades que atravessam as distâncias –

somos seres líquidos e tangíveis num mar de memórias rarefeitas –

os dias são sempre novos e são sempre grandes
um manto de paraíso escreve-se de asas
de olhos nos olhos dos pássaros –

é obrigatório seguir-lhes os passos
quando pisam o ar como se fossem leves as calçadas –
é obrigatório apertar as mãos e alargá-las
respirar o sonho pelo nascer da madrugada –

é obrigatório que sossegues que adormeças os olhos
há uma lua aberta e um quarto de ondas brancas
descansa suavemente
não magoes as raízes dos cabelos e pousa o rosto nas penas da almofada
- a leveza, os pássaros.

perde o peso das realidades, perde as lágrimas
não temas a pulsação vermelha do sangue e do oxigénio
sente os versos e os poemas, são longos como a eternidade –

descansa, os sonhos falam
as palavras vestidas de silêncio são pesadas -

não se sentam nas cadeiras não abrem os braços –



josé ferreira 29 fevereiro 2012