sábado, 30 de julho de 2011

a mulher, freud o gato branco e um poema antigo


Jose Merello "Mujer azul"

recuperar um poema antigo e deitar-me sobre ele
como se falasse e tivesse mãos, dedos, cabelos longos;
um poema de mulher
a mulher
de olhos ternos, eternos -

em Abril corriam os rios pelos sinais das nuvens
a janela estava fechada e os vidros tracejados de gotas;
escrevi-o como se cada palavra fosse um pedaço de roupa
a cair, a desnudar o corpo, o teu, o meu, ao mesmo tempo
e à distância; serás sempre, disse-o. chovia -

reli-o na primeira hora de um final de Julho.
caiu-me no colo como Freud, o gato branco
de olho azul não na cor de safira mas mais claro
encolhido na curva quieta da cauda e ronronando
como um motor de barco abrindo as águas e olhando o rio -
caiu-me no colo como se fosse uma canção de gôndola
um sole mio num canal de Veneza; um remo longo
uma camisola de algodão, às riscas -
caiu-me no colo e pronto, o inevitável morno rodopio
de um crepúsculo laranja macio e persistente
que pode ser miragem, pode ser desvario
pode ser tudo porque sentido -

é curioso observar a ladeira do tempo
o escorregar nas folhas dos versos como se de um Outono
o ultrapassar dos frios polares conservando o fluir do pêndulo;
os batimentos de fogo
e mergulhar no acaso do poema antigo
para o sentir presente e futuro
como um rumo e um destino -

30 Julho 2011

sexta-feira, 29 de julho de 2011

de Oslo à Palestina - à distância de um click


Gerhard Richter

balas graves nos corais duros do oceano
- a culturalidade única
o uniforme vermelho de botões loiros
à distância de um click
como forca asfixia
como guilhotina separa a cabeça extermina
algures em Oslo - cronómetros frios.

talvez mais loucos de tridente
ousem o mesmo esquema - insanos assassinos
pedaços de vampiros no disfarce de gente
almoçando à mesa como almas sem defeitos
sorrindo e fazendo festas metálicas
nos cabelos arianos - baços inorgânicos
- ou amaciando um filamento explosivo
num círculo de fogo - um outro modo
e a mesma sina no Iraque e em Madrid
Londres Nova Iorque e Palestina -

José Ferreira 28 Julho 2011

quinta-feira, 28 de julho de 2011

XCII


fotografia retirada da internet

Entre a cereja e um computador
apenas a cereja lhe provoca
verdadeira admiração

David Mourão Ferreira,Jogo de espelhos, Presença, 2011

XLI


William Bourgereau 1898

Em seu entender, o poeta nunca
aprende; nem ensina. Limita-se
a apreender; e a ficar apreensivo;
ou a superar a apreensão

David Mourão Ferreira, Jogo de espelhos,Presença, 2011

quarta-feira, 27 de julho de 2011

as palavras assassinas


retirado daqui

procurar as palavras e assassiná-las
para que não sejam lidas.

não, não é de um parque a elegia
é do fundo da pele; dedos e cabelos
olhos como lanternas na escuridão da bússola
e de janelas e luas e estrelas, essas minúcias tão presentes
tão vulgares e repetidas que ninguém lê atentamente;
aspirinas brancas de algumas miligramas
platinas tão brilhantes que aperto com os dentes -

assassiná-las dizia e as palavras inundam-me a boca
e soltam-se sozinhas
por vezes escuras como fendas nas paredes
gritos a estilhaçar vidros -

sossego, sossego, um dia domingo
pousar a asa do rosto no teu ombro de penas
um segundo, silêncio
calar o mundo antigo
um segundo, silêncio -

José Ferreira 27 de Julho de 2011

terça-feira, 26 de julho de 2011

a fuga do espírito


Nicolleta Giuseppe (fotografia retirada daqui)

dis-moi, pourquoi mon esprit s'enfuit-il ainsi?
Schiller



sim as tábuas, um pouco abertas -
um espigueiro recortado sobre a rocha
apenas decorativo, castanho escuro -
cuidado! escorregas, segura-te -
ao fundo o correr do rio
uma mesa de pedra, granito
e silvas
e amoras
e uma brisa
aflito
aflito
nos teus olhos claros
na tua mão de linhas, macia
nos teus lábios compridos -

o espírito é uma ave lá em cima
é domingo -

José ferreira 26 de Julho 2011

domingo, 24 de julho de 2011

essas palavras presas de delírio


Andreas Heumann


essas palavras presas no delírio
essas cartas brancas vestidas de enigma
fluem de aroma em asas acesas, reflexos firmes;
espelhos que agarram, braços de absinto
a elevar as águas, a torná-las infinitas -

sobem as marés descem as tulipas
no frágil caule que se inclina
pela raiz forte de mil desejos;
dedos de algas, seios de marfim
lábios citrinos nos ombros de mármore
pêndulos perdidos no emaranhar dos fios
linhas soltas no tempo, lágrimas salinas
o fim inevitável e excessivo antes de acalmar os ritmos
os trovões ribombantes na pele dos tímpanos
os perigos cardíacos -

e agora inclinados, adormecidos
normais e vestidos
num abismo de céu -

José Ferreira 24 Julho 2011

Poésies de Schiller - Amélie



Il était le plus beau des jeunes gens, beau comme
un esprit enchanteur du Walhala. Son régard céleste
avait la douceur du soleil de mai, et l'azur du miroir
des mers.

Ses baisers...ô sensation divine! comme deux
rayons de flamme se réunissent, comme les sons
d'une harpe s'accordent dans une merveilleuse har-
monie;

De même, dans ses baisers, l'esprit courait au-
devant de l'esprit et se confondait avec lui; les lé-
vres, les joues palpitaient, brulaient, l'âme se mariait
à l'âme; la terre et le ciel disparaissaient autour des
deux amants.

Schiller "Poésies" traduites par M.X.Marmier
Paris

sábado, 23 de julho de 2011

a natureza revolucionária da felicidade


Andreas Heumann

quem deixou sobre o coração
um feixe de luz
não cega nunca

valter hugo mãe "folclore íntimo" Cosmorama 2008

sexta-feira, 22 de julho de 2011

tábuas longas e tectos de estuque


William A. Bouguereau (1825-1905)

escrevo-te na casa grande de tectos de estuque e tábuas longas
brilha uma luz que elimina a varanda e lança raios antes amarelos agora mel
flui uma cor patine tão única tão antiga -

inútil a lareira e o tempo assume a temperatura alta
época pouco firme dando lugar ao arrepio; a suspeita o ciúme
o impenetrável espaço do círculo rodopiando rodopiando centrípeto -

nas palavras que o vento assina sopram assobios
veementes magoados como se merecidos
lembram as tempestades no pacífico -

todos os mares têm os seus dias ferozes e macios
imagino a laranja dividida o sumo perdido
os trópicos sem oposto a inutilidade do equador
o sol sem a lua o fim do crepúsculo;
seria sem graça a borboleta que de um ao outro lado
modifica o planeta -

a arte, a literatura, as cenas de um teatro são faúlhas
mas não são falsas nem corruptas
não são lâminas nem pedras de judas
reflectem almas e pensamentos nem sempre puros -

afundo-me na carícia -


José Ferreira 22 Julho 2011

quinta-feira, 21 de julho de 2011

De um lado, o amor intuitivo da carícia


Fotografia de David Dawson no estúdio de Lucian Freud (neto do inventor da psicanálise falecido ontem, 21 de Julho de 2011)

De um lado, o amor intuitivo
da carícia. Do outro,
toda esta vida cheia, esta força que transborda.
De um lado, a madrugada,
que desperta no teu ventre.
Do outro a noite que
através de nós germina
nas plantas, na voz,
na veemência das plantas,
na veemência da voz,
na ternura que contagia o erotismo
com a sua veemência, o seu peso
de gritos e de camélias distintos.

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Caminhei ao longo
de uma praia
de margens irregulares
e de pássaros lisos. Ansiava
que hoje pudesses tocar
nesta rede que palpita,
se abre e se fecha.

Poderás para sempre correr
ao longo desta areia,
debruada, como pedaços de tecido,
insustentável?

Poderás estender-te
a este sol, surpreendida
por esferas de nuvens
e de luz?

Gérard de Cortanze "O Movimento das Coisas" Campo das Letras, 2002

a vertigem dos dedos


Andreas Heumann


inclinado sobre o lado direito, pousou o rosto
nas nervuras abertas das linhas de uma só mão.
adormeceu sem receio dos ciprestes.
o lado esquerdo, liberto, bateu, uma e duas vezes
pulsante, movimentando a velocidade vermelha do sangue
e sonhou como sempre -

era água, era noite, era a forma líquida do sonho, um mar gigante -
vieram ventos ciclónicos e ergueram as gotas criando estátuas no ar
reunindo o concílio branco das espumas, assustadas, no centro do mar -
e vieram os tornados, plenipotentes, cones uivantes
sugando da base ao vértice, as nuvens indefesas do céu -
e ouviu-se a voz mais forte dos deuses, no escurecer dos relâmpagos
escondendo os golfinhos nas grutas mais profundas, junto ao lavagantes
perante a dilatação medonha dos tímpanos, as descargas de luz
e as chuvas que flagelavam -

de repente o silêncio, era ainda a noite, e abriu os olhos claros -
as ondas repetiam marcas na praia e o sal brilhava em reflexos de amianto
os dedos estavam macios, o rosto estava morno, não tinha vincos
era fluido como um barco, e do outro lado
outros dedos
subindo e descendo as margens
na vertigem emaranhada dos cabelos -

José Ferreira 20 Julho 2011

quarta-feira, 20 de julho de 2011

só uma onda que ri

só uma onda aos ritmos


podia ser água

e a certeza com que se espalha,

o resto

(palavras em poços

que reflectem

circunferências na superfície)

tende a magoar


quando rodas sobre ti

a velocidade não serve de nada

o vento é só teu

os extremos a tua curvatura

e o sopro do poço vem devagar


deixar duas dimensões à solta de não saber

não deslizar pelas lâminas circulares

entre uma e outra ir saltando

sem violino

ao ritmo de ecos


se o cérebro é maior que o mundo

que o segundo não caiba no primeiro

não se cria energia quando tremo

pela rotação de uma palavra


rir contigo

nos teus modos de ondulação

montar um touro azul e entrar pelo poço ao vento

que não se afaste assim a matéria com medo do escuro

(às vezes despeço-me dos bichos

com um dedo que não é mão)


quero dar um beijo a um átomo

sei que se amam quando se rodeiam

deitar-me com um planeta

contra todos os contractos

que me trouxeram a esta escala sem lugar


também tenho medo do escuro

por mim seguia na água

até ao lugar comum

esse espaço inocente

que se abre entre as sobrancelhas dos bichos

onde se come a energia exacta para comer

a boca não sabe a época


mas ouvimos o fundo dos poços

há uma exacta inclinação das variáveis

para lhes espreitar


e ela ri-se com

a rotação de todos os polegares

na inclinação exacta de nos amar

hoje não tenho versos

Raramente acho utilidade a qualquer generalização,
e não acho particularmente graça a isso de achar que "O poeta é um fingidor",
não faço dessas palavras as minhas.

Pelos tempos que correm,
não sei como se esquecem os políticos de Platão.
Ele que no Político diz:
"Se as artes chegassem a desaparecer, tornar-se-ia absolutamente impossível viver a existência, já tão penosa agora.".

Le regard



Le regard
des âges a tous
les yeux du
soleil...

Le soleil
a tous les
regards des
âges...

Tous les
âges ont tout
le soleil des
yeux...

L'âge du
soleil est
eu tous les
yeux...

Henry Chopin 1984-1986 (lido na exposição da Biblioteca de Serralves)