quinta-feira, 7 de abril de 2011

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Um poema de Emily


Marc Chagall

A sepal, petal, and a thorn
Upon a common summer's morn --
A flask of Dew -- A Bee or two --
A Breeze -- a caper in the trees --
And I'm a Rose!

Emily Dickinson


Sépala, pétala, espinho.
Na vulgar manhã de Verão –
Brilho de orvalho – uma abelha ou duas –
Brisa saltando nas árvores –
- E sou uma rosa!

Trad. Ana Luísa Amaral

terça-feira, 5 de abril de 2011

SENTIMENTO PRIMAVERIL (SYLVIA BEIRUTE)


















SENTIMENTO PRIMAVERIL


não sei o que é este sentimento
mas se o tentar dizer
sem pensar
e com as palavras que me vierem
à boca
será um dia de semana em voz alta
na cabeça de uma criança que não
distingue os sons,
a sua respiração que se desintegra
desde a sua infância velha. intemporal.
ou então um quarto de mim mesma
na adivinhação plena e simples
do teatro negro
antes de a acção começar a interrogar-se,
ou as flores que
parecem encobrir o ar das cinco da tarde.

não sei.
não sei o que é este sentimento
mas sei o que quer dizer.

Sylvia Beirute
inédito

Psicanálise da Escrita

Mesmo que fale de sol e de montanhas,
mesmo que cante os ínfimos espaços
ou as grandes verdades,
todo o poema
é sobre aquele
que sobre ele escreve

Quando os traços de si
parecem excluir-se das palavras,
mesmo assim é a si que se descreve
ao escrever-se no texto
que é excisão de si

Todo o poema
é um estado de paixão
cortejando o reflexo
daquele que o criou

Todo o poema
é sobre aquele
que sobre ele escreve
e assim se ama de forma desmedida,
à medida do verso onde a si se contempla
e em vertigem
se afoga

Ana Luísa Amaral
in Inversos - Poesia 1990-2010 - Inéditos

A onda

a onda anda
aonde anda
a onda?
a onda ainda
ainda onda
ainda anda
aonde?
aonde?
a onda a onda

Manoel Bandeira (Recife, 1886 - Rio de Janeiro, 1968)

Fragmentos V - Adorável ou o bom humor do desejo


Isabelle Adjiani

1. Num belo dia de Setembro saí para fazer compras. Paris estava adorável nessa manhã…, etc.»
Um ror de percepções acaba por formar bruscamente uma impressão deslumbrante (deslumbrar é, afinal, impedir de ver, de dizer):o estado do tempo, a estação, a luz, a avenida, o caminho, os parisienses, as compras, tudo isso concentrado no que já tem a vocação de recordar: um quadro, em suma, o hieróglifo da boa vontade (tal como Greuze o pintaria), o bom humor do desejo.
….
Tocado por uma impressão da noite, acordo enfraquecido por um pensamento feliz:
« X… estava adorável ontem à noite. » É uma recordação de quê? Do que os gregos chamavam o charis: «o brilho dos olhos, a beleza luminosa do corpo, o esplendor do ser desejável» ; talvez mesmo, como na charis antiga, acrescente a ideia - a esperança - de que o objecto amado se entregará ao meu desejo.

Roland Barthes "Fragmentos de um discurso amoroso" Ed. 70

Sim, quero dizer sim ao inacabado


Marc Chagall

Sim, quero dizer sim ao inacabado
que é o princípio de tudo
e o que não é ainda,
sim ao vazio coração que ignora
e que no silêncio preserva o sim do início,
sim a algumas palavras que são nuvens
brancas e deslizam amplas
sobre um mundo pacífico,
sim aos instrumentos simples
da cozinha,
sim à liberdade do fogo
que adensa o vigor da consciência,
sim à transparência que não exalta
mas decanta o vinho da presença,
sim à paixão que é um ajuste ao cimo
de uma profunda arquitectura íntima,
sim à pupila já madura
que se inebria das sombras das figuras,
sim à solidão quando ela é branca
e desenha a matéria cristalina,
sim às folhas que oscilam e brilham
ao subtil sopro de uma brisa,
sim ao espaço da casa, à sua música
entre o sono e a lucidez, que apazigua,
sim aos exercícios pacientes
em que a claridade pousa no vagar que a pensa,
sim à ternura no centro da clareira
tremendo como uma lâmpada sem sombra,
sim a ti, tempestade que iluminas
um país de ausência,
sim a ti, quase monótona, quase nula
mas que és como o vento insubornável,
sim a ti, que és nada e atravessas tudo
e és o sangue secreto do poema.



António Ramos Rosa

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Todas as opiniões que há sobre a Natureza


Gustav Klimt

Todas as opiniões que há sobre a Natureza
Nunca fizeram crescer uma erva ou nascer uma flor.
Toda a sabedoria a respeito das cousas
Nunca foi cousa em que pudesse pegar como nas cousas;
Se a ciência quer ser verdadeira,
Que ciência mais verdadeira que a das cousas sem ciência?

Fecho os olhos e a terra dura sobre que me deito
Tem uma realidade tão real que até as minhas costas a sentem.
Não preciso de raciocínio onde tenho espáduas.


Alberto Caeiro

domingo, 3 de abril de 2011

há palavras válidas como os teatros gregos


Ralph Gibson

há palavras válidas como os teatros gregos
legítimas no significado, na pertença;
serás sempre
quaisquer que sejam as tempestades.

como poderia esquecer as margens do rio certo
a luz incidente de um foco de milhares de watts
transformando as folhas dos arbusto em pérolas acendidas?
como poderia esquecer os laços e os nós, e os nós dos laços
dentro de nós, nas pontas dos dedos?
como poderia ceder o lugar do uníssono
o murmurejar único de águas transparentes
nos caminhos difíceis de pedras e girinos?
como poderia esquecer as palavras ardentes
essas princesas de desejo nas tardes abstractas
onde surgia o esquecimento físico das cidades
e se transcendia nas teias tecidas de desconhecido ?
como poderia?

“povoar-te de rosas” - dizia -

como poderia?
não importa qual a cor do terramoto
qual a intensidade de um silvado de balas
na Líbia, Afeganistão ou Iraque.
não importa a altura perdida das torres caídas
a gula devoradora dos tsunamis egoístas
e podem mesmo nascer beterrabas radioactivas
nas ilhas mais longínquas. não importa -
porque sendo importante não modifica
não tem qualquer poder sobre o dizível
a música, o ondear das tonalidades
a seda simbólica das letras rejeitando as tintas
o cobre e o chumbo, fixando a prata das palavras
nos olhos históricos da fotografia -

não há forças naturais, humanas ou divinas
que possam assassinar os pêndulos do tempo
o relógio das horas partidas - os instantes depois do click.
nem metamorfose alguma que transforme
os poemas redondos
em acidentes rectilíneos -

serás sempre -

José Ferreira 3 de Abril de 2011

sexta-feira, 1 de abril de 2011

o dia um de abril


Cindy Sherman

ouve, lembro-me da cor castanha dos olhos
um mel triste sobre um sorriso fechado
que não mostrava a brancura da íris
sob as pálpebras.
escondia mesmo, lembro-me -

lembro-me, escondia mesmo os medos
os reconhecidos emblemas de uma cabeça reflexa
reflexiva, interrogante, mas ardente
na cor livre da pele, fulminante como um Verão
de vez em quando, lembro-me -

lembro-me, de uma vez, de uma tarde cinzenta
quando junto de um lava-loiças e um frasco de comprimidos
colocaste o ar característico de um fogo aceso
tiros, depois de palavras, tiros
tiros nos lábios cerrados de silêncios, tiros
na pose segura, no oblíquo de um braço esquerdo
enquanto vapores quentes de uma receita de lentilhas
ofuscavam a nitidez, colocavam a fronteira
branca, húmida intransponível
branca, húmida, lembro-me -

lembro-me da outra mão e das unhas imperfeitas
iludindo a seriedade de uma irritação verídica
apesar de uma matéria injustificada, sem sentido;
a mão, a outra mão que acompanhava a barriga
rodeada de algum enlevo no avental transparente
afagando de repente o centro
o centro encoberto de um umbigo
mais dentro, mais saliente, mais dentro
uma rodela de laranja, mas beige
envolta na certitude lisa da cinta, lembro-me -

e lembro-me de uma atmosfera negativa
a dúvida, a acusação, a mentira
e lembro-me do dia -

José Ferreira 1 abril 2011

Porto


António Cruz

Então, eu comia o Porto. Ali à beira do Douro, abria a boca e enchia-a com o Porto. Pousava-o sobre a língua e mastigava-o com cuidado, para não causar estragos na Torre dos Clérigos, no Pavilhão Rosa Mota ou na estátua do leão e da águia da Boavista. Os portuenses haviam de acreditar que o céu da minha boca era um dia de outono nublado e continuariam a fazer a sua vida normal, voltariam para casa à hora certa do relógio de pulso e os autocarros continuariam a subir e a descer os Aliados sem perturbação. O momento de engolir o Porto seria sereno para a cidade e, para mim, seria o instante em que a memória do seu gosto se tornaria efectiva. O Porto não saberia a molho de francesinha, muito menos a tripas ou a vinho doce, teria um gosto composto por múltiplo, intenso e contraditório, composto por perífrase, hipérbole e oximoro. Eu fechava os olhos, claro, para sentir analiticamente o gosto do Porto. Passava bastante tempo assim, o silêncio tinha vagar para rodear-me.

Sentia todo o caminho do Porto através da minha garganta. Haveria de lembrar-me de goles de água no verão, o fresco da água a descer por mim como uma onda de temperança. Nesse túnel, o Porto, com os seus estádios, com o mercado do Bolhão, haveria de fluir imperturbável, mais lento e justo do que um rio grande, atravessado por pontes de ferro projectadas por Gustave Eiffel. Eu não haveria de me engasgar com o Porto, nem sequer me lembraria dessa possibilidade, nem sequer a consideraria. Seria capaz de respirar grandes volumes de ar fresco e limpo, seria capaz de respirar uma tarde inteira ou, mesmo uma primavera inteira, uma infância inteira. Para o Porto, esse caminho no interior da minha garganta seria menos do que uma brisa. Talvez alguns portuenses, os mais sensíveis à humidade, subissem a gola do casaco por instantes, talvez quisessem cobrir o pescoço, sentir tecido na pele fina do pescoço. O carros continuariam a parar nos sinais vermelhos e a avançar nos sinais verdes, continuariam a encaracolar-se pelos caminhos do silo de estacionamento ou, na rua, continuariam a seguir as indicações de um arrumador com barba, vestido com casacos sobrepostos.

O Porto chegava-me ao estômago à hora certa do entardecer. A tranquilidade seria inquestionável. Todos os poetas da cidade haveriam de ter um acesso súbito de inspiração. O meu estômago não precisava de se dilatar, barrigada, para ser capaz de acolher toda a cidade num plano horizontal, nivelado ao milímetro pelos desníveis habituais das suas ruas e avenidas. Quem estivesse a descer até à Foz, continuaria passo após passo; quem estivesse a subir até ao Marquês, continuaria passo após passo. As gaivotas planariam voltas perfeitas dentro do meu estômago e, assim, seriam capazes de puxar a noite. Chegaria devagar, ao ritmo intermitente das luzes que se começariam a acender na Baixa.

Por acaso simbólico, a absorção começaria precisamente à hora de jantar. As casas, o ar, as ruas, os viadutos, as montras, os jardins, as pessoas, os carros, as palavras, a pronúncia, os monumentos seriam gradualmente absorvidos pelas paredes do estômago. Atravessá-las-iam como uma sombra que fosse progredindo sobre a cidade, como uma maré de nuvens que fosse tapando a lua e as estrelas, uma a uma. Todos os elementos sólidos e não sólidos da cidade, mesmo os invisíveis, transformar-se-iam em carne, na minha carne, no meu sangue a correr pelas minhas veias e a atravessar-me desde a ponta dos dedos, os mesmos que carregam nestas teclas, até às pequenas artérias que irrigam os meus olhos, o meu cérebro. O Porto seria oxigenado pelos meus pulmões, passaria pelo meu ventrículo esquerdo e, depois, pela aorta. A zona das Antas seria uma extensão da minha pele, a Sé também. Quando eu tocasse alguma coisa, quando segurasse um livro ou ouvisse uma canção, só seria capaz de fazê-lo através do Porto. Na verdade, nem eu próprio seria capaz de distinguir-me do Porto. Seria capaz de dizer "o Porto", seria capaz de dizer "eu", mas apenas o faria por preguiça analítica, por mecanismo desonesto de esquematização. Essa mentira seria fácil de desmascarar em cada palavra dita, escrita, em cada silêncio, porque se eu articulasse um som mínimo, seria o Porto que o estaria a dizer; se eu escrevesse uma letra, seria o Porto a escolhê-la; se eu permanecesse quieto, a olhar para a distância e a pensar em imagens de tempos passados, seria o Porto que existiria no meu lugar, a lembrar-se de dias, passados neste ou noutro século.


José Luís Peixoto, in Jornal de Letras (Dezembro 2010)

quinta-feira, 31 de março de 2011

poema 401 - a urgência


fotografia retirada da internet

nas urgências sofre-se.
passam batas brancas e azuis
anunciam-se alertas laranja
e servem-se sopas quentes
em tupperwares com tampa
que não destapam a dor
aquela mesma soletrada nas mãos do doente
agarrada aos ferros da maca
uma cama que não fala
mas sobe e desce
de acordo com a altura adequada.

nas urgências sofre-se.
não há qualquer poesia nas palavras
apenas disfarces nos olhares de mais audácia
e não há poesia alguma nas palavras
no corredor cheio de medos e marcas
pelas dores que não são nossas
mas passam -

José Ferreira 30 Março 2011

quarta-feira, 30 de março de 2011

o recorte da lua


Paul Gauguin " A Lua e a Terra " 1893

sem mesmo o saber escutou dentro da sua nudez
e perdeu os olhos na noite dos horizontes
onde o veludo azul recortava a lua
e vestia de palavras os silêncios

nunca mais foi o mesmo -

terça-feira, 29 de março de 2011

Muito pouca


Richard Avedon "Marylin Monroe e Arthur Miller"

a morte é uma coisa muito pouca
em nada se compara ao crescimento das constelações
a morte não respira nem se expande desde o centro
como fazem as estações desde o coração da terra

e assim eu sei que um sorriso é precioso
porque respira e alarga-se dentro dos olhos
e quando chega ao lugar em que a mão se abre
é já uma forma de sossego uma lua coberta de luar
um modo certo de trocar nomes em dias de excepção

Vasco Gato "Um mover de mão" Assírio & Alvim 2000

domingo, 27 de março de 2011

Fragmentos IV - Ternura


Marc Chagall "Enchantement"

Ternura. Prazer, mas também a valoração inquietante dos gestos ternos do objecto amado, na medida em que o sujeito compreende que não tem o privilégio


1. Não é apenas a necessidade de ternura, é também a necessidade de ser terno para com o outro: fechamo-nos numa bondade mútua, somos reciprocamente maternais; regressamos à raiz de toda a relação, aí onde a necessidade e o desejo se confundem. O gesto terno diz: pede-me seja o que for que que possa adormecer o teu corpo, mas não te esqueças também que te desejo um pouco, ligeiramente, sem nada querer para mim imediatamente.

Roland Barthes "Fragmentos de um discurso amoroso"