domingo, 26 de dezembro de 2010

Presépio


Jesús de Perceval "A carícia" 1940


Tu nascias todos os anos
Nas palhinhas das bolas de sabão,
Que eu cortava à "garçonne"
Como as franjas do meu cabelo.
E na gruta, que o musgo prendia e
atapetava.
Se tornavam palhinhas manjedouras.
Era para mim um mistério
Que, pela Páscoa, frequentemente em
Abril
E, às vezes, até em Março,
Pudessem crucificar-te, adulto,
E expor, solenemente o teu corpo morto,
Nunca enterrado, pela ruas da
cidadezinha.
Como puderas crescer tão depressa?
E que crimes tinhas cometido?

Luísa Dacosta

(Este poema foi enviado pela Teresa Almeida Pinto a quem agradeço a partilha)

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Morte em Veneza



Que rara realeza nos possuía, no exacto momento em que atravessávamos a Piazza San Marco, indecifravelmente e a pé, na inexplicável folia de quem detém e ostenta o edema da essência na precocidade dos caminhos, numa cidade coberta de arte extraterrestre, ao fim e ao cabo fotografias de espelhos e labirintos (não necessariamente por esta ordem e ritmo, causa ou consequência), recessos onde uma fonte nos falava alto e abertamente do tempo inadquirido, como só uma ferida aberta na consciência pudesse esse perfume obter?
Entrávamos assim na História Imaterial de Veneza (HIV positivo), na proporção de fantasmas de gesso e atavios, para provar dessa inaquisição total, dessa pobreza veloz e autêntica que é ser patético, com o ar de quem está a ser, de facto, muito feliz.
“Olha, mamã, são seres do planeta Prestígio!”, pudemos ouvir entre as arcadas uma criança dizer. Mais tarde, abordou-nos um casal apaixonado que queria que lhe lêssemos o destino. Mais tarde ainda, a chuva perspicaz no modo como negociava com as transparências na face do teu sigilo, uma vez arrombado o arcanjo e violado a impostura da cosmética correlativa, exposto o teu púbis aos Verões insociáveis do meu féretro.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

feliz natal

lado a lado e em frente


Cartier Bresson


nem sempre as palavras dos versos
reflectem subtilezas e argumentos
são no entanto as nossas claridades
luta de palavras, tempestades
luminosidades abruptas
o azul e o escuro
cenas quotidianas ou de absurdo
por vezes uma queda brusca
uma descida plana a um nível mais humano
ou a subida aos céus de Júpiter e Saturno
de vez em quando um olhar gasto de inverno
e do mesmo modo um despertar de primavera
mas sempre um caminhar persuasivo e insistente
lado a lado e em frente
por espaços mais abertos, transcendentes

e podemos voar e podemos ser aves
mariposas ou teclas brancas
e ainda resguardados nos dedos dos deuses
um mar calmo, um prado verde
uma nuvem de surpresas
mas sempre sempre
lado a lado e em frente -

Elegia Nuclear

Os teus olhos são um duplo-poço onde mergulho e nado,
tal como o sol afundo-me neles, nasci antes da criação da rede,
quando os vários faxes das redacções dos jornais europeus emitiam um ´
barulho ancestral para comunicar a explosão de um reactor, o sol mergulha nos teus olhos, a terra quente aquece os teus pés, perco-me em ti,
nos teus olhos que vejo de uma perspectiva múltipla, irmã da memória e da sedução,
ver tudo ter fome de ver, virar páginas com força, o vento? O bater de uma porta? Os homens por trás dela. Atiraste os dados e saiu a vida, e atiraste os dados e saiu a Vida: Adoro-te, o mesmo pode ser dito em outros dialectos, em outras linguagens, no som dos golfinhos, no acasalamento das baleias, nos sons submarinos de um Mahler que procura uma ametista – Mahler está no céu, Papini está no céu, Bataille está no céu, seja ele bem fundo ou bem elevado, a obra perdura, não se podem apagar as riscas, a melhor forma de conservar um passado indesejado fora do alcance, é criar um passado com riscas mais claras, nada se apaga, tudo se reconstrói, cria, traça, fala por cima, e isto já foi dito – o milagre não é uma laranja ser redonda, o milagre é as laranjas já serem esféricas, um paralítico, escorre-lhe azeite negro pelos beiços volta a cair no prato ou na babete, ou nas bordas das paredes do Universo, várias cores, resta-me a sinceridade e a saliva de todo o mundo, tenho sede de uma perspectiva múltipla, beijo-te o colo, os braços, as ancas, duas línguas entrelaçadas desde o fim da Etrúria, um abraço pré-hispânico em tudo moderno e contemporâneo da tempestade, repito-me, salto de textos para outros, escrevi sempre um mesmo texto, porque escolhes sempre motivos tão obsessivos, estrela contra estrela – na auto-estrada. Os braços apertados num abraço quente, a febre siamesa dos que aquecem, os braços entrelaçados num abraço quente, tudo o que aquece e acende, é múltiplo esse aquecer, mergulho e nada no duplo-poço, tal como Milton amo tudo quanto fluí e tenho pressa muita pressa de dizer tudo, de ficar com o palato preso numa única sílaba DAP DAH DAP DAH – Atravesso-te a bruços o peito, as ancas, a nuca, lambo-te as orelhas, e apareceu o Fernando Chinês, quer comprar haxixe, o Fernando Chinês com os seus olhitos em bico: Fomos de táxi ao Aleixo e na cave escura cheia de seringas no chão sentimonos como se tivéssemos inalado a Austrália toda, uma Austrália fluída e volátil, com um espelho no seu centro a reflectir cangurus e deserto vermelho para todas as direcções, a cada aspiração parecia que fumávamos não só um continente, mas a febre de todas as siamesas, os sonhos de todos os sósias, os cangurus dentro dos pulmões de vidro, os cangurus a reescreverem a história, expirámos, sentimos todos os nervos seguros, ele lê-me as cartas, diz-me que como escritor sou repetitivo e obsessivo. Tenho muitas imagens como a câmara escura, absorvo a luz do sol para tirar uma imagem perfeita, como se de uma grande angular, o acelerador de partículas está no meu pulso esquerdo, no meu pulso direito a tempestade, conto os minutos pelo tempo que o soro demora a entrar, um litro inteiro nas veias, tempo á deriva, tempo que se inscreve em aulas de dança de salão, com muitos braços, ele dança bem, duma ponta à outra da Austrália, há um duplo túnel que se bifurca várias vezes, nesses nós encontram-se homens que consertam relógios e meninos que tocam carrilhões suíços, no metro as pessoas passam depressa, os carrilhões continuam a tocar, um ou outro anjo passa também, com os seus dentes cariados à procura de uma sensação de um todo, ajuda-os a mudar o carrilhão. Aqueço-me à escala humana, a mais perigosa e maior, deserto líquido a entrar por ti dentro: Adoro-te.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Trago o Natal no fundo do olhar


Cartier Bresson


Trago o Natal no fundo do olhar
Esse tempo em que a alegria
Era um lugar de crença seguro
E protector e os doces o calor
Da ternura que a casa oferecia.

Trago o Natal no fundo do olhar
Esse tempo a correr pela cidade
[Evocando o amor e a fraternidade
E esquecendo o frio e a dor]
– Agora, desumanidade e elegia.

Trago o Natal no fundo do olhar
Esse tempo que foi simplicidade
E em que eu acreditei num mar
De gestos que eram então realidade.
Hoje, o Natal é apenas utopia –

Promessa à espera da alegria
Aqui tão perto e no Mundo inteiro.
A Fome e a Guerra são no entanto
Ameaça séria e duradoura, um pranto.
Não há ouro que baste aos senhores!

Trago o Natal no fundo do olhar –
Natal, 2010
José Almeida da Silva

a canção de natal


Sebastião Salgado



madrugada
quando alguém bateu à porta
o ponto final no sonho.

duas gotas corriam por sobre a pele, lentas
descendo as têmporas como se sabendo
as razões escondidas.

a preto e branco uma ponte de barcos sobre um rio
dois salgueiros em várias cores de cinzentos
duas figueiras sem figos doces.

outros tempos de há muito tempo
quando os leitos mais pequenos, por volta da volta
das borboletas, molhavam as raízes ainda verdes
das videiras de bagos a crescer, cheios de sede.

era uma tarde morna junto das amoreiras
a melopeia chilreada dos pardais.

brincávamos às prendas
dois laços de ráfia, dois embrulhos de pedras de lousa negra
e depois imaginávamos
aqui te ofereço um anel de ouro
vindo dos desertos mais perigosos da Virgínia.
aqui te entrego um tecido de seda, da china mais profunda;
sete meses de viagem pelas neves brancas, pelos lugares dos pés apertados.

o ceremonial, a humildade ingénua de uma cabeça baixa e um sorriso tisnado
os pés lavados nos pós secos do largo apagando e escrevendo mensagens.

o teu vestido um pouco manchado repleto de amoras
os dedos eram não muito finos, compridos e traziam almofadas
usavas duas tranças de índia que sorriam
eu tinha o cabelo espetado e joelhos riscados
calções de alças
e de vez em quando as mãos
dividiam dez azeitonas e um pouco de pão.

lembrei o sonho e as duas gotas que não sabia como.

no natal seguinte partiste para Helsínquia -

durante o sonho, um rosto sem rosto de cabelos lisos
cantava um jingle bells em sotaque estranho

e trazia o mesmo vestido -

E U T A N Á S I A

Texto poético com base em Poema com o mesmo título:

Após prolongada enfermidade foste herói, e nós fomos sempre teus bons e abnegados amigos. Quisera a tua maléfica sorte que em Dezembro de 2008 tivesses que optar pela vida, e assim espalhando coragem e glória voltaste a ser um animal simpático, em simultâneo cordato e orgulhosamente adaptado à ausência parcial de um membro. Aceitaste e integraste com galhardia o uso do aparelho protésico, como se fosse um verdadeiro prémio pelo teu comportamento.

Ensináste-nos que também no vosso mundo a vida é feita de combate e de exemplos de luta. Mas porque a vil senectude não perdoa, na proximidade dos teus onze anos e meio foste invadido pela cobarde degenerescência artrósica que os músculos te atrofiou, esqueletizando-te as ancas e as coxas, impossibilitando-te a assumpção voluntária da postura quadrúpede de que tanto necessitavas para teus pequenos mas maviosos deleites.

Ela infernizou-te a marcha e então decidiste ter teu fim optando agora por não viver!
Olhavas os nossos olhos suplicando entreajuda em busca da nossa cumplicidade no sentido do teu caminho para um breve mas vital passeio. Não gemias, nem tinhas esgares.

Nós compreendemos o teu silêncio e fomos de encontro ao teu pedido de tranquilidade e derradeiro sossego: demos-te toda a paz que querias ter, e agora vives em nossas mentes sob enormes saudades, meu lindo rotweiller! Teu nome Dundee prevalecerá na penumbra de uma videira ao fundo do pomar, por onde tanto brincaste e fatigado repousavas sem de nós afastar teu olhar quase humano por tão afável e carente.

A vida pertenceu-te e soubeste espalhar "autoridade", mas também uma contagiante dignidade que te acompanhou até tua térrea morada, onde agora tua imagem vive envolta naquela manta branca que nos últimos dias de dôr (para nós) tanto te protegeu e em silêncio acarinhou. Sobre tua campa rasa, quero que saibas, ainda permanece um pequeno vaso florido desde o dia em que te sepultamos...

(António Pinto de Oliveira, Outubro - 2010)
- Livro " Poemas de Vidas " , a publicar em 2010/2011

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Alexandre Bloom



Alexandre Bloom é um grande coleccionador de despedidas. Começou por sentir um prazer rasante, porém incerto, perto da palavra adeus no dia 23 de Outubro de 1955, enquanto se despedia do senhor da loja de ferragens epónima – Augusto Kunh –, onde costumava entrar regularmente, apenas para pousar os cotovelos no balcão de madeira e sentir, com os dedos polegar e indicador unidos, aquilo que ele acreditava ser o idioma débil do serrim.
Nesse dia, contudo, ao despedir-se tranquilamente do senhor Augusto Kunh como de costume, Alexandre Bloom sentiu o tal formigueiro nas imediações da palavra adeus mal a proferiu, como se de dentro da palavra adeus chegassem agora aos seus ouvidos os ruídos abafados de uma festa semi-clandestina, como se as portas blindadas da palavra adeus não fossem suficientes para insonorizar o barulho ensurdecedor dessa festa, para a qual – propôs Bloom – todos os convidados deveriam atender ao dress code e levar vestido alguma peça de roupa trágica e imaterial.
Apesar de todos os esforços para entrar na festa que se prolongou durante toda a noite de 23 para 24 de Outubro de 1955 na palavra adeus, Alexandre Bloom nunca conseguiu distinguir muito bem de onde é que vinha o tal barulho e acabou por não encontrar a entrada de emergência da festa, embora tivesse ao longe ouvido os distúrbios causados pela música alta dentro do seu desejo de a possuir.
No dia seguinte, Bloom voltou à loja de ferragens de Kunh só para poder despedir-se dele (“Olá, Senhor Kuhn; adeus, Senhor Kuhn”) e, com isso, accionar a festa (para a qual nunca resgatou nenhuma possibilidade de convite), e deixou definitivamente de lado a história do serrim.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

HOMEM NO ARAME - POEMA - SYLVIA BEIRUTE

















HOMEM NO ARAME

O essencial é delinear movimentos no céu. Movimentos
tão silenciosos que não deixem traço. O mais importante é a simplicidade.
É por isso que o longo caminho para a perfeição é horizontal.
..............Philippe Petit

e ele tenta incomodar a inexistência.
o nada lá em baixo. o ninguém de tempo
solto e explicações ofídicas.
a pessoa certa está por cima das nuvens.
como se se pusesse longe.
como se escondesse o medo.
como se se escondesse do medo.
e o arame da voz nos pés. o arame da voz
é agora cada coisa, cada janela aberta para
um sono de letras que desorbita
o queixo do mundo. o queixo
na forma de uma desforma do mundo
que lê marx e leminski, conhece
antíteses terapêuticas, predomínios
estranhos no desejo de um corpo de lugares.
e ele continua connosco. philippe
petit entre as torres gémeas, incomodando
a inexistência, sorrindo sobre a saudação
do coro, escamas de palavras que o orgulham
e cegam.

Sylvia Beirute
publicado no blogue "uma casa em beirute"
.

microgramas de azul sobre o frio - um poema de natal


Fotografia retirada da internet


o oceano azul e o céu azul.
procuro olhar a definição da cor que dizem fria
a cor que não tem tempo para a boca dos humanos
os que inventaram a escrita

procuro olhar a cor máxima de infinitos
o plâncton dos mares as nuvens na planície
a cor calma e pacífica
apesar da guerra dor e fome
e como mata a fome e como corta a fome
sem privilégios de natal todos os dias

procuro olhar o azul do burburinho
as canções que ressuscitam Lennon
e a anarquia dos sentidos
os coros angelinos nas vestes brancas
as iluminadas ruas da crise
procuro olhar todos os olhos
que apesar de alegres, tristes

procuro olhar o azul, a cor preferida
o lugar magnífico da utopia

e não interessa, não interessa mesmo
se é de anjo ou de bandido
a mão que traz o pão
que tira a fome
que tira a dor
que tira o céu escuro
no segundo mais importante do alívio

ética, demagogia, democracia
uma fila ordenada de filosofias
palavras, apenas palavras para um estômago vazio
sem a estrela iluminada, sem os reis magos
migalhas mínimas, um pó de sonhos

e algumas microgramas sobre o frio
no futuro dos dias -

domingo, 19 de dezembro de 2010

Miguel Torga - Um conto de natal


Hiro Yamagata "A fogueira na neve" 1983


De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis para se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe de mais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser – e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre-nosso. Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam... Lá se tinha fé na oração, isso era outra conversa. As boas acções são que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino! Mas, enfim... Segue-se que só dando ao canelo por muito largo conseguia viver.

E ali vinha de mais uma dessas romarias, bem escusadas se o mundo fosse de outra maneira. Muito embora trouxesse dez reis no bolso e o bornal cheio, o certo é que já lhe custava arrastar as pernas. Derreadinho! Podia, realmente, ter ficado em Loivos. Dormia, e no dia seguinte, de manhãzinha, punha-se a caminho. Mas quê! Metera-se-lhe na cabeça consoar à manjedoira nativa... E a verdade é que nem casa nem família o esperavam. Todo o calor possível seria o do forno do povo, permanentemente escancarado à pobreza.

Em todo o caso sempre era passar a noite santa debaixo de telhas conhecidas, na modorra de um borralho de estevas e giestas familiares, a respirar o perfume a pão fresco da última cozedura... Essa regalia ao menos dava-a Lourosa aos desamparados. Encher-lhes a barriga, não. Agora albergar o corpo e matar o sono naquele santuário colectivo da fome, podiam. O problema estava em chegar lá. O raio da serra nunca mais acabava, e sentia-se cansado. Setenta e cinco anos, parecendo que não, é um grande carrego. Ainda por cima atrasara-se na jornada em Feitais. Dera uma volta ao lugarejo, as bichas pegaram, a coisa começou a render, e esqueceu-se das horas. Quando foi a dar conta passava das quatro. E, como anoitecia cedo não havia outro remédio senão ir agora a mata-cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar! Pela amostra, parecia coisa ligeira. Mas vamos ao caso que pegasse a valer? Bem, um pobre já está acostumado a quantas tropelias a sorte quer. Ele então, se fosse a queixar-se! Cada desconsideração do destino! Valia-lhe o bom feitio. Viesse o que viesse, recebia tudo com a mesma cara. Aborrecer-se para quê?! Não lucrava nada! Chamavam-lhe filósofo... Areias, queriam dizer. Importava-se lá.

E caía, o algodão em rama! Caía, sim senhor! Bonito! Felizmente que a Senhora dos Prazeres ficava perto. Se a brincadeira continuasse, olha, dormia no cabido! O que é, sendo assim, adeus noite de Natal em Lourosa...

Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama!

Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.

Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiu-se, e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento, ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.

Vá lá! Do mal, o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se dentro. Assunto a resolver na ocasião devida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.

Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois de um clarão animador, apagou-se. Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos é que não.

Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel.

Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao céu por aquela ajuda, olhou o altar.

Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe. Boas festas! — desejou-lhe então, a sorrir também. Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se e deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo.

Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava?

Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra e sentou-se. Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência, ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda. É servida?

A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.

E o Garrinchas, diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se ao altar, pegou na imagem e trouxe-a para junto da fogueira.

— Consoamos aqui os três — disse, com a pureza e a ironia de um patriarca. — A Senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.

Miguel Torga

sábado, 18 de dezembro de 2010

a asa o anjo um remo sem barco - um poema de natal


Henri Cartier-Bresson


sabes, não posso esquecer os anjos
suaves, como os céus desconhecidos
onde planam límpidos -

eram cinco horas da tarde e a sombra acinzentava
a claridade dos basaltos.
muitas eram , muitos eram e em muitos passos
na feira de utilidades.
usava aqueles óculos de tartaruga de muitos anos
de lentes castanhas e passeava sozinho
com a calma de ser sábado.

muitos ombros, muitos olhares
entre os foles das máquinas, as canetas de aparo
os livros já antigos, e até um cachimbo
na sua pose sentada de um remo sem barco.

um intervalo, sim um intervalo, porque fruto do acaso
apenas passava da mesma forma que um certo vento
e a luz de uma sirene azul, à frente
naquele lugar, que se tornava livre e convidava
a um intervalo, um intervalo por acaso
como aquela asa por acaso
uma simples asa de barro, frágil, sem o esmaltado.

ainda perguntei, mas ninguém… limitavam o passo
e mesmo sem compreender, avançavam
avançavam como relógios cronometrados.

a asa branca com aqueles redondos de um lado
na forma de boomerang, a asa.
perdi-me no instante poético de um sinal
um símbolo, a época especial
uma asa, uma asa de um anjo
de lá de cima.

comovi-me com a imagem, um anjo no ar suspenso
deixando cair espírito para se tornar no pequeno barro
e sabes, se naquele momento por ali passasses
colocaria uma mão aberta sobre o teu rosto
e com o outro braço em forma de asa
assim de repente, abraçava-te -

depois passeava os dedos pelos teus cabelos
assim abertos, assim separados
e voltava ao rosto suave com a palma
e sem mais nada, mesmo sem palavras
abraçava-te, abraçava-te -

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Nota 4



Marc Chagall "Promenade"

Se tu amas por causa da beleza, então não me ames!
Ama o Sol que tem cabelos doirados!

Se tu amas por causa da juventude, então não me ames!
Ama a Primavera que fica nova todos os anos!

Se tu amas por causa dos tesouros, então não me ames!
Ama a Mulher do Mar: ela tem muitas pérolas claras!

Se tu amas por causa da inteligência, então não me
ames!
Ama Isaac Newton: ele escreveu os Princípios Matemáticos da Filosofia Natural!

Mas se tu amas por causa do amor, então sim, ama-me!
Ama-me sempre: amo-te para sempre!

Adília Lopes

sabes


Renée Magritte


sabes, não pretendo ser chato
nem bordar todos os dias as malhas gasosas
a filosofia, aquela procura infinita
a realidade de nada ser e uma possibilidade de
um dia, algum dia, fazer parte de uma alínea
de um tratado de fórmulas científicas
se y igual a n e x variável dentro de z .

mas sabes, não pretendo ser chato
andar de roda de um círculo
e dizer que, tudo de novo, nada é
daquilo que podia ter sido
e sendo assim, será diferente, do mesmo
do mesmo de outro dia.

sabes, não pretendo ser chato
portanto, pouso os versos no prato
tempero, corto, recorto, e acrescento
depois aprecio o aspecto de um instante
deixo arrefecer, de quentes vapores
e protejo, com película aderente -

ah, não pretendo ser chato
mas, como sabes, os versos, são setas
impacientes, e sinto a dúvida se depois de frios
o efeito, mesmo o sentido… ponho-me a pensar…
e cai-me em cima o Platão, de vestes brancas
e a caverna, a luz, o perigo das sombras
a alegoria -

e lá volta de novo a filosofia -