quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A Perenidade das vírgula - JLP e Saramago


Fotografia retirada da internet


Procuro o que aprendi entre o que sei.

Conheci José Saramago em Outubro de 2001 no instante em que recebi o prémio com o seu nome. Ele era um homem mais alto do que imaginava. Eu tinha comprado um fato e uma gravata para a ocasião e, no mês anterior, tinha feito vinte e sete anos. Tirámos fotografias juntos, jantámos. As imagens que guardo desse dia misturam-se umas com as outras, confundo-me ao recordar esse dia. Sei que, mais tarde, à noite, ainda de fato, fiquei sentado no meu carro a tentar organizar na cabeça o que me tinha acontecido. Dois dias depois, estava na Feira do Livro de Frankfurt.

Ao longo destes nove anos, tive muita oportunidade de conversar com José Saramago. Encontrámo-nos em vários lugares do mundo, onde ele era sempre seguido por multidões, e encontrámo-nos em Portugal, em momentos escolhidos por ele. Em 2003, num programa de televisão em que estivemos juntos, para toda a gente ouvir, disse muito daquilo que, então, me dizia. No dia em que foram assinados os papéis da Fundação José Saramago, na sua casa de Lisboa, em 2007, só para eu ouvir, chamou-me à parte e disse-me palavras que não esqueço sobre aquilo que escrevia. Creio que fui capaz de, à minha maneira, aprender essas palavras.

Em Dezembro de 2008, recebi um convite para participar numa celebração do décimo aniversário do seu Prémio Nobel. Pediram-me que lesse um excerto da obra de Soeiro Pereira Gomes. Eu, numa homenagem ao José Saramago, a ler Soeiro Pereira Gomes, como poderia recusar? Escolhi uma parte do final de Esteiros. Depois, quando encontrámos tempo para conversar, disse-lhe: havemos de estar aqui, daqui a dez anos, a celebrar o vigésimo aniversário do Nobel. Ele, que tinha ultrapassado problemas graves de saúde, sorriu-me.

Para além destes encontros mais formais, os fatos que eu usava às vezes e que ele usava quase sempre, guardo outros. São meus. Os nossos encontros eram salpicados no tempo e, como vírgulas, pontuavam qualquer coisa. Passaram dez anos sobre a data em que publiquei o meu primeiro livro e agora, neste momento, parece-me que esses encontros com José Saramago foram pilares invisíveis desse tempo. Há os livros, os deles e os meus. Não falo nem de uns nem de outros porque esses não se perderam, continuam onde sempre estiveram. O que se perdeu foi um homem que respirava pensamentos. O que não se perdeu e não se perde é o que fomos capazes de aprender com ele, o que continuamos a saber.

José Luís Peixoto
(Publicado na revista Ler, em Julho de 2010)

Garras dos sentidos - a ironia e o desafio de Agustina


Fotografia retirada da internet


Não quero cantar amores,
Amores são passos perdidos.
São frios raios solares,
Verdes garras dos sentidos.

São cavalos corredores
Com asas de ferro e chumbo,
Caídos nas águas fundas.
Não quero cantar amores.

paraísos proibidos,
contentamentos injustos,
Feliz adversidade,
Amores são passos perdidos.

São demência dos olhares,
Alegre festa de pranto,
São furor obediente,
São frios raios solares.

Da má sorte defendidos
Os homens de bom juízo
Têm nas mãos prodigiosas
Verdes garras dos sentidos.

Não quero cantar amores
Nem falar dos seus motivos.

Agustina Bessa-Luís

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

o sol de inverno


Edward Hooper "Gente ao sol" 1960


os raios brotam como ramos doces, objectivos.
de poucas folhas sobre o rosto
abrem o momento esperado de um calor
um abraço indirecto, um xaile transparente
que anima o quadro de uma rua em movimento.
suave e invisível afecto, por sobre a testa
dedos de ar sobre os ombros, um puxar de orelhas risonho
um círculo quente na roda de uma maçã ascendente
à volta do queixo branco e de pontos minúsculos
cinzentos -

o sol de inverno tem o não lugar, a existência sem ser vida
assim como aquela montra tem revistas
aquela porta é alta e azul, e a igreja está fechada -

o sol de inverno é absoluto no paradigma, de transcendência.
em cada mícron do segundo tem, em todos e ao mesmo tempo
o grão puro do espírito que atravessa o espaço e domina o mundo

o sol de inverno passeia pela rua e não comunica
nem precisa -

Reportagem


Egon Schiele " A pequena cidade" 1916

Aborrecido, passeio
Pelas ruas da cidade.
Deixei agora o Rossio
E atravesso o Borratém.
Deu meia-noite pausada
No Carmo. Um amigo meu
Passa e tira-me o chapéu.
Paro a uma esquina. Esmoreço
Numa saudade que surge
Dentro de mim não sei como:
Uma saudade infinita,
Misto de choro e revolta.
Alguém me chama no escuro:
Volto a cabeça. A uma porta
Um vulto mexe. - Sou eu!,
Não fuja, sou eu... - Mas quem?
Retrocedo, não conheço
A mulher que me chamou.
Na verdade ninguém ouve,
Ninguém distingue o apelo
Do amor que anda perdido
No mistério de mentir:
Deixo-a ficar onde estava;
Dou-lhe um cigarro e um sorriso
Dizendo que vou dormir.
Atira-me boa-noite
Num frio olhar de ofendida.
Meto à rua do Amparo
A perguntar se esta vida
Não terá finalidade
Menos sórdida e banal?
Atafonas. Uma Igreja.
Mais acima o Hospital.
Um marinheiro propõe
A esta que atravessou
A rua do Benformoso
Irem tomar qualquer coisa
Na Leitaria da Guia.
Ela pára. É uma catraia
Que talvez não tenha ainda
Dezasseis anos. Bonita.
Devagar vou-me chegando
Xaile, uma blusa, uma saia...
E oiço a fala dos dois.
Ele parece uma onda,
Impetuoso, alagante.
Ela é um breve bandó
Num corpito provocante.
E seguem... Ele, encostado,
Muito encostado e aquecido
Lá vai como se encontrasse
Um objecto perdido
Que foi milagre encontrá-lo...
Cortaram além!... E param?
Oiço o rebate de um estalo
E um grito subtil de prece
Amedrontada na fuga...
Desço ao Marquês do Alegrete.
Um candeeiro sinistro
Numa casa que se aluga...
Vejo um polícia. Arrefece.
Um grupo de três sujeitos
Discute o vinho de Torres.
Varrem as ruas. Um gato
Bebe água numa sarjeta;
Uma carroça parou
Carregada de hortaliça
Junto à Praça da Figueira.
Corto a rua dos Fanqueiros
Já um pouco estropiado...
Acendo um cigarro. A noite
Lembra um fantasma assustado...
Chego ao Terreiro do Paço.
O arco da rua Augusta
Parece mais imponente
Na minha desolação...
Vou até ao cais. Em baixo
O rio bate sem reacção...
A maré vasa. No céu,
Vão-se apagando as estrelas.
Um guarda-fiscal dormita
Na guarita, mas de pé.
Um velhote com um cesto
E uma lata vem dizer-me
Se eu quero beber café.
Num banco de pedra. Cismo.
E ali me fico a cismar
Em coisa nenhuma... O dia
Principia a querer ser
Mais um passo na incerteza
Das nossas aspirações...
As águas do rio a escutar
Parecem adormecidas...
E o dia nasce! Vem triste,
Nublado, fosco, cinzento,
Enquanto pela cidade
A vida acorda e desata
O matinal movimento

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

de que forma se pode lançar uma semente


Robert Doisneau


de que forma se pode lançar uma semente
para que cresça, sem a intempérie do tempo?

pelo amanhecer longínquo colhi um ramo de pinheiro
manso, de pequenas agulhas, verdes de um rosto
brancas no outro. O aroma era imenso
não doce nem sidra de acidulada fruta
mas uma permanência suave de uma floresta
distante e escondida.

pelo amanhecer longínquo colhi um ramo de eucalipto
não o de folhas compridas e largas fazendo lembrar espadas
mas um outro, de redondas e pequenas, simples círculos.
também o aroma era pleno, mais ácido e penetrante;
os pulmões frescos subiam a âncora, desciam o rio
na impulsão inquestionável do perigo, a rugosidade
áspera no leito liso, tão difícil de descobrir.

pelo amanhecer longínquo, julgo que foi em Abril
subi a encosta íngreme para encontrar a proximidade do azul
o lugar para lá das nuvens onde dormiam as palavras aves
lançadas ainda mal acordadas sobre o abismo
onde o ar era muito
e sendo assim, talvez abrindo as asas
no inato, nos genes adquiridos, sobreviventes
vivas como os cronómetros infinitos.

pelo amanhecer longínquo acordei numa praia
como um sonho inacabado, de chinelos e pijama às riscas
lembrando tudo, o pinheiro manso, as folhas de eucalipto
o barco deslizante, a montanha
as palavras aves sobrevoando indefinidas -

e um mar, um mar na sua constância de sal
qual mistura ácida na substância alcalina
perguntando sempre, à leveza das ondas
à sua dimensão mais branca, de que forma?

de que forma se pode lançar uma semente
para que cresça, sem a intempérie do tempo?

Quero definir-te o que é este sentimento


Charles Dermuth "Love" 1928


Quero definir-te o que é este sentimento:
o que pertence à esfera daquilo que a razão
não domina, ou simplesmente nasce da noite,
e de tudo o que a envolve. Falo de uma
íntima relação entre os seres, de emoções
que se transmitem para além de palavras e
conceitos, de um encontro de corpos na
esfera do segredo. Dir-me-ás: "Para que
precisas de uma explicação para o amor?"
Mas é a sua inutilidade que me interessa;
a dádiva, o simples dizer que as coisas são
assim porque são, e para além disso tudo
se complica. Podes, então, rir do que te
digo; ou simplesmente dizer-me que as
palavras nada substituem, e que tudo o que
elas nos dão está a mais. Mas o amor
pertence-nos. Não o podemos deitar fora;
nem fingir que não existe, como não existe
o infinito, a transcendência, a abstracção
divina, para quem só crê no concreto. É
verdade que o amor não se vê: o que vejo
são os teus olhos, a ternura súbita das
suas pálpebras, e o que elas abrem e
escondem numa hesitação de luz. Eis, então,
o que define este sentimento: um intervalo,
uma distracção do tempo, a divina abstracção
do infinito na transcendência do real.



Nuno Júdice

domingo, 12 de dezembro de 2010

Sabina Fields



Não é fácil falar de Sabina Fields. Ela apareceu numa manhã de Inverno de 1997. E a partir desse dia não mais descansou. Sabina é, de facto, um fantasma muito influente, talvez mesmo um dos meus melhores fantasmas, se exceptuarmos todos aqueles que se instituíram.
Lembro-me perfeitamente da noite desta fotografia: era uma noite varrida pelas intermitências da chuva fina que caia diante de uma luz mesquinha e incongruente, uma noite onde o nevoeiro tinha descido mais cedo sobre a cidade parcialmente abduzida, como se o tempo tivesse sido contratado por amantes ou assassinos, que ofuscassem a ordem com as costas das mãos da sua lei. A lua tinha o perfume das antevésperas e a tua pele cantava o seu retrato contíguo. Sabina sabia que vestia um vestido preto, muito curto, e que o vestido se afeiçoava aos seus contornos como ninguém, e que os seus contornos mordiam os meus olhos como serpentes sem paz nem domicílio, e que o seu corpo branco e indigno era como a mais bela nação inimiga de sempre, e que a sua ágil rendição de leite vulcânico, luvas negras e boquilha longínqua, não tinha tradução na minha língua tradicional, veiculados já os sinais exteriores de infecção e riqueza, como que para perturbar todos os emblemas terrestres, dir-se-ia mesmo para desmembrar todas as antigas rotinas e feitorias, na sua mais tenra espessura trágica e experiente.
A fotografia marca um momento em que, logo depois de descalça e levemente meditativa, Sabina acende um cigarro na ponta longínqua da sua boquilha e olha com a obliquidade máxima dos seus olhos para mim, que a pretendo convencer para a eternidade do meu erro. Tínhamos feito amor pela primeira vez, depois de termos seguido todas as pistas que nos obrigaram até ali: e ali era o seu quarto confortável e descortês, as suas próprias pistas, restos de preservativos que falharam por segundos ou milímetros ou mistério, elementos básicos de cenografia, curiosidades, pequenos detritos, e a pose mimética do gato Azahar, que parecia actuar mais como uma peça do mobiliário ambíguo do que como uma fonte fechada de perspicácia moderna.
Tinha 22 anos. E o vírus de Sabina Fields.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Liu Xiaobo - Não tenho inimigos



NÃO TENHO INIMIGOS: A MINHA ÚLTIMA DECLARAÇÃO
(EXCERTO)

cumpro a minha sentença numa prisão tangível, enquanto tu esperas na prisão intangível do coração. o teu amor é a luz do sol que salta os altos muros e penetra as barras de ferro da janela da minha prisão, golpeando cada milímetro da minha pele, aquecendo todas as células do meu corpo, permitindo-me sempre manter a paz, a franqueza, o brilho no coração, e encher de significado cada minuto do meu tempo. o meu amor por ti, por outro lado, é tão cheio de remorsos e lamentos que me fez cambalear perante o seu peso. eu sou uma pedra insensata no deserto, chicoteada pelo vento violento e chuva torrencial tão fria que ninguém se atreve a tocar-me. mas o meu amor é sólido e afiado, capaz de perfurar qualquer obstáculo. e mesmo que eu fosse esmagado e me tornasse pó, eu ainda usaria as minhas cinzas para te abraçar.
.
Liu Xiaobo
tradução de Pedro Calouste

Retirei este excerto do blog da Sylvia Beirute (http://sylviabeirute.blogspot.com/2010/12/liu-xiaobo-poemas-poesia-analise.html#comment-form)no qual se pode também ler, um magnífico artigo e vários poemas do actual Prémio Nobel da Paz.

depois do dilúvio


William Turner "A manhã depois do dilúvio"

foi apenas a manhã escondida na brevidade nebulosa
aqui e ali um raio, um foco, no amarelo branco de sol
e a inércia de não conseguir mexer as pernas
aquelas pernas por dentro, os sentimentos
desentendidos a assobiar no ar as melodias
querendo tudo dizer e depois tão calados -

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

E por vezes


Edward Hooper " Sol num quarto vazio" 1963

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos


David Mourão Ferreira "Matura Idade"

este desejo imenso de fazer nascer chocolates


Caspar Friedrich " Homem e mulher contemplando a lua" 1820


este desejo imenso de fazer nascer chocolates
o sabor intenso de um intervalo doce
como uma mão sobre o ombro, que acontece
no abraço natural, um grande aperto
que apague a mágoa, o momento incerto
e estreite os seios como margens
um rio ao longo da natureza
que desce até ao mar
a um lago sossegado
onde a lua e as estrelas -

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A invenção do amor


Javier Clavo "Amor" 1970


Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas
janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de apa-
relhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da
nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia
quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e
fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem e uma mulher um cartaz denuncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A policia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e nas avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique Antes
que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos

Chamem as tropas aquarteladas na província
Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da
defesa passiva
Todos Decrete-se a lei marcial com todas as consequências
O perigo justifica-o Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade

É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas


Fechem as escolas Sobretudo
protejam as crianças da contaminação
Uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste inex-
plicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem
razão
Aplicado no entanto Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicó-
logos
Ainda bem que se revelou a tempo Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros É absolutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que se fala no cartaz colado em todas as esquinas da
cidade

Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio das
normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas


Procurem os guardas dos antigos universos concentracionários
precisamos da sua experiência onde quer que se escondam
ao temor do castigo


Que todos estejam a postos Vigilância é a palavra de ordem
Atenção ao homem e à mulher de que se fala nos cartazes
À mais ligeira dúvida não hesitem denunciem
Telefonem a polícia ao comissariado ao Governo Civil
não precisam de dar o nome e a morada
e garante-se que nenhuma perseguição será movida
nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa


Organizem em cada bairro em cada rua em cada prédio
comissões de vigilância. Está em jogo a cidade
o país a civilização do ocidente
esse homem e essa mulher têm de ser presos
mesmo que para isso tenhamos de recorrer
às medidas mais drásticas

Por decisão governamental estão suspensas as liberdades
individuais
a inviolabilidade do domicílio a habeas corpus o sigilo da
correspondência
Em qualquer parte da cidade um homem e uma mullher
amam-se ilegalmente
espreitam a rua pelo intervalo das persianas
beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade nocturna
É preciso encontrá-los É indispensável descobri-los
Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater
É possível que cantem
Mas defendam-se de entender a sua voz Alguém que os
escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado
de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
Lhe lembravam a infância Campos verdes floridos
Água simples correndo A brisa nas montanhas

Foi condenado à morte é evidente É preciso evitar um mal
maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta

Impõe-se sistematizar as buscas Não vale a pena procurá-los
nos campos de futebol no silêncio das igrejas nas boîtes com
orquestra privativa
Não estarão nunca tu Procurem-nos nas ruas suburbanas
onde nada acontece


A identificação é fácil Onde estiverem estará também pou-
sado sobre a porta
um pássaro desconhecido e admirável
ou florirá na soleira a mancha vegetal de uma flor luminosa
Será então aí Engatilhem as armas invadam a casa disparem
à queima roupa
Um tiro no coração de cada um Vê-los-ão possivelmente
dissolver-se no ar Mas estará completo o esconjuro
e podereis voltar alegremente para junto dos filhos da
mulher

Mas ai de vos se sentirdes de súbito o desejo de deixar correr
o pranto
Quer dizer que fostes contagiados Que estais também per-
didos para nós
É preciso nesse caso ler coragem para desfechar na fronte
o tiro indispensável
Não há outra saída A cidade o exige



Se um homem de repente interromper as pesquisas
e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão
já sabeis o que tendes a fazer Matai-o Amigo irmão que seja
matai-o Mesmo que tenha comido á vossa mesa crescido a
vosso lado
matai-o Talvez que ao enquadrá-lo na mira da espingarda
os seus olhos vos fitem com sobre-humana náusea
e deslizem depois numa tristeza líquida
até ao fim da noite Evitai o apelo a prece derradeira
um só golpe mortal misericordioso basta
para impor o silêncio secreto e inviolável

Procuram a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do pais da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
una voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua
No inquérito oficial atónito afirmou
que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte
e caminhavam envoltos numa cortina de música
com gestos naturais alheios Crê-se
que situação vai atingir o climax
e a policia poderá cumprir o seu dever


Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
A voz do locutor definitiva nítida
Manchettes cor de sangue no rosto dos jornais

É PRECISO ENCONTRÁ-LOS
ANTES QUE SEJA TARDE

Já não basta o silêncio a espera conivente o medo inexplicado
a vida igual a sempre conversas de negócio
esperanças de emprego contrabando de drogas aluguer de
automóveis
Já não basta ficar frente ao copo vazio no café povoado
ou marinheiro em letra afogar a distância
no corpo sem mistério da prostituta anónima
Algures no labirinto da cidade um homem e uma mulher
amam-se espreitam a rua pelo intervalo das persianas
constroem com urgência o universo do amor
E é preciso encontrá-los E é preciso encontrá-los

Importa perguntar em que rua se escondem
em que lugar oculto permanecem resistem
sonham meses futuros continentes à espera


Em que sombra se apagam em que suave e cúmplice
abrigo fraternal deixam correr o tempo
de sentidos cerrados ao estrépito das armas
Que mãos desconhecidas apertam as suas
no silêncio do pressago da cidade inimiga


Onde quer que desfraldem o cântico sereno
rasgam densos limites entre o dia e a noite
E é preciso ir mais longe
destruir para sempre o pecado da infância
erguer muros de prisão em círculos fechados
impor a violência a tirania o ódio

Enquanto das esquinas escorre em letras enormes
a denúncia total do homem da mulher
que no bar em penumbra numa tarde de chuva
inventaram o amor com carácter de urgência

COMUNICADO GOVERNAMENTAL À IMPRENSA

Por diversas razões sabe-se que não deixaram a cidade
o nosso sistema policial é óptimo estão vigiadas todas as
saídas
encerramos o aeroporto patrulhamos os cais
há inspectores disfarçados em todas as gares de caminhos de
ferro


É na cidade que é preciso procurá-los
incansavelmente sem desfalecimentos
Uma tarefa para um milhão de habitantes
todos são necessários
todos são necessários
Não se preocupem com os gastos a Assembleia votou um
crédito especial
e o ministro das Finanças
tem já prontas as bases de um novo impulso de Salvação
Pública

Depois das seis da tarde é proibido circular
Avisa-se a população de que as forças da ordem
atirarão sem prevenir sobre quem quer que seja
depois daquela hora Esta madrugada por exemplo
uma patrulha da Guarda matou no Cais da Areia
um marinheiro grego que regressava ao seu navio
Quando chegaram junto dele acenou aos soldados
disse qualquer coisa em voz baixa e fechou os olhos e morreu
Tinha trinta anos e uma família à espera numa aldeia do
Peloponeso
O cônsul tomou conhecimento da ocorrência e aceitou as des¬-
culpas do Governo pelo engano comendo
Afinal tratava-se apenas de um marinheiro qualquer
Todos compreenderam que não era caso para um protesto
diplomático
e depois o homem e a mulher que a policia procura
representam um perigo para nós e para a Grécia
para todos os países do hemisfério ocidental
Valem bem o sacrifício de um marinheiro anónimo
que regressava ao seu navio depois da hora estabelecida
sujo insignificante e porventura bêbado



SEGUE-SE UM PROGRAMA DE MÚSICA DE DANÇA


Divirtam-se atordoem-se mas não esqueçam o homem e a
mulher escondidos em qualquer parte da cidade
Repete-se é indispensável encontrá-los
Um grupo de cidadãos de relevo ofereceu uma importante
recompensa
destinada a quem prestar informações que levem à captura
do casal fugitivo
Apela-se para o civismo de iodos os habitantes
A questão está posta É preciso resolvê-la
para que a vida reentre na normalidade habitual

Investigamos nos arquivos Nada consta
Era um homem como qualquer outro
com um emprego de trinta e oito horas semanais
cinema aos sábados à noite
domingos sem programa
e gosto pelos livros de ficção científica

Os vizinhos nunca notaram nada de especial
vinha cedo para casa
não linha televisão
Deitava-se sobre a cama logo após o jantar
e adormecia sem esforço

Não voltou ao emprego o quarto está fechado
Deixou em meio as «Crónicas Marcianas»
perdeu-se precipitadamente no labirinto da cidade
à saída do hotel numa tarde de chuva
O pouco que se sabe da mulher autoriza-nos a crer
que se trata de uma rapariga até aqui vulgar
Nenhum sinal característico nenhum hábito digno nota
Gostava dos gatos dizem Mas mesmo isso não é certo

Trabalhava numa fábrica de têxteis como secretária da
gerência
era bem paga e tinha semana inglesa
passava as férias na Costa da Caparica

Ninguém lhe conhecia uma aventura
Em quatro anos de emprego só faltou uma vez
quando o pai sofreu um colapso cardíaco
Não pedia empréstimos na Caixa Usava saia e blusa
e um impermeável vermelho no dia em que desapareceu


Esperam por ela em casa duas cartas de amigas
o último número de uma revista de modas
a boneca espanhola que lhe deram aos sete anos


Ficou provado que não se conheciam
Encontraram-se ocasionalmente num bar de hotel numa
tarde de chuva
sorriram inventaram o amor com carácter de urgência
mergulharam cantando no coração da cidade


Importa descobri-los onde quer que se escondam
antes que seja demasiado tarde
e o amor como um rio inunde as alamedas
praças becos calcadas quebrando nas esquinas


Já não podem escapar Foi tudo calculado
com rigores matemáticos Estabeleceu-se o cerco
A polícia e o exército estão a postos Prevê-se
para breve a captura do casal fugitivo



Mas um grito de esperança inconsequente vem
do fundo da noite envolver a cidade
au bout du chagrin une fenêtre ouverte
une fenêtre eclairée)


Daniel Filipe "A Invenção do Amor e Outros Poemas" , Presença, 1972

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

como explicar-te a noite sem corpo, o véu escuro


Gustave Caillebotte "Dia de chuva" 1877

como explicar-te a noite sem corpo, o véu escuro
o estado exausto que convoca as estrelas
de pulsos apertados, olhos de círio, pés líquidos
e uma música de liszt nos éteres dispersos;
as tuas mãos flutuantes nas cordas de um piano

perdoa-me o silêncio, esta lágrima de sonho
a gota impossível na muda garganta rubra
onde guardo seiscentas palavras e o musgo macio

perdoa-me, não me julgues -

quando nos cruzarmos numa esquina de Lisboa
desarmados pela hipnose das pupilas, conto-te
conto-te dos gladíolos, dos lírios, das tulipas decididas
e dos caminhos de asas hirtas em voos nocturnos
planando como auras desertas nestes rostos fugidios
onde as sombras são as linhas descontínuas -

conto-te, numa rua de Lisboa -

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Nocturnos


I

Há um inverno cansado nas copas extáticas
e as estrelas acendem-se de um vento alto
que azula o céu
de um azul que a noite vai roendo consigo

As grades, ao prolongarem-se por aí fora,
trazem-me um sinal contínuo de muro falso
e enferrujado.

As grades não apontariam nada,
se cada uma delas se prolongasse também
no voo completo de ambas as curvas da seta.


II

Cria-se da angústia uma cadeira para assistir à noite.

E a noite que é como alguém que desce,
cheio de confiança,
os degraus de uma escada própria interminável
— os degraus serão sempre os mesmos,
nunca haverá outros degraus no fundo.


III

Contaram-me, quando era pequeno,
a história de várias estrelas,
não a história dos nomes que têm e não conhecem
[por nós,
sim uma história em que eram estrelas,
verdadeiras estrelas nem pregadas no céu,


Muitas vezes, ouvir contar foi só:
estar de cabeça pousada no peitoril da janela
a vê-las tremeluzir...
e tornarem-se mais salientes com o escurecer.


Muitas vezes, foi só
aceitar o frio e fechar a janela
— e, em pequeno, não era eu quem a fechava.


IV

Aquelas estrelas desenham um quadrado mal feito.

Nas noites claras de mar imenso,
enquanto a proa ia ensinando às águas
o murmúrio para depois, ao longo do navio,
os mastros procuravam devagar o centro do quadrado.


Para baixo do centro havia três estrelas juntas.
Quando calhava passarem por entre duas,
repetiam todo o princípio
e vinham passar por entre as outras duas.


V

Já tudo escureceu;
contudo ainda resta algum dia
suspenso de onde veio a noite que chegou primeiro.
É de sempre este resto de dia
e acompanha-a pelo céu em busca das estrelas frágeis.
A noite, uma vez,
compreenderá que ele vem do mesmo lado que ela.

VI

Há um inverno nas copas extáticas
e as estrelas acenderam-se de um vento alto
que azulou o céu
de um azul que a noite foi roendo consigo.

VII

Cria-se da angústia uma cadeira para assistir à noite.


Jorge de Sena "Perseguição"

domingo, 5 de dezembro de 2010

Não: não digas nada


Paul Klee "Mulher a acordar" 1920

Não: não digas nada!
Supor o que dirá
A tua boca velada
É ouvi-lo já

É ouvi-lo melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das frases e dos dias.

És melhor do que tu.
Não digas nada: sê!
Graça do corpo nu
Que invisível se vê.

Fernando Pessoa 1931