domingo, 20 de novembro de 2011

Fragmentos XII - os óculos escuros


Nathan Altman



ESCONDER. Figura deliberativa: o sujeito apaixonado interroga-se, não sabe se deve declarar ao ser amado que o ama (não é uma figura de confissão), mas em que medida lhe deve esconder os «cuidados» (as turbulências) da sua paixão: os desejos, as aflições, em poucas palavras, os excessos (no dizer de Racine: o furor.

Roland Barthes "Fragmentos do discurso amoroso" ed.70 1981

sábado, 19 de novembro de 2011

a leveza impenetrável


Michael Garmash

nunca seria capaz de te magoar.
quando quiseres esquecer, corre a cortina,
e elimina a transparência que mostra a lua
e uma fronteira demais à frente -

mas não permaneças no lugar obscuro
( por onde prendes os pés, tão bonitos )
solta a capa vermelha, assume o sumo
e sê como aquelas almas que nos tocam
em todas as horas do dia, uma face imemorial
magnífica, uma frase tão bem escrita
que não se esquece nunca
e sobrevive -

sê essa surpresa que enrubesce os mitos
que não tem lugares, que não se adivinha, uma cantiga
entre rumores de rios, entre subidos montes
desfolhando em pormenores as margaridas
folha a folha, entre brancuras alongadas e únicas,
submetendo o improviso, caindo ao de leve sobre o campo
amarelo, solarengo de destinos -

parece uma vulgaridade
mas as soluções de caminhos difíceis
são por vezes pesadas e tão visíveis
como asas de miligramas
cansadas de serem simples -

sê onde quiseres e em qualquer lugar gravítico e redondo
deste mundo, mas lembra-te
a leveza é impenetrável, só há consciência quando existe -

José Ferreira 19 Novembro 2011

As palavras aproximam - um poema de Ana Hatherly


fotografia retirada daqui

As palavras aproximam:
prendem-soltam
são montanhas de espuma
que se faz-desfaz
na areia da fala


Soltam freios
abrem clareiras no medo
fazem pausa na aflição


Ou então não:
matam
afogam
separam definitivamente


Amando muito muito
ficamos sem palavras

Ana Hatherly

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

para que o sonho aconteça



uma música minimalista soa incessante.
uma repetição de tempo.
a invisível visualidade de um teatro de marionetes.
fios, fios finos, que não se cruzam no acaso.
a energia é variável.
a hora muda e não há mudança na hora.
a pergunta surge, porque um pouco sobre o escuro,
porque é noite e está frio
e as ruas estão vazias como desertos sem rios
e os céus escondidos na constância da rotação nocturna.

dentro dos olhos fechados, a claridade num cadeado de diário.
a claridade que pode abrir um baile de Renoir
uma grinalda pendurada nas ruas de Paris
ou um barco que desliza assíduamente
no apoio de uma gôndola pelos canais mais lentos
entre palavras sussurradas junto à pele dos ouvidos
ou o descer dos sorrisos, uma corrida, até que o mar engula os corpos
os rodeie de espuma, e os traga de novo às toalhas estendidas
para que se libertem de todas as humidades de sal ;
a claridade tamanha na noite das prateleiras
onde o eu se perde, o sub some e o inconsciente assume
uma verdade completa e momentânea num campo de flores
rodeadas de lume -

no interstício mais ínfimo da memória há a cor do diamante
a esmeralda no rosto, o rubi directo e vivo
retomando a revolução sem forma, o poder do conteúdo
desfazendo-se pela manhã na totalidade do fumo
como folhas de Outono
que foram tão únicas e agora se juntam
no estaladiço dos jardins -

e os dias passam pelas tempestades dos segundos.

para quem lê de fora nada parece significar, apenas um intermezzo
um entretanto, uma indiferença
mas não é assim, não é menos vida, não é um planar constante
uma mente distraída.
são intervalos concretos e atentos entre realidades
que por vezes não se revelam criativas, sonolentas
evidentes -

intervalos, intervalos de ampulhetas de areias
como a música minimalista, a mimese dos gestos
nos trejeitos de um mimo, que não mostra a cara
e que por dentro insossega triste a incerteza,
a incompreensão de muitas mentes sobre a mesa
porque não existem territórios perfeitos,
isso são máquinas
ilusões fulminantes de cientistas
porque não se acredita na inteligência dos circuitos
e a pergunta surge:

imaginas, por exemplo um computador a ler Neruda e Shakespeare?
a escrever poemas e cartas de amor, achas possível, a quem se dirige?
quererá seduzir a delícia de uma aresta, a perspectiva de uma seda
que se afirma de metais e plásticos entre a sede de algoritmos?
essa é a diferença que diferencia o binário e o tecido, a célula clara
e a vontade de melanina -
essa a diferença que alimenta os comprimidos
quando as noites são longas e subsistem
sem revelar segredos, segredos escondidos
e a pergunta surge:

será que informaram o sol? para que se levante hoje devagarinho?
para que adormeça e resguarde um pouco mais a hora matutina?
para que tenha um pouco de preguiça e suporte a hora lisa?
para que a neblina não abrace depressa o dia?
é preciso que o sonho permaneça como asa luminosa
nas campânulas dos olhos,
como flores silvestres num campo vasto
onde abelhas saboreiem flores e voem baixo

dentro da cabeça, zzzzzzzz, um zumbido -

José Ferreira 17 Novembro 2011

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

As "Lições d'Os Lusíadas" na FNAC



Parabéns Auxília!

precisava falar-te ao ouvido


Garmash

Precisava falar-te ao ouvido
De manter sobre a rodilha do silêncio
A escrita.
Precisava dos teus joelhos. Da tua porta aberta.
Da indigência. E da fadiga.
Da tua sombra sobre a minha sombra
E da tua casa
E do chão.


Daniel Faria

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Adiamento




Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o rnundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

Álvaro de Campos

terça-feira, 15 de novembro de 2011

a história de um caso



quando cruzas as pernas não descuido o olhar
sem danos, que se dane
pior seria, observar outras estrelas
um outro rosto junto ao mar –

quando cruzas as pernas não evito o teu olhar
a interrogação na ironia dos lábios
um ligeiro sorriso, um proteger de intimidade
e é fim de tarde, e é Verão
e no areal todas as mulheres mostram mais –

quando cruzas as pernas há um desejo de sexo
e é normal como as ondas, como a água e o sal
no entanto ajeitas a saia e perdes os olhos na folha branca
uma posição flexível e abstracta, baixando e erguendo pupilas
como quem pensa num poema ou numa carta
naquela pura dificuldade
de pensar da mesma forma
sem dizer nada –

quando cruzas as pernas perco-me a imaginar quadros
cores azuis, cores mais pequenas, sensibilidades
entre o prodígio e o vulgar, reinventando penínsulas
numa soldadura de países, sem fragilidades, de hinos –

corre uma brisa de amenas tardes
na lateralidade do rosto, nas maçãs coradas
quando se solta ao de leve a gargalhada
um som pequeno, de quem viu, gostou e disse nada
no rodeio de escrever na folha em branco
uma primeira palavra –

e a razão é fácil, como saborear um rebuçado
caíram-me os óculos, pois claro
sem mais, desamparados sobre o grão de areia
na esplanada de madeira, sem danos
que se dane, ser óbvio não é pecado -

quando abandonamos o supor de intensidades
desce a noite como ave a planar
e sem mais, ao dar os dedos
guardamos dentro da cabeça todas as palavras

e fechamos os lábios -

José Ferreira 14 Novembro 2011

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A infância de Herberto Helder - um poema de Tolentino de Mendonça


Magritte


No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas

Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos

Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva

Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito

Eu era quase um anjo
e escrevia relatórios
precisos
acerca do silêncio

Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios

Isso foi antes
de aprender a álgebra

Tolentino de Mendonça

domingo, 13 de novembro de 2011

faz greve à rua, não apertes os sapatos



Almada Negreiros

"A vocação de Almada foi a de dizer-se, de afirmar-se, de passar a vida a ser-se Almada" Eduardo Lourenço



pressas de partida e pressas de chegada, a regular situação da cidade.
não há o encontro de faces na semana que parte.
os comboios abstraem-se das pessoas e olham os rails, parados, secos, calados.
chuvas caiem –

um homem de olhar estranho desce a rua inclinada.
uma voz fala “ faz greve à rua, fala com a lua, perde-te nos astros “.
os olhos não olham a direito, dão curvas improváveis,
dobram esquinas de mármore e vêem estátuas, lisas, físicas, claras
numa prosa tão correcta que não roça o verso nem desenlaça a alma;
uma questão de luz, túnel e obscuridade, talvez um facto
justificado pelas cores substantivas de um quadro imaginário –

não há a solidez de um corpo junto da voz que fala, auricular.
supõe-se de alguém porque o vento sopra sem palavras.
mas eis que repete: “faz greve, faz greve à rua não apertes os sapatos,
tropeça, cai, não permaneças inclinado”
- uma irrealidade de que Eco falava.
mas será verdade?

a voz repete grave “faz greve, faz greve ao quadrado e aos quadrados,
faz greve à ferrugem nos cronómetros incendiados,
faz greve à ilha, à caverna ou à nau fora d’época,
faz greve simplesmente, abstracto, e cria depois um soluço de paz
encostado no habitual semáforo.
depois corre, corre, até que sopre um vento muito forte
mais quente, e que se acenda , que fumegue, que seja fogueira,

e com esses pés tortos de teatro
procura a simetria próxima, a sede do corpo, a seda e a face –

corre, corre, não pares
nas ruínas e nos ruídos da cidade, corre,
corre sempre
enrola o silêncio na velocidade dos passos –“

o homem não corre e faz lembrar Almada;
ossos largos, faróis redondos, um boné sobre o rosto,
e há uma voz que diz enquanto passam os carros:
“é um homem estranho e inclinado
por vezes tem as mãos perdidas na arte, no fumo dos quadros,
no cair do amarelo. por vezes flutua entre a totalidade e o intermédio,
entre as filosofias de Pessoa e o ultrapassar do vermelho.
por vezes cala-se, por vezes chama, por vezes grita
e por vezes despe-se, insignificante,
na insegurança dos lábios -

José Ferreira 11.11.2011

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

não é tarde e não é cedo




uma chávena de chá preto em cima da mesa
e a luz branca por cima das teclas, uma lupa redonda.
a ampliação da noite decide a palavra,
a palavra solta na frente dos cabelos desgrenhados
como uma massa redonda, polvilhada,
o pão da alma, no forno que se acende –

não é tarde e não é cedo, respondo-te,
nem nunca cessa o luar sem silêncio
que percorre as distâncias
e cinta cada gota de vermelho –

passam carros a momentos e gente
e ninguém sabe desse tempo de quinta-feira, madrugada,
que aperta uma coleira na pressa do poema
pelo bulício escrito da desistência –

não é tarde e não é cedo, e há o erro da fraqueza
junto a uma girândola de círculos de urgência, sirenes autênticas
no alarme gritante e injusto de um céu de inverno -

passa das duas horas e não há vivalma no asfalto.
é a noite cerrada como as portas altas dos museus da cidade.
não há quadros, nem a luz das obras de arte,
porque se criou a mentira do facto na criação errada, a falácia,
falácia apenas, simplesmente, como por vezes a democracia
que parece justa e é ingrata –

cai aquela chuvinha flácida que mal se enxerga,
uma chuvinha sem qualquer ruído, de pouco brilho,
uma água sem rumo, parada pela dúvida, pela escolha do escuro,
parada pelo húmido musgo verde sobre a cor do granito,
o desequilíbrio do muro, tão forte na erosão dos ventos,
mas que treme no desfazer da terra, a possível perda,
o suporte que lhe serve de alicerce –

as notícias despedem o ministro italiano,
a Grécia é um desassossego sem dracmas,
o Mediterrâneo está morto de cansaço
e o peito bate de ritmos céleres, passadas de lebres,
naquele lado tão frágil dos medos, o esquerdo,
escorrendo como um choro, um desencanto próximo,
a possível perda, o quebrar dos espelhos –

não é tarde e não é cedo -

há uma chávena de chá preto em cima da mesa,
ainda quente.
a persiana corre como um comboio expresso,
de trilhos ao lado,
coloca a ténue fronteira de plástico
entre o quarto e a cidade, o opaco.
mas não decide o fim da transparência,
não elimina o singular, o mármore único da aura -

não é tarde e não é cedo -

há uma chávena de chá preto em cima da mesa,
interrompe-se o poema -

josé ferreira 10 de Novembro de 2011

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Criação - um poema de Cesare Pavese


Fernand Léger

Estou vivo e de manhã surpreendi as estrelas.
A companheira dorme ainda e não sabe.
Dormem todos, os companheiros. O claro dia
vejo mais nítido que os rostos submersos.


Passa um velho à distância, a caminho do trabalho
ou a gozar a manhã. Não somos diferentes,
ambos respiramos o mesmo esplendor
e fumamos tranquilos para enganar a fome.
Também o corpo do velho deve ser puro
e vibrante – deveria estar nu ante a manhã.


Esta manhã a vida escorre-nos na água
e em terra: em torno o fulgor da água
sempre jovem e a descoberto os corpos de todos.
Haverá o grande sol e a aspereza da praça
e o rude cansaço que nos verga para o chão
e a imobilidade. Estará a companheira
- um segredo de corpos. E cada um dará sua coisa.


Não há voz que rompa o silêncio da água
de manhã. Nem nada vibrando sob o céu.
Apenas um calor que dissolve as estrelas.
Treme-se ouvindo vibrar a manhã virginal,
como se nenhum de nós estivesse acordado.


Cesare Pavese

terça-feira, 8 de novembro de 2011

e ao anoitecer - um poema de Al Berto


Gerhard Richter

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia

Al Berto

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Visitações, ou o poema que se diz manso - um poema de Ana Luísa Amaral


Lilla Cabot Perry

De mansinho ela entrou, a minha filha.

A madrugada entrava como ela, mas não
tão de mansinho. Os pés descalços,
de ruído menor que o do meu lápis
e um riso bem maior que o dos meus versos.

Sentou-se no meu colo, de mansinho.

O poema invadia como ela, mas não
tão mansamente, não com esta exigência
tão mansinha. Como um ladrão furtivo,
a minha filha roubou-me a inspiração,
versos quase chegados, quase meus.

E mansamente aqui adormeceu,
feliz pelo seu crime.

Ana Luísa Amaral