sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

sobre a evidência do sonho - fragmentos de Coimbra de Matos


Gerard Richter

«Um corpo que não sonha
é como uma casa desabitada
- a ruína é o seu destino»

«Nascemos de um sonho, vivemos no sonho,
morremos quando o sonho acaba. E a cura
analítica não é mais que a abertura ao sonho;
acaba quando o paciente sabe sonhar»

A. Coimbra de Matos

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

seria indevido como um relâmpago


Thomas Struth

seria indevido como um relâmpago
partir ao meio o tronco
separar o som dos sinos
os mil fragmentos dos vidros -
quem poderá ser anjo sempre
de asas caídas
quando sopra o vento sul
e se perde a bússola
e se perdem os dias, os dias
os dias prometidos
e se perdem as causas e se embrulha um lençol branco
um sudário sem cor e sem espinhos
porque foi uma partida, um desvanecimento físico
um desvanecimento de presença e de sentidos
uma ausência de leituras
vapores insolúveis arrumados dentro de frascos antigos
em prateleiras largas de cerejeiras, polidas de ceras
aos pares, em brincos, vermelhos, sobressaindo
de aromas verdes de folhas, mal apreendidos –

sobram brancos e cinzentos
e seria indevido o silêncio das fontes
a elegia da sombra
ao omitir as gotas de água, para que a sede subsista
para que a semente se elimine -

josé ferreira 15 de Dezembro 2011

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

areias esvoaçantes


Renée Magritte

(...)
Areias esvoaçantes, sob o foco dessa luz, enchiam-lhes o quarto, o claro território da ternura.
Então adormeceu, com a mão dela na sua mão, e entre os cabelos dela. A princípio ainda escutava, no fundo longínquo de si, o pulsar das nascentes do sono; depois tornou-se tudo azul e inefável, era o prolongamento daquela felicidade de asas e orvalho.
(...)

Urbano Tavares Rodrigues

entrei pelo mar - um poema de Ruy Cinatti




Entrei pelo mar mulher
açodado, a colher algas
Esqueci-me do meu mister
embalado pelas ondas.

O mar homem não se esquece
embalado pelas ondas.

Ruy Cinatti

sábado, 10 de dezembro de 2011

saliento esse silêncio que te abarca


Gerard Richter Tate Gallery

saliento esse silêncio que te abarca e te reduz, não o uses.
na demasia, fractura e alucina, esfuma,
desvanece a brasa simbólica no manto escuro do céu;
essa lua magnífica que envolta, rodeia e se envolve
num crepúsculo de segredos. sublima
perto das pontas dos dedos, nas faces verdes,
nos musgos certos que decoram os muros. afirma
essa dança habitual, o acordeão, o violino,
o sublinhar das melodias, e desliza
por sobre a frialdade das noites
como a musa dos gregos, do parténon,
das ágoras duplas e inventadas,
esse lugar de ninfa
acariciando na ponta dos pés
as pedras mais difíceis -

josé ferreira 10 dezembro 2011

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Quero sentir brotar a espiga do universo - um poema de Paul Eluard




(...)
Quero sentir brotar a espiga do universo

Tenho o sublime instinto da chuva e do fogo
Fecundo a terra e restituo à luz
O leite dos seus anos férteis em milagres
E devoro e alimento o esplendor do céu

Apenas temo a sombra atroz do silêncio

Pronuncio pedra e aí se aninha a erva
Aí se reflecte a vida excessiva e móvel
A penugem de um pássaro é musgo no granito
Uma débil trepadeira devora um muro de pedra

O canto do rouxinol diminui a noite

Presa do alto a baixo em minha voz flexível
A floresta aglutina-se ou então entra em férias
Ravinas e pântanos em minha voz renascida
Aligeiram-se como um corpo que se despe e canta

Mares planícies desertos nasce o dia na terra

Vitoriosa aventura das cores dos sabores
A flor é o fermento da minha língua faladora
O tempo não passa quando o ruído cintila
E refaz cada aurora com o nome de uma flor

(...)


Paul Eluard, Algumas das Palavras, Trad. António Ramos Rosa e Luiza Neto Jorge, Dom Quixote, 1977

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Próspero morreu (II) - um novo livro de Ana Luísa Amaral




"Em Próspero morreu, aquele que é o seu primeiro texto em forma dramática, Ana Luísa Amaral convoca vozes vindas de tempos diferentes e tradições diversas, que falam do amor, do poder, da ambição – e da magia. “Próspero morreu” e, com ele, uma ordem chegou também ao fim. “Sem liberdade é o poder um monstro / de braços bifurcados e língua bifurcada / onde se alojam leis sem pensamento / e se torna viscoso o coração” – o aviso é de Ariel, “ser vindo do caos e do abismo”, cuja voz anuncia a chegada à ilha de gentes de paragens várias. Será na ilha que se entrecruzam os vários fios que dão lugar às histórias de Penélope, de Teseu e Ariadne, de Barbara (a escrava) e Luiz, e também a história de amor entre Ariadne e Caliban." retirado do blog Graphias

Foi esta a história do labirinto,
as ilhas, e além.
E eu, que a contei, ou eu, coro de nós,
irei ficar em história.
Escrava dos tempos, mas do tempo livre.
Que mais a desejar, senão memória?
Caiu a noite. E sopra um vento fino.
E não é já assombro
assombro tal?

Ana Luísa Amaral

terça-feira, 6 de dezembro de 2011


era uma mulher escrita há muito tempo
ou talvez fosse uma mulher sentada numa cadeira
com a hipótese de cair lá dentro
a sala à volta era suficiente
mas ela interessou-se pelo espaço quieto dentro da madeira
na quase divergência que era ver-se
com um infinito por dentro
a ser ultrapassada devagar
era a cadeira o mais apetecível
o importante equilíbrio da matéria sem vontade
será o não saber do problema da velocidade das coisas
que a debruçava para dentro
porque havia espaços mais quietos ali
espaços onde certamente os espaços dela podiam ser atrasados
não a forma e o nome de esperar
teriam ali dentro ficado debruçados de outros
e acima de tudo o que não podia entender era que de entre as duas
a que ficasse não devolvesse ali quieta
a história de movimentos lancinantes
de demandas a moinhos bem explicados
da velocidade ridícula a que se gastam as coisas vivas

tinha um século aquela cadeira
à medida de a assustar
e não lhe devolvia quase nada
a não ser que lhe fora escrita por um infinito
para outro que lhe iria nascer e sentar-se
na mesma cadeira
que a ultrapassou devagar

as planícies indizíveis


Lilla Cabot Perry

há músicas que nos invadem os ouvidos
e descem pelas cordas da alma
como as ondas do mar,
em milhares de gotas, brancas como a lua -
uma miríade, leve, pura, húmida,
um olhar suave e triste de mil versos, dez mil palavras –
nas mãos cansadas coloco as linhas dobradas da mente,
os quadros sem a negritude do ressentimento,
o voar dos pressentimentos, as histórias das cidades
as espumas que procuram asas, na amplitude de voarem
como os pássaros –
escuto, deitado, a longitude do som nas latitudes do corpo,
a intersecção do oblíquo e de um ritmo síncrono,
o reencontro dos sonhos, as sintonias das ilhas -

porque há dias marcados e claridades sem labirintos,
onde teias completas de bordados
tecem o improviso, o unir de dedos, o fechar de braços,
o unir de lábios, por planícies indizíveis -

josé ferreira 6 dezembro 2011

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

a lua no chão


Billy Brandt


seja assim a lua
escondida no manto escuro.
nada que não previsto antes
pela natureza, pelo destino,
por um deus desconhecido -

às noites sucedem claridades
aos dias as fervuras de veludo
e tudo pode ser sígnico no imediato
como o branco ser branco para que o preto magoe.

um Eco dizia que o homem é um animal simbólico
e assim sou, como as folhas de Outono ou como as abelhas
no pólen da primavera, sempre azul,
por vezes melancólico como as teclas de um piano
estendendo a cabeleira, fechando os olhos, interiormente,
ou então um Papageno soltando alegrias
desnudo e sensível, dirigível a Pamina
como um barco que descobre o rumo -

quando vestia calções e couros cor de mel nas sandálias largas
percorria caminhos de terra, respirava o pó ou os aromas molhados
afagava o pêlo dos animais e pensava no sol de uma outra forma.

como bem determinaste o coração cresceu,
guarda portas fechadas e ainda mais espaço;
uma sala onde há livros espalhados,
uma montanha mágica
e um barco de Ulisses sempre em viagem -

não sei se é fraqueza ou excesso de querer essa força que dispara.
as setas enganam, duplas, simultâneas, atingindo os dois lados.
e não é uma questão de perdoar, é entendimento de lugares;
a dinâmica, não o imobilismo das faces, não a falta de intencionalidade,
é tudo ao contrário.

se estiveres de costas para o céu
e sentires o ruído de asas metálicas, poderás dizer: é um avião
e poderás sentir uma imensa vontade de voar, de visitar Londres ou Paris
abrir uma janela no boulevard, ou perto do British Museum,
abrir os dedos de uma mão e juntá-los como lava numa outra mão
e podes abrir um imenso sorriso, perder sete vezes a gravidade
mesmo sem sair do chão.
podes sorrir, sentir o afecto, a pertença
a realização, um sonho, de costas para a cidade no cimo das costas do céu
e pode ser bom -

não é determinismo, nem sequer ironia fraca ou cepticismo permanente,
é o respirar sempre, habitar as metades de tudo procurando a melhor direcção
porque há uma estrela de norte e um brilho de oriente.

não pretendo desvendar todos os véus subtis, o indelével que seduz.
há margens, estradas de poeiras, as vias lácteas perto da lua.
mas prossigo.
essa é a grande música que cresce dentro dos ouvidos -

josé ferreira 5 Dezembro 2011

domingo, 4 de dezembro de 2011

sexta-feira: é totalmente certo o pressentimento


David Hamilton

tenho pressa, procuro a porta aberta, do café.
sobra ainda meia hora nos ruídos da cidade.
os rostos transfiguram-se em sorrisos frágeis
sabendo de cor o último dia antes de sábado -
só se reconhece o natural nas corridas das crianças,
de mochilas soltas. há sombras por todo o lado.
sentado nesta mesa leio as tuas palavras, uma lava, pura,
do fundo da alma, enquanto abro mais olhos
depois de ter roubado as células vivas na cafeína.
os versos de sexta-feira costumam cair como nevoeiros
um afirmar de opacidades, suficientemente redondas
para esconder as arestas, as saliências.
e é totalmente certo o pressentimento, existes e existo.
talvez continuemos o voo indefinido dos ventos?
o particular subir aos céus como mártires de juízo?
e seremos com certeza a raça diferente,
sempre preocupada com os outros
perdendo o pouco tempo das existências
porque demasiado exigentes no sentir profundo do corpo e da mente.
escutamos todos os dias os sabores urbanos;
as alegrias, os espectáculos e os momentos reticentes;
houve greves de metro, greves de autocarros, greves de gente.
pessoas sofrem no patamar mais baixo, a segurança,
a fisiologia dos inocentes, de gritos silenciosos
em permanência, sempre, impotentes,
e isso magoa tanto, causa imensa revolta e queremos
abrir os punhos, acusar os impunes, os novos abutres
que não rejeitam as reformas falsas
bebendo copos de vermute –

e é totalmente certo o pressentimento, existes e existo.
somos dois filhos de luas brancas, e quando sonhamos
somos o fogo dos puritanos, erguendo as leves asas do vento
subliminares aos oceanos, a segunda pele –

não sei porque de vez em quando perdes o leme
e misturas cenas sonâmbulas, sem vermelho,
a preto muito preto, na distância –
por vezes não te reconheço, difusa e breve.
sobe o arrepio, o frio e o medo
enquanto os teus fragmentos se esfumam
num continuum viajar de sombras, só nocturna
escondendo as terminações dos dedos,
as cintilações dos poemas, os olhos sobre os joelhos
depois de serem belos, muito belos
e únicos, e belos, muito belos, como os dias de céu -

josé ferreira

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

PENSAMENTO

Um poema é uma espécie de critério de desempate entre o eu físico e a sua condição mais metafísica.

Sylvia Beirute

poema em letra pequena sobre a irreprodutibilidade


Lilla Cabot Perry



imprevisível,
como os astros que existem por detrás de galáxias.
de encantos distantes, inconcebidos e misteriosos.
um quadro de Dali surgiu como âncora.
falaram ininterruptamente enquanto segurava um vaso de prata
de olhar fixo nos outros rostos que passavam , não tão leves
não tão feitos de intangíveis transparentes, outras densidades.
laços invisíveis ataram os pés e suspenderam os corpos
no alto, sem gravidades.
não se tocaram e continuaram a trocar diversidades.
agora era Klimt que seduzia no ouro esfumado de figuras sofisticadas.
surgia, mais à frente, Picasso
e depois Magritte com chapéus et une pipe, intrigante, inconfessável.
fumaram um cigarro, soluçaram um pouco de fumo e fizeram um arco que rodou e rodava
até perder alguma nitidez, e desaparecer numa dança sem voz, no ar, diminuído
até ao diminuto de um átomo.
disse que gostava de Pessoa, de ser pessoa, de ser algo mais que o intermédio.
lançou dúvidas sobre os oráculos que dizem ultrapassar todas as barreiras
sem nunca falar de morte nem de dores que caminham lado a lado,
a mesma verdade que acompanha os oásis e a ardência das chamas, quando significam
mais do que fogo e mais do que um estado sólido e físico do corpo.
concordaram na alegoria, na semelhança, na simetria reflexa,
e na consequência de estarem por demais absortos nas evidências bruxuleantes.
os laços que se encontravam ainda mais ligados, apertaram . os arcos de fumo
ganharam permanência e rotina, aproximaram -
surgiram depois os óleos mais clássicos, alguns olhares de deuses, de ágoras, as praças gregas
seduzindo de razões e notoriedade, um simbolismo do atingível que perseguia as horas
e colocava túnicas de vidro, brisas de passado em lugares mágicos.
falaram do mar
da imponderabilidade das espumas, do sal.
e as lógicas secaram as nuvens e recriaram azuis de Rubens,
fluidos, imemoriáveis, inumanos, na irreprodutibilidade, filhos da aura,
como flores totalmente únicas, ricas em pólen
e aromas
e láudano -

josé ferreira 1 de dezembro 2011

terça-feira, 29 de novembro de 2011

C de cem - um poema de Pablo Neruda


Richard Avedon

No meio da terra afastarei
as esmeraldas para te ver
e tu estarás copiando as espigas
com uma pluma de água mensageira.

Que mundo! Que profunda salsa!
Que navio navegando na doçura!
E tu talvez e eu talvez topázio!
E não haverá separação nos sinos.

E haverá apenas o ar livre,
as maçãs levadas pelo vento,
o suculento livro na ramada,

lá onde os cravos respiram
criaremos uma roupagem que resista
à eternidade de um beijo vitorioso.

Pablo Neruda "Cem sonetos de amor", Campo de Letras, 2004