domingo, 17 de outubro de 2010

impera o enigma nas páginas brancas do pensamento


Paul Klee "angelus novus" 1920

folhas secas anunciam o ruído na demorada estação, descalça
nos pés rugosos das árvores, em canteiros redondos, de pouco espaço .
nos passeios a permissão abandonada de castanhos e verdes desbotados
um fim de tarde, ruas estreitas, sombras, grandes –

passo a passo, por cima de vestes despidas durante o dia
que ramos sacodem em voo breve e nervoso, sem calma ;
as folhas caem sobre os quadrados repetidos
quinze centímetros, os quadrados repetidos –

é tarde, impera o enigma nas páginas brancas do pensamento
o frio avança, move-se sobre a garganta e as folhas cantam -

o outono abre o sabre sobre o corpo qual cortiça flutuante
golpeia a água de onde se soltam gotas, impulsivas e reconstruídas
na dimensão de resistência que sempre alcançam, a mesma forma;

limites infinitos e o oceano –

sábado, 16 de outubro de 2010

Ode à paz



Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,

Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!

Natália Correia

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

esta estranha surrealidade não tem nada de Breton




esta estranha surrealidade não tem nada de Breton
de Guillaume, a genialidade de Almada.
homens vulgares de palavras fáceis e actos regulares
de pecadores institucionais

não se compreende estes mortais que amealham
a benesse de serem lei e serem temporários
como lobisomens enformados de uivos
na noite escura e sem orgulho
de em duas metades, uma ser viva e articulada
e uma outra surreal e só cadáver –


(uma meditação de revolta não pela política mas por causa dos políticos)

Em comunhão com ninguém



Um convento fica longe da necessidade do mundo,
mas o amor fica ainda muito para lá do convento.
É como se não houvesse estradas para amar, ou pés
suficientemente descalços sobre as incandescências
da ausência,
e a reclusão no amor fizesse ela própria votos
de pobreza extrema,
escrevesse um diário da ingratidão
com o desmazelo,
e chegasse a uma fórmula de desviver
honestamente em comunhão com ninguém.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Quando me cansei de mentir a mim próprio


Van Gogh "A cadeira de Gauguin" 1988


Quando me cansei de mentir a mim próprio,
comecei a escrever um livro de poesia.

Foi há duas horas que decidi, mas foi há muito
mais tempo que comecei a cansar-me. O cansaço
é uma pele gradual como o outono. Pausa.

Pousa devagar sobre a carne, como as folhas
sobre a terra, e atravessa-a até aos ossos,
como as folhas atravessam a terra e tocam
os mortos e tornam-se férteis a seu lado.

A cidade continua nas ruas, as raparigas riem,
mas há um segredo que fermenta no silêncio.
São as palavras, livres, os livros por escrever,
aquilo que virá com as estações futuras.

Há sempre esperança no fundo das avenidas.
Mas há poças de água nos passeios. Há frio,
há cansaço, há duas horas que decidi, outono.

E o meu corpo não quer mentir, e aquilo que
não é o meu corpo, o tempo, sabe que
tenho muitos poemas para escrever.

(José Luís Peixoto, in "Gaveta de Papéis"/ Edições Quasi)

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

sim - de um e de outro lado do sentido


Max Ernst "Vox Angelica" 1965


sim, sem a contrariedade de um mal formado vento
afirma-se o tempo elíptico, o irregular diâmetro
o círculo incompleto;

vejo no fundo dos teus olhos a dinâmica da íris
a cor clara e líquida que transporta os mundos
e um pêndulo de arames, gigante
que oscila de encontro à névoa, sem ruído
oscila, e oscila, e oscila, mudo;
não ganha a forma breve do desvario
nem o discurso de um tempo exacto e límpido
surge de um e de outro lado
de um e de outro lado do sentido, o pêndulo
oscila, e protege e solta e larga e observa
e prende e imana como espada e como escudo

de um refúgio recíproco e dádiva azul –

Poetria/ Café Progresso

do urubu e da gaivota

a dele deitava-se negra


e desistia do ar devagar


a dela tremia de espuma


ao ângulo de um outro quebrar


e sem que as árvores os vissem


trocaram em asas caladas


a terra pelo mar

terça-feira, 12 de outubro de 2010

perguntou porque a palavra saiu destituída de sonho




duas vezes repetiu a palavra, real e objectiva
para que não mais caíssem linhas cortadas, águas
de gravidade, sem transparência, sem limpidez
sobre a boca de terra húmida e fértil.

decidida e triste virou o olhar, ferida
contrária ao que supunha escrito.
não gostou, achou vulgar, perguntou porque
antes e de outra forma não lhe falou de fogo no lado direito
da mistura de cores branca e rubra cobrindo o rosto
de uma viagem de joelhos, mãos estendidas
o estado febril, suor por dentro, palpitações de galope
voos de asas à volta dos postes, canções na língua de Jacques
um jardim de plantas de firmes raízes, flores descosidas
intermediárias e interventivas
um poema escondido sobre buganvílias, brancas e suspensas.


uma maçã luzidia rolou em desafio
indício, provocação, porque … a palavra, por duas vezes
saiu destituída de sonho, perseguida sem arte pela ausência emotiva
falta de sensível, insólida, inconstruída.

ergueu-se a nuvem de pó cinzento, ruiu o castelo
paus e espadas, as cartas negras de um baralho
sem vislumbre de ouro ou prata

e o tapete alado desfiou no peso plúmbeo da palavra
vulgar, repetida, por duas vezes, sem intervalo –

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

espumas

aquela direcção de espuma branca e sigo

o mar sobe-me pelas pernas

enquanto desce espreita

e de lado repete

é morno e sei que brinca

e a minha mão vai abrindo devagar

de polegar inútil ao líquido


de lado ele faz e desfaz as costas

e as pernas do meu desenho

molhado em séculos ao mesmo som

gasta tudo o que repete

e deixa-me as pernas vazias


é então que nesse espaço solto

entre ossos e mar

nasce devagar um engano de carne seca

de peso a quatro vezes a espinha


e o mar agora só sobe sem som

perpendicular a mim - a espuma

e uma cama velha de coral

domingo, 10 de outubro de 2010

Um céu e nada mais


Vincent Van Gogh


Um céu e nada mais — que só um temos,
como neste sistema: só um sol.
Mas luzes a fingir, dependuradas
em abóbada azul — como de tecto.
E o seu número tal, que deslumbrados
eram os teus olhos, se tas mostrasse,
amor, tão de ribalta azul, como de
circo, e dança então comigo no
trapézio, poema em alto risco,
e um levíssimo toque de mistério.
Pega nas lantejoulas a fingir
de sóis mal descobertos e lança
agora a âncora maior sobre o meu
coração. Que não te assuste o som
desse trovão que ainda agora ouviste,
era de deus a sua voz, ou mito,
era de um anjo por demais caído.
Mas, de verdade: natural fenómeno
a invadir-te as veias e o cérebro,
tão frágil como álcool, tão de
potente e liso como álcool
implodindo do céu e das estrelas,
imensas a fingir e penduradas
sobre abóbada azul. Se te mostrasse,
amor, a cor do pesadelo que por
aqui passou agora mesmo, um céu
e nada mais — que nada temos,
que não seja esta angústia de
mortais (e a maldição da rima,
já agora, a invadir poema em alto
risco), e a dança no trapézio
proibido, sem rede, deus, ou lei,
nem música de dança, nem sequer
inocência de criança, amor,
nem inocência. Um céu e nada mais.

Ana Luísa Amaral, in “Às Vezes o Paraíso”

sábado, 9 de outubro de 2010

a mulher mais bonita do mundo


Edward Hooper "Verão"

estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.

entro na casa, entro no quarto, abro o armário,
abro uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.

entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.

há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.

estás tão bonita hoje.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.

os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.

de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.

José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

o quarto de Van Gogh - punhos sobre a alma


O quarto de Van Gogh

começou por punhos pequenos na vidraça
o ruído batente, surdo e intermitente, incansado
em movimentos de alerta: acorda, é hora, acorda.
os olhos graves e exaustos eram portas pesadas
e a grande casa dos sonhos e da memória
um vazio, um grande vazio e um armário –

a chuva pediu ajuda ao vento, bateu com estrondo
a cor verde da gelosia, exterior, em desamparo
abandonada, acordou o sono ao som férreo de uma aldraba.

punhos de água sobre a alma e aos poucos se recorda a irrealidade
um novo espaço se desvenda como um filme de autor, em desespero;
último capítulo, os óculos sujos, as mãos suadas sobre o manuscrito
o enredo:

naquela noite era a selva. um actor saltava em altos de embondeiro.
uma liana, solta e leve, acenava numa sombra escura de vermelho.
um grifo escutava em silêncio o grito de floresta
esperava a hora da grande garra, do voo certeiro.
na clareira corria uma gazela dirigida à sanzala
onde onde onde
se esfuma a irrealidade.

sobre a mesa cai a jarra.
espalham-se as flores, escorre a água, mia o gato

acorda, é hora, acorda
punhos sobre a alma -
amanhã é sábado -

mas a chuva pára, o vento sossega
a mão ausente embala e o cérebro adormece

não quer saber de nada -

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Não adormeças


Gerhard Richter 1962

Não adormeças: o vento ainda assobia no meu quarto
e a luz é fraca e treme e eu tenho medo
das sombras que desfilam pelas paredes como fantasmas
da casa e de tudo aquilo com que sonhes.

Não adormeças já. Diz-me outra vez do rio que palpitava
no coração da aldeia onde nasceste, da roupa que vinha
a cheirar a sonho e a musgo e ao trevo que nunca foi
de quatro folhas; e das ervas mais húmidas e chãs
com que em casa se cozinhavam perfumes que ainda hoje
te mordem os gestos e as palavras.

O meu corpo gela à míngua dos teus dedos, o sol vai
demorar-se a regressar. Há tempo para uma história
que eu não saiba e eu juro que, se não adormeceres,
serei tão leve que não hei-de pesar-te nunca na memória,
como na minha pesará para sempre a pedra do teu sono
se agora apenas me olhares de longe e adormeceres.

Maria do Rosário Pedreira

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

A fome do firmamento

O amante é como um irmão gémeo morto à nascença.

O sol fecundou uma terra-planeta, casa breve parcialmente comida pela estrela rival predadora, devorada por dentes da carnívora galáxia.
A grande cortina cobriu a casa para que o último filho do amor sobrevivesse. Às escuras, sem ser visto para não desvanecer.
Metade do planeta numa eterna noite errando,
amputado.
A outra metade - a presa; arrancada de tão visível, de tanto ser luz, alimento desfeito no ninho das paredes da nebulosa sangrenta.
A casa não girou. Alguém esquecido de dar corda à nativa esfera pendente no universo, onde a noite é sempre noite desprovida de seda, o dia é sempre dia inseguro animal à espera da sua vez.
Onde a noite é cúmplice pela morte do amante.
Onde o que foi dia, e gente, e jardim da casa
morre na boca do pássaro.

Já lá vem o cometa batedor
de radar e garras -
o espaço crepuscular não tem opção.