sábado, 11 de junho de 2011

Le mal du pays




Às vezes, é só a cabeça de um leopardo doente.
O rancor musical de uma cesta de fruta, à cabeceira.
Um silêncio apócrifo, puro, pouco higiénico até,
a matemática mórbida da chuva contra a inconveniência
que volta e a saga cega de alguns insectos terrivelmente felizes
pela morte recente do teu sexo,
e do teu peito, satélite natural da armadilha,
onde a manhã apagou mal o seu cigarro desaparecido.
Depois, a calma suja e pulmonar do dia seguinte.
O teu corpo, cheio de espadas e sequelas,
atirado à baba lenta da permanência,
à luz que lhe dá de beber
e que, ao mesmo tempo, aprende lentamente a destituí-lo.
Nove exactos segundos de apneia, para no décimo apenas meio mundo emergir.
Como um país, cuja capital ficara devastada por gritos e agora renascesse
na exausta arquitectura das suas antecedências
o equívoco.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

A Palavra sobre a Palavra

A Palavra sobre a Palavra - Encontros com Escritores


Ciclo em homenagem a
Eduardo Prado Coelho
Uma iniciativa do P. E. N. Clube Português
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Clube Literário do Porto
Dia 7, terça-feira, Auditório, 21h30
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Convidada: Ana Luísa Amaral
Apresentada por: Maria Irene Ramalho
Sessão moderada por: Maria João Reynaud
Leitura de poemas pela autora
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Organizadores:
Maria João Reynaud e José Rui Teixeira
Em colaboração com:
Clube Literário do Porto /2011

domingo, 5 de junho de 2011

um poema de Emily


Isabelle Adjani

By a departing light
We see acuter, quite,
Than by a wick that stays.
There's something in the flight
That clarifies the sight
And decks the rays.

Emily Dickinson

A uma luz evanescente
Vemos mais agudamente
Que à da candeia que fica.
Algo há na fuga silente
Que aclara a vista da gente
E aos raios afia.

(Trad. Ana Luísa Amaral)

sábado, 4 de junho de 2011

into the (Moody)blues


vídeo de josé ferreira



as heras já não crescem mais
o muro está triste
a chuva cinzenta das cidades
aperta as raízes
- disse-lhe no dia 3 de junho

a névoa dos dias passados
será sempre um passo no presente
uma culpa no futuro
- disse-lhe faz hoje oito dias

soou tão estranha a resposta
depois clara como a água dos rios:
não digas nunca nunca nem sempre sempre
são palavras feitas de nuvens
perdem-se no tempo -

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Tenho um decote pousado no vestido


Isabelle Hupert

Tenho um decote pousado no vestido e não sei se voltas,
mas as palavras estão prontas sobre os lábios como
segredos imperfeitos ou gomos de água guardados para o
verão.
E, se de noite as repito em surdina, no silêncio
do quarto, antes de adormecer, é como se de repente
as aves tivessem chegado já ao sul e tu voltasses
em busca desses antigos recados levados pelo tempo:



Vamos para casa? O sol adormece nos telhados ao domingo
e há um intenso cheiro a linho derramado nas camas.
Podemos virar os sonhos do avesso, dormir dentro da tarde
e deixar que o tempo se ocupe dos gestos mais pequenos.



Vamos para casa. Deixei um livro partido ao meio no chão
do quarto, estão sozinhos na caixa os retratos antigos
do avô, havia as tuas mãos apertadas com força, aquela
música que costumávamos ouvir no inverno. E eu quero rever
as nuvens recortadas nas janelas vermelhas do crepúsculo;
e quero ir outra vez para casa. Como das outras vezes.



Assim me faço ao sono, noite após noite, desfiando a lenta
meada dos dias para descontar a espera. E, quando as crias
afastarem finalmente as asas da quilha no seu primeiro voo,
por certo estarei ainda aqui, mas poderei dizer que, pelo
menos uma ou outra vez, já mandei os recados, já da minha
boca ouvi estas palavras, voltes ou não voltes.



Maria do Rosário Pedreira
«366 poemas que falam de amor»,Antol. org. por Vasco Graça Moura,
Lisboa: Quetzal, 2003

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Ideias felizes


Georgia O'Keefe

Às vezes tenho ideias felizes
Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despejam…

Depois de escrever, leio…
Porque escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu…

Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?


Álvaro de Campos

quinta-feira, 26 de maio de 2011

terça-feira, 24 de maio de 2011

Fragmentos VIII- O inconhecível II


Kasimir Malevitch

Não é verdade que quanto mais se ama, mais se compreende; o que a acção de amor obtém de mim é apenas esta evidência: que o outro não é para conhecer; a sua opacidade não é apenas a tela de um segredo mas sim uma espécie de evidência em que está abolido o jogo da aparência e do ser. Vem-me então esta exaltação de amar a fundo alguém desconhecido e que assim permaneça para sempre: movimento místico: alcanço o conhecimento do inconhecível.

Roland Barthes "Fragmentos de um discurso amoroso" Ed. 70 1977

segunda-feira, 23 de maio de 2011

frio nos olhos de um rapaz

subiu ao telhado sem telhas, alguma inclinação ajudaria. se nesse dia soprasse amena a aragem, também ajudaria. ou talvez, se soubesse que não é único órfão, talvez?! ou que os dias não são todos iguais, e não é bem por causa da luz.

há um momento imediatamente antes da morte, apenas. tem a imagem mais significante de toda a viagem. no fim, se não se leva mais que uma, pelo menos uma remota sempre existe. por começar nesse lugar, onde não era preciso coragem já que ainda não havia o maior medo, no intervalo de tempo impermeável à solidão incompleta, ou até completa. talvez um dia o rapaz veja, alguns maiores a passar, alguns com mais que essa, com lugares absolutos.

foi a noite mais escura


Kasimir Malevitch 1913

foi a noite mais escura;
sonâmbula de olhos fechados.
os espaços de passos lentos não existiram
no grande vácuo.
pela manhã
a água soluçou as tuas últimas palavras
triste
e seguiu o ruído do ralo aberto
o eco perdido da mensagem -

José Ferreira 23 Maio 2011

domingo, 22 de maio de 2011

Curso de Poesia com Nuno Brito





A Livraria Poetria vai realizar um work-shop cujo programa se descreve a seguir:

“Produção e trabalho de Escrita Poética”
Maio/Junho 2011



8 horas – segundas - feiras das 18h às 20h

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Poesia

1. Movimentos e tendências poéticas

2. A poesia do quotidiano (referida a autores contemporâneos)

3. A poesia universal de Whitman

4. O subjectivismo em Emily Dickinson

5. Análise de alguns textos poéticos – A questão da métrica e dos recursos estilísticos.

6. Exercícios práticos de escrita criativa com base em jogos de despersonalização e outros elementos valorativos da imaginação.
Formador: Nuno Brito
Local: Sala Poetria, R.Sá de Noronha,155(Ao Teatro Carlos Alberto-Porto)
Inscrições: Máximo 10 pessoas. Contacto: 968707303
Preço: 45,00€
Nuno Brito nasceu no Porto em 1981. É licenciado em História pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde fez a pós-graduação em História Medieval e do Renascimento e o curso de formação contínua em Teoria da Literatura. Frequentou o Instituto de Estudos Medievais em Roma onde realizou estudos sobre Pedro Abelardo.
Em 2008 foi seleccionado para o Concurso Jovens Criadores na categoria de Literatura. No mesmo ano obteve o primeiro Prémio no Concurso Literário da Faculdade de Letras da UP (Poesia) obtendo no ano seguinte o primeiro Prémio na categoria de conto. Em 2009 publicou a obra de poesia “Delírio Húngaro” e foi publicado em várias revistas de literatura nacionais e estrangeiras.

A Piaf



Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do “Ça ira”,
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que se não conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.


Quem tinha assim a morte na sua voz
e na vida. Quem como ela perdeu
toda a alegria e toda a esperança
é que pode cantar com esta ciência
do desespero de ser-se um ser humano
entre os humanos que o são tão pouco.

Jorge de Sena

sábado, 21 de maio de 2011

Era o silêncio sobre a terra


Cindy Sherman

Era o silêncio sobre a terra. O mundo estava preparado. No seu lugar, cada objecto esperava o início. O sol esperava. O mundo estava preparado e suspenso.

Ele e ela caminhavam na rua. Pensavam em qualquer coisa que não era nem a terra, nem o sol, nem julho. A rua ficou deserta quando se aproximaram. Esqueceram aquilo em que pensavam. E o lugar das ideias que tinham ficou vazio de tudo menos daquele instante igual, a divisão de um instante, um instante espetado dentro de um instante, o mesmo ponto de tempo em que olharam um para o outro. Dentro daquele momento, como dentro de toda a eternidade, aquele foi um ponto de tempo feito de terra e de sol e de julho. E o tamanho da terra entrou pelos seus passos. E o sol entrou pelos seus olhares.

José Luís Peixoto, Antídoto, Aquilo que Invade os Homens

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Um poema de Sophia - Sua beleza


Sophia do Mello Breyner Andresen

Sua beleza é total
Tem a nítida esquadria de um Mantegna
Porém como um Picasso de repente
Desloca o visual

Seu torso lembra o respirar da vela
Seu corpo é solar e frontal
Sua beleza à força de ser bela
Promete mais do que prazer
Promete um mundo mais inteiro e mais real
Como pátria do ser

Sophia de Mello Breyner Andresen "O Nome das Coisas"

quinta-feira, 19 de maio de 2011

na luz que acompanha


Fotografia retirada da internet

na luz que acompanha o interior da tua alma
cintila a curva oscilante do pêndulo;
um ímpeto sem atrito, o vazio lento.
subir montanhas e caminhar as fragas escorregadias
é um medo que não deves ter, digo-te.
de mão aberta sentirás a voragem segura da noite
a madrugada, o desejado primeiro raio do dia.
sobe, mais ainda, mais acima, a encosta brava das silvas
aperta a casca do salgueiro e observa a cor verde da figueira.
descansa um pouco, exausta e bela no labirinto das folhas
nas nervuras palpitantes das plantas; seivas vivas e maduras.
não sejas nunca seduzida pela magia das sombras - o disfarce triste.
adormece, quando os braços caírem, no induzido sono do sorriso
o sonho branco visto de cima -
aguarda no silêncio da lua a despedida do ar húmido
o ciclo fresco e breve do orvalho
o toque de veludo e a seda repetida -

José Ferreira 18 Maio 2011