domingo, 27 de novembro de 2011

mensagens mal compreendidas


David Hockney


não vou falar nada,
conheces palmo a palmo a minha altura,
dedo a dedo a minha face
e os olhos estão cansados de noites falsas.
não vou falar nada -

o mar nunca repete os ruídos e ando descalço
de pés limpos, brancos e macios
junto às fontes dos conventos, lugares sem desígnio.
não vou falar nada -

os braços são tábuas náufragas, metáforas repetidas
na persistente invasão dos oceanos,
tempestades e navios.
não vou falar nada, nem mais, nem nunca
porque fico com lágrimas
sempre que te iludes e me confundes -

lembro-me bem das loucas viagens, foram belas e sensíveis
construindo pedaços de natureza como se fossem duas,
as setas, vindas de um longínquo oriente
onde nascem sedas sibilantes, purpurinas -
não vou falar nada -

calo-me então no infinito dos tempos laminados
pelas metades impossíveis.
não vou falar nada -

tens o lugar de inesquecível
e as madrugadas serão sempre grandes;
lábios de segredos, palavras invisíveis,
varandas abertas, do lado de lá do escuro,
células robustas, desenvoltas, desmultiplicadas
de girassóis e margaridas
por jardins insuspeitos de deslizes -
não vou falar nada.

não vou falar nada, disse
mas sabes que não é verdade
e quanto ao nunca, é sempre
um qualquer dia -


josé ferreira 26 novembro 2011

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

feitos de lava - 8 poemas de Ana Luísa Amaral




1.


Há-de ter sido assim:
o princípio do mundo
– antes de os grandes sáurios
invadirem o chão
e os céus

Muito antes
da súbita explosão
que lhes pôs fim

Há-de ter sido assim:
um caldo borbulhante
e os veios roxos,
entre azul e lilás,
a rocha
negra negra negra

– e cor
de fogo
2.

Ou nessas veias:
via sacra de espanto
informe,
a promessa das formas
mais perfeitas

Ou ali antes:
a quase perfeição?

Uma forma de fala
entre o quase trovão
e o ressoar,

o tempo que parou,
sem voz –
3.

Depois,
a lava fria,
lagos da lava fria

– e a perder-se
o olhar,
cratera quase igual
a gelo e lua,
quase sem luz,
o tempo a repetir:

o fim do mundo,
quem sabe
o seu romper

4.

Não tem conforto
o corpo
ao lado da cratera

sabe-lhe a cinza,
sente-lhe o vazio

e a implosão
das veias
e do sangue
5.

Esta paisagem
não tem a cor de areia,
mas é cor de vulcão
a sua carne

e de repente,
como em flanco,
o verde em vários
lumes

E o horizonte:
tão liso,
como se fosse
orientado
a régua
6.

Mas nulos são
os pontos cardeais

Onde quer que o olhar,
navegam as estradas,
e o mar sobeja

– sempre o mar –

sobrando,
campos bordados
a rosa e a lilás,
demais, demais
as flores

Não há voz
que resista,

nem coração
que fale
7.

A enseada
de repente
invadiu-se de barcos

pequenos,
coloridas as bandeiras,
quase
uma via sacra

Ou o conforto humano
em luta contra o sal
a lutar contra o frio
do nevoeiro

a lutar contra
o sol
8.

Faltava só
o nevoeiro
aqui

E vinha já de cima,
de antes dos grandes sáurios,
dos veios roxos,
do caldo borbulhante

De lá chegara já,
embora omisso
em letra

Nesta letra
que tanto se esforçou
em fogo
e lava,

faltava
ver-se
nula

E o princípio
de tudo
é como um quadro
negro

E é lógico
que a apague
em número:

desenhado
arremedo
de
infinito

Ana Luísa Amaral, Açores 2009 lido aqui

Se perguntarem: das artes do mundo? - um poema de Herberto Helder


Robert Doisneau "Picasso e Françoise Gilot"

Se perguntarem: das artes do mundo?
Das artes do mundo escolho a de ver cometas
despenharem-se
nas grandes massas de água: depois, as brasas pelos recantos,
charcos entre elas.
Quero na escuridão revolvida pelas luzes
ganhar baptismo, ofício.
Queimado nas orlas de fogo das poças.
O meu nome é esse.
E os dias atravessam as noites até aos outros dias, as noites
caem dentro dos dias - e eu estudo
astros desmoronados, mananciais, o segredo.

Herberto Helder

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

da leveza



Margarida Cepêda "leves são os pássaros" 1999

naturalmente é da leveza de que falo.
o equilíbrio inseguro e afastado de quem lê o mar
da praia ou do alto da amurada.

o simétrico das águas reflecte-se no céu
da mesma forma que os espelhos cruzam vidros e pratas
numa soldadura química que voa
como pássaros -

há uma dança clara de silêncio, de ausências
que revela o ser diferente, na multidão e nas massas.
há um batimento e ritmo de campos no meio dos carros,
no meio das cidades
por onde deslizam rios e flores, tecidos de urzes e cardos
ou um soprar de odores, emergido, pelo meio das searas.
e há um sentido, sem ser único nem determinado,
um fluxo indisciplinado de procurar o mundo, um outro mundo
irreverente e irrevelado -

é da beleza de que falo, não na forma imediata
não do postal, fotografia ou anúncio mediado
mas sim de um sentir de metáforas que seguram espadas
e cortam os ventos quando são de fuligem e se propagam,
invadindo o rosto, procurando a alma -

é da beleza de que falo; do campo, do mar e da leveza-
um cântico supremo perto dos pássaros -

José ferreira 24 Novembro 2011

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Praia - um poema de Sophia


Leonardo da Vinci, 1474


As ondas desenrolam os seus braços
E brancas tombam de bruços.

Sophia do Mello Breyner Andresen In No Tempo Dividido

agora




quieta a mesa, quieto braço e sobram imagens.
há silêncio por todo o lado.
antes o lado mais obscuro, a costura grossa,
pedras duras nos vidros, boomerangs tortos,
o ranger assustador de tábuas, o castelo,
os mochos escondidos, os morcegos, os corvos,
o nunca mais dos mortos -

o excesso de silêncio mata
agora que li de novo as tuas palavras -

José Ferreira 23 Novembro 2011

terça-feira, 22 de novembro de 2011

As amoras - um poema de Eugénio de Andrade


Margarida Cepêda " A criação de Eva "



O meu país sabe as amoras bravas

no verão.

Ninguém ignora que não é grande,

nem inteligente, nem elegante o meu país,

mas tem esta voz doce

de quem acorda cedo para cantar nas silvas.

Raramente falei do meu país, talvez

nem goste dele, mas quando um amigo

me traz amoras bravas

os seus muros parecem-me brancos,

reparo que também no meu país o céu é azul.


Eugénio de Andrade "O Outro Nome da Terra"

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Iunia


Charles Curran

De volta a casa, dei por mim a agrupar ainda argumentos contra as palavras de Iunia. Contra as que ela disse, contra as que imaginei que ela poderia ter dito. Ocorriam-me novas citações, versos, trechos de tragédias, mitos. Importunava-me a ideia que faltava dizer-lhe qualquer coisa e de que aquela hostilidade que sempre desastrava entre nós resultava, afinal, duma incompreensão que poderia ser removida por raciocínio, por demonstrações, por palavras. Pensei em frases, atitudes. Gesticulei, só comigo. E, no fundo, sabia que tudo isto provinha da minha imaginação…
Passeei longo tempo pelo átrio, sentei-me perto do tanque e procurei concentrar-me numa prática antes usual para mim, masque os últimos tempos não vinham propiciando: o exame de consciência. Ganhei o dia? Perdi o dia? E a imagem de Iunia, olhando.me um pouco de viés, entre o irónico o desconfiado, teimava em se interpor e perturbar.

Mário de Carvalho, Um Deus passeando na brisa da tarde, Caminho

domingo, 20 de novembro de 2011

Fragmentos XII - os óculos escuros


Nathan Altman



ESCONDER. Figura deliberativa: o sujeito apaixonado interroga-se, não sabe se deve declarar ao ser amado que o ama (não é uma figura de confissão), mas em que medida lhe deve esconder os «cuidados» (as turbulências) da sua paixão: os desejos, as aflições, em poucas palavras, os excessos (no dizer de Racine: o furor.

Roland Barthes "Fragmentos do discurso amoroso" ed.70 1981

sábado, 19 de novembro de 2011

a leveza impenetrável


Michael Garmash

nunca seria capaz de te magoar.
quando quiseres esquecer, corre a cortina,
e elimina a transparência que mostra a lua
e uma fronteira demais à frente -

mas não permaneças no lugar obscuro
( por onde prendes os pés, tão bonitos )
solta a capa vermelha, assume o sumo
e sê como aquelas almas que nos tocam
em todas as horas do dia, uma face imemorial
magnífica, uma frase tão bem escrita
que não se esquece nunca
e sobrevive -

sê essa surpresa que enrubesce os mitos
que não tem lugares, que não se adivinha, uma cantiga
entre rumores de rios, entre subidos montes
desfolhando em pormenores as margaridas
folha a folha, entre brancuras alongadas e únicas,
submetendo o improviso, caindo ao de leve sobre o campo
amarelo, solarengo de destinos -

parece uma vulgaridade
mas as soluções de caminhos difíceis
são por vezes pesadas e tão visíveis
como asas de miligramas
cansadas de serem simples -

sê onde quiseres e em qualquer lugar gravítico e redondo
deste mundo, mas lembra-te
a leveza é impenetrável, só há consciência quando existe -

José Ferreira 19 Novembro 2011

As palavras aproximam - um poema de Ana Hatherly


fotografia retirada daqui

As palavras aproximam:
prendem-soltam
são montanhas de espuma
que se faz-desfaz
na areia da fala


Soltam freios
abrem clareiras no medo
fazem pausa na aflição


Ou então não:
matam
afogam
separam definitivamente


Amando muito muito
ficamos sem palavras

Ana Hatherly

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

para que o sonho aconteça



uma música minimalista soa incessante.
uma repetição de tempo.
a invisível visualidade de um teatro de marionetes.
fios, fios finos, que não se cruzam no acaso.
a energia é variável.
a hora muda e não há mudança na hora.
a pergunta surge, porque um pouco sobre o escuro,
porque é noite e está frio
e as ruas estão vazias como desertos sem rios
e os céus escondidos na constância da rotação nocturna.

dentro dos olhos fechados, a claridade num cadeado de diário.
a claridade que pode abrir um baile de Renoir
uma grinalda pendurada nas ruas de Paris
ou um barco que desliza assíduamente
no apoio de uma gôndola pelos canais mais lentos
entre palavras sussurradas junto à pele dos ouvidos
ou o descer dos sorrisos, uma corrida, até que o mar engula os corpos
os rodeie de espuma, e os traga de novo às toalhas estendidas
para que se libertem de todas as humidades de sal ;
a claridade tamanha na noite das prateleiras
onde o eu se perde, o sub some e o inconsciente assume
uma verdade completa e momentânea num campo de flores
rodeadas de lume -

no interstício mais ínfimo da memória há a cor do diamante
a esmeralda no rosto, o rubi directo e vivo
retomando a revolução sem forma, o poder do conteúdo
desfazendo-se pela manhã na totalidade do fumo
como folhas de Outono
que foram tão únicas e agora se juntam
no estaladiço dos jardins -

e os dias passam pelas tempestades dos segundos.

para quem lê de fora nada parece significar, apenas um intermezzo
um entretanto, uma indiferença
mas não é assim, não é menos vida, não é um planar constante
uma mente distraída.
são intervalos concretos e atentos entre realidades
que por vezes não se revelam criativas, sonolentas
evidentes -

intervalos, intervalos de ampulhetas de areias
como a música minimalista, a mimese dos gestos
nos trejeitos de um mimo, que não mostra a cara
e que por dentro insossega triste a incerteza,
a incompreensão de muitas mentes sobre a mesa
porque não existem territórios perfeitos,
isso são máquinas
ilusões fulminantes de cientistas
porque não se acredita na inteligência dos circuitos
e a pergunta surge:

imaginas, por exemplo um computador a ler Neruda e Shakespeare?
a escrever poemas e cartas de amor, achas possível, a quem se dirige?
quererá seduzir a delícia de uma aresta, a perspectiva de uma seda
que se afirma de metais e plásticos entre a sede de algoritmos?
essa é a diferença que diferencia o binário e o tecido, a célula clara
e a vontade de melanina -
essa a diferença que alimenta os comprimidos
quando as noites são longas e subsistem
sem revelar segredos, segredos escondidos
e a pergunta surge:

será que informaram o sol? para que se levante hoje devagarinho?
para que adormeça e resguarde um pouco mais a hora matutina?
para que tenha um pouco de preguiça e suporte a hora lisa?
para que a neblina não abrace depressa o dia?
é preciso que o sonho permaneça como asa luminosa
nas campânulas dos olhos,
como flores silvestres num campo vasto
onde abelhas saboreiem flores e voem baixo

dentro da cabeça, zzzzzzzz, um zumbido -

José Ferreira 17 Novembro 2011

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

As "Lições d'Os Lusíadas" na FNAC



Parabéns Auxília!

precisava falar-te ao ouvido


Garmash

Precisava falar-te ao ouvido
De manter sobre a rodilha do silêncio
A escrita.
Precisava dos teus joelhos. Da tua porta aberta.
Da indigência. E da fadiga.
Da tua sombra sobre a minha sombra
E da tua casa
E do chão.


Daniel Faria

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Adiamento




Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o rnundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

Álvaro de Campos