quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

ao coração da terra desce o luar

Women In Art from Philip Scott Johnson on Vimeo.




ao coração da terra desce o luar
pressinto as quilhas dos navios romperem a cinza da manhã
(escrevo um diário
fumo
bebo
aborreço-me)
atravesso o relâmpago esquecido na veia óssea da noite
reconheço o sítio onde os corpos já não se encontram
(estou sentado numa cadeira de lona
olho o mar
é tudo o que sei fazer
olhar o mar e não pensar)
tocámo-nos apesar do que violentamente ficou dito

agora só vens no veludo manchado dos sonhos
pérola mastigada na queimadura da boca
ou quando arrumo as fotografias surges inesperadamente
do fundo da gaveta com o perfume áspero da madeira

anoitece...o ar está impregnado de iodo
um fio de luz define o rosto contra a parede
a cal retém o sussurrar antigo dos corpos
e quando a manhã se aproxima da janela
a memória seca ou dorme para sempre

(a boca
talvez fosse a boca de A. surgindo
sobre a folha de papel
respirando)

ainda continuei a escrever durante alguns dias
sem grande rigor é certo...uma aranha movia-se nos vidros
a melancolia trepava ao cimo das árvores
assustando os insectos da folhagem e os pássaros
esperei o sono com suas pálpebras vegetais e a paixão
apareceu naquele rosto orvalhado abrindo-se enfim
à constelação doutro rosto sujo de tinta e de palavras




Al Berto in O Medo

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

eu nunca guardei rebanhos - um poema de Alberto Caeiro




I



Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes,
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se diz
E quer fingir que compreende.

Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer cousa natural –
Por exemplo, a árvore antiga
À sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansados de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

Aberto Caeiro "O Guardador de Rebanhos" In Poesia , Assírio & Alvim, ed. Fernando Cabral Martins, Richard Zenith, 2001

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A morte de madrugada




Muerto cayó Federico.
Antonio Machad
o

Uma certa madrugada
Eu por um caminho andava
Não sei bem se estava bêbado
Ou se tinha a morte n'alma
Não sei também se o caminho
Me perdia ou encaminhava
Só sei que a sede queimava-me
A boca desidratada.
Era uma terra estrangeira
Que me recordava algo
Com sua argila cor de sangue
E seu ar desesperado.
Lembro que havia uma estrela
Morrendo no céu vazio
De uma outra coisa me lembro:
... Un horizonte de perros
Ladra muy lejos del río...

De repente reconheço:
Eram campos de Granada!
Estava em terras de Espanha
Em sua terra ensangüentada
Por que estranha providência
Não sei... não sabia nada...
Só sei da nuvem de pó
Caminhando sobre a estrada
E um duro passo de marcha
Que em meu sentido avançava.

Como uma mancha de sangue
Abria-se a madrugada
Enquanto a estrela morria
Numa tremura de lágrima
Sobre as colinas vermelhas
Os galhos também choravam
Aumentando a fria angústia
Que de mim transverberava.

Era um grupo de soldados
Que pela estrada marchava
Trazendo fuzis ao ombro
E impiedade na cara
Entre eles andava um moço
De face morena e cálida
Cabelos soltos ao vento
Camisa desabotoada.
Diante de um velho muro
O tenente gritou: Alto!
E à frente conduz o moço
De fisionomia pálida.
Sem ser visto me aproximo
Daquela cena macabra
Ao tempo em que o pelotão
Se dispunha horizontal.

Súbito um raio de sol
Ao moço ilumina a face
E eu à boca levo as mãos
Para evitar que gritasse.
Era ele, era Federico
O poeta meu muito amado
A um muro de pedra seca
Colado, como um fantasma.
Chamei-o: Garcia Lorca!
Mas já não ouvia nada
O horror da morte imatura
Sobre a expressão estampada...
Mas que me via, me via
Porque em seus olhos havia
Uma luz mal-disfarçada.
Com o peito de dor rompido
Me quedei, paralisado
Enquanto os soldados miram
A cabeça delicada.

Assim vi a Federico
Entre dois canos de arma
A fitar-me estranhamente
Como querendo falar-me.
Hoje sei que teve medo
Diante do inesperado
E foi maior seu martírio
Do que a tortura da carne.
Hoje sei que teve medo
Mas sei que não foi covarde
Pela curiosa maneira
Com que de longe me olhava
Como quem me diz: a morte
É sempre desagradável
Mas antes morrer ciente
Do que viver enganado.

Atiraram-lhe na cara
Os vendilhões de sua pátria
Nos seus olhos andaluzes
Em sua boca de palavras.
Muerto cayó Federico
Sobre a terra de Granada
La tierra del inocente
No la tierra del culpable.
Nos olhos que tinha abertos
Numa infinita mirada
Em meio a flores de sangue
A expressão se conservava
Como a segredar-me: - A morte
É simples, de madrugada...

A palavra - um poema de Miguel Torga




S. Martinho da Anta, 13 de Abril de 1965


Falo da natureza.
E nas minhas palavras vou sentindo
A dureza das pedras,
A frescura das fontes,
O perfume das flores.
Digo, e tenho na voz
O mistério das coisas nomeadas.
Nem preciso de as ver.
Tanto as olhei,
Interroguei,
Analisei
E referi, outrora,
Que nos próprios sinais com que as marquei
As reconheço, agora.



Miguel Torga Diário X

sábado, 25 de fevereiro de 2012

a luz de Turner


Turner

a luz de Turner persegue a sombra das montanhas
e ilumina as areias como um embrião de luz
um lugar de gineceu, um lugar feminino, terno
fios de filigranas sobre os últimos dias de inverno
do mês mais pequeno, Fevereiro;
raios amarelos
de um ouro que se esconde e tarda uma noite inteira –

o azul é ténue, o sol é subtil e apreende-se, fecha-se no quadro de Turner.

agora é noite cerrada. há algum silêncio.
debruço-me na suavidade branca do teu rosto e rejeito todas as palavras rudes
porque não fazem parte, da natureza, do estado de alma
da aura que me sopra das aguarelas pousadas sobre o centro, o nosso centro
e inclino-me como um casco de pêndulo
ora ao lado esquerdo ora numa mistura de cabelos
junto às orelhas, do outro lado
segredando alguns versos, versos que invento
repetindo as ondas, as ondas como sempre
e apertando um pouco mais a noite
na linha aberta dos ombros
e na direcção mais sossegada do sonho
de corpos calados e quatro mãos brancas –


josé ferreira 24 fevereiro 2012

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Because



According to Lennon, "Because" was inspired by Ludwig van Beethoven's "Moonlight Sonata". "Yoko was playing Beethoven's 'Moonlight Sonata' on the piano ... I said, 'Can you play those chords backwards?', and wrote 'Because' around them. The lyrics speak for themselves ... No imagery, no obscure references." (fonte Wikipedia )



Porque se levantou a lua na máxima temperatura da noite
e o pensamento te envolve em braços de veludo e coloca a mão sobre os cabelos
e porque a lua te desfaz as rugas de distância e te compõe as sobrancelhas
como um décor de cinema; a maquilhagem, suavemente, dedos deslizando
pelos olhos, pelo rosto, pela linha perfeita dos lábios
e porque a Serenade se estende num piano de Beethoven
ecoando nas cordas como uma voz humana
e porque a Moonlight é branca e iluminada
um redondo recortado convidando o desaparecimento das sombras
e porque a lua não pertence a ninguém
e pousa no céu para ser vista por ambos
e porque afinal a força da lua é tanta que há asas e estrelas
que me levantam
que te levantam
e nos escondem na cor mais branca da noite
o maior sonho –

josé ferreira 23 fevereiro 2012

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Vozes - Ana Luísa Amaral

a mulher do chapéu vermelho


Edward Munch


vejo-te como a mulher de chapéu vermelho junto a um fiorde da Noruega
impenetrável nas cores frias sem degelo
um fechamento de ausência
querendo-o, denunciado pelo desejo –
não sou o senhor do tempo nem os ouvidos do vento
não sei qual o lugar azul do vestido, a luminosidade seguinte -
as ondas sempre se elevam e descem num ritmo que acontece
uma determinação mais profunda ou mais de cima
desde o magma à nuvem à chuva.
qual a desconstrução de um novelo de pistas, provas, sinais?
talvez permaneça o labirinto
ou talvez se abra uma concha –


josé ferreira 23 fevereiro 2012

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Correntes d'escritas 2012



MESA 5
Dia 24, sexta-feira, 22h00 (Auditório Municipal)
Tema: A escrita é um investimento inesgotável no prazer
Participantes: Afonso Cruz, Ana Luísa Amaral, Júlio Magalhães, Manuel Moya, Rui Zink e Valter Hugo Mãe

ver todo o programa aqui

if - a poem by e.e. cummings




If freckles were lovely, and day was night,
And measles were nice and a lie warn't a lie,
Life would be delight,--
But things couldn't go right
For in such a sad plight
I wouldn't be I.

If earth was heaven and now was hence,
And past was present, and false was true,
There might be some sense
But I'd be in suspense
For on such a pretense
You wouldn't be you.

If fear was plucky, and globes were square,
And dirt was cleanly and tears were glee
Things would seem fair,--
Yet they'd all despair,
For if here was there
We wouldn't be we.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

ophelia


Jonh Everett Millais Ophelia 1851

um dia procuro-te em todos os lugares
até encontrar os teus olhos brilhantes
shinning star.
pousarei sobre o calor da tua testa a minha mão fresca
para que feches os olhos um momento
e não sofras essa chama de tempo, essa labareda permanente –

levantarei todos os tapetes de relva
e mesmo nas profundezas mais escuras da terra
hei-de levar-te a luz e o sal da diferença
para que cresças como uma semente sem medo

e com uma mão no ombro –

josé ferreira 21 fevereiro 2012

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

o fragmento 1001 e a psicanálise dos dias


Co Westerik "Zwemmer" 1962

o visível e o invisível.
a dualidade eruptiva sem ordem dentro de ti.
o imerso e a descoberta.
a manhã de três graus negativos e uma noite volúvel.
a escrita nos pés dos dias.
pode haver ausência de cor e pode haver silêncio
mas não se pára o pensamento não se pára a vida
não se degola a ideia não se afoga o sonho
não mandamos no nosso mundo
de dentro ou de fora;
peão, pedaço de pó ou vírgula
a condição do eu no todo é pouco
mas imprescindível, existe –

não te prometo um jardim permanente.
unicamente ninguém pode prometer nada.
constrói-se a vida em fragmentos.
e mesmo quando nos julgamos anjos ou demónios
acima ou por debaixo das nuvens, sozinhos
como candelabros sem uso
suspensos estamos nos segundos, as linhas e os fios;
um processo de sucessão de luz, um qualquer dia –

a maior inteligência do mundo é não adivinhar futuros
se assim fosse, se adivinhasse futuros
talvez te prometesse tudo o que sinto
talvez desenhasse no teu tronco a insígnia suprema
de raiz e húmus
de flores e rumos serenos e caminhos lisos
e lagos e rios e mares
e talvez pudéssemos cumprir tudo
segurando com as mãos o peso imenso da cidade –

a promessa que te faço não é uma certeza de dádiva.
a promessa que te faço é o querer muito e lutar sempre
e o dizer-te
que a certeza se faz no esquecimento do palco
o sermos autênticos e frágeis, não duvido.
e a certeza se faz de procurar sim a verdade e não negar o verosímil.
é tão fácil a rasteira da hora na roda dos séculos, a ilusão
o confundir cimento com areia, o esquecer de um nevoeiro
e o afirmar da forma nítida –

mas há sempre perigo, não duvido
e guardo tantas memórias, a mais doce a mais assassina
a minha a que vi nos outros a que foi um sonho –

a promessa que te faço é única como a tua nuca
quando se inclina e deixa cair os cabelos
- um poder romântico no nervo mais sensível.
e respira como os girinos e é transparente, acredita –

a maior inteligência do mundo é não adivinhar futuros
mas não há qualquer dúvida sobre a vida;
a cada dia menos um dia
e a cada dia
quando sobe a lua e nos cobre de linhos
não ainda juntos e não ainda distantes
do outro lado do mundo rebenta a luz
a mesma que luz que na manhã seguinte
adia ou cumpre a promessa
de querer muito que se ilumine –


josé ferreira 19 fevereiro 2012

sábado, 18 de fevereiro de 2012

MALHAS QUE OUTRO IMPÉRIO TECE - Ana Luísa Amaral (Jornal Público, 17 de Fevereiro de 2012)


António Cruz

MALHAS QUE OUTRO IMPÉRIO TECE - Ana Luísa Amaral (Jornal Público, 17 de Fevereiro de 2012)

Contra o costume, cheguei cedo demais à estação de Santa Apolónia, onde vou apanhar o comboio para o Porto. Comprei o bilhete e, contra o costume, fiquei ainda com tempo à minha frente para tomar um café. O pequeno bar da estação está cheio de jovens. Sentaram-se três à minha mesa. Um deles segura entre as mãos um pequeno tambor colorido e marca um ritmo; sempre o mesmo, assim me parece. Os outros dois bebem galões e comem sandes tiradas das mochilas. Noutras mesas, outros grupos. Falam todos pouco e têm olheiras. São sete da manhã e o concerto deve ter acabado há umas horas. Estes jovens vêm de fora de Lisboa e passaram a noite na estação, à espera do comboio que os há-de levar de volta a suas casas.
Nestes tempos que são nossos, haverá quem lhes critique o cabelo e a forma de vestir. Todos de igual, de calças muito largas, as cores que predominam não variam muito: o cinzento, o preto, ou o azul-escuro. Alguns têm trancinhas, muito finas, enfeitadas, algumas, com missangas coloridas. Haverá ainda quem, olhando estes jovens, pense em lhes dizer coisas como «vai trabalhar!», sem pensar que não há trabalho que lhes valha; ou haverá quem os olhe com olhos de inveja pelo dinheiro gasto no concerto, pelo ócio, ou pela pura juventude.
Não há muitos anos, neste lugar que é nosso, a jovens como eles chamaram-se nomes, denegrindo a sua geração, sem se pensar que não há gerações espontâneas, a não ser em teoria, e que as genealogias têm sempre progenitores. Há muito pouco tempo, uma outra geração de jovens como eles, quem sabe se incluindo alguns destes que aqui estão, agora sentados no chão da estação, haveria de aproveitar o epíteto e com ele brincar, em jogo de palavras. E esta nova geração saiu às ruas, e a ela juntaram-se as gerações de seus pais e avós. E cantaram nas ruas, ao lado de outras idades, canções talvez diferentes destas que agora trazem no ouvido, pedidas emprestadas ao concerto, mas de um igual empenho na alegria da vida e no reclamar de um lugar melhor e mais justo. Foi essa a sua palavra de ordem: justiça. Podia ser também o direito à alegria.
Entro agora no comboio e eles entram também. Quase enchem a carruagem. Há um que se senta a meu lado. São todos muito jovens e alguns muito bonitos. E têm, pequenos de cansaço, tremores de alegria. Dois deles mostram-se gentis, quando passa uma senhora de idade. Outros gracejam sobre as aulas; por vezes, palavrões a meio, sorriem; ou, um pouco mais refeitos pelo bem-estar da carruagem, dançam, em arremedo do ritmo que há algumas horas os animou. Estava à procura de uma palavra para os descrever. Talvez seja «vulneráveis»; ou «inseguros», como somos todos. À procura das coisas, e de sentidos para as coisas. Como nós todos.
Noutros tempos, iam para as Cruzadas; e lá matavam e morriam, alguns acreditando que havia razões para matar e morrer, outros, descrendo. Em todos os tempos têm sido forçados ou convencidos a coisas que contra eles são. Muitas vezes a eles tem pertencido a capacidade de uma generosidade sem limites. Estive uma vez num cemitério inglês, que era enorme e tinha uma lápide gigante com os nomes dos mortos das duas grandes guerras que mais assolaram o século há pouco acabado de passar. Entre os nomes que desciam, à medida que descia o meu olhar, alguns apelidos eram iguais, só as datas mudavam, indicando que àqueles nomes correspondera um jovem pai que fora morto, e, vinte e poucos anos mais tarde, o seu filho, morto também, desperdiçado. Uma geração os separara. Uma geração de vida gerando a morte. E era, nesse dia raro de sol, uma visão impressionante, o resultado da luta de povos contra povos, mas também de combate contra uma liberdade ameaçada e contra a invasão da barbárie.
Mas nunca nenhuma guerra fez de facto sentido e sempre houve quem se aproveitasse, do seu lugar de privilégio e bastidores, de jovens como estes. Lembrou-me então o poema do jovem soldado, de cujo bolso caíra, breve, a cigarreira. Inteira e boa. E ele, o desperdício, ele a já não servir, a não ser os desígnios que não traçara, feitos de malhas por outros tecidas. Estes jovens que estão agora ao meu lado, neste lugar que é nosso, estão vivos e não os ameaça ainda, ao que parece, a guerra feita de bombas, mísseis e camuflados, embora os ameace uma outra guerra feita de números e uma nova barbárie, e camuflada de rigor e uma assustadora precisão, no que toca ao que de mais humano temos, que é a alegria e a capacidade de pensamento, de inquirição e de espanto. Mas estes jovens estão vivos. E são jovens.
São jovens, e é justo que cantem e vibrem com a música que é a deles. Noutras culturas, os tremores que sentem terão outras razões. Seja como for, é justo que tremam de alegria. Injusto é quando lhes dizem, cinicamente, que o futuro está só em outros lugares e não nas casas a que agora voltam; ou quando o seu olhar se enche de coisas avessas a este cansaço de memórias boas de partilha e tambores coloridos. Injusto é quando os levam a desacreditar, por circunstâncias várias, que um quadrado de papel, numa urna a não evocar morte, pode mudar o mundo, ou quando os impelem a duvidar que as palavras podem servir como motor de mudança e resistência. Injusto é quando deles se espera a cega obediência, sem perguntas nenhumas, e que esta sede de partilha, este tremor ainda de alegria seja já, nestes tempos que são nossos, ameaçado pela raiva e pela desesperança.
Passaram duas horas. As vozes na carruagem afrouxaram de volume, tornaram-se escassas, à medida que o sol entra com mais força pelas janelas. Está calor. No assento ao meu lado, o meu jovem companheiro de viagem adormeceu. Veste umas calças muito usadas, de corte estranho, que eu elogiei e ele me disse ter comprado baratas, numa feira. As calças têm um fecho éclair que sobe desde a bota até à anca. Só enfeite, não serve para nada o fecho éclair. O seu dono, porém, ao que parece, está inteiro e bom. E dorme, ainda sossegado. Ao seu lado e ao meu, teimam-se os tempos que são nossos. Destes tempos me pergunto se ele sabe se ainda, e ao que, serve –

Ana Luísa Amaral

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Não - um poema de Álvaro de Campos



Não: devagar.
Devagar, porque não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.

Há entre quem sou e estou
Uma diferença de verbo
Que corresponde à realidade.
Devagar...
Sim, devagar...
Quero pensar no que quer dizer
Este devagar...

Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima...
Talvez isso tudo...
Mas o que me preocupa é esta palavra devagar...
O que é que tem que ser devagar?
Se calhar é o universo...
A verdade manda Deus que se diga.
Mas ouviu alguém isso a Deus?

Álvaro de Campos (30 - 12 - 1934)

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Alguém pensou que nascer é felicidade? - um poema de Walt Withman




Alguém pensou que nascer é felicidade?
Apresso-me a informar, a ele ou a ela, que o é tanto como morrer, e eu sei que é assim.

Morro com os moribundos e nasço com um bébé que foi lavado há pouco, e não existo apenas entre o meu chapéu e as minhas botas,
Observo os vários objectos, não há dois iguais e todos são bons,
A Terra é boa e boas as estrelas, e tudo à sua volta é bom também.

Eu não sou um mundo nem o que existe à sua volta,
Sou um camarada e um companheiro das pessoas, todas são imortais e insondáveis como eu próprio,
(Elas não sabem como são imortais, mas eu sei.)

Cada espécie para si e pra o que lhe é prório, para mim o homem e a mulher são meus,
Para mim os que foram rapazes e que amam as mulheres,
Para mim o homem que é altivo e que sente como dói o que é ser desprezado,
Para mim a amada e a solteirona, para mim as mães e as mães das mães,
Para mim os lábios que sorriram, os olhos que derramaram lágrimas,
Para mim as crianças e os que geram as crianças.

Despe-te! para mim não és culpado nem decrépito nem posto de parte,
Vejo através do pano fino e do algodão fino, quer queiras ou não,
E ando em volta, persistente, ávido, incansável e nada pode afastar-me.

Walt Whitman, As folhas da Erva, Relógio d’Água, 2010