sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

história antiga feita hoje

.
era uma vez
o joanete rabanete
com cabeça de alfinete
e cara de biscoito.

que era vizinho da frente
do chocolate larate
com nome de disparate
que vivia no número oito.

eram grandes
amigos de há muito tempo:
passeavam juntos,
partilhavam de tudo,
conheciam-se bem,

e não escondiam nada nada nada
um
do
outro…
excepto que
um era caprichoso
e o outro supersticioso,
mas qual deles era
o quê ou o porquê
não sabiam eles nem ninguém.

um dia -
sem estar sol nem ser feriado -
o joanete rabanete e o chocolate larate
passeavam nos arrabaldes do bairro,
lá para os lados do laranjal azul,
quando foram, de repente, atacados
por uma horda de jábastassins plim-plins
corridos das terras arrepiadas do sul.

muito assustados e atrapalhados
o joanete rabanete com cabeça de alfinete
e o chocolate larate com nome de disparate
correram pelo caminho de volta
a gritar que o fim do mundo andava à sólta
e tropeçavam e rebolavam
mas nem precisavam
que os jábastassins plim-plins
não vão daqui                                                     ali
sem papéis assinados,
dois atestados,
três decretos e afins.

correram, correram
muito depreeessa!
quem os via, dizia:
lá vai
o joanete larete com cabeça de disparete
e o chocolate rabanate com nome de alfinate!

chegaram a casa estourados,
coitados!
e esconderam-se logo, muito assustados.
um
na cave trancado, com um olho fechado
na sua cara de biscoito,
o outro
debaixo de um travesseiro da cama do quarto traseiro
da casa do número oito.

nunca mais ninguém os viu.
dizem por aí que o chocolate larate
por medo ou superstição
fez uma dieta de chás e temperos
com grandes desesperos
e agora está magrinho,

e o joanete rabanete
por capricho do acaso,
escreve papéis assinados, decretos e atestados,
nas terras arrepiadas do sul
onde hoje é meirinho.
raquelpatriarca|treze.janeiro.doismiledoze
.

Duas canções portuguesas


                                                           O mais humano sentimento são.
Márcia[1]

A meio caminho de um falso império
alguém diz: tu que tudo desatas, leva-me contigo
o teu corpo é feito de viagem – e repete que a pele não é uma fronteira
a sua cara é a de todos e enrola-se na paisagem
o mais honesto animal – caem-lhe do bico sementes de sésamo e girassol
cabe toda no fio de um cabelo:
a mais magnética das memórias do fundo
puxa-nos para baixo

O Cristo de Mantegna parece o Che morto –
as mantas de lã que estavam nos baús da CIA
 e nas arcas douradas dos Alexandrinos
esvaziadas das rendinhas, servem-lhes de última morada
O mesmo baptismo no Rio de Los Remédios,
o mais sujo da América Latina
Relíquias, granadas, missais,
pontas e molas que lhe servem de fundo
o musgo que cresce com ou sem ideais
Os mesmos e grandes olhinhos enrolam a paisagem
Derrubado o muro fica outro muro:
Invisível, Maior, Interior
De um lado o amor e o ódio - Do outro lado o amor e o ódio –
Em Fátima as pumas entram na capelinha das aparições
e estão entre os sacerdotes que as domesticam e as inserem no ritual
As pumas e as peregrinas seguem o cortejo das velinhas
Revitalizam o ritual
e as pumas e as peregrinas cantam
Sabendo que toda a frase é incompleta
feita para ser esquecida e reinventada,
estranho recheio este, um ideal,
se em nada ele toca, mas se tudo ele liga

A meio caminho de um falso império
 alguém diz:
Tu que tudo desatas prende-me novamente
Puxa-me para o fundo
Animal invencível: amor.

Ouço uma música portuguesa do século XXI que acaba assim:
A razão de ser de um poeta é.[2] [Fim da canção].


                                                      Nuno Brito




[1] Letra de música do álbum – Dá.
[2] Manuel Cruz – Foge Foge Bandido.

Manet e a carta a Olympia


Manet "Olympia" 1863

enquanto recebo o calor da celeuma
lembro letra a letra a carta de Olympia
a surpresa de a ver assim (in)vestida
de nudez, nas cores do seu poema
o adeus:

"manet meu ingénuo e querido amigo

beijo a tua mão direita

comovi-me

naquele divã de donzela
o lugar das minhas linhas.
sentida perfeita no meu corpo
no meu olhar felino que domina.

maria vestida de flores
escondida no seu olhar de noite
guarda os segredos daqueles que autorizo
os meus melhores momentos
a voz aguda dos amantes
e são tantos.
não os quero loucos nem distantes
de fogueiras impertinentes
ou amores frios
trato-os como filhos nos meus seios
a quem sugo os receios, os seus medos
na falta dos berços.

comovi-me

na largura dos traços
nas camadas de tinta
por sobre a tela virgem
de muitas horas e anseios.

beijo a tua mão direita

a do laço de cetim
trémula de pudor
quando inclinavas o rosto
e pousavas a paleta.

meu querido e ingénuo amigo
espero não te ver
sob pena de não ser
olympia-

e assim será manet
serei o poema
o teu espelho
e só meu o teu olhar
até ao fim -

beijo a tua mão direita
olympia

p.s. envio-te a flor "

josé ferreira ( out 2009)

(desculpem republicar mas achei apropriado porque este quadro de Manet é colocado em paralelo com a Vénus de Urbino de Tiziano)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Soneto a uma Vénus de Tiziano


O seu cabelo preto parece cantar,
seus membros cintilam brancos como natas,
como se o gracioso corpo adivinhasse
que era a doce soma de graciosos sons.

Está deitada na sua longura implorante,
apoiada num género de otomano,
como se fosse um estandarte alto e delgado,
amavelmente inclinado para os homens.

Um ramo de violetas sorri-lhe nas mãos,
endereçando ao observador odores,
a serva ajoelhando-se perante o altar.

Ó, olhar de novo aqueles cabelos
e ainda uma vez mais a magnífica
imagem humilde do seu doce lombo.

Robert Walser, em histórias de imagens, Cotovia (2011)

Castanhas e chocolate




Estava a comer castanhas cobertas
De chocolate. Devorava-os, feliz,
As castanhas e o chocolate, e era
Muito bom. Sem cascas, as castanhas,
Sem prata, o chocolate, comem-se
Facilmente – pensava eu. E era assim.
O gosto delas e o gosto a chocolate.

Uma voz – a da minha mãe – soou alta
E ameaçadora: – Vais ficar com dores
De barriga e os dentes podres, guloso!

Encolhi-me como pude – as castanhas
De chocolate na boca – para não ouvir,
Pelo menos muito bem, aquelas palavras
E senti por momentos os dentes podres
A cair e muitas, muitas cólicas intestinais.

Uma luz habitual de todas as manhãs
Beijou-me os olhos ensonados. Terna.
Espreguicei-me e surgiram-me uns lábios
Pé-ante-pé e sorridentes na testa morna
Ainda adormecida. Fiquei contente. Sorri.

A minha mãe prometeu-me um chocolate
Se eu lavasse os dentes depois de o comer.
Não pude esperar para me deliciar.

Dormira comigo um sonho generoso e cruel.
A minha Mãe já morreu. É mentira, sim, é
Mentira. Trago-a doce sempre no coração –
2011.11.09
José Almeida da Silva

Página de diário ou quase




– Oito de setembro.
Nunca visto em S. Félix da Marinha.
Na sala da Teresa, entrou solícito o Mar –
Trazia Vozes – cheio de poemas, e vozes
Muitas vozes na rebentação das ondas – FA4 –
Algumas exibiam Um mar com cidade dentro,
Encrespada espuma nos rochedos, revolta e branca,
E houve piquenique na maresia sob o olhar subtil
Do Preto e do Branco, olfato estimulado
Pelo generoso odor a mar e a guloseimas na mesa postas

As ondas deram voz às palavras do horizonte que no poema
Era suave linha branca – Abraço ténue do céu e do mar
No nosso olhar. Di-lo a nossa memória de era uma vez…
… a nossa infância. Dizem-no os habitantes do mar que nos seduzem
E ergue-se, bela, a memória da Menina do Mar a correr
Para nós trazendo nas mãos acesas corais e cavalos-marinhos
E a evocar-nos que somos adultos e sempre meninos;
Atravessada pela paixão, outra voz acendeu um longo eco
Da alentejana voz de Florbela: “Queria amar-te como o mar/

Numa entrega de perpétua maresia”, e todos vibraram muito
De alegria. Depois chegou do mar dolorosa voz e as cores assim
Lá longe diluídas, para a seguir serem azul só no olhar como o
Amor ao sentir. De repente pula um peixe encarnado mas um
Caranguejo, coitado, pincelou-o. Fotografou este insólito momento,
Um fotógrafo ambulante e era janeiro. Se fosse junho, e o calor viesse,
Os meninos na praia, ou na sala da Teresa se o mar voltasse, assustariam
O caranguejo que começaria andar para o lado, impedindo-o de ir contra
O peixe encarnado. Por falar em fotógrafo, lembro-me de uma voz
Encantada que contava a história de um fotógrafo – O homem
De Imilchil que herdara uma máquina e que tinha um fogo ateado
Na alma: “Ver uma fotografia do mar”. Há poetas que inventam
Estes sonhos e têm máquina fotográfica e fotografam os sonhos.
São “pele e outros temperos”. As saudades que tenho da Inês. Será
Que o Natal trará a luz e que vai amanhecer “sem mais salina”?

De novo o mar a entrar pela varanda. E sorrateiros os fumadores
Aproveitaram essa nesga de azul por onde entrara o Mar. E uma
Voz de palavras e dor oculta no peito soltou um dó menor no ar de luz:
“Era minha dor o mar / (…) /Pena azul, revolta e terna.” Eterno, este
Vaivém: “O meu mar são os teus olhos / Onde me perco e me alcanço /
(…) // (…) azul é a cor do meu amor”. E isto é dor? E é prazer e alegria?
Muitas vezes, o revisita a elegia. E revisitou a casa teresina, eu bem na vi,
Sophia saindo grácil dos seus livros, ali pousados, na mesinha alta. Por ali,
Vivera quando menina saudando o mar da sua infância todas as manhãs e
Aos fins da tarde, e ali se encontrava com o Búzio – um velho amigo sábio.

“O mar intacto” procurou intacto lugar. Há sempre uma primeira vez
Para olhar o nunca visto. Cheguei-me à vidraça que dava para o mar –
“Olho os navios que ainda não chegaram”. E houve comemoração:
“São uma gota de água estes três anos”, e VOZES lidas com o coração.

Apagou-se a luz, já era tarde, o mar recolhera ao Mar, e só a Teresa
Estava em casa. E os outros? Somente a viagem e um calor no coração –
2012.01.06
José Almeida da Silva

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Chocolataria

Era um homem em estado de arte
Doce, doce, muito doce!
Sua face chocolate
Decorada de ternura
Seus olhos grandes bom-bons
Recheados de candura
Tinha este homem um nariz crocante de chocolate
Sua língua era de gato
O bigode um rebuçado
Os dentes todos cariados
Mas um sorriso apertado
Com sabor a leite creme e a leite condensado.
Tinha um lacinho de gomas
Fato rico de cacau
O seu relógio parado
Era feito de geleia
Doce, doce, muito doce!
Parecia uma colmeia.
Os sapatos cor de rosa
Sabiam a algodão doce
Tinham sola de gelatina
Com sabor a tangerina!
O seu coração quentinho era todo chocolate
Daquele muito docinho
Que aquecia bem quentinho
O leite com chocolate que percorria o corpinho.
Andava sempre feliz
Porque tinha a mania
De só comer chocolate
A toda hora do dia!

é tão fundo o silêncio entre as estrelas - um poema de José Saramago




É tão fundo o silêncio entre as estrelas.
Nem o som da palavra se propaga,
nem o canto das aves milagrosas.
Mas, lá, entre as estrelas, onde somos
um astro recriado, é que se ouve
o íntimo rubor que abre as rosas.

José Saramago (lido aqui)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012



Joanetes de Coentrada


grande ideia a da Ana
transformar os joanetes
para a rima é que é uma porra
só se for com foguetes

em entrada, sim senhor!
ou companhia de um copo
Joanetes de Coentrada
deixa qualquer um louco

origem animal ou vegetal?
é pergunta que fica
mas desde que não saiba mal
estamos todos com uma larica!

à mesa de qualquer um
ricos, assim assim e pé descalço
acompanhado ou sózinho
faz as delícias do moço

muito alho e azeite
alentejano que é o melhor
fossas nasais um deleite
palato mole um primor

grandes segredos não tem
diz a Maria cozinheira
tudo vai da matéria "da prima"
e dos condimentos usados
muito carinho e doçura
muito bem misturados

sai uma dose bem servida
na refeição, como entrada
os comensais até se babam
à vista dos Joanetes de Coentrada

claraoliveira12.01.14
versão melhorada de poema com início promissor

humm!!
come-me!!
sei ser irresistível
no piscar dos teus olhos
espelho de luz vitralizada
cílios redondos
longos
tremeluzem
advento da sensação
humm!!
anda, sim...
trinca-me!!
retorno impossível
não me resistas,
toca-me com veludo de língua
devagar...mais devagar
inspira
expira
não sejas gulosa
take your time
sente o esplendor da doçura
no céu palatino
envolve-me no macio manto vermelho fogo
boca carnuda em botão de rosa.
fecha os olhos
fechado o semblante
em prazer egoísta
dentro rebentam pequenos terminais
explosões de gozo luz
fogo d'artifício em faíscas de prazer.
e eis que chega...orgasmo piramidal dos sentidos
querida! mais um quadradinho de chocolate?

claraoliveira12.01.14

domingo, 15 de janeiro de 2012

Natura

Quebraria algo e forçosamente,
fecharem olhos é até à mínima distância
sobre mar inteiro, sobre porto.

Teimosa ideia enquanto imagem,
mar, a ter o que não ter,
hastear vela, ali, onde fica.

Raio de limite ainda líquido
quase chega aos pés, no entanto,
brisa pode ou cheiro ou música
e o anúncio quando exaustos!

A seguir à areia, semáforo em fogo,
evasivo cansaço torna para som,
acende mecha, tudo por demais.

Nós, já um bocadinho mistos,
à força sobrevoar estrada,
praia, água, perpendicularmente.

Também voltar nas serras, vales,
e mais, repondo o toque,
visão que abrindo não deixe:
sem casa, sem verde azul mar!

sábado, 14 de janeiro de 2012

Porto After Nine – a história de um cabelo e uma caixa de chocolates



costumava escrever como se não houvesse tempo
como se fosse morrer amanhã
e os versos penassem pela vida fora
sem rumo e sem horas, invisíveis e sem voz –

um dia os olhos apagaram-se subitamente e ficaram cinzentos.
mal conseguia vislumbrar as palavras antecedentes.
a mente espreguiçava-se com braços de borracha,
não terminava nem resplandecia.
as mãos ficavam escorregadias como patas de rãs
e deixavam fugir letras fundamentais,
provocavam o intervalo e sucessivos lapsos.
invadido pelo medo saltou para as ruas da cidade
como um tonto, em confronto com ausências, uma alma angustiada -

estavam esgotadas todas as palavras leves como penas
sobravam muitas palavras pesadas, junto ao chão
como os pós negros de Alexandria, concluía.
parou junto a uma esquina de semáforo
ao cair de um amarelo e depois um vermelho.
em frente, uma loja em cor de fim de tarde
parada como um cotovelo, sem mesa, num rosto de casas.
compraria chocolates, a caixa verde e pequena.

não era a primeira vez, via-se pela pressa da porta que rodava.
sorriu-lhe como uma aurora nórdica, matutina, mágica.
o cabelo era farto e arranjado, a pele fina, clara.
sorriu-lhe na mão branca
sorriu-lhe no gesto ao embalar de cuidados,
sorriu-lhe no gesto de esticar a fita como se fosse um penteado.
não era a primeira vez que comprava chocolates
mas pela primeira vez, talvez premonizado,
um cabelo , um sinal, uma recordação.
talvez mais, uma memória que observava –

correu para casa, para junto da janela de vidros quadrados.
não podia evitar um olhar mais demorado, desapertou o adesivo,
com cuidado, e retirou a caixa, com cuidado,
mantendo a respectiva forma enquanto observava.
um único cabelo, preso no papel vazio
sem a caixa, de onde retirava agora a primeira fatia de chocolate
que derretia doce, até adquirir aquele sabor ácido, fresco,
um condimento que lhe elevava os olhos longe do cimento
e pousava na mente uma praia distante de há muito tempo -

era a forma adequada, um paralelepípedo rectângulo,
não um cubo rodeado de quadrados,
mas com um cabelo que teimava, parado.

lentamente o chocolate envolvia o palato,
perdia a consistência, envolvia-se e enrolava-se, desenrolava-se e demorava-se
como uma lâmpada de economia que apenas difundisse uma certa penumbra
de um certo fim de tarde, depois de uma certa maré vaza
e da compra de uma caixa de chocolate.

a televisão plasmática era um espaço negro, um silêncio aberto, não dizia nada.
um livro mostrava letras em itálico,
palavras, frases, pontos finais, parágrafos.
talvez o livro tivesse também alguma alma,
talvez tivesse um cabelo na página centro e trinta ou cento e trinta e quatro,
talvez incorporasse também um sinal, não descodificado, um segredo.
virou, folheou e rodeou o livro com olhos de águia, afilados perante o pó,
o traço, o pormenor de uma linha e desistiu ao fim de dez minutos. pousou o livro.
permaneceu quieto, fechado, como um mocho no cimo de uma árvore;
uma capa negra, sem letras douradas –

um ar interior de uma anterior caixa de chocolate
mantinha a forma sólida de um afecto
- um rosto, um ombro, lábios sobre lábios -
um único cabelo, um cabelo adorado –

os dedos macios, suavemente, deslizaram dentro da caixa
e retirou uma outra fatia fina, doce de início,
e esperou pelo frio, de olhos fechados –

subitamente achou-se doente.
procurou o termómetro, os comprimidos do resfriado.
com uma mão sobre a cabeça correu para a chaleira.
um chá de limão, não tinha, talvez cidreira –

esperou um vapor sem assobio,
embora lhe recordasse Tex Avery, comboios e filmes.
abriu a asa esquerda porque lhe dava mais jeito.
o termómetro, aquele pedaço de plástico flácido e electrónico
apontava a temperatura habitual, sem alarme. acalmou-se.
dentro da chaleira a água tremia.
trinta e sete depois das sete observou a rua escura, passou um autocarro.
o vapor formava gotículas no relógio por cima do frigorífico. não havia perigo.

como um balão sem fita, percorreu os outros cantos da casa e esvaziou a ansiedade.
riu-se sozinho naquele espectáculo de folhear o livro,
talvez um corvo, a torre de um castelo, anabell lee, vozes, ecos,
porque não um copo de vinho?
ria-se, devia estar completamente louco
e sentia-se ridículo, como um burro que urrasse sozinho
sem que ninguém ligasse
ou como se alguém risse daquele rir esganiçado;
dos lábios trémulos, dos olhos grandes e o pescoço a destacar-se –

basta!
abriu de novo a caixa e procurou no envólucro,
naquela bolsa preta de enfeites dourados, mais um pouco de chocolate,
a derreter, a perder de doce
a demonstrar que o fresco era um agriveludo endeusado.
parou de rir. sentou-se na mesa. os olhos brilhavam como planetas cintilantes
imediatamente acendidos por magia, como se fossem estrelas em noite limpa –


recomeçava a escrever como se não houvesse inverno.
como se usasse luvas de lã de dedos cortados
e um barrete de algodão com berloque longo sobre o ombro.
como se usasse um pijama de riscas azuis convenientes
e não houvesse guardas naquela prisão,
apenas um ligeiro cansaço de mão que desabava a caneta,
por momentos, enquanto um néctar reaquecia as palavras e o poema
e recomeçava furiosamente, na mesma linha, pouco depois o ponto,
mais um pouco, um ponto e vírgula
e uma outra linha, retomando a ideia e colocando-a em Marte,
de cor verde, surpresa e inusitada.

recomeçava a escrever como se fosse um filósofo
e procurasse a verdade, sabendo-a inalcançável
tentando perceber o quotidiano e o complexo, distanciando-se,
alargando o leque, observando com um binóculo nebulosas saltitantes,
interpretando estupefacto a cerimónia das lágrimas
na coreia mais a norte, mais próxima da china:
o que diria Átila de tanta lágrima,
ele que sobreviveu ao desengano, nas batalhas
e que provavelmente agradeceu não saber a verdade
antes da espada e de um golpe único, directo, acertado?

recomeçava a escrever como se tivesse vinte e três anos
nas sombras de um beliche de onde surgiam livros misteriosos,
gabardines de detectives, comboios sud express e um apito longo
uma fumarada de fornalha nos braços vigorosos, queimando carvão
e uma locomotiva de nariz, nos carris, correndo mundo
- um dia vou a Paris e a Nova Iorque, ao Quebeque dos índios -
um dia vou ser feliz -
um dia vou ser grande com as mãos de gigante e os dedos compridos
e os pés como plantas, cheios de raízes, habituados a muitos caminhos:
penhascos altos, pernas de rios, calças de margens, verdes ainda
ou areias mais leves e mais macias
e fragas fugidias, as mais difíceis -
um dia vou ser grande e escrever com muitas letras,
com muitas ideias no umbigo,
vou descobrir umas asas para um ano inteiro –

recomeçava a escrever não com a fúria e não com o medo
mas com a tranquila ternura de um olhar sensitivo.
um ligeiro abrir de lábios mostrava um sorriso fácil,
era quase fim de ano, e era noite e estava sem peso.
bebericava o chá quente, saboreava o chocolate.
passava das nove, não sentia fome.
as palavras surgiam tão fluídas como folhas de algas,
num mar tão próximo.
era fim de ano,
tudo recomeçava para ser diferente –


como aquele único cabelo
da esquerda para a direita, da direita para a esquerda,
como se fosse uma canção ténue em brisas de leveza
como se fosse um barco
num rio imaginário -

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Indo eu

sabes lá
ontem ali em s.bento
andava eu descalça pela estação
vi uma patela e meto-lha a pata
e assim que me curvo, a olhar para o chão
uma cega mete-me a bengala no joanete
e ai meu amor, que dor!

dez pulos a pé coxinho
e lá me sentei num banquinho

e sabes lá, meu amor
a patela nem era chocolate
aquilo era uma sola de borracha

fiquei ali sentada
e o tipo gordo da cicatriz,
o da tatuagem, esquisito
mete conversa:

Englise? Francé?
Dancé?
indeu indo eu
a caminho debeseu
indeu indo eu
a caminho debeseu

e antes do: ai jesus que lá vou eu
lavanta-se, dá duas voltas
e cai morto

e vem a policia
pergunta o que foi
e que eu não posso andar descalça
e eu digo que é do joanete
e levo um raspanete
e raspo-me dali

e vou a subir a 31
vem o gajo dos relógios:
Chocolate? Chocolate?
E comprei

desculpa amor
depois do azar, não pensei...
e tinha o pé a doer
devolvo-te os 20 p´ra semana
a sério!
o gajo já não me engana

Pink Cigarette

                                          
                                                                       À Anezinha

                                                                      

Quero impregnar-me de gente, de paisagem portuguesa
 Luiz Pacheco


Nesta terra as mulheres crescem à sombra,
como os cogumelos, o musgo ou a razão,
em ponto de cruz a saudade vai sendo domesticada,
o mais honesto  e obediente animal  puxado por uma trela dourada
 feita de medo e outras coisas que ligam
o seu viso tem a expressão de todos
e é nestas caras quentinhas que descem ainda as lágrimas de Eros
mudando por dentro o nome do continente, outra cara, possível Começo
sem nome, sem coisa nenhuma, é às vezes o sal
que cai destas caras que tempera o prato, porque todo o sal não chega
para compensar o amargo que veio morar para a boca
cansada de saber que a linguagem não chega
porque eles fugiram, cada um em seu barco:
os filhos


Nesta terra as mulheres crescem à sombra
E têm sombra nos olhos, que o eco veio pintar
a lápis de cor por cima da paisagem humana
que se aloja debaixo de tudo o que a alma espelha,
veias, artérias, vasos, curvas fininhas que o tempo vai moldando
A anatomia rasgando o cosmos à escala humana, soprando-o para longe
Transbordo que a sede cria,
E enquanto as filhas vão ao poço, sol, risos, perfeita anatomia
As sombras crescem. Pequeninas rendinhas em baús
Terços, santinhos, livros de areia, um dente de leite
o fio de ouro a que está ligado,
e são de sombra os seus gestos porque quando se movem
são os braços de outros que ganham vida e retiram à paisagem
a natureza para pôr nela a arte, a civilização, a linguagem e a vitória
a mais alemã invenção,
e o seu sorriso é uma espécie de Deus
e quanto mais se enrola na paisagem mais deus é
Até parece que a razão dorme dentro delas,
e a razão dorme dentro delas –  o capitão do navio dá-lhes duas opções
Ou embarcam no barco do amor ou embarcam no barco do amor
Mas vão ter ainda de o Criar para o o atravessar, e partir as árvores, da madeira fazer o barco e calafetá-lo e dar-lhe um nome, e baptizá-lo, porque tudo aquilo em que se toca também se é
A sede vai-lhes toda para os olhos,
Urgente era que as sombras saíssem, como o fumo adocicado dos pulmões
Para dentro doutros pulmões.


Estas mulheres seriam modelos se as estátuas de sono não dormissem dentro delas
Se não fossem só alma,
O planeta chama-as do centro, as rugas vão rasgando a sua pele
Mas elas riem pouco,
E há poucos jovens
Estão todos no meio da Europa, Lisboa, Porto
Em Lisboa está a arte e no Porto está a arte
E no Couço está a arte e em todo o lado está a arte
Se não fossem só alma teriam visto mais vezes o mar
Não são filhas da revolução nem são filhas de ninguém
os seus filhos estão todos na taberna e são mais  velhos que elas
À noite estas sombras limpam com um guardanapo o beiço dos velhos
Porque desce-lhes azeite pelos queixos, e esses guardanapos podiam ser a página 100
de uma História Contemporânea, edição de luxo, a meio da investigação os eruditos
folheavam o guardanapo em Lisboa onde está a arte ou no Porto onde está a arte.

Exportámos marmelada para a Austrália ou para os armazéns de retalho da capital
que importa se toda a geografia é interior? - Enquanto dormem até de deus são mães
E entre as suas pernas as almofadas (penas de pato, segredos ou outros novelos).


As suas casas são feitas de queda, de verticais os muros ganham contornos,
a mais cara renda que são os dias a vir
formas breves, novas formas, dias que incham
 parecem areia soprada pelo fogo
com que se  faz o vidro e se embacia o espelho
 um dia também ele será inventado pelas mãos quentes de um artesão etrusco
antes mesmo de haver as moedas para o comprar
e que levarão os nossos filhos para longe,
Para o Canadá, Luxemburgo, Cantões,
nos navios, nas bagagens, nos aviões, todos com o seu preço
calafetado por dentro e por fora, impregnado na paisagem,
claves de sol pontilham a paisagem, por cima do trigo, a picotado:

As sombras destas mulheres são às vezes música, entram nos búzios
Não só por nos lembrarem que elas provêm do sol,
como tudo o que parte, mas por nos erguerem como o caule de um girassol
a sua voz é a sua seiva, está dentro da nossa espinha, é o nosso equilíbrio
uma balança onde se pesam as palavras que ficaram por dizer


Futura-te*
Também a rede quer dormir mas não é da natureza das redes dormirem
e a rede pede que lhe cortem as pontas, que tragam uma tesoura
E alguém corta as pontas, mas as pontas crescem com mais força, como uma estrela-do-mar, a tesoura é também informação e acrescenta-se à rede, tudo é soma nesta nova anatomia
Coisas que entram
Abre as portas, vem muita gente atrás e todos querem entrar em ti,
Entrar é ser gente, crescer é ser rede,
homens e redes nunca dormem verdadeiramente,


Em Manchester as fábricas enchem-se de música e no Couço
cresce o trigo dos latifúndios e todos estes homens precisam
de equadores ao mesmo tempo que precisam de pólos
E todas estas mulheres precisam um pouco mais de calor
Não só para deixarem de ser sombras
mas para saberem que de se descarrilarem se fazem novos caminhos
Nas carruagens vai este gado
Já não de ferro nem de vento são os caminhos em que é feita a viagem
Sem pontes de aço, betão ou de cimento, só ultrapassagem

No Portugal dos pequeninos os filhos que se vão perder em todos os continentes
das suas perdas novos filhos nascerão: Filhos da revolução. Qual?
Na natureza nada se apaga
Na natureza não existe amanhã
Mas o homem põe a manta da civilização por cima da natureza
e por baixo da manta fica o escuro e alguns animais sem expressão
às vezes fica também o riso,
a razão fica a sobrevoar a manta
e ficam mulheres debaixo da manta
danças primitivas, ecos, sonhos,
capitães de mar nenhum ficam também
debaixo da manta a razão de ser da literatura,
definir poesia é dar as mãos
Só a gente e paisagem não desce para baixo da manta da razão
E as mãos aquecem agora mais


Nuno Brito                                              
 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

o livro - segundo Jorge Luís Borges


Martins de Barros

Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente, o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.
Em «César e Cleópatra» de Shaw, quando se fala da biblioteca de Alexandria, diz-se que ela é a memória da humanidade. O livro é isso e também algo mais: a imaginação. Pois o que é o nosso passado senão uma série de sonhos? Que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Tal é a função que o livro realiza.
(...) Se lemos um livro antigo, é como se lêssemos todo o tempo que transcorreu até nós desde o dia em que ele foi escrito. Por isso convém manter o culto do livro. O livro pode estar cheio de coisas erradas, podemos não estar de acordo com as opiniões do autor, mas mesmo assim conserva alguma coisa de sagrado, algo de divino, não para ser objecto de respeito supersticioso, mas para que o abordemos com o desejo de encontrar felicidade, de encontrar sabedoria.


Jorge Luís Borges, in 'Ensaio: O Livro'
lido aqui